Projeto 52 Missivas / Eu Me Lembrei De Você, Em Mim / Memória De Sonhos Não Realizados

Dias desses, eu me lembrei de você, em mim… Mentira, eu lembro de você, de mim, de nós, todos os dias. E sabe o que é mais estranho?… Tenho saudade de nossos sonhos não realizados. Viveríamos à beira do mar, teríamos uma vida simples, criaríamos os nossos filhos, fossem eles adotados ou não. Formaríamos um vínculo eterno no tempo terrestre e além. Quando estava com você, sentia vontade de cantar. Músicas de Alceu Valença nos representavam. Lembra quando a conheci, numa tarde junto ao mar? Você olhava para o horizonte e quando cruzei com você, vi o azul do céu e do mar em seus olhos. Sem querer, falei baixinho ou apenas pensei, não sei: “la belle de jour…”. Você parece ter ouvido, sorriu e respondeu: “adoro essa música!”… Fiquei enrubescido… Você sorriu mais ainda: “você ficou vermelho! Que gracinha!”… E começamos a conversar. Percebi que seus olhos eram, na verdade, castanhos esverdeados, às vezes mais claros, às vezes menos, e que tinha a capacidade de resplandecer o sol, fundir o azul do céu e do mar, o verde da vegetação, avermelhar-se com os últimos raios do entardecer, como descobri ao ficarmos sentados em uma pedra, conversando, até anoitecer… Quando voltamos a nos encontrar, lhe cantei “Anunciação” porque a letra fazia todo o sentido. Na mesa do restaurante, eu me voltei assim que entrou pela porta. Brinquei: “eu escutei os seus sinais…” / “Sou tão barulhenta assim?” / “Não! O meu coração bateu tão forte que cheguei a ouvi-lo…”. Seus olhos furta-cores se expandiram e você me beijou. Ficamos juntos por maravilhosos dois anos, fazendo planos para o futuro, cantando músicas do Alceu, assistindo aos seus shows, saindo pela noite cantando “mar e sol… gira, gira, gira, gira, girassol…”, flores que teríamos no jardim de nossa casa à beira-mar, com as nossas roupas quarando no varal. Até que… algo aconteceu. Você parece ter despertado do nosso sonho. E disse que ele havia acabado. Simples assim… Não quis explicar, talvez não quisesse me magoar por dizer que não gostava mais de mim. Ou que se apaixonara por outro. Eu devia ter escutado as mensagens enviadas por seus olhares, ainda que a boca não se pronunciasse. Eles começaram a ficar nublados como a estação chuvosa. Mas do que valeria? A dor seria a mesma. Sei que tudo passou. Prefiro que seja assim. Será um sonho eterno, realizado somente em minha mente. Guardarei o seu olhar-sorriso-ladrão-de-corações em minha lembrança. Aquele sorriso que foi só para mim, aquelas cores que foram só minhas… Adeus, meu sonho!

Imagem: Foto por Karolina Grabowska em Pexels.com

Participam:
Mariana Gouveia
Lunna Guedes

B.E.D.A. / Romaria

Interpretação de Romaria por Elis Regina, no show Transversal do Tempo, gravado ao vivo em 1978.

Eu tive a oportunidade de ouvir Romaria em sua primeira audição e senti uma comoção tão grande, que me vi na pele daquele romeiro da canção de Renato Teixeira. Foi por ocasião de um programa radiofônico da Jovem Pan*, chamado O Fino da Música, de 1977, interpretada por Elis Regina, que já era a minha cantora favorita, então. Foi uma verdadeira comunhão.

Quase ao final da apresentação, ao ressoar retumbante de um prato, no belo arranjo de César Camargo Mariano, já não podia controlar a minha emoção e verti algumas lágrimas sentidas. Assim, desbragadamente. Ali, também estava eu, ajoelhado e, da mesma forma não sabendo rezar, tentava enternecer a Santa mostrando o “meu olhar, meu olhar, meu olhar”… Aliás, comecei a me envolver logo aos primeiros acordes: “É de sonho de pó, o destino de um só…” — em crescente comoção. Talvez fosse um sinal da mudança de sentido que se prenunciava — de minha postura abertamente cética à transcendência espiritual como visão de vida…

Elis cantou várias canções que embalaram a minha imaginação e me fizeram compreender o quanto a música pode transcender o fato de ser muito mais que composições de frequências vibratórias que mexem com a nossa estrutura física. As músicas também carregam mensagens que nos elevam a alma, que nos fazem transbordar sentimentos profundos ou emoções rasas. Muitas nos arrastam para o prazer ou para a dor sentida-imaginada, alcançando, enfim, os recônditos mais discretos de nosso ser.

Vinte e cinco anos após esse momento, mais ou menos, tive o imenso prazer de sonorizar uma apresentação do próprio Renato Teixeira em um show, no qual ele mesmo cantou Romaria. Na primeira ocasião, ele fazia a segunda voz no refrão — “Sou caipira Pirapora, Senhora de Aparecida…” — na composição que o elevou como compositor ao primeiro time da MPB pela voz da Elis. Ah, as voltas que o mundo dá, nesta eterna Romaria que vivemos…

Com a morte de Elis em 1982, criou-se um vácuo no lançamento de novos nomes na MPB. Apenas alguns compositores, em comparação ao período em que ela esteve viva, conseguiram emergir do anonimato. Por algum tempo, eu cheguei a ter raiva dela por ter morrido tão estupidamente. Hoje, sabemos que estava depressiva há tempos e nós, seus admiradores, não conseguíamos perceber sua condição. Só nos resta a saudade…

*Durante alguns anos, desde os 8 ou 9 até os 13 ou 14, eu tive um radinho de pilha japonês, com o qual ouvia programas de rádio aos finais de semana e durante a semana, logo de manhã e antes de dormir. A programação preferida se dividia entre a esportiva e a musical. Minha emissora favorita era a Rádio Panamericana AM, de São Paulo. No esporte, ouvia as narrações de Osmar Santos e Edemar Annuseck, com comentários de Orlando Duarte e Cláudio Carsughi; reportagens de Cândido Garcia e Fausto Silva (o hoje famoso apresentador dominical), além de outros nomes. O Show de Rádio, com os tipos criados por Estevam Bourroul Sangirardi e interpretados por ele e vários outros humoristas, como Serginho Leite. Na programação musical, aprendi muito com Zuza Homem de Mello e vibrei com o Fino da Música — shows com a participação de grandes nomes da MPB. Depois de cinquenta anos, o alinhamento da emissora com o atual (des)governo fez com que eu me afastasse de sua audiência. Um rompimento doloroso, porém necessário.

Participam do B.E.D.A.:
Cláudia Leonardi
Darlene Regina
Lunna Guedes
Roseli Pedroso
Adriana Aneli
Mariana Gouveia

B.E.D.A. / Cão Perdido No Espaço*

Laika, primeiro terráqueo vivo a ir para o Espaço, em 1967, pelas mãos do homem.

Quando ela se foi,
silenciosa feito um raio sem trovão —
Oyá calada — comecei a cheirar o chão
pelo qual ela teria passado…

Em busca de seu cheiro —
cão perdigueiro —
perdi meu dom,
me perdi…
Fiquei sem casa,
sem dona,
sem domínio
sobre o meu caminho
de perseguidor de seu odor.

Todas as noites,
uivava para as luas
presas aos postes das ruas,
tentando alcançar as estrelas
de seu corpo,
os cometas em seus cabelos,
os asteroides de seu olhar…

Cercado de escuridão,
senti-me como Layka
só na imensidão infinita —
corpo encapsulado,
sem elo
com a Terra de onde provinha,
a não ser pela gravidade
que a ela me prendia…

Sonhei que pela poderosa atração
de seu corpo,
reentrava na atmosfera
em que ela respirava — invasão
em forma de fogo
e risco de luz — pedaço de metal
incandescente
a penetrar na pele da amada… 
Saudade que se apagava
em choque e explosão,
amor e paixão… 

A energia e o ar de meu módulo
aos poucos se esvai…
Por meus pelos,
o calor se retira da pele,
começo a sentir o frio a me invadir,
até que o frio se torna meu,
antes que deixe de respirar…
Ser sem vigor, aberta sorte,
circulo pelo Espaço a conhecer
o belo mistério da morte…

*Em 3 de novembro de 1957, um mês após a missão do Sputnik 1, os soviéticos mandaram o primeiro ser vivo ao espaço: a cadela Laika. O Sputnik 2 deu 2.570 voltas à Terra e ficou 162 dias em órbita. Queimou-se ao tocar na atmosfera terrestre em 14 de Abril de 1958.

Participam do B.E.D.A.:

Roseli Pedroso / Lunna Guedes / Claudia Leonardi / Darlene Regina / Mariana Gouveia / Adriana Aneli

Os Mil Olhos Da Saudade

As janelas me veem passar…
Sou aquele ser noturno
no momento soturno
da mudança de turno
dos fantasmas do Centro…
Na única sacada que se destaca,
a saudade me saúda…
Sou fulminado por seu olhar,
tão luminoso quanto mil janelas abertas
a me observar…

BEDA / Vitamina De Abacate*

Eu senti necessidade, por algum motivo talvez saudade em relatar o que relatarei a seguir, neste dia da Invenção do Brasil.

Terminei o meu domingo tomando uma vitamina de abacate com pão preto integral. Não pude deixar de me emocionar com a lembrança dos tempos em que, em algumas ocasiões, a minha mãe nos dizia, a mim e aos meus irmãos, que naquele dia ela faria vitamina de abacate, apanhado do abacateiro no quintal, misturado a leite (reconstituído com soja) e açúcar cristal, acompanhado de pão amanhecido. Não sei quanto aos meus irmãos, Humberto e Marisol, mas eu ficava totalmente feliz com a notícia. Adorava molhar o pão na vitamina e mordê-lo amolecido dessa forma. Achava aquilo a melhor refeição antes de dormir ou, mesmo, em qualquer hora do dia. Anos mais tarde, vim a saber que aquela era a única coisa que tínhamos para comer e, por isso, a minha mãe usava da estratégia de parecer que era apenas uma variação do cardápio.

Eram tempos difíceis para a nossa família. O meu pai tinha ideias muito próprias e não gostava de ser dependente da família de minha mãe e decidiu mudar-se, junto com mulher e filhos, para a Vila Nova Cachoeirinha, na periferia norte de São Paulo, um lugar distante do centro onde inicialmente morávamos e muito mais distante ainda da Penha, na Zona Leste, onde morávamos um tempo antes. O meu pai era um idealista, um ativista de esquerda e a minha mãe o amava a ponto segui-lo para onde fosse, como quando o seguiu até a Argentina, onde se refugiou da perseguição do aparelho de repressão da Ditadura Militar.

Na antiga fazenda recém loteada onde foi construída a casa sem reboco e cercada por uma cerca viva de “bucha”, que era devorada eventualmente por cavalos, tínhamos que puxar água do poço, já que não havia água encanada. Como também não tínhamos chuveiro elétrico nos primeiros anos, esquentávamos a água do banho em uma grande tina de metal na laje, com a luz do sol no verão e à lenha, no inverno.

Quando o meu pai foi preso, durante algum tempo, os nossos sábados e domingos eram preenchidos em procurá-lo pelos quartéis. Ela nos levava com a nossa melhor roupa e ficávamos esperando receber alguma notícia das autoridades. Tenho certeza de que, graças a isso, o meu pai não foi mais um na lista de desaparecidos. Durante a sua estadia nas dependências dos porões do DOI-CODI, ele foi torturado seguidamente para fazê-lo delatar supostos planos dos grupos armados. Quando saiu da prisão, evitava ficar muito tempo em casa, mudando de localização sempre que podia.

As vitaminas de abacate com pão pertencem a esse tempo, bem como esperar as galinhas botarem alguns ovos para termos uma refeição um pouco mais rica. Apesar de todos os percalços, me lembro com saudade de uma época que cantava o Hino Nacional com orgulho, um pouco antes de entramos em aula, com a mão direita no peito. Desenhava com entusiasmo a Bandeira Nacional. Amava o meu País e nunca imaginava deixá-lo. O meu pai dizia que quando a “Revolução” comandada pela “Vanguarda” vencesse, eu estudaria na União Soviética e aquilo me revoltava. Como poderia deixar o lugar que amava tanto, se nem de frio eu gostava?

Hoje, eu sei que esse amor não foi correspondido…

*Texto de 2013, quando percebia que a corrupção endêmica grassava na sociedade brasileira. Nunca pensei que pudesse piorar. Estava enganado. Atualmente, além da crise ética, temos um governo que inviabiliza os ganhos sociais adquiridos, além de adotar um projeto de desmonte institucional e ataque direto à população mais carente, o que se assemelha muito a um genocídio.

Adriana Aneli / Alê Helga / Claudia Leonardi / Darlene Regina
/ Lunna Guedes / Mariana Gouveia / Roseli Pedroso