
Categoria: Poemas
Poentes No Cais*

Sentado no cais,
todas as tardes,
eu me coloco a observar a linha do horizonte…
Lusco-fuscos da minha perdição…
Todos os dias,
a essa hora,
há essa hora
em que revivo o momento da despedida…
Ela se foi…
sem ter a delicadeza de desaparecer
em barco a vela silente…
Foi para o continente,
célere como o pendular instante,
em ronco de motor potente…
Fiquei na ilha, ilhado…
Solidão por todo o lado…
Em dias nebulosos,
não há diferença entre o firmamento
e o mar,
entre a noite que chega
e o dia que vai…
Então, me sinto melhor…
Porque mergulho em um mundo
de oceano sem fundo,
um buraco negro,
de luz abduzida…
De nosso amor,
restou pores de sol,
tempestuosos e brilhantes,
de raios fugidios,
figuras de corpos esguios…
assim como o seu,
que espero voltar,
até anoitecer
ou o Tempo acabar…
*Poema constante da Revista Plural “La Barca”, lançada em 2016 pela Scenarium Plural – Livros Artesanais
Penélope (2016)

“Papai, brinca comigo? Tenta pegar a bola de mim!”…
Penso: Ah, querida… E as suas dores?
Sei que você vai pular,
vai correr,
vai tentar impedir que eu pegue a bola de volta.
Será que não vai sofrer depois?”…
Alheio aos meus pensamentos, repete:
“Papai, brinca comigo? Tenta pegar a bola de mim!”…
Imagino que o Paraíso para ela,
para além de ter comida à vontade,
gulosa que é,
seja ter a quem ama a jogar a bola para que possa correr,
pegar no ar e voltar para jogar de novo,
ad eternum…
Tento transformar a vida da velha amiga
em vida nova,
o Paraíso na Terra e,
por aquele instante,
vivo a eternidade.
Descaminhos Comuns
Uma incomum quer para si um homem comum para amar.
Um que não destoe dos comuns da comunidade.
Para ela, o regular é bom ̶
confiável, confortável, controlável.
Um incomum a ama, mas é indomável,
ciente de si, sem o senso
dos comuns anos pensos,
sua vaidade é incontornável.
De certa maneira, o incomum não sabe
onde termina a vacuidade
e onde começa a necessidade
de ser invulgar, sem se julgar.
O incomum vaga de lada a lado,
comumente a demonstrar sua raridade.
Se considera ser mais do que um.
Se sente especial ̶ algo tão comum…
Quer ser querido por extrapolar
a si mesmo, a ultrajar o usual.
Quer ser reconhecido por ser ele ̶
o bom demais a bem querer.
Descaminhos do desejo e do afeto,
Ainda que a amante deseje o incomum,
almeja um amor simples, porém raro,
simples e desmedido, sem anteparo.
Entre a força da paixão inútil, mas vital
e a estabilidade da prática calma e cândida,
ela decide pela sensatez da paz,
que a paixão revira e volteia,
torna a vida incapaz
e desnorteia.
O Sexto Dia