Horizontes

Escuridão

passeio os olhos por onde já passei

longe os caminhos

longos os desalinhos

largos os desatinos

crimes na boca da noite

beijos roubados

corações desarvorados

feito árvores desbastadas

pássaros sem os seus ninhos

deserto em planos sequenciais

serras peladas de onde o ouro foi levado

o olhar até o limite que a curva faz

a luz a derrapar e fugir em que jaz

espíritos em busca de paz

na dissonância de línguas caladas

no silêncio de peles escamadas

na separação de corpos cansados

perdidos de si no ponto cego

do horizonte que se veste de escuridão.

Sorriso

o sorriso lateral da tarde

me emudece, mas não me cega

pergunto à quase noite

porque sorri

responde que venceu o dia

e deitará a cabeça

para além da curva do rio

luminoso

no colo do sol em novo romance

olho para o horizonte

cada vez mais escuro

e me sinto o momento que fica

eterno

em sua finitude…

#Blogvember / Os Meus Meios-Dias

O meu Meio-Dia, começou às 9h40 da manhã. Apesar do adiantado da hora, mais uma vez dormi as mesmas cinco horas de praxe, não importando que tenha, como ontem, estado em atividade o dia inteiro. Uma vez acordado, já é Meio-Dia. Sol a pino, ainda que chova. Meus Meios-Dias se repetem pelas horas que se seguem como estados d’alma.

Leio as postagens deste #blogvember e passeio por textos que me inspiram. No de ontem, Roseli Pedroso escreveu uma preciosidade em poucas linhas sobre encontros fortuitos, calados, mas definitivos. Como resposta, lembrei de um: “Foi assim que cruzei com os olhos verdes de uma moça que aguardava o ônibus no ponto. A porta traseira foi aberta para que entrasse passageiros – idos do final dos anos 70 – e eu me fixei no brilho do olhar de alguém que jamais voltei a encontrar. Escrevi versos para esse (d)encontro, guardados em algum lugar…”.

Lunna Guedes, deu por si ao Meio-Dia de ontem, quando aniversariava. Fala sobre os plúmbeos e chuvosos novembros de sua vida, incluindo o do dia de seu nascimento. Hoje, não foi diferente. Aproveitei o sol que despontava e saí para ir ao supermercado comprar ingredientes para o estrogonofe do almoço. Voltando das compras, as nuvens toldaram o Sol em dois minutos e uma pesada chuva desabou como se fosse um balde de água fria em cachorros no cio. Era Meio-Dia.

Mariana Gouveia homenageou a nossa editora aniversariante com uma linda missiva. A força do abraço que pulsa em coração lunar é expresso em “palavras que atravessam tempos e se esparramam em cadernos”. Concordo com ela que, com a Lunna, acabamos por criar uma comunidade afetiva em torno da boa escrita.

Assim como Suzana Martins lembra das belezas acidentais de novembro e nos diz que “gosta da confusão equinócia a rasgar o tempo!” – um elogio aos dias intempestivos que aprendeu a apreciar com Lunna.

Em casa, trocada a roupa molhada, começo a assistir mais um jogo da Copa do Mundo de Futebol. França e uma das suas antigas colônias africanas – Tunísia – reproduzem em campo a rivalidade derivada do saldo pesado que toda dominação de um povo pelo outro produz. Terminada a partida, o time do colonizador (carregado de jogadores oriundos de povos colonizados) perdeu o jogo. O time do colonizado ganhou, mas não levou. São os dramas operísticos a reproduzir a História do mundo em realidades simuladas.

Após a chuva, rápida e impertinente, raios solares são refletidos em janelas e paredes. A Luz incursiona por frestas, folhagens, fios elétricos, telhados e peles. Quem disse que chovera meia-hora antes? Minhas roupas molhadas juram que sim. Mas meu olhar perdoa o pequeno inconveniente diante de belos Meios-Dias desta tarde lavada que se repetirão até a chegada da Meia-Noite – o Meio-Dia final…

Participam: Roseli Pedroso / Suzana Martins / Lunna Guedes / Mariana Gouveia

#Blogvember / Carta Para Mim

Obdulio,
penso sobre essa missiva, enquanto ouço Belchior cantar que “estava mais angustiado do que o goleiro na hora do gol” pelo celular. Estou retomando aos poucos as idas à academia, após dois anos e meio em que a Pandemia impediu que me exercitasse devidamente. Caminho os quase 3Km para a Humanas e pretendo registrar este dia – 20 de Novembro de 2022 – para deixar como se fosse uma carta numa garrafa dentro de uma garrafa. Talvez deva voltar a ler este texto, além de hoje em que o escreve, depois de muito tempo. Espero que viva num período menos opressivo que o atual, mas não há nenhuma garantia de que isso venha a acontecer.

Passeio pela sombra possível em dia de sol pleno. Dia de nuvens ausentes, por enquanto. Ao dobrar a terceira esquina, do lado esquerdo, uma cena tão comum nos dias de hoje que “entrou em mim como o Sol no quintal”. Debaixo da marquise de uma loja fechada, primeiro reparei num velho cão dormindo profundamente. Depois, na figura tão abstrata quanto poderia parecer um ser humano – quase um Picasso em movimento – andrajos como vestimentas. Junto a barraca de camping (na calçada), fechando o triângulo, mais um cão, tão velho quanto o outro. Essas pessoas que nos últimos tempos ganharam o espaço da cidade, recebem nomes como “moradores de rua” ou “sem teto” ou “em condição de rua”. Por mais politicamente corretos que queiramos parecer, são um fato social. Vieram para ficar?

Um Fusca velho chama a minha atenção e eu o registro em foto. Não pelo objeto em si – uma obra humana criada como máquina – mas que serviria de referência emocional para quem o possuiu, assim como para muitos. Essa tendência que temos em humanizar nossos bens materiais sempre me intrigou. Talvez seja a mesma tendência que transporta para imagens de santos expectativas de intercâmbio transcendental.

Meninos conversam entre si, passos lentos. Diminuí os meus para não me chocar com eles. Ouço um mais alto dizer o outro que parece desconsolado: “ela não merece a sua tristeza”. Mesmo que eu quisesse, não criaria uma frase tão interessante para compor esta carta. O ouvinte olha para o nada e dá um gole numa garrafa com suco de laranja que carrega à mão.

Mais à frente, a comunidade junto ao Piscinão do Guaraú me surpreende com a audição de “Acabou Chorare” dos Novos Baianos. A voz de Moraes Moreira, que este ano nos deixou, me trouxe de volta para quando bem novo adotei a sua turma de Pepeu, Baby e Galvão como uma das minhas bandas favoritas.


Passo em gente ao Jatobá, o ser mais velho do bairro, para o qual peço uma benção. Em poucos metros, encontro dois bares intercalados por Igrejas Pentecostais. Creio que tanto um tipo de estabelecimento quanto o outro, só seja superado em número por barbearias e bancas de pastel.

“Fala”, canta Secos & Molhados em meu ouvido: “Eu não sei dizer nada por dizer / Então eu escuto / Se você disser tudo o que quiser / Então eu escuto / Fala…”. Um conselho que deveria seguir. Constato quando respondo a uma chamada na qual quem me fala, não consigo deixar de interromper. Quem quer falar sobre suas crenças são os apóstolos de Testemunhas de Jeová (nome que acho inspirador) que avançam de dois e dois para portões da avenida na qual se localiza a Humanas. Uma dessas duplas me chama mais a atenção. Trata-se de um casal que sorri de um para o outro, trocam palavras de carinho, enquanto mantém as mãos dadas em palmas. Há amor, acima de tudo. Reconheço um afeto, apesar de uma fé que manifestam preceitos que eu não adoto.

Enganado com o horário que encerra as atividades da academia uma hora antes do que eu achava, volto para a casa disposto em apenas voltar para a casa ouvindo música. Passando em frente a um portão, um cão por trás das grades mantém o olhar fixo para o outro lado da avenida. Desvio a minha visão para o ponto que encontra um outro cão que festeja a sua liberdade junto à sua tutora. Quase vejo materializado o seu pensamento. Ou serei eu a me sentir enquadrado em situações que me faz olhar longe – para um ponto no futuro em que você estará melhor – menos tenso, menos enredado com dúvidas, mais livre, ainda que mais velho ou, até por isso mesmo, mais maduro.  

Deixo o meu abraço fraternal, meu caro!

Obdulio

O centenário Jatobá

Participam: Roseli Pedroso / Lunna Gouveia / Suzana Martins / Mariana Gouveia

Alexandre, O Pequeno

Voltava da votação de domingo quando, ao subir por uma ladeira, o vi claudicante em seus passos magros tentando escalar centímetro a centímetro o caminho tortuoso guiado por seu faro em busca de comida. Soube disso apenas depois ao passar por ele e seus olhos anuviados de cegueira provocada por catarata. Velho, ossudo, pernas muito compridas para seu corpo apequenado, quase foi atropelado por dois carros que subiram em curva. Duas crianças brincavam na calçada e uma delas, uma menina com roupa de igreja (saia comprida e justa), quase chutou o pequeno ser, exclamando: “sai daqui cachorro magrela e feioso!”.

Continuei a minha caminhada por alguns metros. Olhei para trás e o serzinho ficava rodeando um entulho de restos levados pela chuva até uma reentrância feito um apêndice supurado. Voltei, pequei o pequeno no colo, que mijou em mim, talvez de medo. Leve feito uma pluma, quando pensei em perguntar para as crianças se conheciam o “dono” da criatura, elas já tinham se afastado. Eu o coloquei de encontro ao meu peito que, protegido por uma jaqueta plástica, impedia que eu me molhasse, caso voltasse a fazer xixi. O Sol brilhava, mas o dia estava frio. O pequeno Alexandre, nome que surgiu como ele tivesse se anunciado, tremia.

Apesar de ter cachorras resgatadas em casa, tirante a Dominic, que nasceu da Domitila, que fora também resgatada, nunca fui eu a pegar um bicho na rua. Por que este? Por estar desnutrido? Por ser velhinho? Por ter sido quase chutado por uma “criança dedicada ao Evangelho”? Não sei. Não pensava em Francisco, nem que a data comemorativa do meu santo estivesse tão próxima. Havia dormido um pouco mais de quatro horas depois de ter trabalhado umas vinte. Outubro, apesar de ser o mês em que nasci, começou estranho para mim. É como se estivesse em outro País. Um que não tivesse sonhado nem em meus piores pesadelos. Um pesadelo redivivo, de décadas passadas – coturnos pisando em nossas mentes. Que eu tenha cometido essa ação de certa maneira foi um pedido de socorro que foi atendido. Não apenas dele para mim, mas de mim para ele.

Neste dia de São Francisco, em memória do rapaz que um dia quis ser frei franciscano, eu abençoo o bichinho que surgiu no asfalto íngreme como se fosse a subida para algo melhor. A minha irmã disse que eu deveria procurar os eventuais cuidadores. Ao observá-lo mais de perto, concordou que Alexandre, O Pequeno, estava há vários dias sem comer dada à magreza que permitia que seus ossos fossem contados.  Devido à cegueira, maior em um dos olhos do que em outro, e às condições físicas, pode ter saído por um portão, caminhado à esmo ou fora abandonado. Quando cheguei em casa, ofereci um pouco de comida a qual devorou em poucos minutos. Logo em seguida, dei um banho que Alexandre aceitou relutantemente. Eu o sequei, o envolvi em uma toalha quente e ele adormeceu entre almofadinhas. Quando acordou, dei um pouco mais de comida. Chegou a rosnar baixinho quando cheguei perto. Estava melhor.

Ontem, enquanto a Lolla estava no quarto com a mãe e as outras meninas – Dominic, Bethânia e Arya – estavam presas em uma parte cercada, deixei que passeasse pelo quintal. Ousado, farejou por todos os cantos. O melhor procedimento é evitar que as outras tenham contato com ele, pelo menos por enquanto, mas quando se encontraram por um breve momento, trocaram cheiradas mútuas. Creio que se darão bem. Sei que terá relativamente pouco tempo de vida. De fato, ninguém sabe quanto tempo nós mesmos temos de existência neste plano. Terei paciência para que volte a receber um carinho sem que pareça uma agressão. O que eu desejo é que Alexandre, O Pequeno, meu salvador, seja atendido em suas necessidades básicas até o final de sua jornada. Quem não quer?

Velhinho

eu acordei velho hoje
quase sempre acordo jovem
e só restabeleço o que sou
ao surgir do outro lado do espelho
sonhei que era criança
foi um sonhinho-lembrancinha
menino pequeno queria ser crescido
ficava indignado egoísta queria
me sentar sozinho no banco do ônibus
minha mãe puxava para o colo entre
suas pernas de pelos mal aparados
pinicavam deixa os outros se sentarem
queria ficar na janela vendo o mundo
passar rápido mais rápido menos rápido
às vezes o mundo parava
minha mente continuava antecipava
surpresas

voltei velho fui à feira
quando garoto gostava de falar com velho
o velho de hoje puxa assunto quase
ninguém lhe responde olham
desconfiança ou indiferença
na banca de frutas um velho de longos
cabelos e barbas brancas puxa fumaça
de um apequenado cigarro de palha
seu olhar é mais profundo
do que uma fossa oceânica de tantas turbulências
acalmadas na escuridão
passo por um bar velhos jogam dominó
perdem partidas ganham idade
um deles olha para as peças
como se fossem pedaços da vida
que insistiram em não serem encontradas
respira pesado
ar que pouco permanece e se esvai
mais um ser antigo caminha
com seu velho cão
comem do mesmo pão
são amigos pais filhos irmãos
qualquer um que partir antes
levará consigo seu ente querido
darão adeus às mútuas lembranças
esquecidos

desconsolado desço a angélica
por uma travessa chego ao portão lateral
cemitério da consolação
me movo entre pedras me perco
revisito jazigos pássaros cantam
persigo ruelas ventos sopram
pareço ouvir vozes dos que se foram
admiro mausoléus árvores respiram
o sol ilumina o tempo construções desabam
em silêncio registro estátuas vivas os mortos falam
piso sobre lágrimas que já secaram
acalmo os meus pensamentos divago
tropeço em mim busco solução
os eternos moradores respondem desde o chão
calma… tudo está em dissolução…