BEDA / Transmutação

A metamorfose se deu, de início
pelo olhar…
O movimento dela o paralisou.
Como se fotografasse cada gesto,
aprisionou dentro de si a evolução
do casulo à borboleta —
da flor ao céu —
asas da imaginação…

Quis recuar quando suas vozes
ocuparam o mesmo ambiente —
palco de suas atuações…
Percebeu que fluíam sonoras
conversas de palavras
entrecortadas,
caladas…
As lacunas preenchidas de desejos
perfeitos em suas incompletudes.

Quebradas as barreiras —
distâncias de centímetros-quilômetros —
peles sem proteção,
mentes despertas,
liberta de atavismos
e consequências,
o imediato transformado em eterno,
se reconheceram outros,
os mesmos…

Ele,
transmutado
de Jackyll em Hyde,
de homem em lobo,
de mortal em vampiro,
de Clark em Superman
todos e ninguém,
vivia ausente de si…
Passou a respirar o vácuo
se não aspirasse o hálito da paixão…

Transformação
irremediável,
perigosa,
instável,
liberdade de viajante
encarcerado,
não trocaria o permanente desconforto
do atual caos de criação do mundo
pela antiga estabilidade de morte
em vida…

Foto por Brenda Timmermans em Pexels.com

Participam: Alê Helga / Mariana Gouveia / Lucas / Lunna Guedes / Roseli Pedroso / Cláudia Leonardi / Suzana Martins / Dose de Poesia

BEDA / Projeto Fotográfico 6 On 6 / Arquitetura Paulistana

Ontem, eu passei pelo Centrão e o meu olhar encontrava a chocante disparidade entre aquele conheci e o que presenciamos hoje — degradado — apesar de haver várias construções sendo restauradas, além de novos empreendimentos na Avenida Rio Branco. O velho cruzamento da Ipiranga com a São João, nem chega perto da outrora movimentação que inspirou Caetano a compor Sampa. Alguma coisa aconteceu no meu coração: a melancolia de ver essa icônica parte da cidade com grandes construções esvaziadas e pessoas jogadas pelas calçadas em condições precárias de subsistência. Ainda mais com a política de limpeza visual das barracas onde ficavam durante o dia, já que durante a noite o vazio toma conta do asfalto e corações.

Por trás desses tapumes, mato e restos de entulhos de parte do que foi o antigo prédio que foi habitação de despossuídos depois de ter sido Sede da Polícia Federal em São Paulo por 33 anos. O Edifício Wilton Paes de Almeida, localizado na Rua Antônio Godoy, foi desocupado em 2003. Gradativamente, através de movimentos de sem-tetos, sem condições adequadas, o prédio foi transformado em uma grande armadilha. Desabou, depois de um incêndio, em 1º de Maio de 2018. A Igreja Evangélica Luterana de São Paulo — de 1908 —, a edificação ao lado, atualmente reconstruído, também sofreu, bem como um edifício próximo, além de dois do outro lado da rua. Representou, de forma contundente, o quanto a política de ocupação da cidade é disparatada em relação à realidade. Nessa região, o potencial de moradia de qualidade é enorme, próxima de muitos serviços bem estruturados. Falta um programa que envolve vontade política para ser implementado.

Só em outra realidade bem interiorana que não São Paulo, a parte traseira de uma igreja é um local mais calmo. Principalmente se essa igreja for a Catedral da Sé, em frente da qual a cidade tem o seu Marco Zero. Bem próximo dali, os Jesuítas Manoel da Nóbrega e José de Anchieta construíram uma casa que deveria se tornar o colégio onde pretendiam catequizar os gentios dos Campos de Piratininga comandados pelo Cacique Tibiriçá. Ocorreu em 1554.

Em primeiro plano, esse tronco da centenária Figueira-Brava já há muito tempo dava sombra e descanso para os viajantes que transportavam cargas e mercadorias. Lá, podiam encontrar água para se refrescarem, assim como matar a sede dos animais — cavalos e burrros-de-carga. Mais adiante, podemos ver o Obelisco de Piques, de 1814, o mais antigo monumento de São Paulo, localizada no conjunto que chamamos de Ladeira da Memória, que desce em direção à Praça da Bandeira. É considerado um símbolo e referência do processo de urbanização da cidade.

Subindo a Avenida da Consolação, em direção a uma parte mais alta do relevo no qual se assenta a Avenida Paulista, encontramos a necrópole conhecida como Cemitério da Consolação, fundado em 1858. O então Cemitério Municipal foi criado com o objetivo de garantir a salubridade e evitar epidemias. Era uma tentativa de alterar o hábito de sepultar os corpos dos mortos em torno das igrejas. A aristocracia formada pelos cafeicultores transformou o local em um templo de ostentação da burguesia paulista. A arte tumular que lá se encontra é exemplar em termos artísticos, pois vários escultores de renome foram contratados para executarem trabalhos rebuscados. Há outros mais simples em temáticas, assim como há vários nos que poderíamos passar o dia todo para dissecarmos suas referências.

Em vários pontos de São Paulo encontramos enormes e velhas chaminés que eu adorava desenhar quando garoto, expelindo a “feia fumaça que sobe, apagando as estrelas”. Representam a antiga vocação industrial da cidade que, atualmente, é predominantemente ocupada por empresas prestadoras de serviço e comércio. Muitas de suas espaçosas instalações são transformadas em centros de compras ou eventos, quando não vem abaixo para o ocupação de condomínios residenciais. A transformação constante de “campos e espaços” é a característica principal deste ser vivo devorador de memórias e referências pessoais. É como se nos avisasse desde cedo: “não se apegue!”.

E chegamos ao “X” da questão: para onde vamos como cidade? Mal nos acostumamos com um “centro econômico”, surge um outro em um rincão distante do município que se expande para cima e para os lados. Estabelece critérios tão aleatórios quanto injustificáveis, a não ser na mente de engenheiros do caos que creem e incentivam esse processo como parte intrínseca da voragem que devemos continuar a viver — sem freio e sem fim — para o bem do invisível e poderoso Sr. Mercado. Ao mesmo tempo, há movimentos humanistas que tentam transformar este recanto de dor e frieza em campo de criação de novas estruturas. A vocação cultural é algo inegável. Para quem quer e tem tempo, as possibilidades de desenvolvimento nesse campo, encontrará programações sem custo. Esse dinamismo pode ser a saída para o imbróglio que é vivermos numa cidade cortada por rios mortos e ar poluído, buscando conscientemente saídas simples e eficazes para nos tornarmos cidadãos de uma cidade melhor.

Participam: Alê Helga / Mariana Gouveia / Lucas Armelim / Lunna Guedes / Roseli Pedroso / Cláudia Leonardi / Suzana Martins / Dose de Poesia / Danielle SV

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Como Seria O Trânsito Se Todo Mundo Tivesse Um Carro?*

Infelizmente, para a minha família, eu não dirijo. Quando eu era um jovem mancebo de 18 anos, dada a minha natureza contestatória, decidi não aprender a dirigir para não parecer com a maioria dos rapazes que alcançava a maioridade e estabelecia a direção de um carro como prioridade em sua vida. Aquela era a decisão de alguém que não ligava para a sociedade de consumo, que via a ideia de tornar-se um vagabundo com a seriedade de um projeto de vida.

Com o passar do tempo, e atendendo ao chamado do amor pela mulher, comecei uma família e as minhas convicções foram vencidas pela necessidade de fazer frente às demandas da sociedade, incluindo a de tirar carta de motorista. Tentei três ou quatro vezes, mas por falta de treinamento ou inaptidão para tal tarefa, não passei nas provas práticas. De certa maneira, fiquei aliviado, porque ser mais um condutor que jogaria o seu barco na correnteza turbulenta dos rios de águas cinzentas de asfalto não me agradava nem um pouco. Obter licença para dirigir (ou ser dirigido pelo carro) é uma programação sempre para amanhã que ainda realizarei, nem que seja por teimosia.

Sempre fui um entusiasta do transporte coletivo e não vejo solução mais adequada para quem vive nos grandes centros do que se deslocar por ônibus e trens, entre outras opções, para os locais aos quais precisamos chegar — residência, trabalho ou lazer. Essas alternativas parece não fazerem parte da planificação de nossas autoridades públicas. Antes, quase acredito existir um empreendimento de intenso boicote a necessidade básica de transporte público. Devido à característica egoística de nossos cidadãos, em resposta a piora de nosso trânsito, são adquiridos cada vez mais veículos, o que torna as nossas vias, em conjunto, o principal cenário das maiores tragédias de nossos tempos.

Fazendo um exercício simples com relação ao incremento do número de carros nas ruas de nossas cidades, imaginei se todos tivessem um dia um automóvel. Como não haverá lugar para estacioná-los, eles se tornarão a nossa residência. Portanto, a solução seria a de que os veículos ficassem estacionados perto de onde as pessoas trabalham. Observando o crescimento da tendência das pessoas viverem em seus carros, já que dificilmente conseguiriam se deslocar para a casa original a tempo de voltar para trabalhar, incorporadoras imobiliárias criariam garagens-residências, ao estilo de campos de trailers. Melhor ainda, os trailers se tornariam a opção mais convidativa para esse mister. Viveríamos sobre rodas, mas devido à quantidade de carros, não teríamos para onde ir, encalacrados que estaríamos em um eterno congestionamento para o resto de nossas vidas…

*Texto de 2013

https://www.bbc.com/portuguese/videos_e_fotos/2013/03/130325_carros_mundo_congestionamento_mm

O Garoto Atormentado*

Corria o ano de 1986 e uma canção da banda inglesa The Smiths começou a tocar seguidamente no rádio. Depois, o videoclipe tornou-se hegemônico e, apesar de simples, o amei desde o início. O título assaltou-me feito um ladrão – The Boy With Torn In His Side. O arranjo com a guitarra de Johnny Mars me carregou, a melodia me envolveu e a voz de Morrissey se tornou a minha voz. Eu era um adolescente com a idade física de 24 anos, bastante imaturo em termos emocionais. A letra da canção, ainda que mal traduzida por meu inglês claudicante, revelava meus sentimentos mais profundos. Às lacunas incompreensíveis, preenchia com termos pessoais.

O rapaz imberbe e virgem sentia realmente como se um espinho o atravessasse de fora a fora, se bem que a tradução literal poderia ser substituída por “atormentado” ou “que carrega um fardo”. Porém, a imagem de algo a lhe causar dor a cada movimento se adaptava muito bem à minha condição. Eu estava decididamente sem rumo e pronto para empreender qualquer coisa que me salvasse de mim.

Eu tinha medo de amar. Tinha medo que o meu amor não me amasse. Como um mediano jogador de xadrez, antecipava as jogadas até certo ponto, sem conseguir mover as peças em direção à vitória. No meio do caminho, perdia a vontade de jogar ao saber que, para vencer, deveria matar o rei. E eu ainda não tinha desistido dele, como fiz anos mais tarde.

Dali a dois anos, minha vida mudaria para sempre. Encontraria o caminho para amar de uma maneira que seguiu um roteiro estranhamente conhecido, como se fosse um texto que tivesse lido na adolescência, quando era um adulto e imaginei seguir as linhas do enredo da maioria – namorar, casar, ter filhas (o argumento original previa que seriam três), casa: família.

Tal qual o garoto de Marr & Morrissey, que cria que seus olhos diriam tudo – que por trás do ódio havia um intenso desejo de amar e se entregar – que ao dissimular seus passos, deixava rastros, esperei encontrar alguém que fizesse com que me movesse em direção à grande aventura de amar. Encontrei mais gente pela trilha, como as minhas crias, que são mais e melhores do que eu. Recuperei a conexão familiar original, excetuando-se a com meu pai, que foi se deteriorando cada vez mais. Se o amor ganhou significado, sinto ser incompleto em sua abrangência. O que talvez seja inato para alguns, para mim é um andejar em direção a algo que ainda estou a aprender a viver… Ainda que tenha matado o rei, sei que não venci a partida…

*Texto de 2015

Vila Madalena / O Matheus

Meu filho estava cada vez mais distante. Ele me procurava apenas episodicamente. Berenice também reclamava de vê-lo cada vez menos. Será que estava preferindo ficar com o pai biológico, tentar recuperar o tempo perdido com o pai ausente? Será que se soubesse que Raul não queria que nascesse, mudaria de atitude? Quando tinha esse tipo de pensamento me sentia desprezível. Não seria assim que voltaria a ter a atenção de Matheus. Além do que o rapaz já era adulto o suficiente para escolher como viver a sua vida. Matheus era muito bom estudante. Mais dois anos, se tornaria Bacharel em Direito. Sua maior diversão era ir a espetáculos de música e a peças de teatro. Colecionava amigos da área – músicos e atores. Tocava um pouco de violão, se bem que há algum tempo não cantava uma canção nova para mim e Berenice nas tardes de domingo.

Decidi ligar para Ella para sondá-la a respeito de como estava a convivência com o filho. Disse que ele estudava muito, mas estava com alguma atividade paralela, a qual não sabia dizer qual fosse. Por isso, quase não parava em casa. Perguntou se estava ficando no quarto dele em meu apartamento. Devolvi que também estava menos presente. Por isso, liguei.

— Bem, talvez seja a faculdade esteja o absorvendo mais do que antes…

Raul está ressabiado, achando que estivesse preferindo ficar com você.

— Devo confessar que a recíproca é verdadeira! Rs…

— Vamos confiar! Ele é um menino incrível!

— Sim, ele é! Obrigado, Ella!

Igualmente, Chico!

Esse diálogo pareceu frio e distante assim colocado, mas havia carinho de parte a parte. Ella sempre que podia me agradecia por minha postura compreensiva. Não sabia o quanto fiquei magoado, comendo o pão que o diabo amassou. Foi um período em que a autopiedade me absorveu de tal maneira que me sentia um trapo. A volta por cima se deu quando larguei o escritório e enveredei pela escrita como atividade profissional. Foi uma época difícil, mas consegui segurar a barra.

Com o tempo, minha atitude sem reservas me aproximou de bons amigos e profissionalmente carreio um certo prestígio. Não ganho tanto quanto antes, mas usufruo muito mais da vida. Como frequentar ambientes como o Bar do Pereira, onde voltaria a ver mais um show da Fábia, acompanhada do Carlos e outros músicos. Ele me disse que ela apresentaria um repertório novo, apesar do sucesso que fazia com o antigo. Tinha certeza de que traria gratas surpresas. Desde a primeira apresentação, ficara impressionado com o talento da intérprete de olhar iridescente. As nuances que emprestava à voz de timbre emadeirado, feito flauta doce. Mal sabia que teria outras surpresas.

Cheguei meia hora antes do início da primeira entrada e entre os amigos que estavam na sala reservada aos músicos, encontrei Matheus. Sorridente, meu filho parecia conhecer a todos e conversava, quando entrei, com Fábia, entre olhares e sorrisos cúmplices.

Matheus, que faz aqui? – o meu sorriso carregava curiosidade e espanto.

— Sou amigo do pessoal. O filho do Benê, o tecladista, estuda comigo.

Olhei para o Carlos, sorridente como se tivesse cometido uma peraltagem.

— Olha, meu irmão… só hoje eu soube disso. O que sei é que o filhão fará uma participação especial na segunda entrada.

Matheus me abraçou e disse que o Carlão havia estragado a surpresa.

— Vou tocar uma canção da Maria Bethânia com a Fábia. Nos tempos livres na faculdade, eu e o Tico, filho do Benê, brincávamos numa das salas do curso de música – voz, piano e violão. Quando viemos num ensaio visitar o Bar do Pereira, o Bianco me deixou tocar na guitarra dele e gostaram do meu estilo. Quem teve a ideia de fazer uma participação especial foi a Fábia.

— O seu menino é muito talentoso, Chico! Desculpa chamá-lo dessa maneira, mas falamos tanto de você que mais parece um amigo íntimo.

Fábia e Matheus trocaram olhares cúmplices que me causaram frêmitos de ciúme. Apenas não soube identificar de quem… ou se dos dois. A diferença de idade de uns dez anos não seria um empecilho para uma mútua paixão. Quando novo, só tinha olhos para as mulheres mais velhas. Talvez fosse uma maneira de mantê-las distantes, mas tenho por mim que fosse admiração de um elã que demonstravam no olhar, no gestual, na postura. O que não faltava para Fábia – uma mulher absolutamente atraente – mesmo que não emitisse sua bela voz.

Quanto a Matheus, um jovem bonito, corpo bem torneado de quem se mantinha em atividade constante – surfe, bicicleta e escalada – inteligente, culto e com evidente dom artístico, certamente interessaria a alguém como a cantora-arco-íris, como a intimamente a chamava. Um tanto desconfortável, cumprimentei Fábia com um beijo no rosto e me arrependi. Seu perfume impregnou as minhas narinas de indefinível sensação de enlevo. Não havia dúvidas. Estava apaixonado. Sorri inadvertidamente pela eventual situação de encontrar um competidor por sua atenção na figura do meu filho. Fábia, atenta, percebeu e me perguntou da razão do sorriso. Disfarcei e disse que era de orgulho por Matheus tocar para ela.

— Seu filho é muito talentoso! – disse, olhando para Matheus com carinho.

O show foi muito bonito. Não sei se os sentimentos envolvidos me deixaram mais sensível, mas a intervenção de Matheus em “Olhos Nos Olhos”, do Chico (o bom) foi linda – precisa, econômica e, ao mesmo tempo, expressiva. Cada nota entregava uma chance para Fábia brilhar. O meu filho me surpreendeu totalmente. Do garoto tímido que emitia os primeiros acordes de músicas antigas – a sua preferência desde sempre – para sua mãe e eu, até o músico que demonstrava personalidade e talento, tudo foi muito rápido. Não pude evitar de derramar lágrimas que marcaram a toalha de minha mesa com o desenho tortuoso da estampa entre ciúme e orgulho, entre flores.

A cada gestual de Fábia buscava encontrar o verdadeiro sentimento que a unia a Matheus. Sem dúvida, algo havia entre eles. Após o final do show fui ao encontro da banda, cumprimentá-los. Estava receoso de não entregar a confusão de sentimentos que me conduzia, quase tropecei umas três vezes. Quando cheguei, perguntaram se havia bebido. Ri e disse que era apenas emoção. Elogiei a performance de todos genericamente, mas um abraço forte em Matheus foi inevitável. Quando me aproximava dele, pude vê-lo abraçado à Fábia, seguido de um beijo dela no rosto dele, carinhoso, mas não tão efusivo que parecesse algo mais íntimo que amizade.

Caramba! Estava me sentindo tão ridículo! Toda a minha inabilidade no relacionamento com as mulheres aflorou em pleno cinquenta anos, mesmo depois de um casamento de quinze. Afora os encontros esporádicos em breves relacionamentos que ocorreram em série como se quisesse recuperar o tempo perdido após a separação, desisti de viver casinhos pelos anos seguintes. A consequência foi vivenciar uma solidão amistosa cercada de pessoas por todos os lados. Matheus volta e meia tentava me apresentar amigas mais velhas. Em algumas ocasiões, dizia que eu tinha que esquecer Ella, desde sempre apaixonada por Raul. Não faltou momentos que percebia o olhar de pena do meu filho. Seria muito estranho encontrá-lo como rival neste quadrante da minha vida.

Quando fui cumprimentar Fábia, fui pego de surpresa por um abraço nada protocolar de mais de trinta segundos. Parecendo quase um pedaço de madeira, fui relaxando a musculatura até me sentir envolvido por uma emoção de adolescente e retribuí a força que empregava. Torci para que ela não tivesse percebido uma ereção inesperada. Mas ao afastar seu rosto do meu, com um sorriso entre divertido e sarcástico, sem que eu não dissesse nada, falou em meu ouvido:

— Obrigado pelo elogio!