Entrevista Sobre O Lançamento de Curso De Rio, Caminho Do Mar

Como surgiu o título do livro?

Eu estava escrevendo uma das crônicas proposta pelo curso de crônicas da Scenarium  —Livros Artesanais e essa sentença surgiu ao final de uma delas. Percebi a conexão que havia entre os rios canalizados nas várzeas de São Paulo, frequentemente transformadas em avenidas de fundo de vale, uma característica bastante acentuada na região na qual moro, na Periferia da Zona Norte. São os rios cinzas pelos quais transito na cidade. Caminho do Mar é o sentido que realizei em busca de salvamento.

Quais são os personagens do livro?

Os personagens somos todos nós, intermediados por minha voz. Quando falo de nós, me refiro à comunidade humana, ao País, em particular. Evidentemente, alguns nomes mais próximos pontuam mais evidentemente porque participam do meu olhar do tempo imediato ao qual aludo, além de personagens aleatórios que surgem sem pedir licença. Quase um diário de viagem.

Como foi o processo de feitura do meu livro?

Como já citei, eu precisava escrever para exteriorizar a minha dor, o processo de desalento pessoal, muito guiado pela situação que via se agravar no País. Antes, eu era um ser recluso, alheio ao que acontecia ao meu redor, que só observava como se fosse um voyeur. Não interagia com ninguém, apenas convivia. Após perceber que era um caminho sem volta para o fim, decidi me salvar abrindo meu peito ao mundo e às pessoas. Não sem muita dor, igualmente. Mas era uma dor redentora, enquanto a outra era egoísta e sem propósito. Com isso, sofro quando vejo o mal grassando como praga. Para nós, brasileiros, não bastava a Pandemia, tinha que haver um ser abjeto que conduzisse todos nós à catástrofe. Como digo sempre, nada acontece do nada. É um desenvolvimento paulatino. Criamos as bases, os precedentes e demos chance para que o fenômeno que estamos vivendo acontecesse.

Um trecho do livro…

“Reverencio a luz, a energia visível e invisível de tudo o que me envolvia água, árvores, seres que pululam entre meios e veios a transitarem entre as dimensões. Saio da água renovado e agradeço à Marina e à Alice, juntando as mãos em sinal de gratidão… por me levarem até lá. Voltamos repisando passos de milhares antes ainda que fosse um lugar mais segredado iguais a mim, humildemente gratos e largamente agraciados.

Reencontramos a mulher que nos chamou a atenção isolada, a conversar com seres invisíveis ou consigo mesma. Quando chegamos, ela posicionava a placa de “PERIGO”, a declarar que se as mulheres não o fizerem, não serão os homens que o farão. Fui ao mar. Dentro d’água, a vejo exortar as ondas:

Sai doença! Venha cura! frase repetida algumas vezes.

Ao voltar, interrompi a leitura para observá-la a recolher conchinhas. Vez ou outra, conversava com as águas. E eu me interessei por sua história. Soube que era amante do mar. Que garota, o pai não gostava que a família fosse à praia ao invés das serras de Minas. Ao primeiro contato com o oceano, se apaixonou. Morava em São Paulo.

Mas decidiu deixar a metrópole quando percebeu que aquilo não era vida.

Cantava o trecho de ‘Exagerado’, de Cazuzapor você eu largo tudo: carreira, dinheiro, canudo’, em alusão ao mar. Formada e pós-graduada, a Sacerdotisa desceu definitivamente há três anos para Ubatuba.
A família foi para Portugal. Olhando em torno disse que nunca poderia deixar aquele paraíso.
Eu pensei a mesma coisa.” — Trecho de A Sacerdotisa

O que se espera encontrar ao ler Curso de Rio, Caminho do Mar?

Identificação com o tempo e o lugar em que estamos. Porque simplesmente “estamos” e as pessoas parecem se considerar eternas no sentido material da realidade que nos é dada a ver. Tento ultrapassar o véu que nos ilude e chegar ao cerne de Ser, para além de ser um humano ser.

Qual a emoção que esse livro pretende provocar?

Empatia. De minha parte para os outros. Espero receber sinais de empatia de retorno. Mas já aprendi que não devemos criar expectativas. O que sei é que esse livro me salvou. O que pode mais se esperar de palavras impressas em folhas de papel, enlaçados artesanalmente?

Eu Escrevi Outro Livro

Eu estava como que boiando solto no rio de asfalto paulistano, a ponto de ter mais uma crise de ansiedade de consequências funestas. Eu me conhecia. Já havia passado por isso antes. Em outras ocasiões, quase embarquei numa viagem sem volta. Cheguei a tocar o limite e quase vislumbrei ultrapassá-lo. Terminava o mês de janeiro deste ano e encontrei uma maneira de não afundar — parti para o Litoral Norte o meu norte junto ao mar, onde busquei boiar no líquido amniótico marinho para renascer. Ao mesmo tempo, comecei a fazer um dos cursos de escrita da Scenarium, conduzido pela Lunna Guedes.  

O sincronismo entre a necessidade de escrever sobre o que acontecia comigo e o curso voltado para a produção de crônicas, encontrou ensejo na busca da união de uma linguagem íntima e a expressão do que acontecia ao meu redor, no tempo presente. A visão pessoal sobre os acontecimentos, talvez fizesse com que superasse minha condição mental precária. Como se fosse um antídoto obtido do veneno — o que via acontecer no País colaborava para o aprofundamento da minha natural melancolia — conduziu-se a produção do meu texto. Ao mesmo tempo, o contato com o Mar foi paulatinamente resgatando meu equilíbrio no embate contra o movimento das ondas.  

Curso De Rio, Caminho Do Mar é o meu quarto livro pela Scenarium — Livros Artesanais, o terceiro de crônicas, o segundo numa linha mais intimista. Páginas de papel enlaçadas com arte que me resgataram das turbulentas águas da atual realidade brasileira, buscando vieses alternativos ao vislumbrá-la. Em um momento em que precisamos alimentar o povo deixado à própria sorte, percebi de maneira clara a necessidade de também alimentar o espírito. Essa interdependência se provou indissociável para sobrevivermos ao assédio do neofascismo.

O lançamento ocorrerá virtualmente, dia 27 de novembro, sábado, às 17h, pelo canal do Instagram do selo. Quem quiser adquirir esta e outras obras, entre o contato com a Scenarium — Livros Artesanais.

B.E.D.A. / Pai

Vou à padaria — prosaicos
pãezinhos recém-saídos do forno
iniciariam o meu dia na casa vazia.
Mesmo depois de acordar,
visualizar-responder às mensagens,
caminhar,
só me é dada à luz dos olhos
depois de um gole de café,
com pão e manteiga — homenagem
aos meus primeiros cinquenta
anos de vida com mamãe.
Seu rosto marcado e cabelos prateados
ainda passeiam por trás das minhas retinas
dez voltas em torno do sol depois
de cumprir a nossa sina…


No retorno aos muros de meu recolhimento,
um anónimo bêbado insone,
àquela hora da manhã
tropeça em si mesmo,
lata de cerveja à mão,
olha para todos os lados,
como se esperasse alguém chegar,
um abraço a lhe abraçar…
Seria a esposa,
um amigo,
irmão,
um filho,
ninguém?
Apenas o próximo fantasma a lhe assombrar?
Um pai sem filhos?
Um filho sem pai?
Um dia dos pais
sem paz,
sem par,
sem possibilidades-passos-pessoas
a lhe aguardar?…


Eu me projeto em sua condição.
Porém, só me embriago de sonhos.
Acordado, carrego à mão
o nada ser,
o nada a acontecer,
o nada gestar…
A não ser versos sem rima,
arrítmicos,
textos-tropeços em palavras tísicas,
quedas em si-abismo…


Mas sou pai…
num país de filhos
e pais mortos,
sem cerimônias de adeus…
Não consigo escapar ao presente
e ébrio de insensatez,
compadecido,
lanço ao desconhecido:
Bom dia, pai!
Ele sorri desdentado
e ainda que talvez tivéssemos
a mesma idade, responde:
Bom dia, filho!…

Participam do B.E.D.A.:

Lunna Guedes
Roseli Pedroso
Cláudia Leonardi
Darlene Regina
Mariana Gouveia
Adriana Aneli

B.E.D.A. / Os Chinelos

Dia dos Pais. Domingo de descanso, dentro do “descanso”. Com poucos eventos para cumprir pela Ortega Luz & Som, cumpro minhas tarefas caseiras diárias. Eterna labuta em que sempre falta o que fazer. Mais do que ninguém, percebo o quanto elas têm tempo de duração efêmero. Horas, com sorte. Valorizei desde sempre a faina ao qual apenas as mulheres tinham por “obrigação” executarem. Simplesmente porque haviam nascido mulheres. Quase como se fosse predestinação — gado marcado — pertencente aos senhores da casa.

Por sorte — no sentido de destino fui criado quase que somente por minha mãe. Irmão mais velho, eu a ajudava nas tarefas de casa. De certa forma, comecei a gostar disso, ainda que em muitas situações, quando algo mais atraente surgia, como jogar bola, eu as tenha deixado de lado. Puxar água do poço, fazer fogueira para esquentar a água do banho de canequinha, são coisas que não faço mais. Porém, fazer feira, preparar comida para as criações de galinhas e para os muitos cachorros, varrer a casa e o quintal, lavar a louça, preparar almoços e jantas também as realizo atualmente.

O meu pai foi exemplo em sentido contrário de como não deveria agir como pai. No entanto, não é fácil se desvencilhar de anos de tratamento de choque patriarcal. Busquei ser para a Romy, a Ingrid e a Lívia alguém que fosse, no mínimo, verdadeiro, estando certo ou errado, na visão que pudessem ter de mim. Chegava a dizer em tom de brincadeira séria, que a nossa relação não era uma Democracia. Não que as impedisse de serem o que ou quem quisessem ser. De certa maneira, o máximo que podemos fazer com relação aos filhos é que lhes forneçamos subsídios, espaço seguro e anteparo para os voos pessoais. E isso passa também por regramento.

Depois de sua passagem, tenho tentado aplainar as diferenças com o meu pai para chegar o mais perto possível dele — perdoá-lo em mim, me perdoando. Os momentos mais próximos que tive com o senhor, meu pai, foi quando arrisquei entrar por três vezes no lugar onde ficou preso e foi torturado — nas celas do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) onde hoje encontramos a Estação Pinacoteca. Cheguei a entrar no saguão, mas não consegui ir além. Li que as antigas celas haviam sido convertidas em mini galerias, com exposições temporárias de artes. Esqueceram de dizer que fantasmas rondam aquele lugar e as vozes de torturados ecoam pelas paredes e atravessam as mentes de alguns, como eu.

Em todas as ocasiões, chorei. Quem eventualmente me visse, não entendia nada. Mas estava sentindo a dor de meu pai e de tantos outros que ali sofreram. Sentia não apenas a dor física, mas também a de abandono à própria sorte. Sentia a humilhação por ter a vida nas mãos de tipos que chegavam a sorrir com o sofrimento alheio. Sentia a aniquilação da humanidade em jogo de via dupla tanto torturados quanto torturadores — transformados em simples animais.  Encharcados de suor, urina e merda, os seviciados voltavam para as suas celas subjugados a ponto de agradecerem não terem morrido depois de cada sessão em que crescia o desejo de verem extinto o padecimento — uma pequena vingança contra quem sente prazer em levar o inimigo ao limite intangível.

Há alguns dias, a Tânia me presenteou com um par de chinelos pelo Dia dos Pais. Eles me remeteram aos chinelos que meu pai usava, parecidos a estes. Confortáveis, abertos, podem ser usados com aquela meia velha, puída, de aconchego confiável. Acolhimento de aposentado, meu pai talvez se reservasse o direito de ficar longe de filhos e netas, com seus pedidos, desejos e manhas. Nunca foi bom em ser pai, com certeza não seria melhor avô. Ou foi e eu não sei. Ouvi relatos das minhas filhas e sobrinha que me indicavam o contrário. Então, vai ver, o problema era pessoal, só comigo mesmo…

Resolveremos essa pendenga um dia…

Participam do B.E.D.A.:

Adriana Aneli / Roseli Pedroso / Mariana Gouveia /

Lunna Guedes / Darlene Regina / Claúdia Leonardi

B.E.D.A. / Projeto Fotográfico 6 On 6 / Vícios

A palavra Vício é derivada do latim vitium e significa falha ou defeito. Também poderia ser definido como dependência física ou psicológica que impele alguém a buscar o consumo excessivo de algo, geralmente uma substância. Normalmente está associado a um problema ou imperfeição, denotando fraqueza ou deformidade de caráter, eventualmente causando desarranjo pessoal, familiar e/ou social.

Festa Grega com a Banda Kostakis, em 14 de março de 2020

No meu caso, percebi que sou viciado em trabalhar — hábito que deixei de exercer quase de supetão com o advento da Pandemia de Covid-19. Da noite para o dia, foram cancelados os mais de cem eventos programados para o ano de 2020, a partir de meados de março, quando realizamos uma festa grega.

Casamento em São Bento de Sapucaí – MG, em Outubro de 2020, com a Banda Almanak

Em outubro do ano passado, realizamos — meu irmão e eu, da Ortega Luz & Som o primeiro do que seria uma série de festejos que denotaria a retomada da normalidade. Na época, se discutia a ascensão do “novo normal”. Tenho por mim que apenas uma chuva cósmica mutante de proporção planetária instauraria uma mudança no comportamento do homem. O valor desse evento — um casamento na fronteira entre São Paulo e Minas — foi realizado com todas as medidas protocolares de proteção: distanciamento social, número reduzido de pessoas, em lugar aberto, arejado, o uso de máscaras (para os trabalhadores) e disponibilidade de álcool em gel. O interessante é que como já havíamos recebido em março, pagamos para trabalhar. O valor antecipado havia se desvanecido nos meses anteriores da doença que paralisava o País.

Foto ilustrativa em evento realizado em Julho deste ano. O Natal de 2020 foi realizado pela mesma banda Felice Itália.

Em dezembro, fizemos dois eventos especiais Natal e Réveillon. Estávamos vivendo a possibilidade de passarmos ao novo fechamento total das atividades comerciais. Alheios às necessidades em relação aos procedimentos restritivos no combate à Pandemia, convivi com negacionistas enquanto degustava uma excelente comida. Ainda bem que não tive uma congestão.

Réveillon realizado no Satélite Clube, de Itanhaém, com a Banda Matrix.

O Réveillon ocorreu no Litoral paulista — em Itanhaém sob um calor infernal, como poucas vezes senti. Como se não houvesse amanhã, o público dançou aglomerado e desmascarado. Os fogos do Ano Novo refletido nas águas do mar duplicavam os meus presságios de que 2021 seria uma reedição do ano que estava acabando somente na folhinha.

Trio La Bella Itália, em show realizado no Teatro Safra, em Julho de 2021.

Uma das minhas maiores decepções foi encontrar muitos dos meus companheiros do setor de entretenimento artístico vociferando contra as medidas de restrição. Tanto quanto eles, sofri econômica e psicologicamente os seus efeitos. No entanto, eu sabia que a alternativa seria a morte, como ocorreu com muitos dos meus colegas e seus familiares.

Banda Ray Conniff Tribute, em evento realizado em São Paulo, em Julho de 2021.

Uma pequena retomada parece estar em processo com o avanço da vacinação. O fantasma no horizonte é a variante Delta da SARS-COV-2 — resultante da defasagem do processo retardado (de forma intencional) da imunização. A manifestação do Vício em seu pior vezo é o de ostentarmos com orgulho e estrepitosa empáfia maléfica, o nosso atraso institucional, o reeditando de tempos em tempos em variações cada vez mais virulentas, como ocorre atualmente.

Vejo nuvens negras no horizonte…

Participam do B.E.D.A.:

Lunna Guedes / Darlene Regina / Adriana Aneli / Mariana Gouveia / Cláudia Leonardi / Roseli Pedroso