Acordo… Logo, me levanto… Sinto os pés no piso, a procurar os chinelos… Antes que os alcance, me invadem sensações inesperadas, mas conhecidas… Em meu corpo, quente, tremores… Na alma, gelo e medo…
Cedo, cedo à minha incapacidade de lutar contra aquele sentimento de impotência, tão particular quanto evidente… Sozinho que estou, ninguém saberá o que passo… Ainda que estivesse rodeado por muitos, mesmo assim, me sentiria só, a beber a água suja do fundo do poço…
Neste dia de verão, voltarei para a cama, a tremer de frio n’alma… Fecharei as janelas, cerrarei as cortinas, cobrirei o meu corpo com pesadas mantas… me manterei quieto, como se quisesse voltar para o útero de minha mãe… Talvez, renasça em algum momento…
Eu estava limpando a casa e organizando o lugar para que não parecesse tão bagunçado, deslocando objetos daqui para ali. Não sei se pelo meu trabalho profissional, sinto que o meu senso espacial é bem apurado. Consigo colocar sem muito pensar as coisas nos seus devidos lugares. Se houvesse um nome que poderia escolher para o que eu faço é o de aprovisionador efêmero — soluções precárias para momentos oportunos ou que costumo chamar de provisórias permanentes. É bem verdade que quase tudo é passageiro. Algumas coisas além de passageiras, são lindas. Como os lírios que floresceram aqui em casa. Não fosse esta imagem roubada, ficaria apenas o registro da minha memória — talvez a coisa mais fugaz que eu tenho.
Bom dia para você, rolinha, que decidiu fazer seu ninho no cacho de bananas quase no ponto de ser colhido! Escolheu bem o lugar – terá o que comer ao alcance do bico — para você e para seus filhotes. E por ter escolhido uma casa onde as pessoas respeitam a vida — perderemos às doces bananas, mas ganharemos lindas companhias…
Voltava, madrugada alta, e ao olhar para a direita, uma porção de água refletia luzes de barcos estacionados ao longo do horizonte sem fundo da noite. Achei por bem registrar o que queria o que fosse a cena do confronto do branco com o preto, oscilantes. Quando fui buscar as imagens, vi fogo sobre a água e um bastão luminoso como se fosse o cetro da Rainha D’Água emergindo contra a negritude. Mais um devaneio entre tantos…
A insônia não me impede de sonhar. As últimas luzes de ontem, então, brotam em plena madrugada, como planta irrigada por devaneios aquosos. A tarde se faz, tarde da noite quente, seca e escura. Assim, amanheço…
Por onde eu estava, passou uma noiva com o noivo, acompanhados por damas de honra, todos devidamente paramentados. Enquanto uma senhora sorriu e expressou que amava ver noivas, outra falou baixinho: “Que ridículo!”… Eu, que só achei a cena bonita, senti que qualquer coisa pode ofender a alguém quando a pessoa está de mal com a vida.
Tempo seco. Vida umedecida. Horizonte dividido em céus. Todos meus. Cores sedentas. Tarde emudecida. Coração agradecido…
A nossa boa e saudosa Penélope tinha o mesmo hábito — onde quer que estivéssemos, se postava estrategicamente no meio do caminho. Atualmente, é a Dominic que se põe na passagem. E o que muitos de nós, seus cuidadores, fazemos? Nada. Passamos meio de lado ou por cima, com todo o cuidado para não atrapalharmos o descanso da inconveniente presença. Certo ou errado, é o meu comportamento.
Nesta mesma data, em 2014, nós, da Ortega Luz & Som, saímos cedo para trabalhar. Quando os primeiros raios solares iluminavam o dia, lá estava esse casal de cães ora sentados, ora brincando juntos durante o tempo que estivemos abastecendo os carros para seguirmos viagem. Formavam um lindo casal. Essa cena se espraiou pelo resto do meu dia. E hoje, ao relembrá-la, melhorou a minha manhã. Apenas os bons romances resistem à luz do dia…
Rio de lavas passeiam pela tarde lavada de chuva, sob o oceânico céu do verão deste final de ano… Cores e fogo espraiados em intensidade líquida de nebulosas ondulantes que serpenteiam no horizonte do sem fim no fundo de meus olhos… Que sejam prenúncio de alvíssaras, ainda que saibamos que serão tempos tempestuosos…
O interessante na ocorrência das Super Luas em Sampa, é quase nunca a percebemos. Simplesmente porque calha de haver sempre muita nebulosidade a nos impedir de senti-la em todo em seu esplendor. Aqui, coloco dois textos referentes a duas ocasiões diferentes…
Em 2015…
Sem Super Lua…
Apenas superação…
A eterna ação
da Terra em movimento…
Em uma viagem de velocidade controlada em torno do Sol.
Bilhões de pessoas já viram céus
e astros mudarem de lugar quando,
em verdade, foram elas que se moveram
vida adentro, do nascimento à morte…
Essa é a nossa eterna sorte…
Nossa fraqueza…
E a nossa redenção…
Em 2018…
Nota De Esclarecimento
Não fui eu, Obdulio Nuñes Ortega, que desencarnou na madrugada de ontem. Mas sim meu pai, quase um homônimo – Odulio Ortega. Morrer é um fenômeno natural, assim foi a ocorrência da Super Lua, de quarta para quinta. Um dia, morrerei. A vida só é enigmaticamente tão bela porque temos a morte a nos cortejar num romance eterno, vida após vida. Quanto ao meu pai, ele foi um homem que viveu plenamente e se foi calmamente aos quase 86 anos de idade. Envio um abraço forte a todos que se preocuparam com a minha condição de órfão tardio ou defunto precoce.