Noite feita,
quase relego ao esquecimento
a imagem da tarde…
Crepúsculo recuperado,
o passado
se faz presente e arde…
Revejo a nave que não sei se chega ou se parte…
Pinceladas compostas de água e luz — a arte —
pontua o fundo da paisagem
ao oeste.
Eu, poeta do poente,
sei que apenas o amor é combustível poderoso o suficiente
para fazer voar
o mais pesado que o ar…
Categoria: Imagens
Voo
Não sou flor,
mas uma borboleta me procurou…
Talvez sentisse
que eu fosse um porto seguro,
uma parada estável durante o seu voo
aparentemente sem rumo.
Sabia que ela vivia
os seus últimos momentos.
Passou a maior parte de sua existência
a esperar a liberdade.
A sensação de ser livre carrega a morte anunciada
em sua própria gênese.
Se todos nós morremos um dia,
que seja dessa maneira: um voo
lindo
para outra possibilidade de ser…
Corpo Presente / Posições

Tirante o pensamento, nada viaja mais rápido no Universo observável do que a luz. Para nós, na Terra, a luminosidade do Sol nos atinge quase tão imediatamente quanto é produzida. As estrelas mais distantes são imagens do passado que admiramos durante anos mesmo depois de muitas terem se extinguido ou absorvidas por algum buraco negro. Tanto quanto o que vivemos tem como referências imagens que não mais são o que são, mas o resultado de experiências passadas de corpo presente…

Tudo o que nomeamos, discriminamos, classificamos, justificamos, estabelecemos como tal o que é, seja lá o que for. Passar por cima do que está estipulado como líquido e certo, atravessar o significado das estruturas fixadas pelas palavras não é fácil. O Sol, a Lua, o dia, a tarde, a Terra, a manhã, as horas, os minutos, o Tempo, os segundos, o sexo, o homem, a noite, a mulher… É o Sol que se põe? É a Terra que se move? Quem come quem?…
Trama
Da ponte, a trama
Da cidade, o drama
Dos campos sem grama
Dos rios de lama
Da vida em programas
Dos corpos em chamas
Da luta pela fama
Do império da grana
Que aos corações inflama.
A Cicatriz*
Por conta do calor, além da falta de paciência em deixar os meus cabelos rebeldes razoavelmente alinhados, decidi raspar o teto. Os meus cabelos, com o passar do tempo, acabaram por formar um grupo revoltado, constituído por membros cada vez mais finos, que um a um, abandonaram a minha cabeça, como a prenunciar uma época em que deixarão o alto do meu corpo quase que totalmente desertificado.
Ao fim da raspagem, Marlos — o cabeleireiro — ao passar o espelho por trás, como faz habitualmente quando faz um corte, foi revelada a velha cicatriz. Como um arqueólogo que descobre uma nova pedra de roseta que em vez de uma escrita, apresentava apenas uma linha, que fez relembrar uma história inteira. A origem daquela cicatriz foi como um mergulho nas águas dos tempos, mais precisamente (ou imprecisamente?), aos meus cinco ou seis anos de idade quando, minha família e eu, vivíamos na Penha.
Morávamos na parte de baixo da casa (ao qual chamávamos de porão) da minha Tia Raquel e Tio Zé Gomes, alugada por eles. Devia ser muito conveniente para os meus pais, pois a fábrica de componentes flexíveis para carros dos meus tios, na qual eles trabalhavam, ficava no mesmo terreno. Não sabia, então, que essa “facilidade” de certa forma escondia uma guerra surda no espírito de meu pai, que se sentia extremamente dependente dessa situação em que família e ganha-pão se misturavam de maneira promíscua.
Quanto a cicatriz adquirida, eu diria, de forma simplificada, que se deu por causa de ciúme entre irmãos. Certa ocasião, os meus tios e primos viajaram e os donos da casa permitiram que nós pudéssemos, durante as noites que passariam fora, assistir à televisão de muitíssimas polegadas os programas favoritos da época. Para uma criança tudo é muito maior, porém em confronto com a nossa de 14″, a diferença era memorável. A simples existência de uma sala de televisão, com amplos sofás e distância adequada, sem improvisação de cadeiras ou camas para sentar deixava que nos sentíssemos em um mundo novo de conforto.
No último dia de nossa imersão, pedi para o meu pai me levar de cavalinho, como ele fazia com o meu irmão menor. Já devia ser pesado demais para isso, mas ele acedeu graças a minha insistência. Para irmos até a parte de baixo da casa, tínhamos que descer uma escada composta de ladrilhos que, devido à uma chuva fina, estava por demais escorregadia. Ao final dos últimos degraus, o meu pai escorregou e eu acabei por bater a minha cabeça. Muito sangue e choradeira depois, curativos e dengos me acalmaram naquele momento e por anos.
Os meus cabelos cresceram o bastante para soterrar a lembrança marcada por aquele fato, no entanto sobrou o consolo da cicatriz que me fez lembrar de um momento de carinho do meu pai, que quis atender os reclamos chatos de um menino enciumado. Doeu, mas valeu!
Texto de 2013*



