Projeto Fotográfico 6 On 6 / Atos / Abraços

Este texto e imagens também são uma homenagem à minha mãe.

É a respeito dum ato prosaico, do dia a dia, feito tantas vezes inconscientemente, poucas vezes repetido por mim ao longo de muitos anos abraçar. Quando novo, eu vivia uma relação tumultuada com os meus pais, no meio da guerra constante entre eles. Isso a tal ponto me influenciou que havia decidido me abster de não seguir a trama do enredo da maioria das pessoas me casar, ter filhos ampliar a família para além da que já tinha, tão cheia de conflitos. Levado a um beco sem aparente saída no meu caminho de me afastar do contato humano mais íntimo, mudei de ideia e consegui vencer essa barreira através de minha companheira e filhas. Voltei a exercer um ato que só empreendia na infância, com a minha mãe. Expressão de amor, também voltei a abraçá-la e abraçar às outras pessoas, aceitando-as. Ainda é difícil aceitar a mim mesmo, mas acho que até o último dos meus dias, eu chegarei lá…

Nascida a 6 de julho de 1932, Dona Madalena faria hoje 89 anos.

Pelas expressões que carrego nos registros de pequeno e pela lembrança que eu tenho até ter feito uma das minhas “viradas” de personalidade/comportamento, fui uma criança feliz. Naturalmente, eu não sabia disso. É comum, apenas depois do contraste revelado por experiências pessoais, que descubramos que o ouro sempre esteve à flor do chão. Quase 50 anos separam as imagens desses abraços. A mais recente ocorreu perto do passamento de minha mãe, em 2010.

Nesta imagem de 2016, em um domingo em que eu aniversariava, o meu presente foi ter presente a minha família reunida junto a mim, algo cada vez mais raro, já naquela época, em que as “minhas” meninas começavam a ter vidas autônomas da familiar. Pois não criamos as “nossas” crianças para que assim sejam, delas mesmas?

Em 2015, comecei a ser publicado pela Scenarium Plural Livros Artesanais. Um dos lançamentos foi o projeto dos 7 (Pecados Capitais), com irmãos de letras. Então, começava a abraçar não apenas pessoas, mas a escrita como caminho irreversível a ser trilhado. E novas pessoas para abraçar vieram junto com o prazer (e a dor) de escrever. O bom filho a escrita volta…

Em 2010, no último dia de aula prática de Ginástica Artística, há este registro de congraçamento entre os estudantes. Eu, um deles, que voltei a ser depois de velho, me sentia bastante à vontade entre os (bem) mais jovens, renovado por contatos que mantenho até hoje, mesmo que alguns ocorra apenas por redes sociais.

Luiz Coutinho, à esquerda e Marineide, ao centro da imagem

Falando em redes sociais, ela acabou por gerar contatos virtuais que geraram abraços presenciais. Tive o prazer de encontrar amigos especiais que enriqueceram a minha vida de várias maneiras, como o Luiz Coutinho. No caso da amiga Marineide, cremos firmemente que foi, na verdade, um reencontro de outras vidas, depois de termos sido deixados na Terra pela Nave Mãe.

Registro de um dos últimos eventos realizado antes do advento da Pandemia de Covid-19, no final de fevereiro de 2020

Outra família que formei ao longo dos anos foi no trabalho. Várias das pessoas nesta imagem foram e são importantes na formação de minha personalidade mais abrangente em termos de desenvolvimento emocional e profissional. É apenas representativa de um círculo bem maior de relacionamentos que, acredito, nunca são por acaso, como tudo na vida, aliás. Com a Pandemia, o meu métier foi um dos que mais sofreram porque lida justamente com o congraçamento, a alegria, a festa, o abraço um ato que muitos deixaram de exercer por ser estranhamente quase mortal. Muito mais estranho são os tempos que vivemos, intencionalmente ampliado por vontade e (maus) atos de alguns.

Também participam:

Lunna Guedes / Mariana Gouveia / Darlene Regina

Notícia Velha*

Praia Grande, São Paulo, em 20 de Julho de 2020

Estamos envolvidos no enredo da Pandemia desde meados de março de 2020. Essa marcação seria desnecessária, se o eventual leitor deste texto estiver no Presente. Porém, quem estiver correndo os olhos por estas palavras no Futuro, estará em seu presente sem uma doença que afligiu a população de todos os países, com dolorosas perdas pessoais, sociais, depressão econômica e instabilidade política. Estabelecido o “quando”, cumpre dizer “onde”. Estou no Brasil (ou estive) e talvez quem me leia repercutirá o que leu no meu hipotético futuro em que estarei fora deste território ou, fortuitamente, fora desta dimensão.

Estou no meu Passado alguns dias fora de São Paulo, em Cidade Ocian, na Praia Grande, no litoral que, com o tempo, ganhou o nome de Litoral Santista, por influência da cidade mais importante da região. Quanto ao tempo, me refiro à importância que este local representa em minha história pessoal. É como se o que experimentei aqui tenha sido tão forte que retorno às vivências ensolaradas e delas me alimente no Presente, mesmo neste dia frio de julho. Aproveito o tempo para ler, escrever e fazer exercícios localizados (músculos superiores), ciclismo e caminhada. Estes últimos, com o uso de máscara, atento que estou ao contato com os aerossóis. 

Você, do Futuro, que talvez não esteja entendendo ao que estou me referindo, saiba que o contágio pelo Novocoronavírus podia ocorrer de variadas maneiras pelo ar, no contato com objetos infectados (infimamente) e, principalmente, no contato físico próximo (sem o uso de máscara). A depender do futuro que esteja vivendo, o uso de roupas impermeáveis ou objetos similares já é uma realidade para uma parcela da população, a se considerar que as diferenças sociais não terão sido superadas, como é, aliás, característica intimamente ligada às sociedades humanas, permanentemente.

De certe maneira, o que na Índia milenar tornou-se o padrão na formação de sua sociedade a divisão em castas foi reproduzida pelas sociedades modernas, principalmente nas Capitalistas de forma mais premente, mas também naquelas que buscou adotar o Socialismo como caminho. Eu deverei morrer sem ver alguma mudança para melhor no meu País com relação a essa questão. Não ajudou em nada a eleição de um sujeito despreparado, sub-reptício e claramente propenso a não cuidar da sua nação em que existe, na verdade, a vontade de radicalizar as diferenças.

Incisivamente, percebo que no segundo ano de seu mandato, o Ignominioso investe no quanto pior, melhor. Desconfio que as falas toscas que caga por sua boca visa provocar a situação em que ele se sente mais à vontade a desorganização, a mentira e o engano a confusão, enfim. Mas não apenas por palavras, mas também com ações, o Ignominioso busca aplicar exatamente o plano que alardeou na campanha o desmonte de todo o sistema de suporte à população em estado vulnerável, a invasão da Amazônia por motosserras e a liberação indiscriminada de garimpos nas reservas indígenas. A chegada da Pandemia de Covid-19 para ele foi praticamente um bônus que aliviou o caixa do INSS no pagamento de muitas aposentadorias com o “cancelamento de CPFs” (numa expressão comum entre os milicianos como ele) em massa de idosos.  

Há a chance da chegada da vacina antes do previsto, até o final de 2020. Se pudermos manter o distanciamento social, o uso constante de máscara (apesar do capitão de milícias a tê-la como símbolo de oposição à sua diretiva) e álcool em gel regularmente, nós poderemos iniciar uma vacinação no início de 2021. O que me preocupa é que a capacidade de produção mundial de imunizantes é de dois bilhões por ano. Seria importante haver a aquisição o maior número de doses possível para que, com o tempo, possamos atingir a imunidade vacinal em vez da tese ridícula de imunidade de rebanho por contágio propalada pelo Governo Federal, o que levaria a centenas de milhares de mortos.

Sozinho, refugiado na casa da praia, sem poder ir às águas do mar que tanto amo, mesmo neste frio de inverno, fico a viver um humor pendular ao sabor das notícias cada vez piores que prevê que cheguemos a incríveis 90.000 mortos até o final do mês. Estamos sem ministro da Saúde e não sei que pessoa séria assumiria a pasta neste governo inoperante e sinistramente adepto de uma política negacionista que poderá levar o Brasil a um estado de indigência planetária.

*Texto de 20 de julho de 2020, que deixei de lado por achar cansativo ao repisar assuntos repetitivos. Quase um ano depois, não perdeu a atualidade. É como se estivéssemos presos num Limbo.

Mamãe*

Dona Maria Madalena, Ingrid (uma das minhas três filhas) e eu, em 1997

Em 12 de maio de 2019 mais um dia comemorativo dedicado às mães eu tentava lidar com as minhas precariedades e escrever me ajudava bastante a segurar a barra, ao identificá-las. Um ano antes de estarmos envoltos na Pandemia de Covid-19, estava a caminho de um evento em que haveria aglomeração de pessoas, festa e alegria coisa de outra vida e tento expressar o amor que pouco consegui revelar enquanto a minha mãe estava presente fisicamente.

“Estou sozinho, um pouco antes de estar rodeado de muita gente. Mas, a bem da verdade, sempre estou só. Por uma dessas coisas que não consigo evitar, não me distancio muito de mim, na maior parte do tempo. Quando consigo, fico aliviado e sofro… muito. Porque tudo e todos ganham gravidade e peso. Ou o excesso de peso é diretamente um efeito da gravidade de ser, multiplicada milhares de vezes.

Então, me sinto como se fosse ser esmagado. Tento superar, porém ao ser bombardeado pelos votos, disparados a torto e direito, de “Feliz Dia das Mães!” remeto meu olhar diretamente às mães que amam os filhos, apesar de tudo. Porque há mães que sequer gostam de seus filhos, como há filhos que não gostam de suas mães, quando as conhecem ou porque as conhecem. Ou que gostam muito, contudo não dão o braço a torcer declarando, simplesmente: ‘Mãe, eu amo tanto você!’

Tenham certeza não há presente mais caro e raro que valha tanto quanto se mostrar presente com todo o amor que seja possível declarar. Eu, de minha sorte, não perderei essa oportunidade: ‘Eu a amo, Maria Magdalena Nuñez Blanco Y Prieto Ortega… para sempre!’…”.

*Texto de 2019

Maria Madalena

Mãe!… Mãe?…
Oi, filho!…
Oi, mãe! Como vai a senhora?
Eu me sinto plena, meu filho!
Que bom, mãe!
Por que me chamou pessoalmente?… Não sabe que estou sempre com você?
Sim! Eu a sinto o tempo todo comigo… Sabe que é… Estou vendo todo mundo postar coisas bonitas sobre as suas mães… Quis participar…
Não precisa, meu filho! Eu sei do seu amor por mim!… Não seria vaidade de sua parte?… Por se autodenominar escritor?
Pensei nisso… Por isso, pensei em não postar nada… Mas, para ser sincero, senti uma imensa necessidade de fazê-lo… Então, quis colocar algo que fosse seu, uma palavra ou uma frase sua…
Tem certeza que quer mesmo, menino?… Talvez você não goste tanto do que eu venha a dizer…
Sério? Apenas tenho seguido o meu coração, mãe… Quando eu erro, erro por amor, tanto quanto a senhora, quando estava presente fisicamente…
O que eu aprendi vivendo do outro lado da vida é que somos seres errantes e errôneos, na maior parte das vezes… Mas errar por amor é o melhor motivo, melhor do que qualquer outro…
Que lindo, mãe!… me sinto melhor…
Mas, isso não é tudo, querido… Você me pediu uma palavra, talvez um conselho e vou lhe dar…
Sim, Dona Madalena…
Perdoe!… Perdoe e se perdoe, do fundo do seu coração!

BEDA / Varejão*

Domingo, na minha região, é dia de Varejão — uma feira de proporções aumentadas, talvez duas ou três vezes maior que uma feira comum. É uma feira popular, a qual não gosto de frequentar. Não porque seja popular, mas porque não ache que seja tão compensatória em termos de preço, lotada demais e, principalmente, por sua desorganização… Ou, melhor dizendo, por sua organização peculiar, mormente devido a uma característica do brasileiro — o seu caminhar “criativo”. Adivinho que seja porque as pessoas, ainda que estejam em público, agem como se estivessem em casa, sozinhas.

Talvez por uma compensação do meu pensamento errante, sou uma pessoa com características cartesianas em minha mecânica de atuação no mundo. Para mim, fica quase impossível adivinhar para onde vai cada um que passa por mim, visto que as mudanças de direção são imprevisíveis, tanto de quem vem pela frente, quanto de quem vem por trás… ou de um lado e de outro… É comum ter que parar algumas vezes até perceber que sentido seguem aqueles que vêm ou que vão.

No entanto, hoje tive que passar por perto para comprar remédios na farmácia para nós, humanos, e para os bichinhos, na Dinossauro (loja de produtos para animais). Sofri um tanto para percorrer algumas dezenas de metros, porém colhi, em meio ao burburinho, uma frase dita por um dos transeuntes: “Amanhã, se eu ganhar, já ‘recebo’ na hora”… Para além do erro do tempo verbal, percebi outra característica típica do brasileiro — a de viver de esperança. Mesmo quando não sabe ao certo se ganhará (no jogo?, no trabalho?), já supõe que receberá (“recebe”) no mesmo instante.

Sem esperança, o brasileiro não sobreviveria. É um ser que não consegue perceber que o futuro se faz no presente. Assim como o nosso presente foi construído no passado. O que me leva a versar sobre outra característica que me impede de frequentar o Varejão de rua de domingo: a “Feirinha do Rolo”, um apêndice daquela. Ela se estende por, pelo menos, um quilômetro na transversal. Esse tipo de comércio de escambo já existe há algum tempo, mas há uns dois anos tem se tornado cada vez mais robusta. Nela, são comercializados produtos usados, muitos de origem duvidosa. Outros, são objetos que as pessoas têm em casa e vendem para conseguir alguma grana em uma época de precariedade — televisores, rádios, pequenos móveis, panelas, roupas, etc.

Fico a conjecturar… Este é o futuro que estamos construindo para o nosso País?


*Texto de 2016. Constante de REALidade, lançado no mesmo ano, pela Scenarium Plural — Livros Artesanais. Hoje, a Feirinha do Rolo mudou de lugar e espichou o rabo, talvez mais uns quinhentos metros… Logo, como a situação econômica está a piorar, esse monstro tenderá a nos engolir…

Roseli Pedroso / Lunna Guedes / Mariana Gouveia
/ Adriana Aneli / Alê Helga / Claudia Leonardi