Projeto Fotográfico 6 On 6 / Três Por Quatro Centímetros

A intenção do retrato de três por quatro centímetros seria o de poder identificar alguém por seus traços fisionômicos em documentos oficiais – Registro Geral, Passaporte, Carteira Nacional de Habilitação, classista, clubista, empresarial e outros fins. Ultimamente, o reconhecimento fisionômico tem sido usado para liberar certas funções no aparelho celular. Herdado da Burocracia, a identidade 3X4 visaria emparedar quem quer que fosse sob parâmetros predeterminados. Para os que podem abrir mão dessa solicitação, chega a causar certa contrariedade. Para quem está fora das políticas públicas voltadas para as populações carentes, representaria uma maneira de ser reconhecido como cidadão e receber alguma assistência.

Aos longo dos anos, os retratos de identidade usados para as várias identificações setoriais, acabam por contar um pouco de nossa história pessoal. É comum, pelo que eu ouço dizer por aí, não ser do gosto pessoal as imagens frontais do rosto, forjadas à força pela imposição de seriedade, sem sorriso e com o olhar catatônico, dignos de uma identificação oficial. Mesmo essa “encenação” não deixa de carregar certo interesse “arqueológico” pessoal. Tentei garimpar as imagens dos documentos e percebi que vários dos quais me lembrava, se perderam. Ficaram na memória, inacessíveis (por enquanto) pela tecnologia disponível. para os que tenho à mão, fiz um retrato dos retratos. Assim como todas as histórias, são vias de segunda mão.

Aos seis anos…

A minha mãe fazia questão de registrar os filhotes. Tinha medo que se pelava de nos perder. Histórias de crianças “roubadas” não faltavam. Ou para serem vendidas para fins diversos – desde adoção forçada até outros propósitos tenebrosos. O meu pai era de origem paraguaia. O país de origem foi controlada durante décadas pelo ditador Alfredo Stroessner que, diziam nas penumbras dos porões, que viveu se banhando do sangue de criancinhas para continuar vivo. Por muitos anos, era assim que eram justificados o sumiço de meninos e meninas pelas periferias de Assunção. No Brasil, era comum atribuírem aos adoradores do Diabo, o sacrifício de crianças. O fantástico a costurar a mentalidade do povo.

Aos dezessete anos…

Pela época da emissão da minha primeira identidade, eu vivia uma fase mais tempestuosa do que o normal. Adolescente, estava mudando de parâmetros para entender a Realidade “real”. Estava me tornando vegetariano e sentia que o mundo era um teatro com personagens que mal sabiam os papéis que interpretavam. Eu tentava sobreviver em meio à incompreensão dos outros quanto às minhas opções de vida. A cara amarrada da foto, era a que carregava exteriormente. Meses depois, devido ao choque alimentar advindo do vegetarianismo, fiquei tão magro que a foto de Reservista era a de um “aidético”, acunha que cheguei a ouvir nos Anos 80, época do início da chamada “peste gay” – apenas para historiar mais uma locução preconceituosa do povo brasileiro.

Aos 48 anos…

Um salto no Tempo e revelo esta foto que foi tirada digitalmente para a feitura de minha Carteira de Estudante para passar nas catracas da Faculdade de Educação Física na UNIP, onde comecei o curso de Licenciatura, depois Bacharelado. Iniciei nas turmas de meio de ano, em 2009, junto a uma maioria de garotos e garotas que buscavam uma profissão ligada á atividade física em suas várias vertentes – academia, esportiva, como personal trainer – entre outras possibilidades. A minha intenção era a de compreender o meu corpo após o advento da Diabetes, em 2007. A eventualidade de uma futura profissão era remota, mais havia. Fui incentivado pela Tânia, que considerava que estava sofrendo uma espécie de “síndrome do ninho vazio”, depois que as “minhas meninas” iniciaram a despedida do ninho.

Aos 51 anos…

Esta é a “facetta” que apresento na minha atual carteira de Registro Geral. De dez anos antes, creio ter sido a que destaca a fase mais interessante em termos de realizações pessoais e profissionais. Os meus anos cinquenta compreendeu a formatura em Educação Física, a entrada na Scenarium como escritor e minha afirmação profissional com a Ortega Luz & Som. Um pouco antes de completar os sessenta, sobreveio o 2020 pandêmico. Teria várias situações inéditas a enfrentar. Histórias não faltam…

Aos 53 anos…

Esta foto é a que está na minha Cédula de Identidade Profissional do Conselho Federal de Educação Física, expedida em 2014. Comecei a raspar a cabeça por vários motivos. O mais óbvio, a questão da praticidade, já que não tinha tempo para nada, incluindo o de tentar tornar apresentável o cabelo cheio de redemoinhos e falhas devido à calvície galopante. Mais tarde, devido à desproteção capilar, comecei a usar chapéus, boinas e bonés. Proteção contra o frio ou o sol, acabou por se incorporar á minha imagem usual.

Aos 56 anos…

A imagem acima é a da Credencial Plena do SESC. Há outras depois dessa, mas apenas digitais, enviadas via a Internet. Presa a um cartão, é a última. Mostra o provecto senhor com um sorrisinho bacana de quem não precisa provar nada a ninguém a não ser a si mesmo. De 2017, demonstra que o branco tomou conta do corpo e da alma. Mal sabia eu que ainda o mundo nos mostraria que nunca devemos deitar sobre os louros, que a Realidade não nos deixa de surpreender.

Participam:

Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Lunna Guedes

Reflexão*

A Penélope comeu e se posicionou junto à porta da sala. Passou a olhar para fora, parecendo contemplar o Sol a rebater nas paredes e no piso do quintal. Talvez refletisse. Naquele momento, quis penetrar em seus possíveis pensamentos e saber se eles iam para além dos desejos imediatos – descansar, parar de sentir dor, dormir – e depois voltar a comer… O que não duvidava é que se me aproximasse dela, simplesmente buscaria as minhas mãos para um toque de carinho…

*Texto de 2017. Atualmente, ela fica a observar e a brincar no imenso quintal do Céu.

Caramujo*

Em Maio de 2016*, escrevi:
“Assim como o homem ganhou o espaço dos pássaros e aprendeu a voar, no solo adaptou ensinamentos dos companheiros que habitam este planeta para sobreviver. Basta força de vontade, força física e mental. Eu e o Humberto estávamos descarregando o equipamento para o evento de sábado na região da Faria Lima quando avistamos uma grande carroça, com uma tenda adaptada, a se aproximar lentamente, puxada por um homem. Aquela rua sem saída devia ser o local onde estacionavam.

Dentro dela, percebi a movimentação de pelos menos duas pessoas e um cachorro… Imediatamente, entendi que ali estava, além da casa onde aquela família morava, o ponto onde armazenavam o que recolhiam nas ruas da região. O que foi corroborado pelo movimento que presenciei logo depois, quando descarregaram o material reciclável recolhido… Já ouvi se dizer algumas vezes que é feliz o caramujo, que carrega a sua casa nas costas… E o homem, seria também?…”.

Para além da aceitação de um estilo de vida alternativo, o aumento recente dos moradores em situação de rua é devido a perda do trabalho e renda, obrigando-os recorrer a trabalhos ocasionais, os chamados “bicos” ou até, mais radicalmente, a expedientes que os marginalizam, como furtos e assaltos mediante ameaça. Há poucos que, conscientemente, decidem estabelecer a rua como moradia permanente, mas há. A decisão se dá por conflitos familiares ou por uso de entorpecentes que gradativamente os afastam do núcleo familiar.

Eu me lembro que o pessoal da carroça citado no texto se sentia bem à vontade nas condições da sua “moradia”. Mas como sabemos, aprendemos a viver dentro de determinados parâmetros, os piores possíveis, por questão de sobrevivência. A independência tem o seu preço a cobrar, ainda que seja difícil crermos que pouco dinheiro seja imperativo para a liberdade seja bem vivida. Ficar ao largo do Sistema, mesmo que vivendo de suas sobras, acarreta consequências.

Eu me lembro que quis um dia viver fora dos pressupostos que a Sociedade estabeleceu como o ideal — casa, esposa e filhos, trabalho — com férias remuneradas uma vez por ano. Aos 17 anos, quando me perguntavam o que eu seria profissionalmente, respondia pura e simplesmente: Lixeiro. Eu já estava, no final dos anos 70, bastante envolvido nos movimentos que buscavam uma civilização humana mais consciente do destino de Gaia. Anos antes, na primeira vez que li que as florestas eram “recursos econômicos”, fiquei horrorizado por essa visão mercantil que tratava as árvores apenas como material consumível, não como vidas que constituíam biomas, ecossistemas, organismos desenvolvidos.

Sabia, mesmo tão novo, que o Lixo era um recurso inestimável. Apenas não havia interesse empresarial em investir na transformação desse bem de capital em bens de consumo. Atualmente, recolher resíduos recicláveis tornou-se a atividade de um grande número de pessoas que constituem um elo importante na corrente que levará à transformação de nosso estilo de vida predatório para um menos agressivo. Fico a imaginar que, naquela carroça, poderia estar eu e minha pequena família caso eu tivesse enveredado radicalmente pela rua como moradia.

Coração Partido*

Depois da chagada do plantão de domingo, realizados todos os procedimentos de higienização, no jantar relatou o seu dia em que viu crescer o número de afetados pela Covid-19. Em um dos casos, a paciente tinha 28 anos, não apresentava comorbidades, logo estando fora dos padrões dos dados circunstanciados dos atingidos pela doença. A moça pertencia à classe média – mãe, enfermeira aposentada e pai, advogado – e, apesar de ter plano de saúde, não foi atendida na rede hospitalar particular estipulada pelo plano, por esta estar com os leitos totalmente ocupados. Ou seja, quando não há uma estrutura pública que seja ampla e boa o suficiente para atender a população de modo geral, o sistema preconizado como ideal sucumbe diante dos fatos reais da vida. No mais, é deixar a deriva o valor da vida ou, como já me disse a Tânia, arrasada quando uma amiga e colega de trabalho faleceu – “… percebi que era como se estivesse em uma roleta russa. Uma hora o canhão vira para você”.

Na luta contra a Pandemia, enfrenta-se várias barreiras para além do processo terapêutico da própria doença. Tão invisível (para quem não quer enxergar) quanto o Novo Coronavírus, mas igualmente identificável, é a estrutura precária do atendimento aos pacientes do sistema de Saúde. Não se trata de questão partidária, mas suprapartidária. Diz respeito a todos os brasileiros e consta dos direitos estabelecidos pela Constituição da República Federativa do BrasilTítulo VIII Da Ordem Social. Capítulo II Da Seguridade Social. Seção II Da Saúde. Art. 196. “A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.”

Portanto, não investir em Saúde é um desrespeito aos direitos constitucionais. Ainda assim, por experiências que nos chegam pelos noticiários, nem mesmo a União Europeia e os Estados Unidos, países pertencentes ao Primeiro Mundo, estavam preparados para o enfrentamento à Covid-19 na amplitude que ocorreu. Este último, por não ter um sistema como o SUS, que atendesse os mais pobres, muito mais ainda. Porém, através de exemplos principalmente vindos da Europa, pudemos perceber quais seriam as ações necessárias para abreviar e/ou diminuir os efeitos perniciosos de sua atividade entre nós, como seguir os protocolos científicos apregoados por pesquisadores, estudiosos e pela Organização Mundial da Saúde. Fora desse contexto, qualquer outra forma de atuação estará fadada ao fracasso, enquanto não tivermos uma vacina que proteja a população.

Eu, pessoalmente, depois de passear por preferências partidárias e ideológicas, deixei de acreditar em partidos. De fato, o “Meu partido / É um coração partido / E as ilusões estão todas perdidas / Os meus sonhos foram todos vendidos / Tão barato que eu nem acredito” – Ideologia (Cazuza). Mantenho a fé na Educação e na Democracia, apesar da Educação não ser apanágio para a cura da falta de caráter e a Democracia não ser perfeita, mas como dizia Winston Churchill – “Ninguém pretende que a Democracia seja perfeita ou sem defeito. Tem-se dito que a Democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos.”

Casado com a Tânia, partilhando com ela a educação de nossas três filhas em uma sociedade patriarcal e preconceituosa – machista, misógina, xenófoba, homofóbica – tentamos estruturá-las para que enfrentassem as adversidades advindas pela condição de serem mulheres, moradoras da Periferia. Ainda que tenhamos angariado uma certa condição que venha a satisfazer as nossas necessidades básicas, isso não nos permite deixar de trabalhar. Devido à Quarentena, pequeno empresário na área de prestação de serviços que sou, estou parado, sem auferir rendimento. Mas não é por isso que amaldiçoo o seu estabelecimento, já que percebo que é a medida correta a ser tomada na atual conjuntura, pelo tempo necessário que for até o controle total da Pandemia. Isso é tão óbvio que qualquer oposição a ela me parece irracional. Caberá às nossas autoridades estabelecerem as medidas necessárias para diminuírem os efeitos negativos da Quarentena, sabendo que esse remédio, ainda que seja amargo, salvará um maior número de vidas. Isso, sim, é o que importa.

A cada dia que passa sem que a Tânia apresente efeitos deletérios no enfrentamento da luta contra a Covid-19, agradeço.

*Texto de maio de 2020, quando a Tânia atuava como Enfermeira no Hospital Municipal de Pirituba, durante o crescimento exponencial da Pandemia de Covid-19.

Nos Tempos Da Faculdade De Educação Física*

Salto com o auxílio do plinto, na aula de Atletismo do Profº. José Luís Fernandes – 2010

Entre 2009 e 2013, fiz Licenciamento E Bacharelado Em Educação Física. Quando eu o iniciei tinha então 48 anos e fui incentivado pela Tânia, preocupada com possíveis sintomas da chamada “Síndrome do Ninho Vazio” pela ausência cada vez mais acentuada das nossas três meninas na minha rotina diária. Com dois cursos anteriores não terminados na área de Ciências HumanasHistória E Letras, na USP – decidi terminar o terceiro na área da Saúde justamente pelo desafio físico e cronológico: um velho entre os jovens. Até um tempo antes, pensava que ter feito o curso foi muito importante apenas para mim em termos de entendimento do corpo e seu funcionamento, já que acabei por não atuar na área, o que também nunca foi a minha intenção, apesar de ter surgido algumas oportunidades.

Com as Lembranças do Facebook surgindo de tempos em tempos, recuperei muitas mensagens enviadas por meus pares perguntando sobre todos os assuntos, cada vez mais estimulados pela atenção com a qual os atendia. Percebi que a minha maior missão não fora somente me aprimorar no autoconhecimento e desenvolvimento da consciência corporal, mas especialmente auxiliar os meus companheiros de turma da Educação Física, hoje atuantes como professores em escolas, instrutores em academias e “personal trainers“.

Logo no Primeiro Semestre, cheguei a sofrer restrições de alguns devido à minha curiosidade em fazer perguntas no final da aula, os impedindo de sair antes do término. Sintomaticamente, muitos deles foram ficando pelo caminho. Com a continuação do curso fui ganhando a confiança da turma e passando coordenar a realização de alguns trabalhos na parte teórica. Na parte prática, não ficava devendo (quase) nada aos demais alunos, excetuando aqueles que mesmo na idade deles talvez não conseguisse alcançar. graças à tecnologia dos modernos celulares, pude registrar grande parte da minha incursão rica em experiências com jovens em busca de um sonho. O texto abaixo é de 2013*, na fase final do curso.

“Pessoal, como alguns que me acompanham sabem, estou no oitavo e último semestre do curso de Educação Física. Uma das disciplinas que tenho na grade chama-se Psicologia Aplicada Ao Esporte. O esporte competitivo tem exigido e carreado cada vez mais recursos para que o atleta ou a equipe ao qual ele está inserido apresentem resultados satisfatórios frente aos grupos para os quais atuam – clubes, torcidas e patrocinadores.

Dessa forma, a Psicologia como disciplina tem amplo campo de atuação nessa área de atividade humana. Mas, como lembra o meu professor nessa disciplina, Ricardo Rico, não uma Psicologia independente das motivações e aspectos mentais e emocionais que movem os atletas, ou seja, a Psicologia que conhecemos aplicada no esporte, porém gerada no âmbito de competitividade extrema ou, como diria eu, a vida levada ao limite da exibição de força, aplicação (e transgressão) de regras, vibração, aprendizado de como vencer e (mais importante, porque ocorre com a maioria dos competidores) como perder – enfim, uma Psicologia do Esporte.

Na última segunda-feira, o meu grupo tinha que apresentar uma entrevista com um ‘Coach‘, um especialista cada vez mais requisitado para atuar de forma individual ou coletiva junto a grupos profissionais e/ou sociais que buscam alcançar realizar metas objetivas. Devido a vários motivos que não irei declinar, domingo de manhã ainda não havíamos conseguido a entrevista prometida e eu tive que recorrer, meio a contra gosto (porque poderia parecer que fosse um abuso de confiança), à minha lista de amigos ‘facebookianos‘ e um deles, o Alberto Centurião, se predispôs a responder o questionário que elaboramos.

Foi uma agradável surpresa para mim que uma pessoa do quilate de Centurião tenha se colocado tão generosamente à disposição para tal empreitada em um domingo de Dia das Mães, praticamente na hora do almoço dessa data especial. Ele foi consciencioso e prestativo de tal forma que me senti impelido a agradecer-lhe publicamente aqui neste espaço. Meu grupo e eu realizamos a apresentação da entrevista e, aparentemente, fomos bem na empreitada. Despeço-me agradecendo à mamãe do Centurião que merece um beijo grande e um abraço forte por ter forjado um homem como o seu filho”.