Os Sapatos

Adeus, amigos!

Eu priorizo o conforto antes de qualquer coisa. No caso de roupas e calçados, muito mais. Conforto tem a ver com vestimentas, chinelos, tênis e sapatos testados e aprovados no uso constante — ou seja, velharias. Camisetas, largas. Camisas, funcionais. Calças, sem apertar na cintura ou nas pernas. Cuecas, acolhedoras. Meias, as adequadas, ainda que ultimamente tenha misturado padrões e cores. Tento não estar tão dissonante em relação ao ambiente que eventualmente venha a frequentar e costumo ficar no limite entre o que é aceitável para mim e o que exige o local frequentado.

Casado, com filhas e esposa vigilantes, tento não as ofender e sempre pergunto se não estou muito fora do contexto quando saímos juntos. Quando vou sozinho para algum compromisso, a depender da circunstância, uso o basicão. No trabalho, que envolve o infalível “preto comendador” é perfeito porque fico invisível, principalmente para fazer os previsíveis “corres” inesperados para solucionar algum problema técnico ou de outra ordem.

No domingo, na montagem do equipamento de som e luz para o evento que interviríamos às 17h, achei que daria tempo para voltar para casa almoçar, mas devido à mudança de horário, tivemos que permanecer no local e eu estava vestido de forma supostamente inadequada por se tratar de um aniversário um tanto mais estiloso. Porém, o anfitrião, descontraído, disse não se importar com o que eu vestia — bermuda social e camiseta preta. Ajudava o fato de a apresentação ser de uma banda de pegada roqueira. Acabado o evento, na desmontagem, o meu tênis (que usava para algumas das minhas caminhadas) não aguentou o tranco e começou a abrir o solado. Seria um prenúncio do que viria a acontecer no dia seguinte?

Na segunda-feira, para ir ao meu compromisso, decidi usar velhos sapatos, confortáveis, bicos largos, conhecedores dos meus pés, afeitos aos seus formatos. Na ida, eu percebi que havia começado a abrir a lateral do esquerdo, mas achei que não seria um problema tão grande quanto o que se tornou com o aumento do rasgo como se fora uma gradual abertura de um portal quântico para o escape do pé da dimensão ao qual estava timidamente recolhido.

Para evitar que o solado não se descolasse, comecei a arrastar o pé esquerdo pela Praça da República, depois de ter saído do Metrô, como se fosse alguém com problema de locomoção. A minha dignidade estava sendo testada, se eu tivesse alguma. Afinal, ali ninguém me conhecia, ainda mais com máscara, e eu era apenas mais uma delas, perna esquerda dura, em meio a tantos desalentados e cambaleantes à minha volta.

Em dado momento, nem esse subterfúgio funcionou e meu pé finalmente atravessou a fronteira final. Tirei do pé o pobre sapato tão despedaçado quanto um coração magoado e caminhei um bom trecho descalço até a loja mais próxima. A meia preta, da cor do sapato, até que conseguiu mascarar para os outros pedestres a falta do “pé” que estava em minha mão. Os meus passos, bem mais regulares, fingiam saber para onde ia. Saí de lá com novos companheiros, firmes e reluzentes.

Um dia, tanto quanto um bom sapato velho, atravessarei o estágio derradeiro do uso funcional de minhas faculdades mentais e físicas e me deixarei ir, estiolado. Estimo que aconteça comigo algo muito mais digno do que ser atirado num cesto para coisas sem uso — um asilo. Ao final, espero receber um adeus tão sentido quanto ao que dei aos meus antigos calçados, deixados na lata do lixo.

Bem-vindos!

B.E.D.A. / Rave*

Eu, trajado à caráter para uma rave em casarão mal-assombrado… (meados dos Anos 90).

Há alguns anos, nós, da Ortega Luz & Som, fizemos uma Rave em um casarão da Avenida Paulista. Fiquei impressionado com o ambiente, que exalava outrora grandeza. Os pés direitos não tão altos quanto o de várias construções antigas que conhecia, mas que abrigava diversos ambientes que desativados-limpos, apenas imaginava para que serviriam. Nosso equipamento ficou abrigado da sanha dos convidados no que era provavelmente um dos banheiros.

Nas paredes desbotadas encontramos desenhos e motivos em papéis de parede, que representavam rostos, provavelmente dos antigos moradores. Nos era interditado subir ao sótão ou descer ao porão, onde estavam guardados os móveis da antiga mansão e o escritório da empresa que o alugava para eventos.

Procurei saber um pouco mais sobre aquele lugar. Soube que se tratava da “residência do Coronel Joaquim Franco de Mello. Localizada na Avenida Paulista, 1919, o imóvel é da família do agricultor e fundador da cidade de Lavínia, nome dado em homenagem à sua esposa. Viviam na residência com seus 3 filhos, Dr. Raul Franco de Mello, Dr. Raphael Franco de Mello e Dr. Rubens Franco de Mello. O palacete foi construído em 1905 pelo construtor licenciado Antônio Fernandes Pinto, cidadão português. A casa é o único exemplar remanescente da primeira fase residencial da Avenida Paulista (1891-1937). Está num terreno de 4720m², com uma grande área verde particular que a família Franco de Mello ainda mantém. O casarão tem 35 cômodos. Sua fachada é em estilo eclético, com influências da arquitetura da época de Luís XV nos enfeites rococó do frontão curvo e nos caixilhos das janelas e mansarda renascentista com telhas francesas e torreão” (Wikipédia).

Quanto à Rave em si… foram doze horas de loucura, loucura, loucura… Meu irmão, eu e meu traje nos recolhemos ao pequeno espaço inicial sem quase nenhuma possibilidade de escape, a não ser pela janela para ir aos banheiros químicos e só… Dessa “torre” protegida vislumbramos (ou imaginamos ver) às guerras de corpos em luta sôfrega em meio à semi-escuridão — homens-mulheres, mulheres-mulheres, homens-homens — apenas constatada por paredes que pareciam se mover. Perdi bastante de minha inocência naquela ocasião…

*Imagem de acervo pessoal e texto de 2012


Buscando um pouco mais, encontrei uma página que mostra os vários palacetes construídos naquela que é considerada a “mais paulista das avenidas”, justamente porque representa essa voragem típica desta São Paulo que “ergue e destrói coisas belas”…

http://netleland.net/hsampa/mansoesPaulista/mansoes.htm?fbclid=IwAR00fTFm4QhaMd7g7tbCyToHCaxfyl0hgyA3j2BArZDKsK2mmSJJLGKNVvM

Participam do B.E.D.A.:
Lunna Guedes
Roseli Pedroso
Mariana Gouveia
Cláudia Leonardi
Darlene Regina
Adriana Aneli

B.E.D.A. / Fome De Pedra

Eu não sei o que acontece, mas não são poucas as vezes que eu sinto uma tremenda vontade de abocanhar esta cidade de asfalto e pedra!

Degluti-la quase toda e a vomitar inteira, renovada e rediviva.

Quando a vejo tão aparentemente desabitada, como nesta manhã de domingo, ainda sei que por trás de suas paredes, portas e janelas, o drama da vida se apresenta implacável e comovente…

Amores acordaram abraçados…

Traições foram postas à luz…

Amizades passaram a noite insones apenas no bate-papo livre e sem rumo…

O desejo de ser feliz pode ter encontrado guarida nos peitos e as paixões nos corpos. ..

Ou, tristemente, podem ter se perdido entre os desvãos dos prédios e das ruas sem saída da Metrópole insana que desperta…

*Manhã de um domingo de agosto de 2016.

Participam do B.E.D.A.:
Lunna Guedes
Adriana Aneli
Cláudia Leonardi
Mariana Gouveia
Roseli Pedroso
Darlene Regina

B.E.D.A. / Skypaper*

Skypaper perdido…

Alguns perguntarão do que se trata. Respondo: este pequeno objeto ao centro é um papel laminado que encontrei hoje de manhã no chão de casa. Provavelmente, fui eu que o transportei na sola de meu sapato desde o local onde se realizou a festa de casamento na qual sonorizamos e iluminamos a banda que nela se apresentou.

São resquícios do momento em que os noivos adentraram ao salão de festas, recebidos por aplausos, assobios, gritos, ovações, pipocar de flashes e… papéis laminados. Desde a Copa do Mundo de 2002, na qual Cafu levantou o troféu para o alto, acompanhado de papéis laminados regurgitados ao alto por máquinas que apropriadamente adotam o nome de Sky Paper Machine, se tornou quase obrigatório incluir este item nas festas de todos os matizes e motivações.

Isso, para o desespero de quem limpa os salões, que sofrem para removê-las do chão ou onde quer que esse troço grudento se adere. Além da apreensão de operadores técnicos de moving-lights, mesas de som e outros equipamentos eletrônicos — ferramentas trabalho que podem ser danificadas —, “queimadas” quando essas coisinhas penetram em suas placas de circuitos através das frestas de refrigeração. Quanto aos casamentos, a maioria durará bem menos do que esses papéis do céu…

*Texto de 2012

Participam do B.E.D.A.:
Adriana Aneli
Cládia Leonardi
Darlene Regina
Mariana Gouveia
Roseli Pedroso
Lunna Guedes