eu tive um episódio de insônia acordei às 4h da manhã fiz exercício para voltar o sono tomei um chá de mel gengibre cúrcuma quem sabe um leão me domasse comi um tomate para preencher o estômago mergulhei no nada eclipse mental acordado mas sem acordo com a realidade estou retomando a consciência aos poucos… à base de notícias de terremotos assassinatos assaltos mortandade pelo trânsito devemos continuar a circular a performar produtivos estáveis mergulhados em sangue e dor os oceanos aquecidos águas-vivas medusas mães-águas alforrecas envenenam os corpos que invadem o reino marinho muita chuva enchentes seca intensa deserto assumindo a paisagem sobreviverão os insetos imortais depois de milhões de anos crise respiratória aguda os vírus revivendo o seu poder de nos colocar em nossos devidos lugares seres passageiros ainda que anjos ainda que bestas feras seremos extirpados indiscriminadamente porque a natureza não discrimina cor da pele posição social financeira arrogância suposta proeminência importância eliminados enfim da equação a terra voltará a brotar livre de nossa pulsão de morte vazio desejo frustração…
Saturno devorando o filho, de Francisco de Goya(1819-1823)
É da natureza de existir que Cronos devore os seus filhos continuamente, como se fora um rio em constante movimento em direção ao mar (em algum lugar). Mas como já foi várias vezes lembrado, nunca serão as mesmas águas às quais se renovam a cada ciclo (até quando?).
É da nossa natureza que nos acomodemos às circunstâncias que consideramos imutáveis, enquanto não percebemos que tudo está interligado e uma ação externa ao ciclo supostamente permanente poderá vir a transformá-lo de tal maneira que o que era episódico se torne recorrente e se estabeleça como regra.
A locução “novo normal” se normaliza e começamos a agir sob os auspícios, nem sempre saudáveis, de normas em que a impermanência rege a sua ação. O desequilíbrio acaba por se estruturar como contínuo e começamos atuar como seres que buscam sobreviver como se enfrentássemos um terremoto – o chão semovente impedindo que andemos mentalmente estáveis.
É de nossa natureza a adaptação ao meio. O gerou certa prepotência por nossa espécie. Cremos que dominamos a Natureza, mas não a domamos. Alguns creem que seja uma questão de tempo que a sua revolta nos aniquile. Suposição surgida por pura mistificação da Ciência, a mesma que faz com que duvidem de sua eficiência. Parece estranho, mas sem conhecimento dos conceitos científicos, os mesmos que se beneficiam de suas conquistas a abominam por questões ideológicas.
Há várias maneiras de Cronos degustar com prazer cada filho devorado. Um deles é reabilitar com requintes de estultice o mergulho gozoso na ignorância, defendida como bandeira orgulhosa de ser. Eu já agi assim quando criança. Dizia não gostar de alguns alimentos apenas pelo gosto que não havia experimentado – “não comi e não gostei!”. Proclamava como ganho: “Mais uma coisa que não conheço!”
Vivemos uma “nova” Idade Média. Atração pelo obscurantismo. Lembrando que, ainda que sombrio em vários aspectos, principalmente na religiosidade, esse período foi de grandes descobertas e invenções, mas que apenas mais tarde vieram a serem efetivados na vida cotidiana. O que percebo claramente é que o Sol continua a sua faina de aquecer o planeta, mas como estamos depauperando a proteção contra os seus piores efeitos – a camada de ozônio – mais cedo do que se espera a vida na Terra ficará cada vez mais precarizada, através falência climática.
Afora todas as medidas de autodestruição como que seguíssemos uma cartilha da destruição: eliminação da cobertura vegetal, envenenamento dos rios, extinção dos corais – centro comunitário de vivência de várias espécies marinhas –, avanço da instabilidade política que impede uma atuação global. Quando vejo o quadro geral, percebo quase como se fosse a expressão duma pulsão de morte coletiva “consciente”. Não é tão abrangente, mas é levada adiante por aqueles que detêm o poder. Com a atuação do Inconsciente Coletivo, creio que dominado pela autopreservação, talvez faça com que venhamos a dar um ou vários passos atrás no sentido do “desenvolvimento humano” como preconizado há 200 anos pela Revolução Industrial. A diminuição na velocidade da absorção de novas ferramentas utilizadas apenas para alavancar o consumo imediato, sem dimensionarmos as consequências perniciosas que desencadeiam.
Percebi desde bem novo, o quanto estávamos caminhando para o abismo. Eu me lembro de um texto que produzi numa das minhas folhas de papel dispersas sobre um industrial que em visita a sua cidade natal – origem do seu império – a encontrou distante da sua lembrança de garoto – um paraíso edílico com rios, cachoeiras e matas habitadas por pássaros e outros animais. Os relatórios que recebia indicavam apenas os lucros, sem mensurar a destruição causada pelo complexo industrial. Decidiu tomar medidas que revertessem os efeitos perniciosos e terminou por ser exitoso. Bem que se nota ser um texto juvenil, de quem acreditava que as coisas poderiam ser mudadas facilmente.
Alguns dizem que estamos chegando perto do ponto de “não retorno”. Que em determinado momento, se tornará irreversível a decadência das condições que suportam a vida planetária. Como reconstruir a camada congelada dos polos que perderam uma área de cobertura considerável nos últimos anos? Como deixar de arrancar árvores das florestas tropicais para o consumo humano? Como impedir que o ouro e outros recursos minerais sejam extraídos sem consequências graves como a intoxicação de rios, animais e comunidades autôcnes? Como resolver as crises humanitárias que estão se alastrando feito epidemia? Como convencer os recalcitrantes ideológicos quanto a implementação de prerrogativas de convivência social menos agressivas contra as populações marginalizadas? Como impedir que a ganância seja o motor de nossa sociedade?
Como filhos de Cronos, com a sua morte, cremos que nos tornaríamos imortais como espécie. Porém, ao cortarmos a linha tênue que une todas as espécies da Terra, desequilibrando milhões de anos de percurso planetário em apenas alguns milhares, acabamos condenados. Cronologicamente, são como minutos de um dia. Cronos, redivivo, deglute os filhos não somente para evitar perder o trono, mas porque o poder conferido a nós foi mal-usado e continuaria a sê-lo – gerando condições para uma pena autopunitiva que não apenas destruiria a humanidade –, mas também o resto dos habitantes do globo. Estamos prestes a sermos dissolvidos no estômago abissal do monstro do esquecimento do Senhor do Tempo.
Bárbara era Bárbara… Já devia desconfiar que barbarizasse a minha vida. Eu, feito o Império Romano, me supunha inexpugnável. Mas bastou que os seus olhos me invadissem o espírito, para me desestruturar o corpo e a mente. As minhas defesas desarranjadas cederam aos seus incríveis movimentos no palco de guerra. Não esperava que passadas tão simples, avanços coreografados quadro a quadro fossem sinônimos de requintada arte de vencer obstáculos construídos com esmero durante uma existência inteira — de forma morna, segura, seca, estéril… Meus toscos soldados da moralidade caíram feito moscas, um a um. Subjugado, tanto quanto seduzido, sabia que a minha dolorosa prisão um dia acabaria com gosto de retorno sempre possível-impossível ao cativeiro. A guerra tem esses altos e baixos, entradas e saídas… derramamento de sangue, suor, lágrimas, o suficiente para baixá-los e observar por onde eu piso… Se voltar a reerguer as minhas defesas, já saberei que neste deserto, quanto menor o invasor mais hábil a sua ação… Mas não há mais tempo, tempo meu… Não amaldiçoo o momento em que me rendi, nem as batalhas que sentia perder a cada vez que venci. Nunca me senti tão vivo enquanto morria…
Desde que acordei hoje, um tanto tarde, apesar da noite bem dormida, levantei meio melancólico. Estava feliz pelo trabalho no dia anterior que, apesar do frio de 11º C, chuva fina constante e correria, foi a contento. Abri a janela e o ar frio persistia em marcar a sua presença desproporcional, ainda que estejamos no inverno. Desci para tomar café — o dia não começa sem que o café me aqueça —, fui ao jardim conversar com as plantas, o que sempre me faz bem. Elas se deixaram fotografar.
Como já era tarde, fui preparar o almoço. Aproveitei que estava descascando cebola e misturei as lágrimas provocadas pelos compostos sulfurados, que se transformam em gases e irritam os olhos, com algumas verdadeiras. Aconteceu sem mais nem menos. Ou, antes, pela constante falta que sinto de algo indefinível. Ou até que escondo de mim mesmo dar a conhecer. Foram lágrimas que não precisava justificar, enquanto limpava a minha mente de coisas pesadas que repercutem em redes sociais, sem que queiramos ver, mas acabam rebatidas em imagens externas que invadem a nossa existência.
Preferi fazer uma postagem para deixar registrada a simplicidade de um dia de descanso com as minhas próprias imagens. Sempre com a participação de meus companheiros. Não é um descanso comum. O meu tempo não é tão livre, já que com textos a entregar, tenho que produzir. Mesmo que sofra para que uma escrita seja forjada, porque escrever mobiliza recursos pessoais que nos incomoda. Ao fim, pode se tornar uma “prisão prazerosa” para quem quer se entender livre.