BEDA / POR CEM

Por Cem

 

Apesar de saber que a vida é feita de porcentagens – somos 70% água, 10% meia calabresa, meia atum e, por aí, vai – eu, que já vivi situações em que o 0,1% se impôs, me irritei quando alguém citou, sobre determinada situação, a porcentagem de 99,9% como provável.

Por algum motivo obscuro para mim, já que cheguei a proclamar ser um digno  representante do irritante “talvez”, acordei a querer ter certezas extremadas. Quero que tudo se defina 100%. Quero a absoluta convicção dos loucos, sem a intermediação de advogados a citar contestações em latim: data venia

Quero a fé dos quem erram com perfeição, sem as frações cambiantes. Não quero cores intermediárias, nem o cinza. Quero o preto e o branco perfeitos. Quero saber onde estou e para onde vou. Quero saber quem eu sou. Quero receber amor e poder amar. Eu quero ter a mesma indubitabilidade da morte – certa e irremediável.

BEDA / Cabelos Brancos

Cabelos Brancos
Moça dos cabelos brancos,
caminhante por campos
de pecadores e santos…
São Paulos, Caetanos,
Andrés, Bernardos,
Vitos e Franciscos
a lhe desejarem,
enquanto salta entre nuvens macias
e palcos duros…
Dança a dança da vida
e da morte-norte-sorte
de todos nós.
Nunca será esquecida – viverá
pelos olhos-lembranças dos que lhes assistem,
aplaudem,
suspiram
ou invejam…
Moça dos cabelos brancos,
que eu possa lhe admirar os passos
mais uma vez…
Adivinhar os quereres
e lhe ofertar prazeres
simples e mundanos…
Beijar seus pés
subir às estrelas,
alcançar a luz,
fechar meus olhos
e gemer de dor
a perda de seu amor…

BEDA / Scenarium / Missiva À Inventada Alejandra

Alejandra Pizarnik

Quando nasceu, no fechamento de abril, Buenos Aires pertencia ao Primeiro Mundo, apesar de ficar fora da Europa. Ou antes, era a mais europeia das cidades americanas. Vos decidiu fechar-se para a vida ao terminar um setembro primaveril do Hemisfério Sul no início dos anos 70. A Argentina vivia a decadência de um governo típico de caudilhos de república das bananas. Nesse ínterim, onde ficou você no passar da História? Inventou-se Alejandra e foi poeta – que é uma maneira de transcender o lugar e o momento.

Anciã, quando criança, lembra? Foi ontem, faz séculos, a desfilar sua dor por féretros banhados em sangue, a se suicidar diante do espelho – solidão alada – boca cheia de flores, na respiração de um animal que sonha. Pintou telas verbais, Alejandra, em que os sóis são negros, pássaros pousam em seus olhos, depois de viajarem em auroras amordaçadas de cinza. Uma tribo de palavras mutiladas buscou asilo em sua garganta para que os funestos donos do silêncio não as cantassem.

Você se vestiu de cinzas e luz ausente, pintou quadros com palavras. Verbalizou pinturas – trabalho de mãos e mente. Mentiu para o tempo que a queria mulher sem peso, enjaulada. A morte, companheira temática, foi mais que desejada, foi cumprida como ritual de ascendência, ao extrair suas veias para chegar ao outro lado da noite.

Esquadrinhou tão intensamente cada palmo da gaiola na qual se prendeu que apenas ser noite eterna lhe conferiria a liberdade de ser morta para que a morte lhe ensinasse a viver. Esquecer de si, desnudada de sua memória e chegar ao Paraíso – coragem de tornar-se a poesia que escreveu…

In: Missivas de Agosto –https://scenariumplural.wordpress.com/2019/08/07/missiva-a-inventada-alejandra/

Sobre Maria Madalena

Mamãe

A foto acima foi tirada na Praça da República. A estátua que podemos ver atrás de mim e de minha mãe já não existe mais. Bem como o mundo que a rodeava. Dona Maria Madalena, fisicamente, também já passou. No entanto, eu ainda a tenho viva dentro do peito, estranhamente a ocupar cada vez mais espaço em minha mente.

Em um tempo em que nós, homens, somos recriminados por amarmos o lado vaidoso da mulher, como se isso denotasse um sintoma de machismo, me recordo que minha mãe gostava muito de se maquiar, pentear seus belos cabelos, se perfumar, escolher uma boa roupa. Eu a via sentada em sua penteadeira, escolhendo os brincos, as pulseiras ou os colares que iria usar. Aprumada e bonita, gostava de dizer que, moça ainda, quase se tornara garota-propaganda, mas que a família foi contra esse desejo porque a profissão de atriz era muito mal vista naqueles tempos e os seus irmãos, que a criaram na ausência do pai (morto aos seus quatro anos) e da mãe (morta aos seus doze anos), a proibiram firmemente, chegando a quase impedi-la de sair de casa para fazer qualquer coisa.

Durante toda a sua existência, a lembrança de sua mãe, Dona Maria Manuela, se fez presente a tal ponto de verter sempre uma lágrima a cada momento que falava sobre ela, entre a tristeza da descrição da doença que a levou aos poucos e a alegria ao revelar que ela amava cantar, incluindo o Hino Nacional Brasileiro, que aprendeu rapidamente logo que chegou da Espanha, além das canções de Francisco Alves, Vicente Celestino, Carmen Miranda e as irmãs Batista – Linda e Dircinha. Todavia, a recordação de um fato que ocorreu um pouco antes do AVC de Dona Maria Manuela, a deixava arrasada, como se atribuísse a si a culpa pelo que sucedera – uma resposta malcriada de sua parte à uma solicitação da mãe e que teria sido a última coisa que dissera à ela, antes de falecer.

Quando ouvi essa história pela primeira vez, fiquei assustado com a possibilidade que isso viesse a acontecer com ela por causa das minhas próprias malcriações. Não conseguia conceber viver sem a presença de minha mãe e, por algum tempo, essa transferência memorial funcionou para aplacar a minha rebeldia. Porém, na adolescência, com a efervescência hormonal que todos nós sofremos, nem isso evitava que brigasse constantemente com ela. A ausência do meu pai contribuía para que a situação não fosse melhor. Hoje, eu sei que, psicologicamente, queria substituí-lo, incorporando as críticas à minha mãe que ele, injustamente, usava como pretexto para se afastar de casa. De certa forma, parecia que eu a achasse responsável por ele ter ido embora.

Apenas relativamente bem perto de sua passagem é que compreendi o quanto estava obliterado a minha visão do que acontecera, mas não entrarei em maiores detalhes sobre isso, agora. O que eu quero, neste Dia das Mães de 2019, é agradecer publicamente por a senhora ter me amado, minha mãe! Por acreditar mais em mim do que eu mesmo – algo que não compreendia. Fico a imaginar o que enxergava naquele rapaz o que eu nem suspeitava. Ou talvez fosse somente crença de quem ama, como a mãe que visita o filho na cadeia e espera o tempo de remição da pena, o acompanhando, apesar de todos os erros que cometeu. Sei que a senhora está em paz porque assim me falou quando a encontrei “em sonho”. Vou encerrar declarando o que pouco consegui anunciar quando estava nesta dimensão: “Eu a amo!”…

Transformação

Transformação

A metamorfose se deu, de início
pelo olhar…
O movimento dela o paralisou.
Como se fotografasse cada gesto,
aprisionou dentro de si a evolução
do casulo à borboleta –
da flor ao céu –
asas da imaginação…

Quis recuar quando suas vozes
ocuparam o mesmo ambiente –
palco de suas atuações…
Percebeu que fluíam sonoras
conversas de palavras
entrecortadas,
caladas…
As lacunas preenchidas de desejos
perfeitos em suas incompletudes.

Quebradas as barreiras –
distâncias de centímetros-quilômetros –
peles sem proteção,
mentes despertas,
liberta de atavismos
e consequências,
o imediato transformado em eterno,
se reconheceram outros,
os mesmos…

Ele,
transmutado
de Jekyll em Hyde,
de homem em lobo,
de mortal em vampiro,
de Clark em Superman –
todos e ninguém,
vivia ausente de si…
Passou a respirar o vácuo
se não aspirasse o hálito da paixão…

Transformação
irremediável,
perigosa,
instável,
liberdade de viajante
encarcerado,
não trocaria o permanente desconforto
do atual caos da criação do mundo
pela antiga estabilidade da morte
em vida…