Maratona De Outubro | Quem Escolhe Quem?

JUVENTUDE

Para desespero de quem se utiliza de critérios puramente claros, estudados e racionais para a escolha de leituras, ouso cometer uma falta ao declarar que não sou eu quem escolhe os livros que eu leio, mas são os livros que me escolhem para lê-los. Já tive diversos exemplos desse fenômeno durante toda a minha vida de leitor, mas citarei apenas dois.

O primeiro e mais recente foi o surgimento de Coetzze em minha vida. Não me lembro como Juventude veio a cair em minhas mãos, porém seu impacto foi devastador. Percebi o quanto a minha escrita estava alicerçada em devaneios vãos, agravada por uma interrupção de vinte anos no exercício de passar para o papel o meu mundo particular. Ainda que escrevesse compulsoriamente, como não mostrava a ninguém, não fazia a menor diferença o que produzia.

Juventude, eu não o procurei, não sabia de sua existência, apenas aconteceu. A falta de lembrança ajuda a criar esse clima de encontro à escuras. Logo, quis também encontrar Infância e Verão, a trilogia do autor sul-africano sobre uma personagem, que bem poderia ser ele mesmo, que relata a sua trajetória de maneira a não deixar pedra sobre pedra. A sua influência em minha dinâmica mental foi tanta que pretendo empreender uma jornada similar em um projeto para logo mais, a depender de análise externa.

YOGANANDA

Contudo, devastação maior foi o encontro com Paramahansa Yogananda e sua Autobiografia De Um Iogue (Contemporâneo). Eu era agnóstico-ateu na época. O livro de capa rota abria com a apresentação de uma amuleto. Estranhamente, acreditei na sua existência assim que terminei o primeiro parágrafo. Li o livro de fiada e o reli. Estava decretada a revolução em minha vida. Tudo começou a fazer sentido.

Fazia sentido me tornar vegetariano (o que fui durante dez anos) e todas as proclamações de fé no Invisível, agora essencial. Os livros de Kardec não tiveram tanto peso quanto a descrição da vida na Índia do jovem aprendiz de Mestre Sri Yukteswar e a busca pela Verdade. Tornou-se meu objetivo visitar a longínqua pátria do Hinduísmo. No Brasil, iniciava-se a aparição de várias instituições ligadas à gurus e seus ashans, mas resistia em mim certa desconfiança em ser manipulado, como já vira acontecer mais de perto, com pessoas do meu meio por pastores mal versados e iracundos das igrejas pentecostais cristãs.

Ao mesmo tempo, fui tomando contato com o Budismo, ao começar a buscar paralelismos em todas as vertentes de fé. Encontrei coincidências e imbricações, incluindo o Cristianismo. Para não tornar a história tão longa, da mesma maneira que mergulhei no Orientalismo, decidi mudar meu rumo ao fazer o contraponto à negação do mundo material. Casei. Constituí família, deixei de escrever. Talvez, não tenha nada a ver uma coisa com a outra. Talvez, sim. De qualquer forma, o fato é que nunca mais deixei de ter como base o Imponderável, por mais que invista na potência do mundo físico. Perdido? Talvez. Estou a espera que outro livro me encontre para, finalmente, poder me reencontrar…

Participam também desta Maratona:

Ana Claudia | Ale Helga | Cilene Mansini | Fernanda Akemi | Mari de Castro | Mariana Gouveia | Lunna Guedes

Maratona De Outubro | Maníaco

Maníaco - 1
Devorador de palavras…

Esquisitice, obsessão, vício, hábito – mania… Escrever ou ler livros tem se tornado um hábito totalmente fora de órbita nos últimos tempos. Portanto, minha preferência por livros é uma mania hiperbólica. Mensagens curtas, neologismos, onomatopeias, emojis, gifs, hashtags, filminhos, desenhos substituem discursos mais longos, estruturados com começo, meio e fim, não necessariamente nessa ordem. Nada contra desestruturações verbais que tenham o propósito de imprimir peculiaridades da comunicação. No entanto, para brincar com as palavras, a ponto de remontá-las como meio de expressão, há de se respeitá-las porque suas origens têm raízes no princípio do entendimento humano pela fala. Eventualmente, preferir a tradição do formato-livro, com capa, linhas e páginas sequenciais possam ser chamadas de decadentes, facilmente substituíveis por e-books, aos quais, eu rejeito, por enquanto.

Tento identificar qual seria minha mania literária e percebo que já tive algumas, mas hoje, não mais. Se bem que, quando me interesso por algum assunto, começo a procurar referências daquele determinado tema até que o esvazie. Desfio livros como se rezasse um terço. Coisa de minha tendência maníaca obsessiva. No entanto, assim como surge, ela se vai, até o próximo surto. Evidentemente, não é possível conhecer todas as variantes dos gêneros pelos quais nos apaixonamos. É comum, como nos dias atuais, tentarmos entender o momento pelo qual passamos. A literatura política deveria assumir os primeiros postos dos mais procurados. Mas estamos obcecados pelas mensagens curtas e grossas das fake news – nova mania – ainda que admitidas como ficção, tecnicamente bem contadas, se transformam em verdade literal porque reproduzem a essência de quem as acessam.

Aceita-se a versão pronta sem tentar desvendar se, por trás da “notícia” jogada nas redes, existe ou não manipulação dos fatos. De alguma maneira, isso sempre ocorreu, mas a tecnologia aprimorou sua efetividade e a tornou uma expressão tão invasiva quanto eficiente para representar nosso mundo de maneira inversa. Podemos desvendá-lo, se conseguirmos, através do jogo de espelhos que se apresenta, buscarmos as fontes primordiais. Ser escritor-leitor é um vício. Conseguir criar algo crível qualitativamente e saber ler nas entrelinhas, uma obsessão. Conseguir ultrapassar minhas limitações e condicionamentos para alcançar sucesso nesse mister, o meu maior objetivo. Buscar a verdade, esquisitice minha…

Participam também desta Maratona:

Ana Claudia | Ale Helga | Cilene Mansini | Fernanda Akemi | Mari de Castro | Mariana Gouveia | Lunna Guedes

O Piedoso

O Piedoso
Pintura em ajulejo, realizada em 1913, por José Francisco de Oliveira, diplomado na Escola Comercial e Industrial de Brotero – Coimbra – Portugal (Centro Cultural Português, Santos/SP)

O honrado homem chegou ao lugar em que tudo precisava de sua intervenção piedosa. De início, como era um mundo novo, seu espírito desbravador encontrou o espaço ideal para sua atuação. Fundou vilas e porto, construiu igrejas, forte e hospital. Introduziu a agricultura e desenvolveu a economia. Tornou-se um fidalgo rico, por conta de seu espírito empreendedor e destemido. Respeitado por seu povo, era um dos homens favoritos do Rei, que lhe delegou todas as possíveis honrarias.

O honrado e piedoso homem, para realizar todas as obras que o distinguiu como um dos principais de seu tempo, não hesitou em invadir e ocupar terras que não eram suas de origem, matar seus donos primordiais, derrubar a vegetação natural, esteio do povo antigo, dizimar animais e seu habitat, explorar as riquezas que para os autôctones não tinham nenhuma valia. Para completar seu projeto de poder, pretendeu escravizá-los. Enfrentou uma revolta – a Confederação dos Tamoios. Seu nome: Braz Cubas.

Para os colonizadores portugueses, era mais do que natural que assim fosse. Matar os contrários às suas vontades, por sede de riqueza e imposição de uma fé excêntrica, assumir comando sobre espaços – terra, mar e céu mapeado – era uma ação valorosa, que engrandecia o nome da Pátria a milhares de quilômetros de distância. A suprema vilania, que serve como marca definitiva de posse se dá quando limitou fronteiras e as nomeou com sons e signos alienígenas. Assim como capturar as mulheres nativas e usá-las como reprodutoras de mão de obra filial e fiel aos novos donos das sesmarias, tornando-a cooperadora involuntária da destruição de seus ascendentes genéticos.

Dessa maneira, a antiga faixa de terra ocupada pelos habitantes originais, os Tamoios – Tupinambás, Goitacás, Guaianás e Aimorés – transformou-se, muitas luas depois, em grupamentos humanos com costumes estranhos e pendor para a belicosidade. O termo “Tamoio” vem de “ta’mõi“, que em língua tupi significa “avós”, indicando que eles formavam o grupo tupi que há mais tempo se havia instalado no litoral brasileiro. Nunca supuseram que povos mais antigos ainda viessem de lonjuras inalcançáveis para trazerem a morte por armas que queimavam e doenças que seus pajés não conseguiam curar.

Quem afinal se põe em posição de piedoso está em condições de determinar quem vive e quem morre. O prestigioso Braz Cubas, era apenas mais um exemplar daquele povo que dominou o país que se formou com a chegada de mais e mais gente. Muitos mais de seus iguais reproduziram a mesma jornada de dominação e morte dos nativos, finalmente domados.

Seus pares erigiram monumentos para o grande súdito português. Com o tempo, instituições ganharam seu nome, incluindo algumas de ensino, aqui mesmo na antiga terra tupiniquim, a do povo dizimado. Somos filhos desse sistema de colonização. Não há como escapar de nossa História. Devemos enfrentar nossa origem espúria e suas contradições. Conjurar nossa sanha conquistadora-destruidora. Creio que somente dessa forma poderemos superá-la. Vivemos como se não tivéssemos passado e nem presente. Apenas um futuro enganoso e enganado.

Sempre haverá aqueles que virão com projetos de grandeza sem avaliarem as consequências, por piores que sejam. Como quando se constroem pontes para travessia de uns tantos sobre os cadáveres de tantos mais. O objetivo termina por sair mais caro, tanto do ponto de vista material como moral, no melhor sentido, baseado em valores básicos de convivência, como respeito à diversidade, com tolerância, solidariedade, compreensão e comunhão de objetivos éticos.

Enquanto não nos conscientizarmos de nossa História, tenderemos a reproduzir ad eternum os mesmos erros de percurso. Estamos insatisfeitos com o nosso presente, mas buscamos soluções fundadas na força destruidora que formou nossa sociedade. A fama de povo gentil não passa de uma formulação sem validade, como se não fôssemos agressivos. Somos um dos países com mais mortes por número de habitantes, percentualmente.

Vivemos uma guerra civil. Se não mudarmos sua direção, jamais alcançaremos a maturidade civilizatória, ainda que a ideia em torno de civilização tenha uma “má fama”. No entanto, se não partimos daqui para uma concepção mais aprimorada de convivência, a tendência de perdermos a noção de brasilidade que “conquistamos” a ferro e fogo até aqui, ainda que precária, se imporá definitivamente, para a nosso desgosto e prejuízo permanente para as próximas gerações…

Deuses

Deuses
Deusa da noite…

No fulgor do instante
em que nos separamos do  mundo
e entramos em outra dimensão…

No momento em que corpos se fundem,
fundam uma nova existência
e se aprofundam
no mar cósmico do gozo…

Na aceitação de que somos ingentes,
a deitarmos entre estrelas que dançam,
exclamas: “Pareces um deus!”…
Então,
me sinto teu,
me sinto tanto…
me sinto são…

Espalmo minhas mãos
contra a planta de teus pés –
beijo tua flor de lótus,
entoo preces
e te possuo…

Te sinto uma deusa…
Mais do que isso…
Te sinto maior que tudo…
Te sinto Mulher…

Maratona Setembrina | Supremacia

SUPREMACIA
Força feminina

De origem desconhecida, a chuva cósmica chegou à Terra inesperadamente, causando danos nos sistemas de comunicações e Internet.  O mundo todo sofreu desconforto, mas as consequências foram bem mais profundas do que interferências em comunicações importantes e atividades estratégicas, além de quedas nas transmissões de novelas da TV, interrupção nos bate-papos, impedimento de envio de fotos de glúteos avantajados e filmes de pegadinhas.

Antes que fosse globalmente detectada a transformação radical pela qual a humanidade passava, pequenos episódios em todos os cantos do mundo anteciparam suas repercussões fundamentais. Ana Maria, revoltada com os sopapos que levava do marido dia sim, dia não, decidiu revidar com um tapa. Só não esperava que seu golpe jogasse Joaquim do outro lado da sala. Em uma esquina escura, Belmira, cercada por um tipo que anunciou o assalto e insinuou algo mais, conseguiu jogar violentamente o oponente ao chão com um simples empurrão, o deixando desacordado. Na escola, a menina chamada de feia e magra, perseguida por garotos que não tinham mais o que fazer, decidiu a situação com um soco no estômago do maior, que ficou a se contorcer no chão, quase sem respirar. Os outros, correram. Uma amante, no momento máximo de excitação, quebrou as costelas do companheiro com uma chave de pernas. Acontecimentos semelhantes foram noticiados em progressão geométrica por todos os cantos da Terra.

Segundo pesquisas realizadas por cientistas ao redor do planeta, a onda de energia radioativa havia alterado drasticamente a fisiologia dos seres que carregavam cromossomos XX – as fêmeas da espécie humana – conferindo-lhes uma capacidade orgânica extraordinária, desenvolvimento de força e amplitude de movimentos muito maiores que os dos machos mais fortes atleticamente. Além de gerar maior impulsividade. Passado um ano, verificou-se que as meninas nascidas após o episódio, apresentavam as mesmas características. Ou seja, os novos parâmetros fisiológicos vieram para ficar.

No entanto, com o passar do tempo, constatou-se que, em profundidade, nada se modificou. Homens e mulheres mantiveram as conformações externas originais. A nova capacidade física feminina alterou as relações de poder, mas apenas trocaram-se os sinais e os gêneros dos envolvidos. Continuaram a ser cometidos os mesmos erros, os mesmos abusos, as mesmas distrações de caráter, por novos agentes. Ficou comprovado, enfim, que nunca houve diferença fundamental entre os sexos. Os comportamentos supostamente desviantes eram intrinsecamente humanos.

 

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