BEDA | Dança Das Entidades

ENTIDADES
A dança…

O dia frio e úmido destoava da sensação que o corpo de Thiago sentia – ar tão abafado que as mãos estavam molhadas – como se tivesse sob um sol escaldante. No entanto, corria a noite… Sabia que sua febre não era puramente física. Don Diego, que o acompanhava e, eventualmente era convidado a assumir o seu corpo, ardia de saudade… Não que fosse represália por Thiago ter brigado com Diana, que carregava Saphyra, seu amor. Apenas acontecia.

Thiago e Diana também já se amaram. Mas viviam às turras, com diferenças quanto a objetivos e posturas. Thiago era mais tranquilo e retraído, quase tímido. Timidez que se esvaía quando colocava sua roupa de cigano e dançava as vibrações-referências de todos os lugares do mundo por onde o seu povo passou, desde quando os ciganos deixaram o Egito e a Índia, passaram pela Pérsia, Turquia, Armênia, chegando à Grécia, onde permaneceram por vários séculos antes de se espalharem pelo resto da Europa, com influências húngaras, russas e espânicas. Don Diego era mestre na dança flamenca.

Saphyra, de origem grega, também sofria. Com o corpo da esfuziante Diana, fazia uma mescla estonteante de flamenco e árabe. Quando conheceu Don Diego, no corpo de Thiago, imediatamente se apaixonou. O casal-entidade forçou para que Thiago e Diana ficassem juntos. E assim aconteceu, não sem antes causarem as separações dos casais que os abrigavam, também ciganos. Apesar da dor causada pelos rompimentos, os respectivos cônjuges se conformaram diante da explosão passional de beleza e efervescência emanadas quando as entidades dançavam nos corpos de seus companheiros. Sabiam que não havia como impedir o rompimento diante do jorro de energia pura que se precipitava salões afora por onde volteavam.

Thiago, por Don Diego, do qual gostava muito, decidiu chamar Diana para conversar. Ela aceitou, por Saphyra e porque o desconforto que passava a estava impedindo de trabalhar. Marcaram de se encontrarem longe do Recando Santa Sarah, em cujo salão de eventos, dançaram pela primeira vez, causando frisson entre todos que os assistiam, em uma festa com a presença dos Guardiões da Noite do Oriente, com a participação de várias famílias ciganas. Entre volteios e braços erguidos, cruzaram os olhares dentro dos olhares, longos cabelos jogados pelo espaço. A grega e o espanhol formaram a dupla que encheria de força cósmica todos os encontros nos últimos cinco anos.

Fora das festividades, Thiago e Diana tiveram que lidar com o cotidiano massacrante de professor e enfermeira. Nos momentos de encontro amoroso, usufruíam do poder do chakra sacral – Swadhisthana – livre e ativo. A conexão entre Don Diego e Saphyra se consolidava a cada encontro, enquanto Thiago e Diana perdiam suas identidades. No entanto, a massa de energia era tão grande que se espraiava prazerosamente por todos os poros de seus corpos. As peles, depois de cada refrega, permaneciam sensíveis a qualquer toque por quase 24 horas, como se fossem queimaduras. Apesar de todo o prazer que sentiam, os efeitos também concorriam para se sentissem desconfortáveis juntos, quando conscientes.

O ex-casal se encontrou em um Café no Paraíso, subiu as escadas e se posicionaram em um dos cantos do mezanino. Estavam calmos e inicialmente conversaram amenidades sobre saúde e rotina. Sentiam-se estranhos por estarem ali naquele ambiente impessoal. Contudo, talvez fosse o ideal para evitarem certas repercussões que já ocorreram antes. Como fariam? Senhora Avelar teria condições de liberá-los? Orações para Santa Sarah? Intervenção do Mestre Kalé?

Em determinado momento, por mais que evitassem, olharam-se nos olhos. Foi o que bastou para quererem se tocar. De mãos unidas, olhos flamejantes, perceberam que seus corpos perderam peso e praticamente flutuavam milímetros acima dos estofados. Seus corpos começaram a vibrar levemente e seus pelos e cabelos se eriçaram a olhos vistos. Trocaram um beijo longo, acompanhado de um suspiro profundo. Testemunhas disseram que sentiram uma lufada de ar quente a percorrer o salão, enquanto a luzes variaram de intensidade. Em pouco tempo, tudo cessou. A temperatura baixa deste Agosto voltou a prevalecer. Thiago e Diana se olharam como desconhecidos. Don Diego e Saphyra haviam partido..

Participam do BEDA: ClaudiaFernandaHanna LunnaMari

BEDA | MM

MM
MM

Corria o início dos Anos 80. Estava em Nova Iorque, para fazer um intercâmbio. Jovem escritor de 22 anos, há um mês na cidade, encontrei MM enquanto fazia compras no supermercado. Diante de estupenda surpresa, deixei cair o saco de papel que embalava as maçãs que carregava. Uma delas, foi parar junto aos seus pés. Marylin Monroe se agachou, sorriu o seu sorriso de estrela e m’a devolveu. Gaguejei um agradecimento e, como permanecesse estupefato, provavelmente com o olhar vidrado de alguém que estivesse em choque, ela perguntou se eu estava bem…

Balbuciei: “Você está viva?”…

MM deixou de sorrir e disse:

– Você deve estar sonhando… É quase a única maneira de poder me alcançar da maneira que fui…

– Sei que não estou sonhando. Acordei cedo, dei comida para o gato da família que me hospeda, fiz ligações para o Brasil, falei com a minha mãe e vim ao supermercado. Estou alerta e sei que você é Marylin Monroe!

– Se você não estiver sonhando, então passou por alguma portal interdimensional. Isso é raríssimo! E sorriu…

– Portal interdimensional? Você conhece essa possibilidade física?

– Esta Marylin não é mais aquela, que morreu em 1962*… Apesar da energia antropomorfológica manter as mesmas feições, para quem é da dimensão que você e eu (ela) vivemos. Sou outra pessoa, mais complexa. No entanto, curiosa sempre fui… Como eu, que tem consciência da existência dos mundos paralelos, só alguns. A maioria, passou pela quase morte e sobreviveu.

– A quem devo agradecer esta oportunidade em tê-la encontrado?

– Agradeça a você mesmo! Não permitiriam que percebesse esta dimensão paralela e me visse, se não tivesse preparado.

– Você é uma referência, para mim… Sempre ouvi dizer que nós, escritores, não devemos ter contato direto com as nossas musas. Isso acabaria por afetar a nossa inspiração, já que, de idealizadas, transformam-se em seres comuns. Li livros sobre você, os textos que escreveu, vi as suas fotos, os seus filmes, busquei a sua essência…

– Meu caro, nenhuma das fontes que teve acesso, poderia me revelar. Eu simulava quase o tempo todo… Vamos fazer um seguinte… Quer tomar um café?

Permaneci calado um instante. Uma das minhas musas estava me convidando para estar junto a ela e fiquei hesitante, como sempre nessas situações cruciais. Por fim, percebi a incrível chance de captar diretamente da fonte a força de uma mulher que, por mais que tenha se exposto, permanecia indecifrável para muitos, a incluir a mim, que tentava construir um quebra-cabeças apenas com as suas referências indiretas.

– Um café interdimensional? Sempre sonhei com isso! – Respondi, finalmente.

MM riu gostosamente. Deixamos as nossas compras de lado e fomos conversar, o que fizemos pela tarde toda. A Marylin interdimensional, lembrava-se de toda a sua vida até 1962, quando quase morrera. Do outro lado, a outra versão não conseguiu escapar. Não quis me revelar se fora induzida ao óbito ou se tinha intencionalmente abusado da medicação. Nesse momento, uma dúvida me sobreveio.

– O fato de ter sobrevivido aqui, não alteraria a história do mundo paralelo?

– Não, exatamente, porque eu me retirei totalmente da vida pública. Sumi. Assumi outra identidade. Mudei um tanto a minha fisionomia. De certa maneira, morri para todos. Vim para Nova Iorque. Fui morar no mesmo prédio da Greta. Com o tempo, vi os meus antigos colegas de trabalho, morrerem, um a um. Chorei, quando mataram John… Eu me mantenho afastada de James, Joe e Arthur.

– Outros, como você, também não sobreviveram às suas mortes anunciadas pelos jornais?

– Pode até ser, mas não tenho conhecimento… – Marylin olhou enigmaticamente para mim.

– Então, você é escritor? – emendou.

– Sou… Quer dizer, pretendo ser. Não tenho nenhum livro publicado. Tenho muitas ideias, mas me falta artesanato, um estilo definido e experiência de vida. Esta experiência que estou vivendo, de tão incrível, creio que será quase indescritível e minimamente crível…

Nesse instante, MM me olhou com os seus imensos olhos esverdeados como um campo no verão em dia de chuva, diferentes do azul do tamanho da Terra vista do espaço que conhecia na antiga Marylin, e perguntou:

– Você me ama?

– Eu… cheguei até você… Deve significar que a amo…

– Então, venha!

Marylin Monroe me pegou pelas mãos e me levou ao seu apartamento, no The Campanile.

Chegava a noite e ela mesma me preparou o jantar. Depois que comemos, conversamos mais um pouco e ela decidiu se despir diante mim, peça por peça, na ampla sala de estar. Quando vi a sua cicatriz no abdômen, me aproximei lentamente, tirei os meus óculos e a beijei delicadamente. Subi os olhos para o seu rosto e demonstrei espanto por ter em minhas mãos aquele corpo com a estrutura de trinta e poucos anos, apesar dos quase sessenta que deveria ter. “Como isso é possível?” – me perguntei intimamente e ela respondeu, como se tivesse me ouvido:

– Porque é assim que você me quer, Ob… Vou fazê-lo sonhar!

Até o começo da madrugada, fizemos amor. Atordoado de sono, adormeci. Quando acordei, logo no café da manhã, ela me pediu para ficar, definitivamente. Aceitei de imediato, conversei com os meus hospedeiros, argumentei que iria para a casa de um colega da faculdade e me mudei.

Comecei a viver o período mais incrível da minha vida. Marylin era sábia e nada fazia lembrar a personagem avoada que representou no seu trabalho passado. A diferença de idade não impediu que nos casássemos e tivéssemos um filho. Eu a amava cada vez mais e me surpreendia com a paixão que nos envolvia e que não esmorecia, mesmo com o passar dos anos. Consegui um trabalho como roteirista de comédias na NBC e fui convidado para escrever o meu primeiro roteiro de cinema – uma comédia romântica.

Um dia, ela me pareceu mais triste do que o normal. Era comum MM ficar longas horas a olhar para o East River sem dizer palavra. Em uma dessas ocasiões, levantou os seus olhos mutantes, sorriu com meiguice demorados segundos e disse: “Vou lhe libertar…”. Se aproximou e me beijou a testa. Adormeci… e acordei velho e aturdido, sem musa e sem chão. Eu me recordei que ela vivia a repetir que a verdadeira arte se faz com sofrimento… Agora, resta-me escrever inspirado na dor e na perda do amor…

*Marylin Monroe morreu oficialmente em 05 de Agosto de 1962.

 

Participam:  Claudia — Fernanda — Hanna — Lunna — Mari

Clichê

CORAMÃO
Coramão

Moça de personalidade forte e plena de certezas cambiantes, Marinês carregava cheiro de aventura e independência de vento. A libriana provocava redemoinhos por onde passava. Inesquecível, seu nome era repetido em rodas das quais sequer participava. Gostava de se expressar fisicamente e sua linguagem corporal atraía homens e mulheres. Apesar disso, sua primeira experiência sexual se deu relativamente tarde, aos 18 anos. Quis esperar para se envolver com quem realmente se identificasse, se bem que idealmente não gostaria de se apaixonar por ninguém

Na faculdade, aconteceu de conhecer Antônio, que a atraiu francamente desde que o viu entrar na sala de aula. Veio a descobrir que aquele era um jovem de pedra. O virginiano tinha consciência cristalina de seus propósitos, planos calculados para o futuro. Havia decidido passar o curso inteiro voltado completamente ao estudo. No entanto, sentiu vir da janela, o que imaginou ser brisa, o sopro inebriante de Marinês. Suas convicções se desvaneceram e em duas semanas, já estavam totalmente envolvidos.

O primeiro semestre foi dividido por Marinês e Antônio entre estudos truncados e dias trocados por noites de amor e paixão. Tiveram notas apenas medianas, suficientes para acessarem as próximas matérias. Os dois conversaram sobre como deveriam levar mais seriamente os seus projetos e que resultaria em menos tempo juntos. Durante as férias, passariam unidos o quanto pudessem, mas depois, vida nova.

Enquanto para Antônio aquela era uma contingência necessária, que não implicaria em separação definitiva de Marinês, para ela fazia parte de um projeto pessoal. Quando decidiu começar a sua vida sexual, a ideia inicial era que não ficasse com apenas uma pessoa. Antônio foi um acidente de percurso. Apaixonar-se como aconteceu não era desejável. Achava um baita clichê ficar com o primeiro que fodesse. Namorar, noivar, casar, ter filhos… Toda aquela baboseira, como dizia sempre, nunca foi o seu desejo. Queria conhecer muitos homens e mulheres, novos e velhos. Absorver o máximo de cada relação para se conhecer e conhecer a vida.

Terminado o período de férias, Antônio esperava reencontrar Marinês após a semana que estiveram separados. Concordaram que não se comunicariam nesse período para que pudessem resolver questões particulares, cada um em sua respectiva cidade. No retorno, estranhou que não conseguisse voltar a entrar em contato com ela. Não a encontrou na faculdade e não obteve nenhuma informação pelos colegas mais próximos. Alguns dias depois, uma amiga mais íntima de Aline disse que ela viajou para o Canadá. Sem avisá-lo. Passado um mês, percebeu que ela o havia deixado. Completamente arrasado, chegava a imaginar que ela não tivesse existido. A brisa refrescante transformou-se em furação. Sentia-se terra arrasada.

Marinês conseguiu, a muito custo emocional, deixar o Brasil de Antônio. Respirando novos ares, implementou seu objetivo de livrar-se das amarras sociais que condenam as pessoas a um jogo de cartas marcadas, em que todos perdem. As pessoas pelas quais passou a sentiam quase amorosa, quase alegre, quase inspiradora, quase real. Quase a amariam, se não fosse a desconfiança que nunca teriam acesso a seu coração…

 

Inesquecível

Romy I
Inesquecível, Romy…

Carlos, em hora vaga, decidiu entrar na cafeteria para ler um pouco e saborear um cappuccino ou dois. Aproveitou a boa sorte do caixa livre. Fez o pedido, esperou menos do que esperava e se dirigiu ao segundo segundo andar. Sentou a um canto e mal pode abrir o novo lançamento da Scenarium – SADNESS – quando assomou a sombra de alguém logo na primeira página. Ao olhar em direção ao vulto, o passado o atropelou na faixa segurança, feito um caminhão desgovernado. Um tanto desconfortável, reconheceu Regina e se ergueu em sua direção. Estava tão linda quanto à época da faculdade.

Perguntou o que fazia por ali, enquanto a beijava de leve no rosto e a abraçava com força, como a confirmar a existência do fantasma vestido de saudade que o assombrou desde que quis se desencontrar dela. Regina respondeu, com aquele eterno sorriso entre brincalhão e escárnio, que sempre a categorizou: “Passava em frente, quando o vi subir as escadas… Como você está? Pelo jeito, bem! Está bonito…”. Ele nunca soube distinguir quando ela falava sério ou brincava. Sabia que não era mal-apessoado, porém diante dela, nunca conseguiu se sentir adequado.

Fazia sete anos que não a via. A última vez, ocorreu na festa de formatura do curso de comércio exterior. Viajou, logo após. Obteve uma ótima chance de aprimorar o inglês e de tentar fugir daquele sentimento que impedia de manter qualquer relacionamento com mais alguém. Naquele momento, mais confiante em si, tentou rapidamente compreender, na fração eterna de segundos que a olhava nos olhos, porque nunca se revelou apaixonado por ela. Mesmo depois de tanto tempo, voltava a ser o moço desengonçado. Não duvidava que ela soubesse do efeito que causava nele. Sempre suspeitou que gostava de brincar com ele, como a gata faz com o camundongo.

Na Austrália – outras vibrações, outra cultura – sentiu como se fosse uma muda transplantada em novo solo. Finalmente, se reconheceu outro. Lá, conheceu sua futura esposa, outra brasileira, Anna. Após dois anos, voltaram. No Brasil, casaram. Há um ano, chegou Bianco. Montaram apartamento na Santa Cecília. Estavam bem. Vidas sem sobressaltos e sem novidades no horizonte. Até voltar a ver Regina. Lembrou de Ono, um colega que se tornou escritor. Ele lhe falava sobre a Teoria de Tempo Intenso – quando tudo parece acontecer ao mesmo tempo, com força e intensidade inimagináveis. Foi assim que percebeu o quanto ainda a amava.

Mas, pela graça da boca de canto de sereia de seu amor, ela mesmo a salvou de cometer um desatino. Enquanto conversavam sobre o passado – em que enumerou as várias ocasiões em que ficou com boa parte de seus colegas – falou sobre César, então seu melhor amigo. Este, por saber de sua paixão por Regina, prometeu que nunca teria nada com o objeto de sua avassaladora paixão platônica. Ela, aparentemente sem saber desse acordo, falou que havia traçado o seu companheiro de quarto de pensão. Muitas vezes… Lá mesmo, enquanto viajava, em momentos intermitentes. César já não pertencia ao seu rol de amigos. Deu em cima de sua atual companheira, logo que a conheceu. Anna relatou o ocorrido e ele cortou a amizade. Naquela ocasião, imaginou que, eventualmente, tivesse ficado com Regina, apesar da promessa. Contudo, aquela “novidade” o arrasou como se tivesse acabado de acontecer.

Como por encanto, os olhos de Regina deixaram de exercer a imensa atração que levou muitos marinheiros à morte. O que Carlos não conseguiu se atentar foi que ela apenas começou a falar sobre o passado de tragadora de homens, depois que revelou que estava casado, com filho novo, casa montada. Depois de se perceber deixada, sempre desejou reencontrá-lo. Com ele, sempre se sentiu especial. Para ele, reservou o melhor de seus sentimentos. Depois de muitas cabeçadas, distinguiu claramente o que queria. Era Carlos. Como ele não participava das redes sociais, foi difícil localizá-lo. Descobriu onde trabalhava e aproveitou a ocasião propícia para encontrá-lo, por um desses “acasos” do destino. Sabê-lo bem, com outra mulher, filho e lar, a aniquilou. Quis se vingar.

Ao final do encontro, o sorriso de Regina se transformou em risco enrugado. O rosto de Carlos, transparecia autoconfiança. Outro beijo, mais leve e corpos descolados em um último abraço desajeitado.  Ele disse que ficaria um pouco mais. Ela se retirou, carregando a dor pela falta que faria a perspectiva do amor do único homem que realmente já a interessou. Ele, voltaria para sorrisinho banguela de seu filho e o conforto seguro dos braços de Anna…

Separação

20180403_005548
Bananeiras decepadas…

Eu me separei…
Deixei casa – paredes, nas quais lembranças pendiam paralisadas…
Portas, por onde muitas vezes passei com desejo de amar e que,
em tantas outras ocasiões, tive urgência de sair,
com vontade de nunca mais voltar…
Janelas, pelas quais divisei paisagens, movimentos, sol, chuva, vento –
protegido das intempéries e dos olhares alheios…
Naquela casa me sentia acolhido ou albergado,
a depender dos olhares, dos humores, dos tons e frissons…

Eu me separei…
Deixei aqueles braços que acolhiam e afastavam,
que imperavam e hesitavam,
que mentiam avidez enquanto aceitavam as minhas obrigações…
Amor ainda existe, ainda nos queremos, queremos amar…
Porém, não quero que, de legado delicado,
tudo se transforme em prisão, a vermos nossas pernas atreladas a grilhões…

Eu me separei…
Mas sei que nunca serei independente do que recebi como patrimônio –
memória de paixão, cumplicidade, comunhão, vivência de amorosa divisão…
Ao perceber que o nosso amor está ameaçado de ser auto fagocitado,
não posso permitir que a incapacidade de ser menos para ser mais
devaste a nossa união…
Amor, por amor, hoje me separei…