Redemoinhos, Rodamoinhos, Remoinhos, Moinhos

Careca

Hoje, perdi um grande amor – os escritores são pródigos em perder histórias e amores – todos os dias. Ao passar a mão pela cabeça desnudada, com os poucos cabelos quase ao rés (máquina 2), dia de calor intenso, sinto o suor a umedecer a pele da palma e lembro dos redemoinhos da vasta cabeleira que portei durante décadas. Desde garoto, fui adepto dos fios longos, ainda que não os penteasse, por questão de princípio. Fui perdendo os cabelos ao longo do tempo, influência direta da ascendência calva de meu pai. Ultimamente, como foco de resistência, tenho adotado a barba um tanto mais pronunciada, quase sempre desgrenhada.

Meus redemoinhos ficavam (ficam) em três pontos, no cimo, e atrapalhavam o penteado mais comportado. Segui suas desorientações. Certa ocasião, ouvi alguém chamá-los de remoinhos. Procurei saber e descobri que também é uma forma de nomear essas zonas tempestuosas em nossas cabeças. Eu os imaginava como sorvedouros de ideias. Seria uma das possíveis explicações para eu viver a criar histórias vindas do nada ou inspiradas por palavras soltas ou circunstâncias as mais simples imagináveis – temas de amor, vida e morte.

O meu cérebro, logo ali, abaixo dos pelos, se transformava em moinho de ventos e pensamentos, gerando viveres e sonhos – esfarelados, amalgamados, reconstruídos – e jogados no papel. Certa ocasião, decidi parar de aceitar que meus rodamoinhos pessoais deixassem de tragar histórias. Quis criar vivências reais, com pessoas reais. O sofrimento igualmente tornou-se real – não fingido – doloroso e cru, ventos contrários. Em contrapartida, o amor ganhou solidez e riqueza – ventos favoráveis. A caneta de lado, quase não mais serviu ao propósito de transformar tudo em ficção. Cria que isso balizaria minha existência. No entanto, quase morri…

Porque somente a realidade ou pelo menos a realidade que nos impõem, é prerrogativa da existência. Como no Cosmos, a matéria escura – algo supostamente ausente – tem o condão de explicar a união da matéria mensurável. Precisamos – eu preciso – sonhar a vida. Escrever gera esse movimento. Apesar de meus redemoinhos estarem invisíveis, pelo efeito da calvície, ainda têm o poder de absorver e regurgitar energia. Metaforicamente, ainda balanço a cabeleira ao vento e absorvo, com cada vez maior paixão, a vitalidade de existir.

Amantes

Doce veneno...
Doce veneno…

Quem acha que seja impossível
chupar cana e assobiar,
não conhece os amantes…
Amantes são capazes de caminhar
sobre o chão em brasa
com o sorriso despercebido
de quem esconde um grande segredo…
Desencarnam os pés,
porém disso não se apercebem,
pois confundem dor com prazer…

Amantes dão nó em pingo d’água.
Trocam o certo pelo duvidoso.
Não creem nas certezas perenes
e apostam quase tudo no imediato.
Amantes só têm como certo
o aqui e o agora…
E juram que o futuro conjura
contra as suas paixões…

Amantes
intuem que passarão…
Que passará a sensação de vertigem…
Que cairão em si –
vazios,
alheios,
desamados…
E como se sentem morrer de sede,
bebem do veneno
até a última dose,
a sonharem morrer
apaixonados…

Madame

Madame

Don era chefe em uma repartição pública. Sempre simpático, era admirado por seus comandados. Todos apreciavam a sua habilidade em controlar situações adversas. Charmoso, conseguia com sorrisos obter melhores resultados do que a palavra dura usualmente utilizada como traço de comando. Chamava bastante a atenção das mulheres, mas nunca ultrapassou os limites da sociabilidade padrão. Muitas, buscavam atrair o seu olhar. Para Ana, justamente a mais discreta, reservava a sua palavra mais carinhosa. Não foi difícil misturarem as linhas de conexão e se apaixonarem. No entanto, ambos eram casados.

Ainda que não quisessem levar adiante uma aproximação mais íntima, o destino colaborou para um vínculo definitivo ao serem escolhidos para um congresso de gestão pública em Brasília. Longe de casa, o mútuo desejo se fez sentir feito fogo no Cerrado seco. Os dois se surpreenderam por serem absolutamente vorazes no sexo. Casaram seus corpos feito música romântica na voz de Roberto Carlos – o côncavo e o convexo. As jornadas de reuniões e palestras burocráticas eram compensadas por noites de entrega a fantasias sequer imaginadas quando estavam com seus parceiros habituais. Foram quatro dias que se encerraram com lágrimas, antes da viagem de volta.

Combinaram uma agenda de encontros para quando voltassem a São Paulo. Não conseguiriam ficar sem algo que não tinham antes, mas que se tornou absolutamente imprescindível. Descobriram-se maiores, expandidos para além de parâmetros conformes a que sempre obedeceram. O mais interessante é que seus respectivos companheiros também se beneficiaram em suas relações pessoais. A partir daquele momento em diante, os momentos de encontros íntimos ficaram mais prazerosos e aguardados com ardor. Durante os dias de semana, as horas de almoço e finais de expediente estavam reservados aos amantes.

Os bons gestores conseguiram levar adiante suas vidas duplas de maneira discreta, mas com afinco e prazer. Adão, o marido de Ana comemorava intimamente o fogo redivivo de início de matrimônio, sem vincular nenhum outro motivo do que uma fase oportunamente benfazeja. Já, Janaína, esposa de Don, desconfiou de tanta paixão no ato sexual. Gostou bastante da nova versão do homem sempre muito comedido, apesar de carinhoso. Porém, sabia que algo mais estava acontecendo. Nunca foi ciumenta, porém esperou um momento de distração para conseguir acessar o celular do marido e obter as informações que precisava para ter certeza das escapadas de Don.

Mulher bem informada e de opiniões fortes, a palavra “escapadas” formulada antes, seria contestada por ela. Advogada, não considerava a instituição do casamento uma prisão, mas apenas um contrato social, importante para assegurar direitos, apenas. Sabia que quando não houvesse mais condições de continuar um relacionamento sem as mínimas bases de sustentação, o melhor seria dissolver o acordo. Ainda assim, Janaína, carinhosamente chamada de “Madame” por Don, uma brincadeira em contraponto ao nome dele, o amava muito. Percebeu que o encontro dele com a nova parceira o deixara mais aberto e um homem melhor.

Madame deixou aflorar uma fantasia que teve o cuidado antecipar em sua mente antes de a revelar a Don. Não buscou explicação para ela. Somente queria realizá-la. Não sabia como o seu companheiro reagiria, todavia como parecia cada vez mais desenvolto em sua nova faceta, a pediria. Certa noite, Don chegou mais tarde. Exibia o sorriso novo que havia surgido nos últimos tempos, que o deixava ainda mais sedutor. Madame sabia que voltava de um encontro com a outra. Jantaram, e entre goles de vinho tinto, foi direto ao assunto. Disse que sabia que ele tinha um relacionamento com alguém da repartição (jogou verde). Imediatamente, o rosto de Don adquiriu feições que em questão de instantes ora pareciam de surpresa-espanto, ora de pura estupefação sobre a pele de cera.

Casal sem filhos, eram os melhores tios que existiam. O casamento havia chegado naquele ponto em que a estabilidade se confundia com mesmice, marcados por momentos festivos e tristezas pontuais. Madame era uma mulher firme e inteligente. Sua postura não comportava grandes arroubos e ele amava o porto seguro que representava. A chegada de Ana em sua vida, tornou tudo muito mais emocionante. E agora, isso… Sem sequer conseguir balbuciar palavra, olhava para Madame e tentava captar em seu olhar qual seria sua estratégia. Estaria armando uma vingança? Continuou mudo por mais alguns instantes, enquanto ela mantinha o rosto impassível. Don moveu sua mão em direção ao bolso do paletó e retirou o celular. Desbloqueou e o entregou à Madame.

Ela o apanhou e calmamente correu os arquivos de fotos. Percebeu uma pasta em que aparecia uma bela mulher de olhos claros e cabelos negros. “Muito interessante…” – balbuciou. “Nenhuma foto dela, nua?…”. “Para que?”. “Gostaria de saber se tem o corpo melhor que o meu…”. “Você sabe que não ligo para isso”. “Talvez… saberei se a ver nua.”. Don pediu o celular de volta e acessou os arquivos bloqueados. Abertos, entregou o aparelho de volta. Madame observou detidamente cada uma das fotos. Chegou a mordiscar os lábios algumas vezes. Desviou o olhar um instante em direção a Don, sorriu e desferiu: “Ela é linda!… Um dia quero conhecê-la mais de perto…”. Passado mais um minuto, devolveu o celular e completou: “Por enquanto, não. Quero ir com você nos mesmos lugares onde os dois se encontram. Se quiser continuar casado comigo somente lá e então transaremos. Se assim decidir, há outra condição – não diga nada a ela… qual o seu nome, mesmo?…”. “Ana…”. “Além disso, quero que seja vista mais vezes com você”.

Don não argumentou. Jantou calado e passou o resto da noite deitado no sofá, pensando, onde adormeceu. Pela manhã, perguntou a Madame se poderia ir de encontro a ele na hora do almoço. Ela respondeu afirmativamente. Já no escritório, mandou mensagem para Ana, informando que não poderiam estar juntos naquele dia, pois almoçaria com a esposa. Ao meio dia, desceu até o saguão do antigo prédio do centro da cidade, onde encontrou Madame. Saíram de carro e foram até um flat. Cumprimentou os funcionários que estranharam a presença da nova mulher. Já no apartamento, mal adentrou, Madame desceu o zíper da calça do marido e o chupou como nunca fez, muita excitada. Don respondeu com igual paixão e ali, junto à entrada, provavelmente tiveram a melhor foda desde o início do casamento.

A partir daquele dia, Don passou a alternar seus encontros sexuais entre Ana e Madame. Enquanto Madame sabia de Ana, Ana desconhecia que Don trazia sua esposa para o local que considerava só deles. Essa circunstância excitava muito a Madame. Verdadeiramente, se sentia a outra. Quando isso não fosse mais um estímulo, já havia lhe passado pela mente certas variações. Um dia, chegaria o momento de incorporar a presença do terceiro vórtice do triângulo no mesmo espaço. Porém, ainda não… Don ainda estava aprendendo a se libertar de certas amarras e se quisesse que desse tudo certo, conversaria com Ana antes. As mulheres saberiam se entender…

BEDA| Apaixonado

APAIXONADO
Paixões de garoto…

Quando garoto, por volta dos sete ou oito anos, comecei a me apaixonar. Tornei-me um apaixonado em série. Quanto mais inacessível a menina, a moça ou a mulher, melhor. Aliás, todas eram absolutamente inalcançáveis, não apenas porque eu era um pirralho que acreditava que ninguém notava como também era portador de uma timidez atroz.

Nunca teria coragem para me aproximar de Marylin Monroe, por exemplo, e anunciar que gostava dela, se isso fosse possível… Como não aconteceu com a primeira professorinha, a Profª. Débora, sempre perfumada, com o cabelo louro arrumado e fixado a laquê; com a estranha Marília Pera, de “Uma Rosa Com Amor”; com a mulher mais bela do mundo, Tônia Carrero, de “Pigmalião 70”; com a Ingrid Berman, de “Por Quem Os Sinos Dobram?”; com a Regina Duarte, de “Véu de Noiva” ou com o amor maduro por Romy Schneider, dos filmes europeus que comecei a apreciar mais tarde.

A minha paixão também se estendia às presenças femininas próximas e contemporâneas – à Celinha dos olhos claros, do Parque Infantil; à Bete, igualmente da mesma época, que se enamorou de meu melhor amigo e para qual servia de pombo correio; à menina mais bela da minha classe no ginásio; às moças mais interessantes do colegial, para quais também reservei a minha admiração apaixonada e silente. Eu as usava como musas de versos, canções, contos e versões…

Eu me lembro que versei “Hey Jude”, dos Beatles, aos oito anos. Na verdade, como não soubesse inglês, criei uma letra para a melodia de Paul MacCartney, direcionada à uma Jude que criei em minha imaginação e por quem me apaixonei. Como me apaixonei e fiz um poema para a menina dos olhos verdes que vi num relance, ao abrir e fechar da porta do ônibus – ela, à espera, no ponto e, eu, sentado no banco de trás do coletivo.

Escrevi versos para a moça de pernas bem torneadas, que estava a esperar o carro em que eu estava passar, sentada no selim de sua bicicleta no cruzamento de uma estrada no interior. E para a mulher que percebi verter uma lágrima ao ler um livro sentada em um banco de praça.

O que eu não esperava é que, mesmo mortos o menino, o moço e o rapaz que vivenciaram essas paixões, elas estivessem tão presentes ainda hoje na memória do adulto… Poder-se-ia até dizer que os homens são mortais, mas as paixões… ah, essas, são eternas…

BEDA | Ana & Honório

ANA & HONÓRIO
Encontros…

Eu não estava ali porque quisesse. Aliás, queria estar com aquele grupo de amigos, mas não me apetecia a ideia de assistir àquele filme, em especial. Mas fui voto vencido quanto a optar por um filme romântico, avessa à aquelas questões. Assim, assistiríamos “As Pontes de Madison”, com Clint Eastwood e Meryl Streep. Naquele dia, além dos amigos habituais, outro membro se uniu à turma. Conhecido do casal gay, não era mais novo ou mais velho do que o resto de nós, entre os 23 e os 25 anos. Em sua apresentação, apertou a minha mão com força e esboçou um quase sorriso, conquanto eu fizesse um movimento de corpo que denunciasse a troca de um beijo de saudação, o qual ele recusou.

– “Oi! O meu nome é Honório! Prazer!” – disse – “Oi! Sou a Ana!” – respondi, sem adicionar o “prazer é meu!” de praxe. Honório não me causou uma boa impressão. Desde o início, fez me sentir um pouco desconfortável, mesmo eu estando com o meu vestido mais solto… Eu parecia uma estranha pela primeira vez, naquela turma. Fiquei mais chateada ainda quando, por escolha dos outros, acabei por sentar ao seu lado. Tive comigo que seria mais uma experiência que viveria de espírito aberto.

Eu não era dada a frescuras em quaisquer circunstâncias. Por exemplo, em termos de comida, traçava o que viesse pela frente, de japonês a churrasco, bebia vinho, destilado e do outro lado (desculpe o trocadilho infame). Assistia, de shows de sertanejos e pagodeiros, à música de câmara. Eu me considerava divertida e a minha ampla gama de interesses tentava, antes de tudo, demonstrar certa epifania, espécie de celebração à vida. De tudo que via, ouvia ou degustava, incluindo namorados, sempre apreendia alguma substância. Honório (aliás, que nome, hein?!), apesar de minha aptidão democrática, não estaria entre os meus escolhidos para uma “degustação”. Não que fosse feio. Ao contrário, até que tinha os seus atrativos. Não era um tipo atlético, mas não estava fora de forma, se bem que não devesse ser um esportista. Apresentava um nariz “afirmativo”, em que pousava óculos que faziam com que parecesse um intelectual, desses, metidos a besta, com as suas fórmulas e elucubrações pré-concebidas, desenvolvidas em livros sebosos, um exemplar de homem que eu preferiria manter à distância.

Comprei um enorme saco de pipocas e um copão de refrigerantes, o que ele pareceu desaprovar pelo olhar de desdém que passeou sobre eles, o que aumentou um tantinho o meu desconforto, o que por si só, já me causava estranheza, já que eu normalmente não dava bola para o que ninguém pensasse sobre mim. Essa minha atitude fazia com que eu me enturmasse nos grupos mais esquisitos, mas aquele cara… Porém, o clima melhorou um pouco quando ele me pediu um bocado da minha pipoca e tomou um golão do meu refrigerante. Ele disse que usualmente não tomava esse tipo de bebida, mas que queimaria as calorias no dia seguinte, quando corresse no “Ibira”. Ôpa! Então corria como eu? Já tínhamos algo em comum. Menos mal…

O sujeito devia estar com fome, pois quase acabou sozinho com a pipoca antes mesmo de começar o filme, durante o qual, permaneceu calado e imóvel. Eu, de minha parte, assisti com muito boa vontade, pois o achei um tanto melodramático. Os meus amigos cochichavam uma coisa ou outra, que eu não chegava a ouvir direito e que eu fingia concordar, meneando a cabeça afirmativamente.

Em determinado momento, no entanto, se deu a seguinte cena: na tela – Meryl Streep, ou Francesca – dentro da caminhonete, sentada ao lado de seu marido, estava à espera do sinal do semáforo abrir (mesmo sendo aquela uma cidadezinha com quase nenhum movimento), enquanto Clint Eastwood, ou Robert Kincaid, permanecia debaixo da chuva, aguardando que ela saísse da caminhonete para escapar daquela vida provinciana que vivia e se jogasse em seus braços e à sua paixão. No instante que vimos Francesca apertando o trinco do veículo, indecisa sobre que atitude tomar, Honório tomou a minha mão que repousava no braço da cadeira e a apertou com vigor e apreensão, quase da mesma forma. Ao me virar para reclamar do ato, percebi que rolavam grossas lágrimas a lhe banhar o rosto por trás de suas lentes. Habitualmente, alguém poderia considerar àquela uma atitude menos máscula, assim como eu mesma, mas naquele homem discreto, aquilo me pareceu extremamente comovente. Aos poucos, soltou delicadamente a minha mão, dedo por dedo, em um movimento intensamente sensual. Sorri em resposta ao seu gesto. Estava me sentindo envolvida em uma situação realmente desconfortável… Caçadora que eu era, estava acostumada em atacar as presas. Se realmente quisesse comê-las, não deixava opção de fuga. Desde o início de nosso encontro, diversas circunstâncias fizeram com que eu me sentisse acuada.

Mais tarde, fomos todos a uma pizzaria e ele se mostrou arredio à minha proximidade. Por meu turno, eu não estava me reconhecendo – não conseguia demonstrar minha força habitual. A turma chegou a discorrer sobre o filme de forma passageira e ele não fez nenhuma observação sequer. Apenas abaixava o rosto, esboçando um sorrisinho no canto da boca que me irritava profundamente. A sua voz, não muito grave, só ouvi em duas ou três ocasiões. Ao nos despedirmos, disse:

– “Soube que gosta de correr! Vamos marcar para as oito horas da manhã, no Ibirapuera?”

– Pensei – “O que, às oito horas da madrugada? Caramba! Estávamos saindo de um sábado à noite para um domingo e já passava das duas!” – Sorri e respondi:

 – “Sim! Onde nos encontramos?”

– “Eu pego você em sua casa! Sei o seu endereço. Então, até às sete e meia!”

– “Estarei à espera!”.

Então, e apenas então, nos despedimos com um beijo no rosto, tímido e hesitante. Durante o tempo que me restava para descansar, mal pude dormir de expectativa para o encontro que ocorreria dali a algumas horas. Quando Honório chegou, quase ao mesmo tempo, começou a chover torrencialmente. Algo inédito para aquele mês de agosto, muito seco. Pedi para ele entrasse e enquanto esperávamos a chuva amainar, tomamos um café e conversamos sobre a cena no cinema. Perguntei porque se emocionara tanto com aquela passagem da caminhonete, a ponto de apertar a minha mão com tanta força. Estávamos a certa distância um do outro e Honório se aproximou um pouco mais de mim. Olhando em meus olhos, disse, tentando ser o menos formal possível, o que era difícil para ele:

– “Eu simplesmente percebi que aquela era a hora de tomar uma decisão capital. Momento pelo qual muitos nós passamos em nossas vidas, definidor do caminho que tomamos, se para a esquerda ou para a direita. O segundo em que dizemos ‘sim’ ou ‘não’. O instante que se perpetuará pelo resto dos nossos dias. Um instante como este…” – E, aproximando a sua boca da minha, me beijou suavemente…

Horas depois, a chuva transformou-se em garoa. Ficamos namorando e conversando o resto do dia. Honório relatou que o nosso encontro fora arranjado pelo casal gay Belo e Bono, decoradores do qual era cliente. Achei engraçado quando me confessou que comeu a minha pipoca e tomou o meu refrigerante para que eu prestasse mais atenção ao filme e a ele. Que se apaixonou por mim assim que me viu e que aquela cena específica o convenceu que tinha de fazer o que fez. Contra todos os meus prognósticos, estamos juntos desde então, há dezoito anos. Construímos pontes duradouras e sabemos que optamos pelo caminho certo, com Roberto e Francesca, nossos filhos, a nos acompanharem…”.

 

Participam do BEDA:  Claudia — Fernanda — Hanna — Lunna — Mari