Lívia

Lìvia I
Lívia

Um Dia antes do dia mais importante dos últimos anos na vida brasileira, hoje é um dos dias mais importantes para mim. Há 23 anos, nascia Liv – nome que pretendia dar à minha caçula. A Tânia quis aportuguesar a grafia e, assim, estreou Lívia em nossas vidas. Romy e Ingrid a receberam com todo o amor e, desde então, entre brigas, choros e reconciliações, as três meninas construíram um relacionamento amorosamente rico, em que as rusgas apenas amplificam os momentos de carinho e solidariedade.

Em 1995 – ano de seu nascimento – o Brasil descobria o poder da Internet. Amanhã, será o dia que será coroado o poder indiscutível das redes sociais na vida das pessoas. Um candidato – absolutamente medíocre – que em qualquer Democracia mais madura dificilmente seria eleito vereador – poderá chegar ao cargo máximo do governo brasileiro nestas eleições de 2018.

No início de 1995, Fernando Henrique Cardoso tomava posse em seu primeiro mandato. Por mais que tenhamos passado por alguns escândalos ao longo de seu governo, como SIVAM e Pasta Rosa, o presidente eleito conseguiu domar a inflação, terminou o primeiro quadriênio do Real de maneira exitosa, dando esperança que finalmente decolássemos rumo ao destino manifesto de “País do Futuro”…

Atualmente, vivemos o processo circular-repetitivo de esquecermos nossos esforços em busca de uma nação igualitária, para apostarmos em projetos obsoletos ou irresponsáveis. Peço desculpa pelo discurso político em voto de felicidade para a minha filha em seu aniversário, mas sei que ela sabe que não podemos desvincular nossa vida pessoal da coletiva-social. O meu perfil de escritor e cidadão não permitiria que deixasse de colocar meu posicionamento.

O amor que sinto pela Lívia, Romy e Ingrid me força a optar no sentido de um passo lateral, apenas para não cairmos no abismo e no obscurantismo que um dos presidenciáveis representa. Se a maioria dos eleitores escolherem essa vertente, espero que possamos ultrapassar mais essa cena, plena de dúvidas e algumas certezas. Uma delas – a supremacia da visão mitológica, mais uma vez – no País que aceita como verdade a mentira bem contada. Sei que a Lívia gostará de ver vinculado o meu desejo de um futuro que respeita a expressão do homem e todas as suas vozes ao seu aniversário. Que não lhe faltem sonhos, saúde, coragem e afetos verdadeiros. Por isso, acrescento: #EleNão

O P. Da Questão

Sobre a divulgação de um vídeo em que supostamente aparece um candidato ao governo do Estado de São Paulo, tenho algo a dizer. Eu o recebi, como muitos de nós, repassado como rastilho de pólvora. Nada diferente do fenômeno que caracterizou as atuais eleições e que fez sua estréia em 2014, de maneira não tão ampla, mas decisiva. Conseguir eleger-se como base em “fake news” pode até ser fácil. Porém, após chegar ao poder, quem as utilizou de forma mais esperta conseguirá governar com “fake news”? Já vimos que não.
Quanto ao vídeo, especificamente, o que vi foi um homem, descontraído, cercado por trabalhadoras em seu ofício, em evento particular, filmado por um outro participante. Se a filmagem foi feita de modo consensual ou clandestina, a sua difusão passa pela intenção de quem o faz: – Quer desacreditar a personagem principal do vídeo (no caso)? Ou às moças? O posicionamento hipócrita quanto à instituição familiar? O p. do político? Quem quer atirar a primeira pedra? E se vier a atirar, ganha o que com isso?
Os arranjos de relacionamentos pessoais e familiares são tantos e tão diversos do que se coloca como tradicional ou “correto”, que quem diz não ter conhecimento ou é ingênuo ou se faz de inocente. Ou, para não parecer tão crédulo quanto à hipocrisia reinante, o meio em que vive é absolutamente separado da vida real, como se fora participante de uma tribo isolada no meio da Amazônia.
As configurações e as questões internas do núcleo familiar – o casal – , sendo de cunho eminentemente privativas, só interessam aos envolvidos. Mas somos um povo fofoqueiro, que as redes sociais apenas possibilitou amplificarem os efeitos de modo exponencial. Antes, mesas de bar, salas das casas ou praças eram os locais nos quais se propagavam a fofoquinha aparentemente inocente. Hoje, mesmo uma pessoa solitária, participa da comunidade.
Finalmente, o p. da questão, poderá a vir ser tão importante que o fará perder a eleição? Ou receberá a solidariedade daqueles que viveram ou gostariam de viver a condição em que ele se apresenta? Deixaremos de discutir o discurso político ou a postura ideológica do próprio político para discutir o p. do político? A circunstância em que se apresenta deixará escancarada a sua vulnerabilidade ou sua impostura? Em resposta, o político, ao lado da esposa, refutou o vídeo como falso ou montagem. Quem realmente sabe se isso é verdade são os participantes ou a própria esposa, conhecedora do p. da questão.
Se ele, candidato líder nas pesquisas, tiver revertida essa tendência, será pelo motivo errado. Posso contestar suas propostas ou seu posicionamento a favor de um dos candidatos a presidência, não porque supostamente goste de interagir com algumas eleitoras de forma íntima.
Abaixo, vídeo de Mal Necessário, composição de Mauro Kwitko e interpretação do grande, grandioso e grandiloquente Ney Matogrosso.

Domingo de Futebol

Domingo de Futebol

Eu jogava futebol com meu amigo Beto desde garoto. Depois do tempo da escola, continuamos juntos no time do Seu Aléssio em disputadas partidas em campos de várzea. Findo o tempo dos Contras, durante anos, passamos para o tradicional futebol de domingo de manhã toda a semana, junto a outros amigos e conhecidos. Foi assim por por uns dez anos. Parei e fiquei outros dez anos sem frequentar os campos de Society com a turma. Mas voltei há a atuar durante certo período há cinco anos, mais ou menos, de manhã.

Quase na mesma hora que teria que levantar para ir jogar, frequentemente estava voltando dos eventos nos quais trabalho. Quando mais jovem, até aguentava o tranco, quando não havia evento no mesmo dia. Com o aumento da demanda e do acréscimo dos anos às costas, ficou cada vez mais difícil conciliar trabalho e prazer, ambos cansativos fisicamente. Na época, tive dengue. A musculatura, sofreu com a doença. Frequentemente, me contundia. Deixei novamente de jogar. Hoje, apenas sonho que jogo, cada vez menos…

Aprendi a gostar do meu trabalho e jogar era dor-prazer-lazer. No trabalho, carregar, montar, ajustar som e iluminação, fazer a passagem do som, encontrar colegas talentosos no canto, na dança ou narração não deixava de ser prazeroso, porém se revestia da característica do dever a ser cumprido da melhor forma possível. Durante um tempo, não conseguia relaxar tanto quanto hoje, em que consigo me divertir até com a função de subir os equipamentos até segundos ou terceiros andares dos salões, muitas vezes sem elevador. No futebol, o corpo sofria o estresse por correr, se alongar, se contrair, se atirar para executar um movimento mais amplo, saltar mais alto para alcançar a coisa mais desejada da vida naquele momento – a bola.

Durante o tempo de jogo, nada acontecia fora das quatro linhas. Não que me esquecesse de todos os problemas do mundo. Simplesmente, não havia um mundo fora dali. No futebol, as regras externas se diluíam, não havia diferenciação social ou qualidade física que não fossem superadas pelo talento no jogo. O office-boy, o estoquista, o microempresário ou o dono de posto de gasolina, em boa forma física ou acima do peso visavam conseguir, juntos, trocar passes, se movimentar, defender sua meta e assinalar gols. Todos desejavam congregar e chegar à vitória. E caso contrário, perder também fazia parte do pacote. Muitas vezes, eram mais valorizadas a derrota bem jogada contra um timaço do que a vitória “mamão-com-açúcar” contra um time “meia-boca”.

A linguagem usada no campo de futebol também era alternativa e restrita. O vocabulário se resumia a dez ou doze palavras e poucas expressões, sempre acompanhadas das indefectíveis “porra” e “caralho”. Essas termos tanto podiam ser usados como substantivos ou adjetivos, além de servirem eventualmente como pronomes. Havia muita discussão e entreveros entre nós e os adversários, bem como entre nós mesmos, que se encerravam depois que saíamos do campo e íamos para o bar comer porcarias e beber umas (várias) cervejas. Bem, eu nunca bebi álcool, mas participava do grupo com as minhas opiniões “papo-cabeça” acompanhadas de uma legítima Coca-Cola na garrafa de vidro, a melhor…

De vez em quando, esposas, filhas e namoradas acompanhavam alguns jogadores, mas, na maioria das vezes ficavam conversando à margem assuntos que não tinham nada a haver com o que acontecia dentro do campo. O sacrifício que faziam em acompanhar os seus parceiros devia ser comparável ao do deles em acompanhá-las às compras.

Em uma das últimas ocasiões que joguei, teríamos um churrasco depois do jogo. Eu não poderia ficar porque tinha coisas a fazer, mas não sei se ocorreu realmente o congraçamento, já que o responsável pela carne e acompanhamentos, brigou com o pessoal por não ter sido colocado no time e parece que foi embora antes do final da partida. Infelizmente, no intercâmbio de dimensões, um mundo acabou por invadir o outro…

Maratona De Outubro | Quem Escolhe Quem?

JUVENTUDE

Para desespero de quem se utiliza de critérios puramente claros, estudados e racionais para a escolha de leituras, ouso cometer uma falta ao declarar que não sou eu quem escolhe os livros que eu leio, mas são os livros que me escolhem para lê-los. Já tive diversos exemplos desse fenômeno durante toda a minha vida de leitor, mas citarei apenas dois.

O primeiro e mais recente foi o surgimento de Coetzze em minha vida. Não me lembro como Juventude veio a cair em minhas mãos, porém seu impacto foi devastador. Percebi o quanto a minha escrita estava alicerçada em devaneios vãos, agravada por uma interrupção de vinte anos no exercício de passar para o papel o meu mundo particular. Ainda que escrevesse compulsoriamente, como não mostrava a ninguém, não fazia a menor diferença o que produzia.

Juventude, eu não o procurei, não sabia de sua existência, apenas aconteceu. A falta de lembrança ajuda a criar esse clima de encontro à escuras. Logo, quis também encontrar Infância e Verão, a trilogia do autor sul-africano sobre uma personagem, que bem poderia ser ele mesmo, que relata a sua trajetória de maneira a não deixar pedra sobre pedra. A sua influência em minha dinâmica mental foi tanta que pretendo empreender uma jornada similar em um projeto para logo mais, a depender de análise externa.

YOGANANDA

Contudo, devastação maior foi o encontro com Paramahansa Yogananda e sua Autobiografia De Um Iogue (Contemporâneo). Eu era agnóstico-ateu na época. O livro de capa rota abria com a apresentação de uma amuleto. Estranhamente, acreditei na sua existência assim que terminei o primeiro parágrafo. Li o livro de fiada e o reli. Estava decretada a revolução em minha vida. Tudo começou a fazer sentido.

Fazia sentido me tornar vegetariano (o que fui durante dez anos) e todas as proclamações de fé no Invisível, agora essencial. Os livros de Kardec não tiveram tanto peso quanto a descrição da vida na Índia do jovem aprendiz de Mestre Sri Yukteswar e a busca pela Verdade. Tornou-se meu objetivo visitar a longínqua pátria do Hinduísmo. No Brasil, iniciava-se a aparição de várias instituições ligadas à gurus e seus ashans, mas resistia em mim certa desconfiança em ser manipulado, como já vira acontecer mais de perto, com pessoas do meu meio por pastores mal versados e iracundos das igrejas pentecostais cristãs.

Ao mesmo tempo, fui tomando contato com o Budismo, ao começar a buscar paralelismos em todas as vertentes de fé. Encontrei coincidências e imbricações, incluindo o Cristianismo. Para não tornar a história tão longa, da mesma maneira que mergulhei no Orientalismo, decidi mudar meu rumo ao fazer o contraponto à negação do mundo material. Casei. Constituí família, deixei de escrever. Talvez, não tenha nada a ver uma coisa com a outra. Talvez, sim. De qualquer forma, o fato é que nunca mais deixei de ter como base o Imponderável, por mais que invista na potência do mundo físico. Perdido? Talvez. Estou a espera que outro livro me encontre para, finalmente, poder me reencontrar…

Participam também desta Maratona:

Ana Claudia | Ale Helga | Cilene Mansini | Fernanda Akemi | Mari de Castro | Mariana Gouveia | Lunna Guedes

Maratona De Outubro| Vivo Em Um Livro…

Reinações
Sobre outro reino…

… mas talvez quisesse viver em outro – Reinações de Narizinho. Parece que nossas primeiras leituras são as mais importantes, a ponto de se tornarem eternas. Como uma casa na qual vivemos e voltamos a visitar, a caminhar por cada canto e recanto. Porém há o perigo de não a reconhecermos. A casa continua a mesma. Mudamos nós. Naquela sala do velho relógio e espelho manchado, talvez não consigamos sentir a mesma emoção ao ouvir as badaladas ou reconheceremos a face do menino.

Com o livro de Monteiro Lobato, penetrei em um mundo mágico, similar ao que, em minha solidão de criança, vivia. Foi fácil penetrar no Reino das Águas Claras, reverenciar o Príncipe Escamado, conversar com Emília, consultar o Doutor Caramujo. Minha mãe criava galinhas caipiras. Passava parte do dia a cuidar delas, depois da escola. Conversava com as plumadas com sons que entendiam e interagia com os pintinhos. Fazia coleção de penas que caíam aqui e ali, no quintal. Entendia cachorros e gatos com o olhar – Gita, Tarzan e Cloé me acompanham até hoje, quase meio século depois.

Com pai ausente e mãe a se desdobrar para cobrir as despesas cotidianas, puxar água do poço era apenas mais uma aventura de herói japonês. Inconsequentemente, me pendurava na beira da laje como se fosse um perigoso penhasco, em busca de uma recompensa invisível. Moer milho para fazer quirela para os frangos, minha contribuição para os meus companheiros. Mamãe vendia os ovos e, eventualmente, alguns membros da criação. Agora, ao lembrar disso, não sei dizer como suportava a contradição de tratá-los como iguais e vê-los partir para um incógnito paradeiro, mas destino conhecido…

Conforme os anos foram se sucedendo, comecei a querer penetrar cada vez mais em leituras sérias. Meu encantamento com as coisas mais simples da vida foi cedendo campo a participação nos jogos dos adultos e suas relações fátuas. A predileção por finais abertos ou infelizes aumentou. Imaginei que a vida fosse exatamente assim. Quis fugir para outro mundo e diria que consegui. A solidão humana, mas povoada de amizades diretas com os animais, no entanto se aprofundou. Quando estava ficando quase insuportável conviver comigo mesmo, consegui iniciar escrever outras linhas, ler outros livros-pessoas.

Refletindo melhor, percebo afinal que quero terminar de escrever e ler o meu próprio livro, entender as personagens e a história, apesar de tantos entre enredos parecerem inverossímeis. Desejo, do fundo do coração, amar e ser amado por muitas pessoas. Ainda que várias sejam de difícil convivência. Eu as mataria só em último caso. Bloqueá-las talvez seja suficiente. Muitas nos ensinam a compreender a barafunda de estar vivo em um tempo e lugar como este, em que cada um escreve e protagoniza sua própria existência. O fim é comum a todos, já sabemos. Apenas não concebemos como e em que página se dará. Caberá à grande editora decidir…

Participam também desta Maratona:

Ana Claudia | Ale Helga | Cilene Mansini | Fernanda Akemi | Mari de Castro | Mariana Gouveia | Lunna Guedes