Sobre esta imagem de 2014, legendei: “Dia de ‘Dono de Casa’ – fazer a feira, varrer o quintal e a casa, alimentar os animais, cuidar das plantas, lavar a louça e fazer o jantar. E não é que eu gosto?”
Em 2020, a respeito da foto que surgiu como lembrança, comentei: “Continuo gostando da atividade, mas atualmente para mim, todo dia é dia de ‘dono de casa’. Estávamos vivendo a plena Pandemia de Covid-19 em seu início que apenas especulávamos a duração, profundidade e extensão temporal e mortalidade. Tenebrosamente, o Governo Central relutava a aceitar o que os cientistas, epidemiologistas e órgãos nacionais e internacionais de Saúde alertavam sobre o que o titular da cadeira presidencial chamou de “gripezinha”.
Tudo parece tão distante, como se fosse outra vida e para seiscentos e cinquenta mil pessoas – em números oficiais – a “outra vida” é uma realidade. Até agora, são cerca de trinta milhões de casos contabilizados, diversos com severas sequelas. Então, estar à época como apenas como um “dono de casa” não era o pior dos mundos. Mas a continuidade do processo de ausência de atividade profissional gradativamente começou a pesar. O desgoverno e a pequenez ética apresentada pelos asseclas no poder colaboravam para que tudo ficasse pior.
Fazer atividades caseiras nunca foi algo que me desestimulasse. Ao contrário, varrer sempre foi uma tarefa prazerosa em que os pensamentos passeavam a cada varrição. Criei vários bons textos enquanto retirava a sujeira do piso da casa ou do quintal. Lavar louça é um processo terapêutico para mim. Fico relaxado ouvindo música ou “assistindo” algum programa na TV. Limpar os móveis, organizar a bagunça da sala (se bem que o escritório viva de pernas pro ar), recolher o lixo ou fazer o almoço e o jantar me fazem bem. O problema é quando tudo se transforma em exercício “permanente”, sem prazo para acabar, as devidas repetições cotidianas. Na Pandemia, isso pareceu não ter prazo para terminar.
Atualmente, as coisas tendem a melhorar, sempre tendo a possibilidade do surgimento de variantes mais virulentas de SARS-COV que voltem a nos assombrar no futuro, em que o meu setor de atividade – prestação de serviços em eventos – que propicia a aglomeração, seja considerado uma “ação terrorista”. Como consequência, voltarei a exercer uma função fundamental, rotineira, trabalhosa, que aprecio, mas que é pouco valorada. Que seja apenas por prazer e não por obrigação que possa continuar a exercê-la.
Há 90 dias, realizei o meu último evento da manhã de 31 de Dezembro de 2020 até a manhã de 1° de Janeiro com a Ortega Luz & Som. Somos aqueles que chegamos primeiro e saímos por último. Trabalhamos, meu irmão, Humberto e eu, na base de sustentação da expressão artística ligada à música, à dança, à celebração de viver. À época, eu tinha plena consciência do que teríamos pela frente. Cheguei a enunciar que o ano de 2020 tinha sido apenas um spoiler de 2021. Ou que 2020 havia começado em 2019 e terminaria em 2022… com sorte!
Não sou uma pitonisa, de forma alguma. Apenas sempre fui um estudioso da Ciência e uma pessoa curiosa pelo Conhecimento, em busca de respostas pelo simples prazer de saber. Nunca achei que as coisas tivessem respostas simples, ainda que muitas questões são de solução óbvia. Sempre busquei perguntar, argumentar, verificar pontos de vista antagônicos, nunca aceitei fórmulas mágicas, nunca busquei reinventar a roda ou desprezar o conhecimento humano acumulado por milhares de anos.
É com muita tristeza que vejo hordas de cegos ideológicos reproduzirem movimentos que já devíamos ter superado. Certos ciclos se repetem justamente pela quebra da informação geracional, muitas vezes de forma intencional. E se de alguma coisa valeu esta Pandemia, é perceber que essa não é uma característica brasileira, apenas. A ignorância grassa pelos Hemisférios de alto a baixo, de um lado ao outro.
Quanto ao evento, passamos, meus colegas e eu – músicos, bailarinas, empresários – por picos emocionais e imergimos em um mar de sentimentos contraditórios. De encontro e de despedidas, de um ano difícil para outro que deveria trazer um novo alento. Dentre tantas pessoas, alguns poucos que como eu traziam o sorriso amarelo por debaixo das máscaras (usei umas cinco naquele calor infernal), sabendo que reuniões como aquela, que cumpríamos por força de contrato, seriam responsáveis, junto com às aglomerações do Carnaval, pela hecatombe que sobreveio sobre o nosso sistema de Saúde.
Após o Réveillon, recusei todas possibilidades de eventos que não tivessem a mínima segurança. Não apenas por mim, mas também por quem eu nem conheço. Neste Dia Da Mentira, que saibam separar o que é real do que é mitológico. Estamos pagando um preço muito caro, fortemente dimensionado em perdas humanas, por falácias propagadas por mitos e mitômanos.
Em minhas caminhadas matutinas, tenho circulado pelas ruas, avenidas e vilas da minha região. Ao subir por uma das inúmeras ladeiras da típica topografia acidentada da Zona Norte de Sampa, encontrei uma loja de cabelereiros. Como era cedo, talvez abrisse mais tarde. Talvez não abrisse. Estamos em fase de restrição devido à Pandemia. O que me chamou a atenção foi o lindo nome da loja – Kairós – e seu significado.
Na estrutura linguística, simbólica e temporal da civilização moderna, geralmente emprega-se uma só palavra para designar a noção de Tempo. Já os gregos antigos, tinham duas palavras para o fenômeno da sua passagem: Khronos e Kairós. Enquanto o primeiro refere-se ao tempo cronológico ou sequencial (o que se mede, de natureza quantitativa), o segundo possui natureza qualitativa, o instante indeterminado no Tempo em que algo especial acontece: a experiência do momento oportuno. O termo é usado também em Teologia para determinar o “tempo de Deus” (a Eternidade) – enquanto Khronos representaria o “tempo dos Homens“. Referência: Wikipédia.
Que se use Kairóz como nome de um “Salão de Beleza” ou Barbearia/Cabelereira é instigante quanto às possíveis interpretações. Afinal, ali se pratica uma ação que se circunscreve a algo de efeito imediato, porém efêmero. Porém, como a intenção é que alguém se apresente mais bela/belo com consequente aumento da autoestima e melhor estado de espírito – o que poderia ser considerado tão efetivo quanto uma oração – torna-se “divino”. Dessa forma, atende-se a experiência do momento oportuno, o Tempo de Deus, ainda que se decorra no tempo dos Homens.
O fato é que ainda que tenha sido de maneira inesperada, foi oportuno eu ter feito essa rota escolhida a esmo para lembrar que o Tempo só tem valor se o vivermos intensamente, não em quantidade improdutiva.
O Carnaval tem suas raízes na Antiguidade, entre o Egito e a Grécia. Eram festas dedicadas aos deuses que congregava a população em torno da comemoração do fim do Inverno e a chegada da Primavera, em que se verificava certa transgressão à ordem social. Com a chegava do Cristianismo ao Império Romano, não sendo possível impedir que acontecessem, foi imposto regramento a esses festejos profanos. Foi instituído pela Igreja um período de três dias de celebração, que termina na Quarta-Feira de Cinzas, às vésperas da Quaresma. Este período dura quarenta dias até a Semana Santa, e representa para os fiéis cristãos o preparo espiritual para a Páscoa, a Paixão de Jesus Cristo e a sua ressurreição três dias depois de ter sido crucificado e morto.
Apesar de ser traduzida como “festa da carne”, de fato o termo Carnaval vem do latim carnem levare, que significa “abster-se, afastar-se da carne”. Apesar de cidades como Veneza (Itália), Nice (França), Nova Orleans (EUA), Ilhas Canárias (Espanha), Oruro (Bolívia) e Barranquilla (Colômbia), apresentarem estilos de carnavais bastante atrativos, foi no Brasil que ganhou importância e substância de identidade nacional. Trazido pelos colonizadores portugueses, os historiadores afirmam que a festividade se estabeleceu no país entre os séculos XVI e XVII e teve como primeira prática o entrudo — brincadeira que se fixou primeiramente no Rio de Janeiro — porém, com o tempo, cada região do País estabeleceu configurações diferentes, entrelaçadas às características peculiares de cada lugar, propiciando uma riqueza cultural inigualável.
Em 2020, a Covid-19 surgia no horizonte, mas o Carnaval ocorreu e as consequências todos sabemos. Apesar de criticarem a sua realização, a oposição às medidas sanitárias só começou a arrefecer com o crescimento dos números, meses depois. Transformada em batalha ideológica, o cancelamento do Carnaval em 2021 foi considerado inevitável pela maior parte da população. Fato inusitado em 2022 e que contraria a história do próprio Carnaval, se a variedade Ômicron permitir, ele será realizado na sua versão oficial em desfiles em São Paulo e no Rio de Janeiro depois do fim da Quaresma. Ou seja, o pecado virá depois da penitência. Mas isso já estamos acostumados a fazer…
Imagem do colorido Carnaval de 2020. O público presente só queria se divertir. Tempos sombrios se aproximavam…
Uma primeira viagem ao Passado. Aqui, estou à frente da mesa iluminação que utilizávamos em 1995 pela Ortega Luz & Som. No caso, esse dispositivo foi montado com madeira, interruptores e tomadas comuns. Na época, não tínhamos recursos para comprar um equipamento mais profissional, mas esta nos serviu bem e por um bom tempo.
Banda Life Show, no Carnaval de 2019, que realizou as matinês do Carnaval do Círculo Militar de São Paulo, com a nossa participação na sonorização e iluminação.
Outra viagem, esta para o Carnaval de 1996 do Clube Guapira. Naquela época, o contrato era para a realização de nove eventos — um pré-Carnaval, um sábado antes, quatro noites, três matinês e um pós, no Sábado de Aleluia. Ao lado do meu irmão e sócio na Ortega Luz & Som, Humberto, está o Carlão, cantor da Banda Nova Geração e veterano de vários carnavais que tinha técnica vocal para realizar a maratona sem perder a voz, algo comum depois de tanto esforço. É um amigo que morreu de amor. Com o passamento de sua esposa, três meses depois, ele também se foi…
Minhas meninas — Ingrid, Romy e Ingrid — no Carnaval de Rua de 2020, outra expressão importante que apresentou sua maior versão justamente antes do advento da Pandemia deCovid-19.
Quarta-Feira de Cinzas de 2020. A Quaresma forçada está completando dois anos…
Eu tenho, durante toda a minha existência consciente, tentado compreender o que seja “eu”. Certamente, não sou apenas o que se sobressai nas imagens icônicas — cor da pele, idade, feições, roupas que visto ou desvisto, identidade de gênero, condição social, trabalho, nome, estudo, nacionalidade, pensamentos, vontades, desejos, ações e omissões. Ao mesmo tempo e lugar, sou também tudo isso. E muito mais e muito menos do que imaginam. Desde os meus 16, 17 anos, a minha luta é uma tentativa constante de subjugar o ego e emancipar o espírito. Fica difícil para quem não acredita em vida para além do corpo físico entender que isso seja possível. Enquanto eu acredito (sinto) que minha consciência particular seja apenas uma infinitesimal parcela da Consciência Universal, para outras pessoas, a consciência de si termina com a morte. Se isso for a verdade dos fatos e sobrevenha a escuridão total e o Nada após o desmanche das fibras carnais pelo apodrecimento, eu terei transcendido em vida física para além das aparências e da ilusão. Ainda que essa ilusão seja o padrão pelo qual o ser humano se veja e chame a isso de Realidade.
À partir de mim, em sentido horário: Romy, Lívia, Ingrid e Tânia.
2018
“E este registro resume o dia intenso que tivemos. A Família Ortega, reunida com todos os seus componentes durante as últimas 48 horas. Fato raro, nos últimos tempos. Em Inhotim, experimentamos uma imersão no mundo da criatividade humana, aliada à beleza natural do lugar. Está foto foi tirada onde ecoa o som do fundo da Terra ou, pelo menos, a 200 metros de profundidade. Nada melhor para simbolizar a profundidade do amor que sentimos uns pelos outros. Iniciativa da Ingrid, nos propusemos a seguir sua ideia. Depois de quase 600Km, chuva forte, acidentes e trechos ruins de estrada, chegamos a Brumadinho, uma cidade (ainda) pequena e de gente hospitaleira. Devido à correria, talvez tenhamos uma ceia simples, porém estaremos juntos — melhor presente de Natal não haverá!”
A legenda acima, de 23 de Dezembro de 2018, resume o meu sentimento ligado à família. É uma sensação orgânica, que não tem nada a ver com as formulações exteriores impostas pela sociedade. Ainda que haja papai, mamãe e filhinhas. Para confirmar que a vida sempre carrega aparentes surpresas (sempre há uma causa), um mês depois dessa visita a Brumadinho, em 25 de Janeiro de 2019, ocorreu a avalanche que soterrou casas e áreas próximas a que percorremos na região, pelo estouro da barragem de dejetos da Vale, deixando 270 vítimas fatais, além de 11 desaparecidos.
As destemidas e eu…
1997
Eu tenho uma forte identidade com o Mar. Gosto de estar dentro d’água, festejando minhas limitações físicas contra as ondas. Ensinei às minhas crias a respeitá-lo, mas não temê-lo. De alguma forma, parece que abarcaram essa ideia e hoje, sempre que podem, gostam de estar junto ao Oceano. Escrevi sobre a foto, em Julho de 2020:
“Registro de Janeiro de 1997. A Lívia estava com 1 ano e três meses, a Ingrid, quase 5 e a Romy, 7 anos e meio. Estávamos em férias na PG e eu ensinava às meninas a não temerem a água do mar. Assim como tentava mostrar, assim como a Tânia, que deveriam ter coragem ao enfrentar o mundo dos homens, mulheres crescidas que se tornariam um dia. Acho que fizemos bem o nosso trabalho e hoje elas souberam construir os seus caminhos como senhoras de si.”
Aos 13…
1974
Sobre essa imagem, em que apareço com a Fofinha no colo, escrevi um texto —Um Menino — que fala sobre o meu medo de me envolver com as meninas, misto de respeito, admiração, fascínio e atração, que mantenho até hoje. Eis o parágrafo final, eu diria um tanto fatalista:
“Se ele me pedisse um aconselhamento e se ele não estivesse tão longe no tempo, pediria covardemente que nunca se aproximasse das meninas, nunca se envolvesse emocionalmente, nunca se apaixonasse por elas. Porém, advertiria também que ele perderia o melhor da viagem. Os altos e baixos do relevo, as curvas perigosas da estrada e a paisagem sempre inesperada. Diria ainda que podemos morrer por elas, no entanto é por elas que devemos viver.”
Dona Maria Magdalena Nuñez Blanco Y Prieto Ortega e seu filho…
1962
No Facebook, eu já coloquei a uma imagem de minha mãe como foto de perfil. Demorei muito para compreendê-la. Ela prefigurava uma espécie de antípoda em relação à autoconstrução de meu comportamento emocional. Mas finalmente aceitei ser seu filho. Quanto a isso, escrevi:
“Na fase final de sua passagem entre nós, consegui compreender o quanto a Maria Madalena funcionava de forma diferente de mim. Ela era todo amor e eu a buscar comedimento e autocontrole em minhas emoções. Antes dela nos deixar fisicamente, consegui me reconciliar com a condução que ela dera à minha vida. Aceitei que o seu amor me dominasse e tentei retribuí-lo de alguma maneira. Não viverei a lamentar que o não tenha feito. A partir de então, tenho como ideal de ser, um dia, metade do ser amoroso que a menina Blanco foi…”.
No palco do Clube Piratininga, onde realizamos vários eventos nesses 33 anos de OLS.
2001
Meu irmão, Humberto, e eu, montamos uma pequena empresa de locação de serviços de sonorização e iluminação. Estamos há cerca de 33 anos em atividade ininterrupta, sem contar o período mais grave da Pandemia de Covid-19, já que nesse caso, o mundo todo parou. A nossa estratégia foi ocupar um nicho de mercado restrito, de eventos menores em proporção física. Mas aprendemos que para quem nos contrata, isso não é o caso. Eu me lembro de um episódio em que ao chegar ao local, o avaliei e disse em voz alta que o palco era pequeno. Antes que viesse a completar o que eu queria dizer, a dona do espaço ouviu e se mostrou ofendida. Pedi desculpa e fiz ver que o que queria dizer é que o equipamento que usaríamos deveria se adequar ao lugar, sem intenção de crítica. Além disso, percebi que a prestação de serviços é também um trabalho de relações públicas. A Pandemia me mostrou que minha atividade profissional é essencial para mim como Homem. E sei que isso é também verdadeiro para a maioria das pessoas. Ser autônomo como pessoa, produtivo como ser, contribuinte para a manutenção material familiar faz parte de minha identidade como cidadão.
Minha amiga e companheira de Scenarium — Roseli Pedroso — e eu, por ocasião de REALidade, meu primeiro livro.
2017
A identidade mais importante e a que mais demorei para assumir foi a de escritor. Principalmente por respeitar demais esse título. Escrevo desde os meus 8 ou 9 anos. Com o tempo, o amor pela palavra foi crescente. E continuo cada vez mais fascinado pela criação de realidades. Foi e é o que me define como pessoa. Porém, apenas recentemente saí do armário. E muito se deve à Scenarium, onde comecei a ser chamado como autor por sua mentora, Lunna. Ter um livro publicado foi apenas a coroação de uma atividade que dá a mim a oportunidade de expressar e documentar minha visão de mundo. Hoje, consigo dizer sem corar (muito): eu sou um escritor!