Papo Reto

Marginal Pinheiros

há um padrão no caos
revela que nós
paulistanos de fora ou daqui
somos repetitivos – erguemos nossas casas
em imperfeitas linhas retas 
elevamos a nossa imaginação do chão
em reta sobre reta
teto sobre teto
sempre mais alto
sempre mais raso
mais do que seria conveniente
vemos ejacular por alguma antena de aço
a simetria em distonia
e a cor intrometida
em berros pecaminosos
o elemento humano constitui a exceção
à regra – o caminho é um papo reto
a quadratura descobriu
por estas paragens
a sua cidadela.

Elevados na região central em direção ao Leste

atravessar pontes
em tempos nebulosos
atravessar tempos
em pontes tortuosas
atravessar pontempos…

Taquara*

taquara.jpg

A voltar da academia, ao passar por uma rua próxima de casa, ouvi o seguinte bordão apregoado pelo alto-falante de um pequeno caminhão: “Temos bambu! Bambu para varal! Dois Reais cada um! Trocamos também por Tele-Senas vencidas ou baterias de carro usadas!”…

Passei pelo caminhãozinho. Na carroceria constavam parrudos bambus, uns vinte, de quatro metros cada, pelo menos. Há muito tempo que não via esse tipo de material, um dos mais ecléticos que existe. Ainda mais aqui, em São Paulo, mesmo sendo este, um bairro de periferia.

Senti vontade de comprar pelo menos uma vara de bambu, que eu não sei em que poderia usar, mas pelo menos ficaria em algum canto do jardim, como um exemplar raro de um tempo que passou…

Lembrei-me das taquaras de bambu que eu usava em minha meninice para várias finalidades, da confecção de pipas a cercas e, obviamente, varais. Houve tempo em que a maior parte dos paulistanos vivia em casas térreas e qualquer casa tinha quintal. Erguíamos a corda do varal em um ponto central para que recebesse uma maior incidência dos raios solares. Quando havia brisa, quaisquer lençóis transformavam-se em bandeiras brancas e coloridas, verdadeiras alegorias da liberdade.

Em tempo, Sílvio Caldas compôs uma das mais belas canções da nossa música, chamada “Chão de Estrelas”. A letra toda é um primor. Em certo trecho, ele cita:

“Nossas roupas comuns dependuradas
Na corda qual bandeiras agitadas
Pareciam um estranho festival
Festa dos nossos trapos coloridos
A mostrar que nos morros mal vestidos
É sempre feriado nacional”…

Eram outros tempos, de varais, de quintais, de morros pacíficos e não apenas “pacificados”… Será que a taquara ainda está a R$ 2,00? Provavelmente, não. Não são apenas as nossas referências numéricas que se movem na memória…

*Texto de 2015