Scenarium Plural / Leituras De Um Não-Ano

Livros da Scenarium Plural — Livros Artesanais

O ano de 2020 ficará marcado com a chegada de um vírus descoberto em 2019, que espraiará a sua influência para os anos que seguirão, a começar por este 2021 que se inicia. Chamado a listar as leituras que realizei no ano passado, não consegui me lembrar totalmente dos livros que li, porque a minha atenção guinou fortemente para assuntos da atualidade em noticiários, crônicas, depoimentos, entrevistas, estudos epidemiológicos, científicos, políticos e históricos. O meu principal objetivo era entender o que estava acontecendo neste País e no mundo. A minha perspectiva pessoal foi passando por gradações que foram do espanto imponderável, que antes era apenas relativa, para uma visão absolutamente negativa do brasileiro.

Trabalhei bastante nos três primeiros dois meses e meio de 2020. Após o que fui forçado, pelas circunstâncias, a parar totalmente com qualquer atividade profissional, muito ligada ao congraçamento e às aglomerações. Tornou-se proibido, sob pena de acelerar a propagação da Covid-19, juntar muitas pessoas no mesmo ambiente para festejar ou qualquer outro motivo. Compreendi totalmente as razões e me conformei em realizar o isolamento social. Em 22 de Abril, o negacionista master protagonizou uma reunião ministerial que, em qualquer lugar do planeta, seria considerado um episódio vergonhoso em nossa História, mas que no Brasil apenas referendou, no dia de sua “descoberta”, o descortinar de uma realidade indigna.

Não apenas por questões de ordem externa, mas igualmente familiar, a minha condição mental foi se deteriorando gradativamente e, no final de 2020, comecei a ter crises de ansiedade. Percebi claramente que havia perdido o centro. No momento em que escrevo este texto, recuperei um tantinho o sentido que quero dar ao meu caminho e isso já é um alento. Externamente, a chegada da vacinação ao cotidiano do brasileiro cria novas perspectivas, principalmente quanto ao enfretamento do obscurantismo protagonizado pela parcela da população barulhenta ligada ao miliciano do Planalto Central. Ter deixado me levar de roldão pela situação que vivemos só não tiveram maiores consequências porque aproveitei para fazer cursos literários.

O meu tempo foi ficando contraditoriamente escasso, mesmo porque comecei a mexer em coisas da casa — reparos, reforma, pintura, construção — entre outras ações ligadas ao trabalho doméstico. O que antes executava prazerosamente em horas de folga, ganhou um peso inusitado ao se tornar a minha função principal. Estar sem atividade profissional, por mais que tentasse minorar como afetava o ego, me impediu de estar equilibrado para me divertir em ler sem compromissos. O que também refletiu na produção de meus próprios textos — instáveis em quantidade e qualidade. Eu, que tendia a acreditar que estar pesaroso melhorava minha escrita, comecei a duvidar disso. Mais uma fantasia que se desvanecia.

Quanto a Literatura, apesar da falta de referências às obras completas, li muitos poemas, crônicas, ensaios e contos. Assim como tantos outros autores, comecei a ler Nietsche e parei. Quis reler os “meus” clássicos, chegava a folheá-los, para logo em seguida, recolocá-los na biblioteca. Salvou-me da nulidade a participação no Clube do Livro da Scenarium, caso contrário não teria estímulo sequer para levar adiante qualquer leitura mais longa.  “Alice — Uma Voz Nas Pedras”, de Lunna Guedes; “Corredores: codinome loucura”, de Mariana Gouveia e “Receituários de Uma Expectadora”, de Roseli Pedroso, fecharam 2020 com o gosto de quero-mais quanto às leituras que farei em 2021. Até mesmo a minha “REALidade”, que será a obra analisada no próximo encontro, reavivou o gosto por ler. O interesse na minha escrita foi mantido a ferro e fogo graças aos convites-estímulos de Lunna Guedes para participações na Scenarium através das Revistas Plural e edições especiais.

O fluídico não-ano de 2020 contaminou de forma abrangente o mundo, o nosso País e a mim, íntima e pessoalmente. Como se fora a construção de uma obra ficcional com tintas de terror distópico, vi acontecer, dia a dia, o crescimento da doença da alma brasileira, para além da contaminação pelo novocoronavírus. Que essa “obra aberta” tenha afetado o meu olhar de leitor a ponto de não conseguir acompanhar página por página histórias engendradas por escritores recomendados ou por aqueles que apresentam o selo de qualidade dado pela referência de milhões de olhos é apenas mais um dos resultados ruins, ainda que menor diante dos imensos, como a mortandade por descaso de um governo ruim administrativamente, além de humanamente perverso, aliado ao comportamento dissociativo da sociedade brasileira.

A vontade que me resta é de fugir para uma ilha, carregado de muitos livros…  

Também participam deste coletivo:

Lunna Guedes — Roseli Pedroso — Mariana Gouveia — Ana Cláudia —Darlene Regina — Ale

Procurada — Morta Ou Viva

Mad Abigail

Estive em um hotel do Centro de São Paulo para a realização de um evento. Ao entrar em um dos ambientes para ir ao banheiro, encontrei pendurado em uma pilastra um quadro “decorativo” que reproduzia um folheto aparentemente original de “Procura-se” (em inglês), daqueles famosos que já vimos em filmes de Faroeste. Diferentemente dos bandidos retratados — ladrões, homicidas — do gênero masculino, estava uma mulher. Seu nome: Mad Abigail. De início, achei a quantia da recompensa alta demais — $ 6.000 (dólares) — para pegar a tal de Abigail, a Louca. Imaginei que se tratasse de uma chefe de quadrilha de assaltantes, matriarca de um bando de filhos e sobrinhos bandidos ou uma pessoa acusada de um crime hediondo, talvez uma assassina de criancinhas, sei lá…

Outro detalhe que achei interessante é que Abigail poderia ser levada às autoridades “Morta ou Viva” e não o contrário. A perigosa e louca Abigail, eventualmente para impedir sequer que fosse julgada por seu horrível crime, bem melhor seria que estivesse morta. Mesmo porque, o indefeso macho que a prendesse correria o risco de ver-se apunhalado pelas costas se se distraísse um pouco que fosse. Afinal, estava ali alguém que cometeu o maior dos pecados: o mariticídio — ela matou o marido. Se ela fez isso, seria capaz de qualquer coisa. Sendo que o uxoricídio (quando o marido mata a mulher) era não apenas aceitável, como até garantido por lei. Até pouco tempo antes, por qualquer motivo que fosse, aqui no Brasil um sujeito também era absolvido desse crime sem maiores delongas.

Tentei pesquisar sobre a tal tenebrosa figura. Se o cartaz não foi inventado, com engenho e arte, quem sabe encontrasse maiores informações. Não consegui. Na pesquisa por nome que fiz, não houve resultado. Incluí a por imagem e foram feitas referências ao bulbo da luz e ao estilo do cabelo, nada mais. Depois, percebi que de qualquer forma não encontraria a contestação da acusada. Não importa que fosse torturada, surrada, ferida, maltratada, nada justificaria matar o homem que tinha como esposo. Isso chancelaria o poder de vida e morte ou morte em vida da esposa, além de não a caracterizar como uma vítima que tenha se rebelado contra o pesado jugo do macho dominante. A melhor alternativa mesmo foi chamá-la de louca e Mad, Abigail se tornou.

Naturalmente, as circunstâncias da morte — envenenamento, arma de fogo, faca, facão, machado, paulada, empurrão de um penhasco, escada ou até morte acidental — de nada sabemos. Caso o cartaz seja fake, ainda assim não duvido que alguma mulher “enlouquecida” por maus tratos não tenha se insurgido contra seu opressor. Outra particularidade que me chamou a atenção era que se tratava de uma foto ou baseada em uma foto em que a acusada se apresentava bem arrumada, talvez uma mulher de boa posição social, citadina, não alguém que vivesse em lugar tão longínquo que os olhos da lei não alcançassem, o que daria maior liberdade de atuação para quem tivesse qualquer desvio de comportamento, ainda que a violência fosse um traço comum no desenvolvimento das sociedades humanas. Nessa circunstância, o morto poderia pertencer a uma família influente, o que justificaria o valor do prêmio. Atualizado, caso não tenha me enganado, passaria de 1 milhão de Reais.

Enfim, se uma ou muitas Mad Abigail tenham existido, esse cartaz (caso seja originalmente real) é uma prova que viria a demonstrar que uma mulher que matasse um homem e, principalmente seu marido, ainda que fosse em legítima defesa, se tornaria uma inimiga que ameaçaria o status quo de uma estrutura em que o macho deveria ser protegido contra a sanha revoltosa de uma mulher. Assim como não acontece no sentido oposto até hoje. Com certeza, Abigail era uma corajosa desvairada…

Correios & Correias*

Correios

Encomendei um produto pelo Mercado Livre e fiquei agradavelmente surpreso pela facilidade de trânsito entre as partes – o ML, como meio de venda e o produtor do item. A Internet é uma faca “de dois legumes”, como diria o filósofo Vicente Mateus, mas que bem utilizada, facilita as transações econômicas, principalmente em um mundo baseado no livre comércio, como até a China percebeu.

Contudo, todavia, mas, porém, como já cantou Rita Lee, estamos no Brasil. E estamos ainda enclausurados em feudos – coisa de Idade Média – que impedem que a Revolução Francesa traga os seus benefícios, ainda que já tenha se desenrolado há mais de duzentos anos. Vivemos em um sistema de castas e cartórios, localizados em marcos e condados. A nobreza (adquirida ou comprada) monopoliza setores inteiros no Brasil e ainda dita as normas nestes rincões.

Um desses monopólios são os Correios. O produto que solicitei foi disponibilizado dia 21, com a promessa de entrega entre 26 de outubro e 3 de novembro. Ou seja, tivemos que, aqui em casa, montar um sistema de revezamento na expectativa do recebimento do produto pago à vista. Como não havia chegado até a data prometida, rumamos para a central de distribuição da Zona Norte de Sampa, distante cerca de 12 Km da minha residência. Trabalho normalmente á noite e fui deitar às 4h30. Tive que acordar ás 8h, para poder chegar logo na abertura dos Correios, as 9h, com duas horas de funcionamento, no sábado, até às 11h.

Com o número de envio do produto em mãos, que eu soube ser necessário para quem mora onde eu moro, pude resgatar o item que comprei para incrementar o meu negócio. É um investimento para que possa melhorar o meu serviço. Durante a chamada crise, investi pesadamente em insumos para que pudesse continuar o meu trabalho, ainda que tenha que realizar um esforço triplicado para manter o mesmo nível de rendimento.

No guichê dos Correios, a funcionária, apesar de não solicitar, tinha uma desculpa na ponta da língua, quando percebeu que eu estava contrariado com aquele imbróglio. Informou que a entrega para a minha região era feita sob escolta de uma empresa de segurança. Respondi que sabia que morava em uma área de risco, que nem o Uber atendia, mas que nunca sofrera nada por lá, enquanto já fora quase assaltado no Morumbi. Ela retrucou que não era apenas isso. A escolta era necessária durante todo o percurso das mercadorias. Nesse caso, qualquer ponto do trajeto poderia ter o veículo interceptado e ter a sua carga roubada. Então, o problema deixava de ser de segurança pública em um ponto específico, mas em toda a cidade.

De qualquer forma, o fato de ser um serviço monopolizado, impede a agilidade de um setor fundamental para o incremento de negócios – pequenos, médios e grandes – a distribuição de mercadorias do produtor ao consumidor. Enquanto o crime se organiza, inclusive ocupando setores importantes da sociedade, via legislatura, judiciário e administração pública, ficamos atados por correias que emperram o nosso desenvolvimento. A sociedade está refém de um sistema que assalta por fora e por dentro. Afinal, até o Fundo de Pensões dos próprios Correios sofreu desvio de seus recursos por antigos administradores. Seus funcionários (que até outro dia estavam em greve), são obrigados a retirar uma porcentagem a mais de seus vencimentos para cobrir o rombo.

As correias, na mecânica, são cintas feitas de materiais flexíveis, normalmente camadas de lonas e borracha vulcanizada, que servem para transmitir a força e o movimento de polias ou engrenagens de um motor. No entanto, encripadas, impedem um motor de funcionar. Correios sem agilidade e correias sem função, palavras quase sinônimas, vêm a constituir alguns dos fatores do nosso atraso como País.

*Texto de 2017.

BEDA / Scenarium / Natan & Maninho

NATAN NATAN

Fui chamado para conversar com um sujeito que, a princípio, não reconheci, mas que diziam ser da família. Todos na família sempre disseram que era uma pessoa cordata, conciliadora e paciente. Mal sabiam o esforço que fazia para que não matasse metade dos meus parentes. Concordaram que apenas eu poderia resolver a enrascada que um deles se metera.

Compareci àquele local e estranhei que parecesse um tribunal. Numa bancada à frente, um homem de preto, todo solene, perguntou o meu nome e respondi claramente: Natan Natan.

— O senhor sabe o que veio fazer aqui, hoje, Sr. Natan?

— Desculpe lhe perguntar, mas quem é o senhor?

— Eu sou o Meritíssimo Juiz José Gomes.

— Sr. José, me disseram para vir conversar com alguém da minha família… que ele precisava que eu o acalmasse ou algo assim.

— Prefiro que se dirija a mim como Meritíssimo. A sua família não mentiu. Peço que o senhor converse como aquele senhor sentado ali, à minha esquerda… o reconhece?

— Claro que sim! Oh, Maninho, que está fazendo aqui?

— Ah, Natan… é você? Eu não sei o que aconteceu. Mas parece que briguei com os meus cunhados. Sabe como eles são. Começaram a gozar da minha cara. Disseram que eu era estranho e tudo mais. Mexeram nas minhas coisas. Encontraram roupas de mulher. Perguntei qual era o problema de me vestir com aquelas roupas de vez em quando. Me chamaram de traveco. Apenas porque me colocava dessa maneira fora do Carnaval, como todos eles. Só sei que chamaram a polícia depois que comecei a quebrar tudo. Os policiais chegaram me derrubando. Não me lembro de mais nada.

— Eu também não sei… Além disso, do que o Maninho está sendo acusado, Meritíssimo?

— Você não sabe mesmo, Sr. Natan?

— Não, por que saberia? Apenas me chamaram para vir aqui.

— Pois a pessoa a qual chama de Maninho matou seus dois cunhados com uma faca de cozinha, no Natal. Faz já três meses. Não se lembra?

— Caramba! Eles eram chatos, mas não mereciam morrer. Eu não estava em casa no Natal, mas viajando. Eu me ausento constantemente.

— Não se lembra mesmo de mais nada, sr. Natan?

— Não, mesmo, Meritíssimo! Como eu disse, estava ausente.

— Por mim, estou satisfeito. O senhor pode se retirar. Esses dois senhores ao seu lado vão levá-lo para outra sala, tudo bem?

— Cadê o Maninho?

— Ele já se foi, mas estará bem… Daqui a pouco voltarei a chamá-lo.

— Obrigado, Meritíssimo!

— Os dois caras, grandes como armários, me conduziram a uma sala. Só então percebi que havia um terceiro homem que me acompanhava. Vestia um terno cinza e carregava uma pasta preta. Perguntei quem era.

— Sou um advogado, Sr. Natan.

— Do Maninho?

— Sim, do Maninho. Ele matou os seus cunhados. Logo o juiz dará a sentença. Mas parece que não irá para a prisão comum. Quer dizer, ficará recluso, mas para tratamento mental. Ele foi diagnosticado com transtorno de personalidade dissociativa.

— Coitado do Maninho! Ele sempre foi esquisito! Mas matar, não acredito… eu, sim… de vez em quando sinto certos impulsos… mas me controlo.

— Melhor, Sr. Natan… Olha, estão nos chamando.

— Tá bom! Vamos ver o que se passará com o Maninho.

Caminhamos para a sala do tribunal, já imaginando a reação de Maninho. Sempre tão tímido e avesso a amizades. Tão sozinho… ele só conversava comigo. E, agora, isso… Entramos e, em poucos minutos, o Meritíssimo estabeleceu a pena do Maninho. Ele permaneceria detido no Manicômio Psiquiátrico indefinidamente, onde faria avaliações periódicas até ser considerado apto a voltar para a sociedade. Maninho era tão esquisito que eu acho que nunca mais deixará o hospício, o pobre…

Saí do prédio com os meus dois novos amigos a me acompanharem até o veículo que me deixaria na estação para a minha próxima viagem. Não sei quanto tempo eu ficarei fora… Dá vontade de nunca mais voltar…

B.E.D.A. — Blog Every Day August

Adriana Aneli — Claudia Leonardi — Darlene Regina — Mariana Gouveia —

Lunna Guedes

Dark, Now

Dark

Estamos envolvidos no enredo da Pandemia desde meados de março. Apenas para reafirmar, estamos em 2020. Essa marcação seria desnecessária, se o eventual leitor deste texto estiver no presente. Porém, quem estiver correndo os olhos por estas palavras em um futuro distante deste episódio da vida planetária, estará vivenciando em seu presente, consequências advindas deste passado. Estabelecido o quando, cumpre dizer que estou no Brasil (ou estive) e talvez quem me leia repercutirá o que leu no meu hipotético futuro, em que estarei fora deste território ou, fortuitamente, fora desta dimensão.
Estou passando uns dias fora de Sampa. Mais propriamente, na Praia Grande, no litoral sul paulista. Quanto ao tempo, me refiro à importância que este local representa em minha história pessoal. É como se o que experimentei aqui no passado tenha sido tão forte que retorno às vivências ensolaradas e delas me alimento na minha atualidade, mesmo sendo este um dia frio de julho. Nesta vacância forçada pelo isolamento social, aproveito para ler, escrever e praticar atividade física. Faço exercícios localizados, caminhadas e ciclismo, com o uso de máscara, atento que estou ao contato com os aerossóis.
Você, do futuro, que talvez não esteja entendendo ao que me refiro, saiba que o contágio pelo novo coronavírus poderia ocorrer de variadas maneiras  ̶  pelo ar, contato com objetos infectados e pelo toque. A depender do futuro em que esteja, o uso de roupas impermeáveis ou objetos similares já é uma realidade para uma parcela da população, a se considerar que as diferenças sociais não terão sido superadas, como aliás, é uma característica intimamente ligada às sociedades humanas e a brasileira, em particular.
No atual contexto, o uso de máscara e a incorporação de medidas preventivas quanto à Covid-19  ̶  doença ocasionada pelo novo coronavírus ̶ tornou-se questão política. Não quanto ao modo de como implantá-las, mas se faz para negá-las. O grupo político então no poder do governo federal, comandado por um celerado com ideais ditatoriais de viés fascistas-milicianas, associa sua implementação a reivindicações ligadas à esquerda, como se viver em condições sanitárias ideais, com a coordenação de um programa público de saúde se confunda com ela. Contudo, nem sei qual tipo de sociedade acabou por se desenvolver. Se me lê no futuro, é bem capaz que a Democracia tenha sobrevivido.
O fato de nós, brasileiros, termos nos metido nesta armadilha da Democracia, mesclada à nossa pobreza estrutural ̶ social, ideológica e econômica ̶ talvez tenha sido inevitável. De certa maneira, foi a consequência de ações equivocadas por parte de quem estava no poder anteriormente, que não percebia a História como resultado da lei de causa e efeito, em que os tempos ̶ passado e futuro ̶ se misturam no presente, com repercussões dramáticas. Porém, nada mudou e a atual direção caminha no mesmo sentido equivocado.
O vento e a chuva do dia anterior mexeram na posição da antena da TV Digital, impossibilitando que eu assistisse os canais da rede aberta. Quando quis acompanhar o noticiário da tarde, não consegui. Para verificar se a Internet estava ativa, fui aos aplicativos da programação. Estavam funcionando. Entre eles, a Netflix, que me sugeria Dark, com 99% de aceitação.
Bem, naquele momento, não tinha nada a fazer e cliquei no primeiro episódio da primeira temporada. Nesse mesmo dia, assisti aos 7 primeiros. Da tarde até a noite, a assistência foi acompanhada por uma anacrônica festinha dada pelos vizinhos da casa da frente, com músicas de todos os tempos ̶ de Disco dos anos 70 a Sertanejo atual (para nós). Como tenho certa capacidade de abstenção (um tanto criticada por quem convive comigo), só percebia o tempo presente entre um intervalo e outro. Como a série é (ou foi) popular entre os expectadores que a assistiu estará a entender este texto certamente imperfeito, mas que carrega conjecturas que pareceria sem nexo, antes.
Ainda que a série tenha investido no improvável uso de máquinas e vórtices ou “buracos de minhoca” tempo-espaciais para que os efeitos sejam vividos por seus participantes, o enredo faz com que reflitamos em como as nossas ações, por menor que sejam, repercutem ao longo de nossa vida, criando círculos concêntricos tal qual uma pedra jogada no lago existencial. Cavernas que aludem ao Mito de Platão e ao Fio de Ariadne, constantes do riquíssimo repositório das antigas filosofia e cultura gregas, entre outras citações (das que percebi até agora) introduz fortemente a viagem do passado humano em nosso presente, alterando o nosso futuro passado. Como budista iniciático (faz uns 40 anos), busco viver o presente. Aliás, como propõe o título de um dos episódios da primeira temporada, sei que tudo acontece agora.