
Pela estrada a fora,
o pássaro da manhã bateu asas
e voou…
B.E.D.A. — Blog Every Day August
Adriana Aneli — Claudia Leonardi — Darlene Regina — Mariana Gouveia —

Pela estrada a fora,
o pássaro da manhã bateu asas
e voou…
B.E.D.A. — Blog Every Day August
Adriana Aneli — Claudia Leonardi — Darlene Regina — Mariana Gouveia —

O meu amigo Ivan Rocha passou de “noivo” para “solteiro” no Mural do Facebook. À propósito do fato divulgado de maneira tão direta em seu perfil, comentei: “Ivan está só, está ao sol, está inteiro, está solteiro!”. Ao que ele lembrou que uma vez, de forma similar, brinquei com a palavra “amortecedores”, destacada na propaganda de uma oficina mecânica: “É, o amor tece dores”… À parte o encontro de rimas forçadas ou significados ocultos no que dizemos ou vemos escrito por aí, divaguei à respeito da primeira montagem.
Estar só é estar inteiro? Quando estamos com alguém em realidade nos dividimos. E por que sentimos essa necessidade de sermos apresentados em duas partes? Se somos inteiros em nossa unidade, por que queremos encontrar completude em outro? E se queremos nos completar em outro, que força poderá manter unido um casal, além da ilusão do amor? Em se considerar o amor algo ilusório. Sempre haverá alguém que considere o desejo ou a paixão como sendo amor, se iludindo que queira unir-se a outro ser pela força dessa ilusão. Quando descobrimos ser só isso e a atração se esvai, o que antes era inteiro, nos deixa partidos, até… juntarmos os cacos, nos fazermos inteiro para depois sermos atraídos para nova partilha.
Bem… como eu disse, são divagações…
*Texto de 2011
B.E.D.A. — Blog Every Day August
Adriana Aneli — Claudia Leonardi — Darlene Regina — Mariana Gouveia —
Lunna, quando me perguntou, ontem: — Cadê o senhor? Fugiu? —apenas pude lhe falar que aconteceu algo inesperado. O meu dia foi mais nublado do que outros — estas horas sem fim, grudadas umas nas outras, em que os horários não se impõem como antes: manhã, tarde e noite.
— Meu caro, no meu caso, tenho conseguido me organizar. Tenho sido muito produtiva.
— Acho incrível quando diz que consegue a organizar a loucura. Eu, não. A novidade é que tenho sonhado muito. Dizem que sonhamos sempre. Mas, ultimamente, tenho me lembrado dos sonhos. Outro dia, sonhei que estava na Coréia do Sul, em viagem. Em outra ocasião, que eu era uma mulher e estava grávida. Muitas vezes, me apresento nu diante de muita gente vestida, mas a agir de maneira natural. Assim como todos não parecem se incomodar com minha nudez.
— Pelo áudio, percebi que não estava bem.
— Se posso ressaltar um efeito é que acordei sem me recordar do que sonhei. Acho que meus canais se fecharam. Ou minha memória obliterou os acontecimentos oníricos e a realidade se fez mais pesada do que costumeiramente.
— Porém, de modo geral, se sente melhor?
— Acho que sim. Ao contrário de outras manhãs, decidi ficar em silêncio. Realizei as tarefas caseiras mudo e surdo, sem falar com ninguém. Não ouvi noticioso por qualquer meio. Sequer quis ouvir música. Os únicos sons que alcancei foram os latidos das minhas companheiras peludas. De vez em quando, pediam carinho e eu soltava vocábulos e inflexões de nosso léxico particular. O que me deu alento foi a marcação da aula que teria com você, agora à noite, sabendo que seria a melhor coisa que me aconteceria no dia…
*Texto derivado de um exercício do Curso Narrativa Em Primeira Pessoa, ministrado por Lunna Guedes.
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“O meu momento mais íntegro neste ano que se encerra, em que me senti como parte da Natureza. Penedo.”: publiquei no Twitter. O momento a que me refiro me mostra tentando me equilibrar em meio à força ao turbilhão formado por uma das muitas corredeiras de Penedo. A palavra “meu” me pareceu de início redundante porque, logo depois, reitero que naquele instante “me” senti verdadeiramente integrado à Natureza, nossa Mãe. Realmente, a força da água fria, o som daquele jorro de claridade líquida, emoldurada pela vegetação exuberante, me deu a inteira acepção do poder natural. Era meu, aquele momento, e agora é nosso, compartilhado com quem me lê em marca d’água.
*Texto de 2011
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Fui chamado para conversar com um sujeito que, a princípio, não reconheci, mas que diziam ser da família. Todos na família sempre disseram que era uma pessoa cordata, conciliadora e paciente. Mal sabiam o esforço que fazia para que não matasse metade dos meus parentes. Concordaram que apenas eu poderia resolver a enrascada que um deles se metera.
Compareci àquele local e estranhei que parecesse um tribunal. Numa bancada à frente, um homem de preto, todo solene, perguntou o meu nome e respondi claramente: Natan Natan.
— O senhor sabe o que veio fazer aqui, hoje, Sr. Natan?
— Desculpe lhe perguntar, mas quem é o senhor?
— Eu sou o Meritíssimo Juiz José Gomes.
— Sr. José, me disseram para vir conversar com alguém da minha família… que ele precisava que eu o acalmasse ou algo assim.
— Prefiro que se dirija a mim como Meritíssimo. A sua família não mentiu. Peço que o senhor converse como aquele senhor sentado ali, à minha esquerda… o reconhece?
— Claro que sim! Oh, Maninho, que está fazendo aqui?
— Ah, Natan… é você? Eu não sei o que aconteceu. Mas parece que briguei com os meus cunhados. Sabe como eles são. Começaram a gozar da minha cara. Disseram que eu era estranho e tudo mais. Mexeram nas minhas coisas. Encontraram roupas de mulher. Perguntei qual era o problema de me vestir com aquelas roupas de vez em quando. Me chamaram de traveco. Apenas porque me colocava dessa maneira fora do Carnaval, como todos eles. Só sei que chamaram a polícia depois que comecei a quebrar tudo. Os policiais chegaram me derrubando. Não me lembro de mais nada.
— Eu também não sei… Além disso, do que o Maninho está sendo acusado, Meritíssimo?
— Você não sabe mesmo, Sr. Natan?
— Não, por que saberia? Apenas me chamaram para vir aqui.
— Pois a pessoa a qual chama de Maninho matou seus dois cunhados com uma faca de cozinha, no Natal. Faz já três meses. Não se lembra?
— Caramba! Eles eram chatos, mas não mereciam morrer. Eu não estava em casa no Natal, mas viajando. Eu me ausento constantemente.
— Não se lembra mesmo de mais nada, sr. Natan?
— Não, mesmo, Meritíssimo! Como eu disse, estava ausente.
— Por mim, estou satisfeito. O senhor pode se retirar. Esses dois senhores ao seu lado vão levá-lo para outra sala, tudo bem?
— Cadê o Maninho?
— Ele já se foi, mas estará bem… Daqui a pouco voltarei a chamá-lo.
— Obrigado, Meritíssimo!
— Os dois caras, grandes como armários, me conduziram a uma sala. Só então percebi que havia um terceiro homem que me acompanhava. Vestia um terno cinza e carregava uma pasta preta. Perguntei quem era.
— Sou um advogado, Sr. Natan.
— Do Maninho?
— Sim, do Maninho. Ele matou os seus cunhados. Logo o juiz dará a sentença. Mas parece que não irá para a prisão comum. Quer dizer, ficará recluso, mas para tratamento mental. Ele foi diagnosticado com transtorno de personalidade dissociativa.
— Coitado do Maninho! Ele sempre foi esquisito! Mas matar, não acredito… eu, sim… de vez em quando sinto certos impulsos… mas me controlo.
— Melhor, Sr. Natan… Olha, estão nos chamando.
— Tá bom! Vamos ver o que se passará com o Maninho.
Caminhamos para a sala do tribunal, já imaginando a reação de Maninho. Sempre tão tímido e avesso a amizades. Tão sozinho… ele só conversava comigo. E, agora, isso… Entramos e, em poucos minutos, o Meritíssimo estabeleceu a pena do Maninho. Ele permaneceria detido no Manicômio Psiquiátrico indefinidamente, onde faria avaliações periódicas até ser considerado apto a voltar para a sociedade. Maninho era tão esquisito que eu acho que nunca mais deixará o hospício, o pobre…
Saí do prédio com os meus dois novos amigos a me acompanharem até o veículo que me deixaria na estação para a minha próxima viagem. Não sei quanto tempo eu ficarei fora… Dá vontade de nunca mais voltar…
B.E.D.A. — Blog Every Day August
Adriana Aneli — Claudia Leonardi — Darlene Regina — Mariana Gouveia —