BEDA / Scenarium / Selfie-Espelho

SELFIE

Quando me olho no espelho, vejo o meu contrário imagético. Me penteio, me invento-maquio, me expresso inversamente à figura que mostro aos outros. Mesmo assim, não deixo de ser verdadeiro. Afinal, sou mais real quando não sou exatamente quem penso que seja.

Como em um jogo de espelhos, o que de mim se mostra exteriormente, na realidade, acabo por ser. Se enxergar com muito cuidado, em mim tudo está dito, tudo mostrado, sem bem que nem sempre desvendado. Não falo especialmente da imagem que mostro, mas da mensagem que tento transmitir – sentimentos, visões, o que ouço, tateio, experimento o gosto – enquanto, interiormente, monto um discurso mentiroso sobre o que apreendo sobre mim para a satisfação do meu ego. E como um monstro que se projeta para além de meus limites mentais, procuro aviltar o espelho revelado-revelador.

Para não parecer tão ultrajante, prefiro me projetar nos crepúsculos, mais do que nas auroras – vida nascente. Pois ao terminar o dia, identifico neles, a morte redentora.

 

Beda Scenarium

BEDA / Scenarium / O Limoeiro

LIMOEIRO

Ele morreu, o nosso limoeiro-rosa…

É tão estranho vê-lo totalmente ressecado… tentamos salvá-lo logo que percebemos o início de sua partida – podamos os galhos secos, limpamos a área ao seu redor e colocamos adubo orgânico.

A hipótese mais provável de sua decadência gira em torno acidez do cocô dos cachorros. Devido à sua acidez, talvez tenha alterado a boa qualidade do solo. Justamente agora, estamos reformando essa parte do quintal para transformá-lo em um jardim fechado para evitar isso.

O Limoeiro, esse personagem de uns trinta anos, viveu os seus primeiros cinco em um vaso. Ficou preso a ele como um bonsai até que foi transplantado para a terra. Cresceu bastante, mas não tanto. Os seus frutos podiam ser colhidos facilmente, pois ficavam ao alcance da mão.

Não imaginava que essa testemunha de mais de metade da minha vida, partisse assim, simbolicamente, no outono. Bravo como poucos, antes de partir ainda produziu um limãozinho. É como se enviasse um recado agridoce de reafirmação da vida…

A minha homenagem a esse querido amigo natural!

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BEDA / Scenarium / Valéria, A Cantora*

VB

O mundo é o palco onde interpretamos os nossos papéis, os mais variados possíveis. Um personagem pode viver situações diversas ao longo de sua atuação e isso vai perfazendo a sua trajetória e moldando a sua caracterização. Por vezes, costumamos acreditar que algumas pessoas já nascem com o sua personalidade formada, o seu papel escrito, com o final traçado. Dessa maneira, fica mais fácil compreendermos uma história, simplificada em seus matizes e percepções. Em outras ocasiões, nos deparamos com personagens incompreensíveis, em argumentos inverossímeis, com desempenhos canastrões. Quando, no entanto, nos encontramos com protagonistas reais, com histórias verdadeiras, muitas vezes dramáticas e que mesmo assim superaram o lugar comum de coadjuvantes na peça, fazendo coro ou escada, isso é tremendamente emocionante. Demonstrando força e talento incomuns, transformam a sua passagem pelo Teatro da Vida em “tour de force” espetacular, emocionando a quem os assiste. É deste modo que eu vejo a Valéria Bezerra.

Há algum tempo não a via. Sabia que passara por um processo doloroso de superação de uma doença grave e que estava voltando, pouco a pouco, a cantar na antiga forma, quando sempre foi considerada uma das melhores cantoras das noites e dias de São Paulo. Tem uma longa história, em passagens por bandas de baile e eventos famosas, como Santa Maria, Réveillon, Primeira Mão, Sammy’s Band e algumas outras. Já atuou em várias casas noturnas e participou de programas de televisão. Acompanho a sua performance há quase trinta anos, inicialmente como fã, como quando a assisti em um show da Banda Santa Maria, do Toninho, pai do André​, atual condutor, no velho Olímpia, com a participação de outros grandes músicos e cantores, como Paula Zamp. E, depois, como locador e técnico de equipamentos na Ortega Luz & Som, quando participei de alguns momentos de sua carreira.

Lembro-me de uma ocasião em que estávamos em uma escola de periferia para apresentarmos um “show room” de formatura. Era um público juvenil e inquieto, talvez até antagônico. Ao lado dela, outro grande comunicador e cantor, Josias Correia, porventura não tivesse percebido a sorte de contar com a presença de espírito da Valéria, que dominou a situação com maestria e soube envolver o público com desenvoltura e perspicácia. Quando ambos terminaram a apresentação, tinham conseguido realizar o trabalho com sucesso.

Em outro ambiente, o Teatro Renault, nos reencontramos e vivenciamos, igualmente, a ocorrência de um fato correlato em seu teor de efervescência. Antes de falar do fato em si, faço questão de ressaltar que a Valéria está voltando a cantar tanto quanto antes. Durante todo o evento, em que se apresentava compondo o Coral & Banda Sant’Anna Show, realizou com perfeição a sua parte e fez mais, auxiliando o seu companheiro, Rafael Ismério, com “backing-vocals” nas ocasiões devidas, algo inusual para tantos cantores hoje em dia. Fez questão de fazer “sala”, que vem a ser uma apresentação para recepcionar o público antes da abertura oficial dos trabalhos, que seriam dirigidos pelo competente Sidney Botelho. É comum alguns artistas não quererem se apresentar além do que são pagos para fazer e não desmereço essa opção, mas ela estava realmente disposta a fazê-lo como quem quer beber um cantil d’água, após uma temporada no deserto. O grande palco e a numerosa plateia pareciam ser detalhes menores, que ela não se importava de enfrentar, ou antes, que estava ansiosa em fazê-lo. Entreteve com habilidade o público e, assim inspirado pela presença da grande cantora, o Rafael também desempenhou muito bem as suas canções. Naquele momento, percebi que o ciclo se completava diante dos meus olhos – a antiga “Diva” e o jovem “crooner” apresentavam o enredo eterno e sempre revivido do encontro das águas do Tempo, com suas experiências pessoais se entrechocando e se misturando. Ambos foram muito aplaudidos e a imponência do teatro emprestava um toque de primazia ao espetáculo.

Bem, vamos ao momento de dramaticidade a que aludi anteriormente. Deixei para o final, porém foi logo no começo da cerimônia. Na entrada dos formandos, soltei “Viva La Vida” e por um erro técnico da minha parte, o computador, em determinado instante, “deu pau”, parando a execução da música. Isso durou um ou dois minutos, ocasião em que alguns poucos do auditório trataram de cobrir o silêncio com murmúrios e vaias. A Valéria, percebendo que precisava intervir, pegou do microfone e começou a cantar para acompanhar o cortejo dos alunos. Resolvido o problema, voltei com a música e agradeci o esforço dela. Pude perceber o quanto os eventos dramáticos, os decisivamente vitais e os evidentemente modestos, são amplificados ou diminuídos pelos atores que os interpretam. Para mim, não existem histórias menores, mas talentos redutores. Não existem aventuras apoteóticas, mas representações magistrais. Não importa o tablado que se dá – na escola pública ou no mais majestoso teatro da cidade. O grande personagem desenvolve o seu papel da melhor forma possível. E a Valéria provou que atua dessa maneira em qualquer palco em que se apresenta – naquele reservado para poucos ou no Mundo – para todos nós…

*Texto de 2014.

 

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BEDA / Scenarium/ No Mundo De 2020

2020

Soylent Green, que no Brasil foi chamado de No Mundo De 2020 e, em Portugal, de À Beira Do Fim, é um filme estadunidense de 1973, dirigido por Richard Fleischer e estrelado por Charlton HestonLeigh Taylor-YoungEdward G. Robinson. Vagamente baseado no romance de ficção científica de 1966 Make Room! Make Room!por Harry Harrison, que combina dois gêneros – policial-processual e ficção científica – trata-se da investigação sobre o assassinato de um homem de negócios rico. Em um planeta Terra com oceanos em extinção e alta umidade durante todo o ano, devido ao efeito estufa, resulta em poluição, pobreza, superpopulação, eutanásia e recursos naturais esgotados.

No ano de 2022, a cidade de Nova Iorque conta 40 milhões de habitantes. Para alimentar as inúmeras pessoas pobres e desempregadas, existem tabletes verdes chamados de Soylent Green, produzidos inicialmente através da industrialização de algas. Somente os ricos tem acesso a comidas raras, como carnesfrutas e legumes.

Quando um rico empresário das indústrias Soylent Corporation é assassinado em seu luxuoso apartamento, o detetive policial Robert Thorn começa a investigar. Ele de imediato suspeita do guarda-costas do empresário, que alega ter saído na hora do crime. Após interrogá-lo, Thorn vai ao apartamento do empresário e encontra indícios suspeitos, como uma colher com restos do caríssimo morango. Enquanto Thorn persegue o guarda-costas, seu idoso parceiro, Sol, começa a investigar os registros e papéis do empresário morto. Acaba por descobrir uma verdade estarrecedora sobre o tal tablete verde…” (Adaptado do Wikipédia).

Garotos, eu e meu irmão assistíamos em nossa TV preto e branco a filmes de todos os tipos. Os de ficção científica eram os nossos favoritos. Pessoalmente, comecei a gostar também de assistir a filmes europeus, musicais e noirs americanos. No Mundo De 2020, eu e o Humberto vimos juntos. Foi ele que chamou a minha atenção sobre o tema similar, quando o Capitão desdenhou do Covid-19, além de realçar que 90% dos abatidos pela doença seriam cidadãos acima de 60 anos, quase como a dizer que constituíam uma população “descartável”.

O personagem de Edward G. Robinson, emblematicamente em seu último papel antes de morrer, deseja se despedir dignamente da vida e adere a um programa de incentivo a eutanásia de maneira confortável e indolor enquanto revive em imagens cenas do belo mundo natural que existia antes de se tornar quase inabitável por conta do estilo de vida humano autodestrutivo que o levou ao caos.

Fica difícil cotejar o assunto do filme com a questão de os velhos serem considerados, em conjunto, um peso morto, normalmente usuários de programas assistenciais ou aposentadorias “dispendiosas” sem dar spoiler . Não o farei. O que o Capitão vocalizou, de alguma maneira, faz parte do pensamento de muitos que o elegeram. Ainda que muitos sejam igualmente velhos, que segundo discriminou, são pessoas de 60 anos ou mais. Como o dito cujo tem 65, talvez fosse ocaso dele mesmo pensar em se despedir dignamente da função que exerce por falta de condições em conduzir a administração do País.

Na pesquisa que fiz para rememorar os dados do filme sem parecer distante da mensagem que passa, acabei por encontrar várias informações interessantes. A realidade que mostra, de certa maneira, é o padrão da vida real de boa parte da população mundial – poluição, saneamento básico precário (“acostumada a nadar no esgoto”), escassez alimentar, precariedade de moradia, violência e superpopulação. Enquanto uma outra pequena parcela usufrui de uma estrutura impensável para quem está acostumado a se equilibrar entre a vida e a morte cotidianamente.

A chegada do Covid-19 parece tema de filme distópico, atingindo a todos de forma espraiada-generalizada. Porém nos Estados Unidos ela mostra a sua faceta mais grave ao avançar sobre as populações mais pobres, mormente constituídas por hispânicos e afrodescendentes. Muitos não têm planos particulares e não podem ser atendidos como ocorre no sistema de saúde brasileiro – representado pelo SUS – apesar da precariedade por causa dos escassos recursos muitas vezes desviados ou mal utilizados.

O Mundo De 2020 chegou, em muitos dos aspectos mostrados na produção de 1973, no mundo de 2020. Quando garoto, me assustei com as possibilidades tenebrosas que demonstrariam a tendência autofágica do homem moderno. Desde cedo, percebi o quanto caminhamos, por causa do sistema hegemônico que adotamos no planeta, para um estado irreversível de pobreza material de grande parte da população e de pobreza espiritual da parte que abocanha a maior porção dos recursos da Terra. Porque uns não abririam mão do poder que detêm, enquanto despossuídos almejam alcançar o mesmo poder, “decrescer” é um objetivo inalcançável nesta geração. Tenho por mim que se não desacelerarmos conscientemente, certamente seremos forçados a parar…

 

Beda Scenarium

 

Informações e análises adicionais em:
https://medium.com/ver-mais-text%C3%A3o/no-mundo-de-2020-909f3befcee5

BEDA / Scenarium / Páscoa de 2013

PÁSCOA 2013

Este ano eu não quis comprar ovos de Páscoa – para ninguém!

As minhas crianças já não são tão crianças. A mais nova das minhas três filhas está com 17 anos e acabou por receber um ovo de chocolate de presente de seu namorado. A do meio está em viagem. A mais velha está com 22 anos. As crianças de parentes estão distantes demais e as dos amigos, não são tão próximas. Portanto, muito devido aos altos valores envolvidos, em contraponto ao valor real da Páscoa que desejava ressaltar, essa decisão me pareceu sensata e econômica. No entanto…

… com a aproximação do domingo de Páscoa, comecei a ficar inquieto com a ideia de não ofertar para as minhas eternas crianças um pouco do sabor que elas cresceram aprendendo a associar a esta época – a do chocolate. Gostaria de exercitar o desapego à barafunda de conceitos normalmente ligados ao comércio de datas que, primariamente, deveriam estar associadas à elevação de nossa formação como homens de espiritualidade elevada, colocando-me acima disso. Porém, ontem, decidimos, eu e a minha mulher, sair hoje cedo e ver o que sobrou dos chocolates em oferta para recuperar nosso próprio espírito infantil.

Lembro-me do quanto fiquei decepcionado quando minha tia Raquel, de família mais abastada, passou a não me dar mais ovos de chocolate após os meus 12 anos de idade. Como assim, não ganharia mais? Ainda me sentia tão criançona! Talvez os mini adultos de 12 anos de hoje não entendam: por que cargas d’água (nossa, que expressão antiga e incompreensível) eu teria ficado tão mal por tal fato? “Pô, cara, você já tinha 12 anos!”…

 Hoje, buscamos as lojas abertas e não encontramos mais as marcas que queríamos, mas não deixamos de comprá-los. Tive para mim, no momento em que adquiria os ovos, que tentava devolver para as minhas crianças, as que foram – eu e a Tânia – o sabor da expectativa que envolvia a chegada da Páscoa – menino e menina – que não tiveram tanta chance de prová-los em muitas oportunidades de infâncias de precariedade material. De qualquer forma, acabei por dar chocolate para a minha mulher, para a minha criança mais velha e para a minha criança mais velha ainda… e, talvez, para a mais infantil de todas – eu mesma…

 

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