“Filho, nem sempre as coisas são o que parecem ser… É a Terra que está a dar uma volta sobre si mesma, enquanto viaja no espaço em torno do Sol, em torno do qual giram outros tantos planetas como o nosso. E o Sol é apenas mais uma estrelinha entre milhões de outras na Via Láctea, uma galáxia. E a nossa galáxia é apenas mais uma entre milhões de outras, neste canto do Universo, que também parece estar se expandindo… Sendo assim, somos muito pequenininhos…”.
Passei a tarde de hoje a lavar e estender roupas de cama, mesa e banho — camisas, blusas e peças de uso pessoal, como cuecas, calcinhas, sutiãs e meias, muitas meias. A tarefa mais desgastante foi reunir os pares, todos misturados em uma grande barafunda. Dificilmente consigo encontrar imediatamente a meia e a sua exata correspondente. Por experiência própria, sei que muitas se deslocam para a dimensão paralela onde se refugiam sempre que podem. Essa rebeldia das meias, já foi cantada em verso em prosa por todo o mundo, inclusive por mim. A surpresa se deu quando a primeira meia que separei, solitária desde então, começou a conversar comigo, quando faltava vários pares a serem reunidos.
— Oi! Oi! Meu amigo, você não vai me colocar para secar logo? Quero aproveitar o sol um pouco…
— Eu a conheço! Já fiz um texto tendo você como personagem – “Hoje, carreguei as estrelas em minha mãos…”…
— Bonito, mas e o meu caso? Você não vai encontrar o meu suposto par neste cesto… Ou ele está em outro ou ainda será lavado… Ou…
— Já sei! Foi para a Dimensão das Meias!… – Ri, pensando que fazia piada.
— Ah, então você já sabe sobre isso?
— Hã? Então, esse lugar existe realmente?
— É claro! Mas apenas algumas meias conseguem penetrar nesse universo paralelo. Muitas vezes, por puro acaso. Eu, não quero. Estou bem por aqui.
— Que impressionante! O estranho é que são sempre apenas uma das meias do par que escapam para lá…
— Somos meias de um par, mas somos autônomas, independentes umas das outras. Somos sociáveis. Gostamos de nos relacionar com outras roupas, com vários pés que nos calçam. Crescemos com a experiência do toque da pele humana. Captamos a energia que vibra de suas auras. Faço a festa aqui nesta casa. Estou sempre mudando de pés.
Imediatamente lembrei das quatro mulheres da casa, que vivem trocando de pares de meias entre elas…
— Eu pensei que vocês apreciassem a parceria constante…
— Não! Nós, meias, gostamos de bagunça compartilhada…
— Percebo certa ironia de sua parte, Meia Estrelada…
— O que você está ouvindo pelo fone?
— Música? Conhece?
— Sim, meu caro! Suas filhas ouvem muita música! Qual o tipo de música que ouve?
— Todos os tipos: Pop, Ópera, Jazz, Rock, MPB, Instrumental… Sou eclético…
— Como você, nós não nos prendemos a essa à organização que os seres humanos querem nos impor. Essa falsa regularidade que vocês querem dar à vida. Por nós, mudaríamos de pares sempre que possível, para trocar experiências. Não nos importamos com o tamanho, cor ou textura. Eu por exemplo, sou louca para sair com uma meia fina…
Enquanto conversávamos, eu continuava a separar os pares para pendurar no varal. Ao término, sobraram três pés de meia sem par, incluindo a Estrelada. O seu par realmente não se encontrava entre elas.
— Eu não disse? Pode me colocar junto com as outras duas. Tenho certeza que elas não se importam, ao contrário. Eu as conheci no troca-troca da máquina de lavar. Oh, loucura! Vou adorar passar esse tempinho ao sol com elas… Ah, agradeço o papo!
Eu a posicionei como ela pediu e continuei a estender roupas até bem depois desse interessante diálogo. Vez ou outra, passava em frente da Estrelada, mas ela parecia estar dormindo sob o contato aconchegante dos raios solares do inverno. A Estrelada, apesar de sua atitude independente, não percebeu que a falta de seu par poderia condená-la ao ostracismo. A não ser que o estilo das minhas filhas mude e elas comecem a usar meias que não combinem o padrão. Talvez, este texto as ajudem nessa decisão…
Entardecia e refletia sobre cenas do dia que se sucediam como flashes em minha mente. Uma após outra, pareciam criar um mosaico de coisas aparentemente desconexas, a não ser pelo fato de pertencerem ao contexto do mesmo plano – a Terra… ou melhor, o Universo conhecido.
De manhã, no início da feira, o dono da barraca de plantas parecia conversar com elas. Quase ouvi telepaticamente as palavras ecoarem em direção a um grupo delas – de flores ornamentais – que o olhavam com certa altivez de belas espécimes que eram, enquanto o cenho melancólico do velho questionava se uma delas não o ajudaria a pagar a conta de luz que estava para vencer.
Na barraca de frutas, comprei bananas do amigo do Neymar. Perguntei como estava o “Ney”. “Está bem! Me disse que voltará a jogar logo.”. “Que bom!”… Pedi uma dúzia e meia, ganhei um “choro”. Passei por uma viela que moradores fazem de depósito de lixo e fiquei penalizado do guarda-chuva jogado sobre o entulho. O antigo protetor das intempéries deixou de cumprir sua função. Agora inutilizado, me solidarizei com seu destino de coisa morta para o mundo.
Comprei pastéis. Costumava me divertir com a ideia de ser um caçador dos primeiros grupamentos humanos a buscar o alimento para matar a fome da família – atum, carne, camarão e palmito. Caldo de cana – meio litro. Enquanto caminhava de volta para asa, pensei em Katie Bouman, que liderou o desenvolvimento do algoritmo que possibilitou reconstruir o registro fotográfico de um buraco negro a milhões de anos-luz do pontinho donde estamos. Visão de nosso passado e nosso futuro. Início e fim. E o sorriso tímido da jovem cientista.
Em casa, enquanto as meninas latiam para os passantes na rua, por pura diversão, li e vi repercussões do incêndio na Catedral de Notre Dame e imaginei o Corcunda saltando de gárgula em gárgula até ser finalmente alcançado e subjugado pelas chamas que se erguiam até os céus de Paris – a cidade-luz a queimar. Tristeza demonstrada por tanta gente, menos pelo músico Rosa, dias antes despetalado 80 vezes.
Ao atravessar o quintal, uma lagartixa caiu à minha frente. Olhei para o alto e especulei de onde teria vindo – se da varanda ou da mexeriqueira. Eu a peguei delicadamente e estranhei que não relutasse. Parecia estar com o corpo íntegro, mas a queda fora grande. Lembrei-me de Dostoiévski e Nietzsche. Sobre qual queda se enquadraria aquele caso – se fora atraída ou tornara-se o próprio abismo quando o avistou.
De qualquer forma, sob a regência das leis físicas, somos sempre atraídos para o chão ou o fundo. Caminhamos na beira do precipício, a nos equilibrarmos entre o desejo de perdermos o equilíbrio ou continuarmos a percorrê-lo. Deixei o pequeno sáurio dentro de um pequeno vaso. Esqueci de voltar a vê-lo. Seu destino físico imediato me é desconhecido. No entanto, sua imagem, assim como a do buraco negro, estará eternizada enquanto a eternidade existir…
Maria é feliz por ser mulher.
Crê que nasceu para sê-lo.
Cumprir as potencialidades,
abraçar as possibilidades,
viver as idades do viver…
Maria nasceu para amar
e para amar ser o que é,
em seus diferentes estados.
Sente-se tão confortável
em seu corpo feminino,
que apreende o mundo que a rodeia
como extensão de sua pele.
Passa as mãos por seus cabelos
matizados pelo tempo –
mais um rito de passagem –
que cumprirá sem regras.
Como se vê com serena
e fresca maturidade,
serão tingidos
da cor de sua percepção.
Ou não…
O espelho a devolve
nostálgica,
a se lembrar dos outros ritos
pelos quais passou:
aprender a ler,
explorar,
sair da casa – interior – soltar-se
do umbigo, o cordão.
E voltar…
Amou a primeira menstruação –
desejada como se fosse um presente divino.
Foi a última, entre irmãs e amigas,
a sentir a quentura do sangue
a descer da origem do mundo.
Mais tarde,
decidiu conhecer o sexo –
mais tarde do que quem a conhecia imaginasse –
por mais libertária que se mostrasse.
Queria que não fosse por acaso.
Ainda que amorosa,
não amava quem a fez conhecer
a saborosa dor do prazer.
Escolheu aquele que, depois,
a deixasse em paz…
Outro rito de passagem: trabalhar.
Tornar-se senhora de si.
Lutar por seus direitos e de outros.
Congregar,
unir,
entender as diferenças,
esvaziar as ofensas,
ultrapassar-se…
O rito definitivo
não foi se apaixonar
ainda que tenha sido intensa.
Nem mesmo casar,
apesar de importante.
Mas gerar –
receber em terreno fértil
a semente que plantou –
fecundar a vida,
multiplicar a força do existir,
vestir de roupa nova
um antigo espírito.
Embalar o pequeno corpo,
alimenta-lo,
vê-lo crescer,
ensinar o peso
e o significado das palavras.
Esse rito não representou a simplificação
do mundo material e do além-Terra,
nem a vaidosa reprodução
de vitórias e mazelas.
Mas a criação de nova realidade –
como mulher, possuir o Universo…
Dia desses, enquanto varria o quintal, Deus veio a se incorporar em um marimbondo adulto. Não estava elegantemente em pleno voo, mas praticamente debaixo de um pé humano que, no entanto, decidiu não O esmagar. O pé era o meu…
Um adendo – para desespero de minhas filhas e esposa, normalmente reluto em abater baratas voadoras e prefiro afastar pernilongos com o ventilador ligado ou repelente a persegui-los com armas como inseticidas, chinelos, panos ou até mesmo com as mãos nuas. Não desrespeito formigas, besouros e muito menos borboletas.
Porém, como já fui picado muitas vezes por marimbondos, vários tipos de vespas, além de abelhas (dói muito), decidi eliminá-lo. No entanto, ao ver àquele inseto a caminhar cambaleante pelo piso do quintal, sua situação precária fez com que o movimento da minha perna estancasse…
Naquele momento, pensei: “morremos todos…”. Para a minha surpresa, o marimbondo assim se revelou: “Oi! Sou Deus!” – Por mais que pareça absurdo, acreditei piamente…
A minha filosofia permite acreditar que Deus venha a se manifestar em todas as coisas viventes, como a compor peças de um intricado jogo de quebra-cabeças que nunca conseguiremos montar enquanto estivermos olhando apenas com os olhos de carne.
Dessa forma, pela poderosa conexão mental que se criou entre mim e o Marimbondo-Deus, perguntei o que fazia Ele reduzido ao corpo de um inseto.
– Vez ou outra, Eu, que vivo em tudo e em todos, dos neutrinos aos buracos negros, das bactérias ao multi-universos, faço uma viagem para dentro de um ser natural de qualquer dos bilhões de incontáveis planetas onde se manifesta a vontade vital. É um exercício de percepção.
– Mas, se eu O matasse?
– Não morreria. Não há morte. Cessado o funcionamento do sistema organizado a que chamam de vida, volto a Ser, vamos dizer assim, Senhor de Tudo. Em verdade, mesmo “encarnado”, não deixo de Ser Onisciente… Contudo, ao Me tornar tão profundamente vulnerável, mais amplo Me Sinto…
– Posso fazer uma pergunta, que O Senhor já deve saber qual é, Sendo Deus?
– A resposta é que você não ganhará nenhum prêmio por ter agido com compaixão em relação a um ser menor, mesmo Sendo Ele, Deus. Não se “ganha” o Paraíso como uma espécie de bonificação por agir bem…
Parece que o próprio Deus Vivo também gosta de pausas dramáticas, porque esperou um tempo longo demais para continuar, enquanto mal batia as asas rotas de marimbondo moribundo. Eu, aguardava pela resposta tenso como a vassoura em minha mão…
– … Você alcança o Paraíso Sendo Deus!…
Deus se arrastou um pouco mais e morreu… Não precisou da minha pisada para voltar a Ser Tudo plenamente. Não O deixei onde estava. Eu O varri, junto com os outros detritos no quintal e O joguei no lixo. Mais uma vez, no exercício da varredura, mergulhei na profundidade do Universo, ao recolher restos de folhas, cocôs das cachorras, poeira no chão e Deus…