Dizem que jogar xadrez não o torna mais inteligente, mas apenas um melhor jogador de xadrez. Eu prefiro pensar de outro modo e acho que ele nos ensina sobre estratégia e como saber se antecipar às jogadas que a vida nos contrapõe. Similarmente, dizem que as tarefas caseiras são apenas cansativas e não trazem nenhuma contribuição pessoal. Mas, para mim, qualquer coisa me serve de base para filosofar: varrer, limpar, lavar utensílios de cozinha e guardá-los, por exemplo. Por acaso, descobri que nem sempre encontramos as tampas para as respectivas panelas e vice-versa… Um mistério na cozinha e na vida…
Ana, sentada à mesa do restaurante, mexia distraidamente a colher em sua xícara de café. Fazia movimentos circulares de forma calma e complacente. Quando ergueu os olhos, avistou diante de si, Carlos, que se aproximara bem lentamente de sua mesa. Ao vê-lo, Ana sorriu de maneira enigmática, sem estabelecer se estava contente ou insatisfeita com a aparição inesperada do seu ex. Ainda com um sorriso indecifrável, pediu para Carlos se sentar. Agora, diante de si, estava aquele que a fizera chorar de raiva por algum tempo, desde que descobrira a sua lista de amantes, a começar por sua (agora também ex) melhor amiga.
Lembrou-se que parou de chorar quando notou que sentira um tipo de raiva diferente do que aquela que consideraria ser natural sentir por alguém que amasse verdadeiramente. Passou por um período de introspecção que a fizera perceber que o que sentia por Carlos era uma espécie de amor acomodado, uma amizade recheada de sexo eventual e nem sempre satisfatório. Dessa forma, mesmo sem o dizer explicitamente, o perdoara e também à sua amiga. Em verdade, passou a sentir que os dois haviam feito um favor a ela. Mas também esse dado não o revelara a ninguém. De fato, era a primeira vez que se encontravam depois do ocorrido. Todas as questões práticas da separação foram tratadas por advogados. Os dois não quiseram ter contato direto por algum tempo – ela, devido ao sentimento de ira, que não queria ver contaminar a relação dele com o casal de filhos adolescentes – e ele, pela vergonha de ter sido flagrado.
Sempre que chegava a ocasião da visita do pai aos filhos, Ana evitava encontrá-lo e Carlos, até então, havia respeitado a observação desse distanciamento. No entanto, como passara em frente daquele restaurante e tivesse percebido através da ampla janela a presença do rosto familiar junto a uma mesa de canto, estancara os seus passos por um instante e se flagrou surpreso de como a achou bonita com aquele semi-sorriso que pendia de sua boca. Parecia denunciar a expressão de uma pessoa que se sentia em paz, relaxada e até mesmo, ele pensou, satisfeita. Sentiu-se um pouco incomodado com a sua impressão e de impulso decidiu se aproximar para perguntar como ela estava. Logo que se sentou, foi o que fez.
– Estou bem! E você?
– Bem, também… Tem feito alguma coisa diferente, além do trabalho?
– Nada! Como um dia depois do outro no tempo em que vivíamos juntos…
– Você me parece estar tranquila e até feliz… Tem alguém especial em sua vida, atualmente?
– Que nada! Como um cara diferente depois do outro, mas não todos os dias…
Carlos ficou espantado diante dessa afirmação, principalmente pelo fato de que ela tivesse sido feita de forma tão natural e franca. Por seu tom de voz, Ana não pareceu querer ofendê-lo. Apenas ampliou o sorriso.
– Então, tá! Que bom que está bem! Adeus…
– Tchau! – respondeu Ana, vendo Carlos sair sem olhar para trás, enquanto ela fazia cumprir mais uma volta da colher em sua xícara de café. Como a dialogar com ela, exclamou em voz alta:
Seria falta de empatia ̶ alienação ̶ pouco valor à vida?
Ou algo pior?
Seria esquizofrenia ̶ negação operacional ̶ realidade partida?
Ou algo pior ainda?
Aproveitar a pandemia ̶ virtual genocídio ̶ eugenia?
Eliminar os velhos pensionistas ̶ Seus Juquinhas, Donas Marias?
Mortandade como projeto de governo ̶ equalização de perdas econômicas?
Nosso País a viver o drama do fascismo redivivo ̶ teorias de raças hegemônicas ̶
tiros às dezenas a metralharem jovens pobres e pretos ̶ Joões Pedros ̶
invasão de casas em comunidades, como se fora guetos?
Antes, talvez fosse uma simples operação policial boçal,
mas não ̶ faz parte de um sistema antigo ̶ racismo estrutural.
O mesmo que fez por destino-desdém a branca mão ̶
empurrar o corpo do anjo Miguel do alto até o chão…
No Norte da América, Floyd chama pela mãe ̶ última palavra a dizer…
Sem poder respirar, o homem clama por ar ̶ último desejo antes de morrer…
Talvez se sentisse um rei branco aquele que pressiona, ajoelhado,
o pescoço do homem preto subjugado…
Branca mão no bolso, olhos frios, alheio aos pedidos do entorno, conta mentalmente
o tempo que resta da energia que se esvai do gigante.
Uma morte entre tantas mortes ̶ brutalidade exposta ̶ silenciosamente
a melhor parte de nossa humanidade é atacada na nossa frente.
Devemos erradicar as doenças ̶ aquelas que nos mata em conjunto.
Bem como aquelas que nos mata por dentro, dia-a-dia, miseravelmente.
Afastar de nossa convivência aquele que diz não ser coveiro,
mas negocia armas e meios para produzir defuntos.
Devemos nos precaver das enfermidades sistêmicas ̶ combater os males da alma.
Buscar o caminho correto, andar pela claridade do saber e do discernimento.
Sabemos que a morte ̶ fato da vida ̶ é causa perdida, inevitável…
Viver com medo e precariedade, por imobilismo governamental,
sem ter como nos defender do sofrimento por descaso ativo ̶ intencional ̶
é imperdoável.
Todos os dias, vivo um instante mágico, de grande calor humano…
“Todos os dias, Deus nos dá um momento em que é possível mudar tudo que nos deixa infelizes. O instante mágico é o momento em que um ‘sim’ ou um ‘não’ pode mudar toda a nossa existência.” (Paulo Coelho)
Vez ou outra, vemos postadas frases de efeito como essas acima, normalmente acompanhadas de uma imagem bonita. Eventualmente, o nosso desejo é tão grande de recebermos notícias de esperança que as aceitamos de olhos fechados. De certa forma, podemos viver de recitar frases edificantes, o que não quer dizer vivamos de acordo com as receitas de vida que propõem. No caso deste coelho tirado da cartola pelo Mago, tenho algumas considerações a fazer, ousadamente.
Inicialmente, destaco que não sou leitor de Paulo Coelho. Lembro de que li um título seu, da qual não lembro o nome. Talvez, não seja mesmo essa a intenção do autor, já que ele conta sempre a mesma história, sob variados prismas. Alguém poderia chamar a isso de coerência, outros, de redundância. A frase acima, de certa forma, parece resumir boa parte do que ele quer “vender” para os seus leitores. Quem não gosta desse termo, visto que suas mensagens pretendem se mostrar superiores a este aspecto comercial, chamo a atenção para o fato de que o Mago reivindica o posto de maior escritor do Brasil justamente por sua vendagem exacerbada.
Por que “todos os dias Deus nos dá” – apenas – “um momento em que é possível mudar tudo que nos deixa infelizes…”? Passado aquele momento, devemos esperar o dia seguinte para vermos surgir outro ponto crucial em que devemos decidir entre um “sim” ou um “não” para mudarmos “toda” a nossa existência”? Por que não temos todos os instantes, todos os dias, miríades de oportunidades para decidirmos a nossa história?
Mas ele cita o “instante mágico”! Para quem acredita que a vida inteira é mágica, todo o instante é mágico, não é mesmo? O recurso de determinar o momento da virada é muito usado como gancho por escritores de novelas e roteiristas de cinema. Pode aparecer em qualquer parte da trama, mas normalmente é reservada para o final, entre perseguições e tempos em contagem regressiva.
No entanto, sendo mais chato ainda, pergunto: depois do “instante mágico” e “o momento em que um ‘sim’ ou um ‘não’ pode mudar toda a nossa existência”, não haverá nenhuma chance de que o “sim” se transforme em “não” e vice-versa? Quando dizemos não ao fumo, ao “junk food” ou à bebida, nunca mais voltaremos a nos intoxicar? Quando dizemos “sim” ao amor ou à vida saudável, nunca mais voltaremos a odiar ou meter o pé na jaca? Neste caso, “toda a nossa existência” tem prazo de validade – talvez 10 minutos ou 10 anos – seja lá o que for.
Devemos estar constantemente atentos e fortes para que não durmamos sobre os louros do “instante mágico”. Magicamente, está em nossas mãos, a todo o momento, direcionarmos a nossa vida para o melhor caminho. A todo instante tomamos pequenas decisões que podem significar desvios, mesmo que sejam tomadas com a melhor das intenções. E, na maioria das vezes, apenas saberemos quando chegamos a bom termo quase no final da estrada, quando divisamos a totalidade da obra da qual participamos… Isto, se não acreditarmos que todos os instantes da nossa vida não sejam apenas os instantes de uma vida entre tantas outras da nossa existência…
Shazam & Xerife – Paulo José e Flávio Migliaccio (1972)
Outro dia, partiu um dos atores mais emblemáticos de minha garotice ˗˗ Xerife ˗˗ que representou o Flávio Migliaccio. Adorava vê-lo viver aventuras ao lado de Shazam, também conhecido como Paulo José. Os dois andavam de cidade em cidade com o caminhãozinho-trambolho-geringonça conhecida como Camicleta (caminhão com bicicleta). Eu os encontrei na novela O Primeiro Amor, de 1972. Eu era noveleiro. Aliás, na nossa TV PB Bandeirante 14”, gostava de assistir novelas, filmes, séries, desenhos ˗˗ tudo o me fizesse sonhar ˗˗ ou, de certa maneira, me desviasse do cotidiano duro que vivia na periferia da Zona Norte.
Enquanto corria o mundo, a dupla mais incrível que já vi, se metia nas situações mais complicadas e acabava por resolvê-las das maneiras mais inusitadas e atrapalhadas possíveis. Na visão do menino, Shazam e Xerife eram maiores que a própria vida. Quando a série acabou, não me conformei. Mas já compreendia que as coisas mudam. Que mudar é viver.
Eu estava mudando. Por volta dos meus 12 anos, ao mesmo tempo que comecei a usar óculos, troquei de escola. Inaugurei um novo mundo de relacionamentos e vivências. Fui ficando cada vez mais ensimesmado. O ser introspectivo, apreciador de aventuras fantásticas, começou a escrever sobre a transcendência do ser sobre o amor. De certa maneira, queria transcender a algo que não conhecia. Queria me tornar luz sem me jogar na escuridão da dor de amar. Hoje eu sei que não há como alcançar uma coisa sem passar por outra. Na realidade, tinha a ilusão de aprimorá-la, expandi-la e me tornar puro amor.
Na periferia, via passar Shazans & Xerifes a todos os momentos. Muitos, em vez de Camicletas, usavam carroças puxadas a cavalo. Por aqui havia ainda estábulos e ferreiros para ferrar cavalos. Gostava dos cavalos, mas não aceitava a maneira como eram usados. Via crescer a minha indignação com o ser humano ˗˗ ente que deseja se assenhorar de tudo ao seu redor, sem pedir permissão. Em determinada época, preferia não pertencer à espécie humana.
Aos 16 anos, estava pronto para morrer. Se acontecesse, receberia a morte com a curiosidade típica que sempre me acompanhou. A minha expectativa é que estivesse consciente ao conhecê-la. Com 17 anos, mais uma mudança. Tomei contato com a busca pela iluminação real. Não a fátua ˗˗ egoísta e vaidosa ˗˗ que nos afasta da verdade. Porém aquela que nos posiciona para além de nós. Isso me ajudou a sobreviver fisicamente.
Passei a ter respeito pela vida, mas principalmente pela procura das melhores condições para que ela pudesse se expressar em todas as suas potencialidades. Ao mesmo tempo, compreendi que somos proprietários dos nossos veículos e percebi crescer em mim a responsabilidade de deixar o meu corpo-veículo mais apto a me carregar, pelo maior tempo possível, para me levar para onde quisesse ir, até desligá-lo quando não quisesse mais usá-lo. De alguma maneira, sem conseguir identificar o que me dava prazer em viver, boicotei a mim mesmo e quase morri duas vezes.
Consegui superar essa fase de me deixar morrer, graças ao amor. Mas há momentos que cansamos. Atualmente, parece que vejo acontecer as mesmas coisas que vivi há 50 anos. As mesmas personagens, travestidos de novos, sendo representantes do que é velho e ultrapassado. Xerife, cansado de guerra, corajosamente quis cometer um último ato de protesto contra o desrespeito ao artista e à arte. De corpo envelhecido, mas de espírito jovial, sabendo que dificilmente voltaria a atuar, decidiu libertá-lo. Preso à gravidade cada vez mais opressora, respirando o ar cada vez mais venenoso do País, representou o papel do eterno rebelde com causa, defensor dos fracos e oprimidos ˗˗ morreu-se ˗˗ para se perpetuar como o herói simples e imortal que fez todo mundo sorrir.