Descaminhos Comuns

Uma incomum quer para si um homem comum para amar.
Um que não destoe dos comuns da comunidade.
Para ela, o regular é bom  ̶
confiável, confortável, controlável.

Um incomum a ama, mas é indomável,
ciente de si, sem o senso
dos comuns anos pensos,
sua vaidade é incontornável.

De certa maneira, o incomum não sabe
onde termina a vacuidade
e onde começa a necessidade
de ser invulgar, sem se julgar.

O incomum vaga de lada a lado,
comumente a demonstrar sua raridade.
Se considera ser mais do que um.
Se sente especial  ̶  algo tão comum…

Quer ser querido por extrapolar
a si mesmo, a ultrajar o usual.
Quer ser reconhecido por ser ele  ̶
o bom demais a bem querer.

Descaminhos do desejo e do afeto,
Ainda que a amante deseje o incomum,
almeja um amor simples, porém raro,
simples e desmedido, sem anteparo.

Entre a força da paixão inútil, mas vital
e a estabilidade da prática calma e cândida,
ela decide pela sensatez da paz,
que a paixão revira e volteia,
torna a vida incapaz
e desnorteia.

O Sexto Dia

A face do Espírito pairava sobre as águas –

elemento primordial.

No primeiro dia, criou-se a Luz

para inundar de claridade o planeta.

No segundo, o firmamento para lhe servir

de guarida.

No terceiro dia,

sob o Céu que hoje nos protege,

surgiram a porção de terra seca

e a vegetação.

No quarto, os corpos celestes –

sol, lua, estrelas… –

para que este palco não se soubesse só.

No quinto, os animais aquáticos,

para percorrerem a imensidão aquosa

e as aves para voarem o sonho de flutuar.

No sexto, os animais terrestres, nossos irmãos,

a quem matamos para viver,

e a nós mesmos.

E, conosco, o Amor.

Seria tudo perfeito se a Paixão,

a verdadeira força motriz da criação,

não nos fosse dado a conhecê-la

o poder.

O criador descansou no sétimo dia.

A Paixão, jamais…

Normalidades

Normalidades 5
João Pedro, George e Miguel

Seria falta de empatia ̶ alienação ̶ pouco valor à vida?
Ou algo pior?
Seria esquizofrenia ̶ negação operacional ̶ realidade partida?
Ou algo pior ainda?
Aproveitar a pandemia ̶ virtual genocídio ̶ eugenia?
Eliminar os velhos pensionistas ̶ Seus Juquinhas, Donas Marias?
Mortandade como projeto de governo ̶ equalização de perdas econômicas?
Nosso País a viver o drama do fascismo redivivo ̶ teorias de raças hegemônicas ̶
tiros às dezenas a metralharem jovens pobres e pretos ̶ Joões Pedros ̶
invasão de casas em comunidades, como se fora guetos?
Antes, talvez fosse uma simples operação policial boçal,
mas não ̶ faz parte de um sistema antigo ̶ racismo estrutural.
O mesmo que fez por destino-desdém a branca mão ̶
empurrar o corpo do anjo Miguel do alto até o chão…
No Norte da América, Floyd chama pela mãe ̶ última palavra a dizer…
Sem poder respirar, o homem clama por ar ̶ último desejo antes de morrer…
Talvez se sentisse um rei branco aquele que pressiona, ajoelhado,
o pescoço do homem preto subjugado…
Branca mão no bolso, olhos frios, alheio aos pedidos do entorno, conta mentalmente
o tempo que resta da energia que se esvai do gigante.
Uma morte entre tantas mortes ̶ brutalidade exposta ̶ silenciosamente
a melhor parte de nossa humanidade é atacada na nossa frente.
Devemos erradicar as doenças ̶ aquelas que nos mata em conjunto.
Bem como aquelas que nos mata por dentro, dia-a-dia, miseravelmente.
Afastar de nossa convivência aquele que diz não ser coveiro,
mas negocia armas e meios para produzir defuntos.
Devemos nos precaver das enfermidades sistêmicas ̶ combater os males da alma.
Buscar o caminho correto, andar pela claridade do saber e do discernimento.
Sabemos que a morte ̶ fato da vida ̶ é causa perdida, inevitável…
Viver com medo e precariedade, por imobilismo governamental,
sem ter como nos defender do sofrimento por descaso ativo ̶ intencional ̶
é imperdoável.

Magas

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Por onde andam as feiticeiras da nossa cidade?
Magas e bruxas, por onde vocês se esconderam?
Estão com medo de serem acusadas de veleidade?

Caminham pelas ruas tentando esconder as suas idades?
Ocultam a sabedoria das vidas das que as antecederam?
Lutam para não parecerem mulheres de maior qualidade?

Filhas de Merlin, de Circe, de Morgana, de Dubledore e de anônimos
Percorrem campos, vilas, bairros, praças e centros do mundo.
Seres que cantam e labutam e amamentam, usam pseudônimos.
Todas trabalham para a construção de um novo tempo, fecundo.

Sonho de todos os homens, possuí-las em série e quantidade.
Querem dominá-las, dirigir-lhes o caminho, pô-las a parte.
Mas não vencem o espírito, não ultrapassam a sua capacidade
De viver, de amar, de entregar-se e fazer tudo com beleza e arte.

Foto por Pixabay em Pexels.com

O Novo Normal

De perto, ninguém é normal ˗˗
já disse Caetano ˗˗
não há engano.

Anunciam que normal, há um novo ˗˗
o mesmo novo de outras vezes ˗˗
em épocas de outros revezes.

Ciclos do mal ˗˗
de maus e bem maus ˗˗
ciclotimia macabra,
penúria que não se acaba.

Sina de brasileiro é esquecer ˗˗
revive a reviver ˗˗
elege e reelege malditos,
proclamados como benditos.

Da antiga norma, surgiu o anormal,
de mau passo ˗˗ o novo natural ˗˗
morram, saiam do claustro:
anunciação do falso astro.

“Salvem o PIB!
Reabram-se as empresas que me presam.
Labutem, carreguem os pesos.
Apesar dos pesares, suportem a lide.
O governo não é do povo, nem é altruísta ˗˗
proteger os desamparados ˗˗ coisa de “comunista”!

Danos colaterais em todas as guerras, há…
E daí?
Se perdermos pobres e velhos?
Seres inúteis, a viverem com dificuldades ˗˗
mulheres e homens marginalizados,
enfim igualizados ˗˗
pais, mães, filhos, avós, tios, tias, amigos…
Olha, que bom! ˗˗ genocídio legalizado ˗˗
sonho dos trinta mil mortos, realizado!”

Nos tornamos prisioneiros do negacionismo ˗˗
contra a ciência, vivemos de achismos,
malversação da ideologia
e horror à Democracia.
Fato tal e qual, eis o novo normal ˗˗
além do novo coronavírus ˗˗
nos infectou o adormecido mal…

A doença não se curará…
Poderemos controlá-la pelo discernimento,
se nos tratarmos pela cultura e pelo conhecimento.
Porém, mesmo depois de passarmos pela pandemia,
doentios políticos assintomáticos,
contaminados pela ignorância efetiva
e pelo fascismo nativo-ativo,
sempre haverá…