Ao cruzar a cidade para ir trabalhar, tenho reparado que tem aumentado o número de pessoas com alterações no humor (para pior) e outras tantas decididamente fora de órbita. A variedade de manifestações exacerbadas com desvios de comportamento aos ditos “normais” tem se mostrado bastante amplas e muito peculiares.
Vejo o catador de papel que veste uma espécie de fralda e empurra um carrinho sem rodas, a fazer manobras imaginárias na rua. Tem o malabarista do semáforo que tenta, sem muito sucesso, equilibrar uma chapa arredondada na cabeça. Ou aquele outro que, travestido em um fictício guarda de trânsito em molambos, enquadra os infratores, a anotar em seu bloco de nuvem e caneta de graveto os pecados dos motoristas. Do meu lado, enquanto aguardo a abertura de outro semáforo, ouço e me assusto com o grito lancinante de um sujeito em andrajos que, com dicção perfeita, vocifera: “Por que é que você voltou?”…
Com este último, me reconheço… Porque já vivi tantas histórias de amor em minha imaginação e sofri tanto com os (m)eu(s) personagens, que senti a sua dor… “Por que é que você voltou?”… Mais adiante, passamos por outro maluco no qual também me vejo porque usa um veículo igual ao nosso — uma Kombi — e trabalha transportando objetos assim como transportamos os nossos equipamentos de som e luz. Tanto quanto ele, vivemos na loucura de manter a vida a circular, de acordo com o que “Sistema” (esse algo sem rosto) nos impõe… Enquanto isso, exercito o meu olhar…
Paramos, junto a vários outros carros, no semáforo da via movimentada da região nobre da cidade. Aproveitando o trânsito parado, um menino faz malabarismos com três bolas prateadas. São movimentos simples, mas que ganham certa conotação de sonho em contraponto ao olhar perdido do artista de rua mirim para outro tempo e lugar…
Aberto o sinal, logo adiante, diviso um presépio em tamanho quase proporcional ao do menino-malabarista. Atento à singularidade, verifiquei rapidamente se o lugar da manjedoura estava devidamente ocupado por outro menino…
Comprovei que sim, mas não deixei de lembrar que a representação icônica daquela criança no passado longínquo cresceu, viveu uma existência conturbada e morreu em nome de todos os meninos-malabaristas do mundo…
Entre os resgastes realizados por nós dos registros memoriais de imagens nos baús (caixas de sapatos) do passado, encontrei esta foto de 1998. A Ortega Luz & Som, nossa empresa familiar de locação e operação de equipamentos de sonorização e iluminação para eventos, participou de muitos bailes de Carnaval no Clube Guapira, do bairro de Jaçanã, juntamente com a Banda Nova Geração, quando o Carnaval de Salão ainda tinha alguma repercussão na cidade de São Paulo. Hoje, as melhores bandas da cidade são convidadas para realizar as suas apresentações no interior deste e de outros Estados, onde alcançam sucesso de público, tanto quanto acontecia naquela época por aqui.
Eram milhares de pessoas nas quatro noites e três matinês, estas últimas especialmente voltadas para as crianças. Sempre que havia oportunidade, as meninas da casa compareciam em pelo menos uma delas, o que parecia lhes trazer bastante alegria e, por elas, eu me alegrava. Por meu turno, já havia percebido que o Carnaval perdera o seu encanto de fantasia e poesia, ou talvez fosse eu que não alcançasse mais a minha criança dos tempos em que morava na Penha, perto da Vila Esperança, imortalizada em uma canção de Adoniran Barbosa, quando o Carnaval de Rua tinha uma enorme expressividade, colocando os assuntos mais prementes do ano sob a ótica da irreverência nos desfiles de pessoas comuns que, com imaginação e criatividade, nos mostravam a cara mais alegre do povo brasileiro. Adorava ver a aparente desordem em cortejo de roupas extravagantes e trejeitos exagerados dos componentes dos blocos, com as baterias tocando no compasso de meu coração acelerado. Esse período foi vivido na década de sessenta, quando houve a assunção dos militares ao poder e, mesmo assim, as críticas sociais persistiam e parece que os mandatários faziam vistas grossas para aquelas ousadias. Passadas três décadas, lá estava eu, reproduzido nos corpos de minhas filhas, Romy, Ingrid e Lívia, carregando o mesmo entusiasmo pueril, em confete e serpentina.
E porque falo sobre o Carnaval antes do Natal, tão mais próximo no calendário? Sempre cogitei que o Carnaval fosse muito mais autenticamente nosso que o Natal. Aliás, se fôssemos legítimos latinos, daríamos presentes no dia 6 de janeiro, Dia de Reis, como é tradição nos países colonizados pelos espanhóis e portugueses e não no mês de São Nicolau. Voltando à foto, nela estão as minhas três filhas, mais a do Humberto, Verônica, vestindo a indefectível vestimenta de odalisca ou algo parecido, o que deveria conferir o aspecto de viagem para outra realidade, que é o que o Carnaval parece representar para quem vive a fantasia de viver outra personagem. Estão lindas, estão felizes ou estão lindas porque estão felizes. Se bem que nem tão contente parecia estar a “Licota“, que nos seus dois anos e poucos meses de idade, devia estar mais assustada do que qualquer outra coisa.
Em uma viagem de quase vinte anos à frente, para 2015, o Carnaval ocorrerá no mesmo mês daquela festa de 1998, em fevereiro, como é tradição. O Brasil terá desse modo transcorrido um período de dezessete anos, em que se trocou a história viva pelo esquecimento e o povo, a inocência pela culpa, a esperança pela descrença, a identidade com o Carnaval por uma identidade carnavalesca. Simplesmente dizer “como nunca antes neste País” nunca pareceu tão falso, já que o presente é resultado de nossas ações do passado e o futuro se faz hoje…
O Cristão e a Filha de Iansã se encontraram em repartição pública. Em comum, contas atrasadas, vidas rasuradas, documentos sem rubrica… Na sala de espera, sentados lado a lado, confidenciaram reclamações – “maldito governo”, “febre terçã”, “longo inverno”… Sentiram mútua simpatia, revelaram planos para o futuro, fizeram confidências, trocaram telefones…
Tiveram um segundo, um terceiro, um quarto, vários quartos em encontros… Sempre furtivos… Sempre breves… Segundos era quanto parecia durar o tempo que dispunham… A paixão uniu os dois corpos, acima das crenças e das certezas… Quando se confessaram amantes, intensificaram a fé em Jesus e em Olurum. Ela, em devoção pelo bem querer. Ele, em penitência pelo amor proibido. A Filha de Iansã nunca dançou tanto no terreiro. No templo, o Cristão nunca cantou tão intensamente os hinos devocionais. Acostumado aos rompantes da índole tempestuosa, o marido dela aprovou o seu duradouro bom humor. Acostumada à temperança sexual, a mulher dele agradeceu ao Senhor o fogo redivivo de início de casamento.
Até que, um dia, discutiram pesadamente… Não foi por causa das entidades da Natureza ou pelo mandamento contumaz de algum versículo da Bíblia. Mas ciúme e sensação de incompletude, por não se pertencerem completamente… Em troca de mensagens, ele passou por cima de seu habitual comedimento e se declarou perdidamente apaixonado.. Ela, ao querer puni-lo, agiu com a frieza de vento junino. Disse, simplesmente: “Obrigada!”… Com o peito dilacerado, ele respondeu: “Por nada! Adeus!”… Os corações empedernidos, talvez por vontade de Deus, não voltaram a se encontrar… A Filha de Iansã não voltou ao terreiro… O Cristão abandonou o templo…
Ao alcance da minha mão Entre verdes, uma amarela Feito um maduro mamão Não foi preciso sacudidela Quase repousa, a manga Entre meus dedos, ao toque Como estivesse junto à sanga Apenas experimento o choque De ser transportado para longe Para o instante do doce corte Em que decidi não ser monge Mas me lambuzar de outra sorte De vivenciar o gosto da fruta De arregaçar as mangas Ter filhas, enfrentar a labuta Viver a vida, juntar bugigangas Parece que a cada mordida A história se repete em ondas Antigas sensações reacendem Bons fantasmas fazem suas rondas Mandam-me lembranças enquanto ascendem…