BEDA / Scenarium / Eu Amo Você!

Muro 1

                      

Eu prefiro o toque…
Mas eis que o tato
é o mais vetado dos sentidos…
Eu prefiro a boca…
para falar, também…
Quando podemos ser mal
(ou bem) interpretados…
Eu prefiro que bailemos juntos –
uma dança proibida
por doutrinas
que preferem corpos em desunião…
Eu prefiro amar…
E escrever…
E escrever sobre o amor,
ainda que desdenhem da paixão
pela palavra…
Contudo,
depois que o mundo acabar,
e o amor se for conosco,
resistirá escrito no muro,
em algum lugar da cidade:
EU AMO VOCÊ!

                           

B.E.D.A. — Blog Every Day August

Adriana Aneli — Claudia Leonardi — Darlene Regina — Mariana Gouveia —

Lunna Guedes

Projeto Fotográfico – 6 On 6 / Cores

1. Cor do amor

Em casa, moram conosco seis cães. Cinco, em tempo integral – Domitila, Dominic, Bethânia, Bambino, Arya e Lolla, a visitante constante. Como característica comum, o fato de terem sido resgatados, exceto a Dominic, filha da Domitila, nascida em casa. Outra particularidade é a cor predominante de seus pelos: o caramelo. Quatro dos seis cães se situam nessa gradação. Aparentemente, essa é a cor de grande parte dos cachorros de rua, segundo um levantamento realizado. Em uma pesquisa rápida e informal, feita por mim mesmo, através de observação, confirmei o fato. Junto com o caramelo, a cor preta se faz bastante presente. Certa vez, li um artigo que informava que muitos cães pretos eram abandonados por seus cuidadores, pois “não saíam bem nas fotos”. A nossa preta, Penélope, faleceu depois de 14 anos de uma intensa convivência amorosa. Eventualmente, poderá haver uma explicação adaptativa. Amor não ter cor, mas cores. O caramelo talvez seja a cor matriz do mesclado cachorro de rua brasileiro – a cor comum do abandono… e do amor.

CORES (7)

 

2. Cor caseira

Na periferia, a cor que se sobressai é a vermelha – cor de tijolos expostos – além do cinza-massa-corrida. A predileção por qualquer cor fica em segundo plano, por questões econômicas. O mais comum é o habitante da periferia não pintar suas fachadas, mas cobrir suas fachadas de cerâmica de cores neutras, de custo-benefício mais efetivo, principalmente por causa dos pichadores. Quando encontramos casas que as pinturas externas explodem em cores, é uma visão sempre agradável.  A imagem acima exibe um conjunto de casas antigas em aquarela. Não fica na extremidade da cidade, mas na região central. Quanto a mim, a depender da incidência da luz, além da cobertura verde que me rodeia, posso dizer que moro no azul.

CORES (6)

 

3. Cor paulistana

Se há uma cor que poderia expressar a cara de Sampa, essa é o cinza. Em dias nublados, horizonte, céu e chão asfaltado se confundem em uma amálgama que traduz nossas emoções de transeuntes presos no trânsito dos sentimentos movidos a combustão. O ir e vir monocromático entranha-se em nossa perspectiva e nos tornamos alegremente cinzentos, pontuados por uma plena sensação de conforto no caos.

CORES (5)

 

4. Cores crepusculares

Quando o sol se inclina no horizonte, a sua luz incide sobre nuvens, águas, cidades, casas, coisas e corpos, a produzir expressões multicoloridas da palheta do pintor crepuscular. O entardecer guarda a melhor imagem do dia cumprido e a expectativa da noite que se avizinha, acolhedora. Eu tenho por mim que se há felicidade, ela se afigura nessa hora: vou embora em tarde ser feliz!

CORES (4)

 

5. Cor da noite

A noite perdeu a cor original nas grandes cidades. O belo negro da tessitura noturna onde pontuam as estrelas e a Lua em céu limpo, recebe a luz indireta das luzes artificiais das metrópoles, que nos prende às suas limitações. Perdemos o mistério da penumbra – bênçãos e perigos. Basta nos afastarmos dos grandes centros, caminhar por descampados, para vislumbrarmos as possibilidades do Universo aberto à exploração de nossos olhos e mentes e a sensação de nos perdermos em nós.

CORES (1)

 

6. Cor de feira

A feira é uma festa para os olhos. As cores básicas perdem o sentido no festival vibracional em frações e frequências coloridas. O vermelho não é só vermelho, mas vermelho-tomate, vermelho-cereja, vermelho-pimenta. O verde não é apenas verde, mas verde-limão, verde-abacate, verde-alface. A abóbora cobre a abóbora, a cenoura, o pêssego. Maracujás, mangas, mamões, tangerinas e laranjas se vestem de… laranja. Os roxos decoram cebolas, beterrabas, figos e, profundamente, a tez quase negra da jabuticaba. Outras cores, que variam do branco ao cinza, atendendo todas as gradações do espectro luminoso, dançam diante de nossos olhos, ao som dos pregões e bordões enviados pelos feirantes. Os sabores se adivinham de doces a ácidos, de fracos a fortes. As formas seduzem em curvas das mais suaves a mais rudes e ásperas ao toque. Os odores se misturam e ultrapassam os limites de cada barraca, entre intensos e abatidos, terrenos. Vitais, todas as feiras são verdadeiros festivais dos sentidos.

CORES (2)

 

Darlene Regina — Isabelle Brum — Lucas Buchinger
Mariana Gouveia — Lunna Guedes

BEDA / Pescador

PESCADOR

Estou junto ao mar, na praia, em veraneio. Estou retirado do resto da família, a terminar o projeto do meu livro de crônicas¹ que deverá ser lançado pela Scenarium, em março². Cheguei cedo, antes do aumento do movimento prometido para este sábado de sol. À beira d’água, pescadores amadores ainda posicionam as suas varas antes da maior afluência de banhistas.

Pouco a pouco, a areia vem a ser ocupada por coloridos guarda-sóis e brancas tendas, erguidas por turistas de tez coloridas, constituídas por vários tons de branco (como o branco-escritório, por exemplo) e outras colorações.

À minha frente, um alegre grupo de senhoras jovens há mais tempo fazem uma inaudita algazarra. Parecem meninas a sacanear umas às outras o tempo todo. “Olha o salva-vidas! Que lindo! Vem me salvar meu bem! Quero respiração boca a boca!” – Todas riem…

Um pouco mais à direita, duas pequenas gêmeas, de presumíveis três anos de idade, reagem quase ao mesmo tempo e do mesmo modo aos mesmos estímulos. Ao ouvirem as músicas que vem do palco onde se apresentam instrutores de dança, fazem a coreografia em simetria. Gritam em uníssono ao verem os super-heróis: “Olha o Batman! O Homem-de-Ferro! O Homem-Aranha!” – Não sei se perceberam que não são os originais, muito diferentes em tamanhos e formas físicas daqueles. Também devem achar perfeitamente natural que estejam a vender algodão-doce. À passagem de um Batman mais parrudo, as senhoras festeiras pedem para tirar fotos com o “defensor da justiça”. Ele não vende o seu produto, mas ganha cachê por isso.

Vejo passar mais vendedores ambulantes, a pé e com carrinhos; catadores de latas de alumínios e outros a percorrerem as mesmas trilhas desenhadas por pequenos tridentes – marcas das patinhas das centenas de pombas que recolhem restos alimentares. Eu já desconfiava, mas fiz um teste. Joguei perto de mim um pequeno pedaço de maçã, justamente a parte central, que contém as sementes. O pedacinho de fruta foi ignorada solenemente por todas as pombas que se aproximaram do petisco. Tanto quanto os humanos, elas parecem preferir junk food.

Vez ou outra, passam acima da linha d’água aviões com propagandas em longas faixas. Não deixei de me perguntar se esse era o sonho do garoto que um dia queria ser aviador a se cumprir – realizar viagens de trajetos tão curtos quanto repetitivos, em uma rotina de voar em rumo certo.

A intervalos regulares, vou para a água, ao encontro às ondas, íntimo do mar, a brincar com aquele elemento. Às vezes, deito de bruços no raso, a esperar as ondas chegarem, como fazia quando tinha a idade de várias outras crianças que fazem o mesmo que eu, ao meu redor. Chego a perder a noção do tempo…

Na volta do meu penúltimo mergulho, antes do momento que escrevo esta crônica, não encontrei o meu guarda-sol e minha cadeira sob ele. Fui até a tenda-móvel do Paulo, onde tenho comprado as águas de coco e sucos que tomo eventualmente. O Arles me indicou um ponto à frente dele, para onde deslocaram o meu acampamento. Um grupo bem grande quis aportar junto a uns amigos e, dada a intimidade adquirida durante a semana que estou por aqui, trocaram a minha posição de lugar. Acostumado com situações estranhas causadas pela miopia e pelo alheamento em diversas situações, brinquei com o pessoal que quase não estranhei que não estava onde deveria estar. Estou acostumado a me sentir deslocado.

Por sorte, antes do meu translado, pude capturar mais um peixe. Quando me estirei na cadeira, com os óculos escuros no rosto, pude acalmar os meus sentidos e, excepcionalmente senti diminuir o volume da massa sonora que me açoitava por todos os lados. Atrás de mim, já havia visto um casal de namorados, quase a encostar os pés na minha sombra. Conversavam em um tom baixo, mas os meus ouvidos puderam ouvir o que diziam. Eles eram amantes (vim a saber), casados com outras pessoas. Eles me entregaram uma história quase pronta – Os Outros. Escrevi uma variação que não entrega ninguém. Ou, por outra, pode vir a entregar muitos amantes…
¹https-scenariumlivrosartesanais-wordpress-com-2017-03-10-realidade
²Escrita em Janeiro de 2017

Algo Diferente

ALGO DIFERENTE

Cartazes em muros anunciavam-perguntavam – “QUER COMER E VIVER ALGO DIFERENTE?” – a respeito de um evento em um centro de convenções e feiras. Como a palavra “ALGO” estava um tanto encoberta, na primeira vez que a li experimentei certo estranhamento. Querer viver e comer (algo) diferente tem um forte apelo a muitos insatisfeitos com a sua própria existência. Comer poderá nos transportar para tempos findos ou acrescentar sensações novidadeiras. Pelo paladar, olfato e tato, para além do simples olhar, viajamos para fora do corpo, o que se espera muito mais do que meramente viver.

Obviamente, ao se tratar de um enunciado promocional-comercial, conhecer novos sabores e viver outras possibilidades de vida devem se restringir aos limites do aceitável, devidamente controlados para que o desejo não mate o desejoso-consumidor. É o que esperamos quando vamos ao parque de diversões para voltearmos em montanhas-russas, adentramos às casas de espelhos, viajamos pelos trens-fantasmas e romanceamos em rodas-gigantes.

Após a sensação de vertigem, brincadeiras com a nossa aparência e sustos provocados pelas ameaças fictícias proporcionados pelos elementos de horror – distorção e escuridão – reinventamos o círculo da vida, saímos sorridentes e voltamos aliviados à rotina diária de nossa labuta pela sobrevivência, essa, sim, plena de situações que nos deixam verdadeiramente descompensados.

A fuga da realidade é um programa tão atraente que a arte do entretenimento a tornou um importante vertente de sua produção. Consumimos artigos aprimorados para nos distrair do comezinho dos dias e nos afastarmos de nossas limitações e precariedades. Quando travestido de arte engajada, a diversão acresce-se de um poder sedutor que aplaca nossa eventual vergonha pelas injustiças sociais por nos sentirmos bem em meio ao caos.

Estímulos exteriores-sensoriais são habilmente utilizados para despistar os nossos sentidos de estarmos onde estamos e de fazermos o que fazemos. O deslocamento de si depende da profundidade dos efeitos exteriores ou do quanto a pessoa se deixa seduzir pela experiência de deixar-se sem ir. O grande deslocamento se dá quando chegamos a acreditar que não somos quem somos.

Por outro lado, há movimentos que tentam nos colocar diante de nós mesmos, nos enfrentarmos até vencermo-nos para alcançarmos a verdadeira e fundamental mudança. Para tanto, devemos navegar contra a corrente para buscarmos o caminho da autoconsciência, o que implicará em deixarmos de dar importância a certos valores. Custará caro: abandonar o que é supérfluo. O grandioso ato de coragem – nos desnudarmos e nos darmos – nos coloca em grande perigo de extinção… do ego.

Enquanto não damos o grande passo, podemos recorrer aos joguinhos momentâneos que nos distrairão de nossa grandeza e nos farão esquecer de nossa verdadeira natureza…

Ilusionistas

Ilusionista

Normalmente, o Ilusionista atua da seguinte forma – enquanto diz que faz alguma coisa, está a agir de outra, a desviar a atenção do público que o assiste. A intenção é que seja entendido como real a mensagem que expressa. Aquilo que não é visto, naturalmente não acontece abertamente, porém surge no final como verdade, porque é um fato. O bom Ilusionista surge com um simpático manipulador e é saudado como tal, apesar da diferença entre o que anuncia e o que resulta como concreto. Nesse caso, o encantamento com o Mágico é maior e mais efetivo do que a mágica que ele pratica. É como se ele dissesse: “vou enganá-los, vocês se sentirão gratos por isso, apesar de saberem, ao final de tudo, dos truques escusos que cometi para chegar ao resultado – ainda que artifícios de poder curto”…

É preciso um talento raro e natural para levar multidões ao engano por muito tempo, mas mesmo alguns mágicos meia-boca conseguem fazer os seus números ruins e iludir quem os acolhe por algum período, mesmo porque, as pessoas pagam para serem enganadas e preferem acreditar que o crédito que depositaram no seu enganador favorito não tenha sido de todo em vão… A máscara que o Trapaceiro autoproclamado usa, se fosse possível descrever, é composta por um matéria especial, montada com pele grossa e costurada com fios dourados, brilhantes como ouro de tolo, da mesma substância usada por ele para compor a sua linguagem simples, mas direta. Mais do que a mente, chega ao coração e ilude. E faz bem ao espírito de quem o toma como um Mestre dos Magos…

Para além do auditório privado ao qual se acostumou se apresentar, o Ilusionista percebe que tanto as pequenas quanto as grandes plateias podem ser levadas à ilusão coletiva da mesma forma. Aliás, quanto maior a audiência, melhor o efeito da fantasia. Com o treino que aprimorou desde cedo o seu engenho, consegue levar adiante projetos mirabolantes, truques velhos com novas roupagens, números cada vez mais espetaculares, para o júbilo do povo que o assiste. Diante de tamanho impacto de suas ilusões, empresários artísticos buscam contratar o Ilusionista-Mor para várias apresentações, com sucesso retumbante de público. A tragédia se dá quando o palco se agiganta e se torna um País inteiro…

Por mais que esses ilusionistas se repitam ao longo da história do Show Business, o público igualmente se renova, cada vez menos exigente, por consequência do decréscimo patrocinado da erudição da assistência. As ilusões mais chinfrins ganham a marca de extraordinárias e efeitos pífios repercutem na alma dos espectadores como uma inconteste versão da vida que deve ser vivida, embora falsa. Nesse triste espetáculo de ilusionismo para as massas, perde-se a oportunidade de apreciarmos a beleza da ilusão pela ilusão, uma brincadeira com os sentidos e as emoções – uma arte graciosa que se torna ilusória. Ao tomar o que não é verídico como fato, troca-se o sentido do real e perde-se a oportunidade de se ver crescer apreciadores da verdade como bem precípuo da existência humana. O sucesso aglutina em torno de si bajuladores e seguidores e serão eles, guiados pelo Mago, que dividirão a opinião dos espectadores entre fãs e críticos. Do aplauso entusiasmado para a violência do tapa, pode se passar em um rápido movimento das mãos…