Ela olhou diretamente nos meus olhos e vociferou, boca encrespada: “Eu odeio você!”.
De suas pupilas faiscantes, dardos de desprezo me despedaçaram em tiras.
Não sei como me sustentei sobre as pernas. Cheguei a ouvir uma vozinha dentro de mim, que dizia: “Fique em pé. Se cair agora, ela o desprezará ainda mais…”.
Calei e afastei o meu corpo desabitado de mim. Uma típica reação de autodefesa do sistema vegetativo autônomo. Emocionalmente, estava morto.
Sabia que ela estava fora de si. A medicação que tomava estava afetando o seu nível de consciência, a ponto de ver em mim, o inimigo.
Outras ocorrências mais graves vieram a se precipitar, logo depois. Decidimos que deveríamos cessar a administração das drogas que, em vez de ajudarem, tornavam as condições de seu estado mental bem mais precárias. Com isso, aos poucos, o seu humor melhorou e, aparentemente, ela retornou a ser a pessoa amorosa que sempre demonstrou ser.
Sobre esse e outros acontecimentos à época, nunca chegamos a conversar. Carrego a curiosidade meio mórbida em saber se aquele ódio tenha transbordado de tal modo que ainda perdure em reminiscências. Eu, jamais esqueci… Ao me ver diante dessa possibilidade, me acovardo…
Ressuscitado mais uma vez, já não era o mesmo. Aquele outro – o Observador – que apenas me acompanhava do lado de fora da trama, passou a assumir cada vez mais a minha identidade. Na posição de ator principal, quase sempre atua o coadjuvante…
Em um acidente tão prosaico quanto difícil de explicar, prendi os dedos da minha mão esquerda na porta, exceto o polegar. Como o meu próprio corpo a impedisse de ser aberta, pois eu estava sendo pressionado contra uma estrutura, fiquei quase um minuto a sentir a pressão de oitenta quilos sobre as quatro falanges até que fossem liberadas. Felizmente, não quebrei nenhuma delas, mas perdi a sensibilidade na ponta do dedo anular. Espero que momentaneamente. Nada tão sério quanto a falta da mão esquerda de um companheiro de mergulho com o qual conversei à respeito da dor fantasma quando ganhei a sua admiração pela destreza em pegar jacaré nas ondas da praia onde estava.
Apesar de insensível ao toque mais delicado, essa ponta de dedo sente frio e calor. Não está roxa, sinal que apresenta circulação. Simplesmente, parece um território estrangeiro a ocupar um pedaço do outro – Base de Guantánamo em Cuba. O anular esquerdo não tem deixado de me ajudar nas tarefas. Agora mesmo, estou a utilizá-lo para escrever no computador, porém isso me fez pensar sobre como sistema sensorial desempenha a intermediação entre o nosso corpo e o mundo exterior.
Os sentidos oficialmente reconhecidos são cinco, alguns mais ou menos utilizados, a depender de cada um. Os olhos são os que mais se destacam na compreensão da realidade pela maior parte de nós. No entanto, pessoalmente acredito que a visão seja o mais enganador dos sensores para revelá-la. Por exemplo, o olhar pode vir a gerar uma paixão, mas será o tato a estabelecer a verdadeira interação entre os corpos dos apaixonados. Como se apregoa por aí, se não “rolar química”, não prosperará. O tato, em quem não enxerga, é outra forma de ver.
O que vemos nos comove de imediato, porém, será o cérebro a interpretar o que enxerga. O cérebro educado em uma determinada cultura, ideologia ou religião, transformará a visão de um corpo nu, por exemplo, em objeto de culto ou perversão, de poder ou queda, subjugação ou liberdade. Afora a avaliação de possíveis qualidades físicas padronizadas de fora para dentro. Os corpos fragmentados de Picasso causam fruição artística, as deformações físicas reais podem vir a causar repulsa ou compaixão. O ideal é que nos libertemos da visão como meio de revelação do sentido da vida.
Quando ao olfato, descobri a sua dimensão quando, em certa ocasião, estava passando por algum processo infeccioso, talvez no fígado. Fiquei com esse sentido bastante estimulado. Percebi como os cães e outros animais, além dos deficientes visuais, são eficientes em “enxergar” o que não veem. Ao dobrar uma esquina sabia que encontraria o vendedor de abacaxi logo adiante. Tinha consciência do momento exato em que minha mãe fazia café, em outra casa do lado da minha, separada por dezenas de metros, paredes e compartimentos. Após ter o meu problema solucionado, perdi esse superpoder, mas não me esqueço até hoje como era impressionante enxergar pelo nariz.
Os odores exercem um forte estímulo apreciado ou não, a depender de sua origem e força. Cada vez mais tentamos reproduzir cheiros naturais para simulá-los ou substituí-los. Até simulacros de feromônios, que no passado nos auxiliavam no processo reprodutivo, hoje é utilizado para ajudar na atração sexual. A sexualidade, cada vez mais valorizada, tem sido encarada como expressão da individualidade entre os humanos. Não apenas o olfato, mas todos os outros sentidos são propagandeados como intermediadores para estimular o consumo em torno dessa força primeva.
Assim como é poderosa a atração que exerce o cheiro da comida. Quase associado ao olfato, o paladar é um sentido em torno do qual a cultura do alimento ganhou espetacular complexidade por se tornar um dado cultural humano, além de ser a maneira que primordialmente usamos para repor energia para o funcionamento do nosso organismo. Organizamos verdadeiros eventos e templos para consumirmos alimentos líquidos e sólidos. Certamente, vivemos e morremos pela boca.
A audição detém uma tremenda importância nas relações humanas e de outras espécies animais. O som se propaga no meio físico em frequências e ondas e apresenta outras tantas características, que talvez transformasse em artigo científico uma simples pincelada sobre os sentidos. Reconhecido como fonte emanante de poder desde sempre, o Som, na Bíblia é apresentado como o próprio Deus – “No princípio, era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”. Não é à toa que muitos de nós, escritores, que lidamos com as palavras, carregamos certo complexo de grandeza por poder criar e destruir em seus textos.
Os Hindus acreditam que se conseguirmos nos conectar com o som primordial do Universo – OM ou AUM– alcançaremos sintonia com a frequência existencial sublime. De alguma forma, todos nós percebemos o quanto o som pode alterar o nosso humor. Isoladamente ou aliado ao verso – a Música – uma das criações artísticas mais importantes do Homem. A fala é a forma de comunicação mais direta e mais utilizada por nós. Porém, é comum ouvirmos apenas o que queremos e frequentemente interpretarmos de maneira discrepante o discurso da mesma fonte, ainda que seja na mesma língua.
Para terminar, faço alusão aos chamados sentidos extra-sensoriais, de acalorada discussão entre defensores e contrários. A ter como exclusiva a base científica experimental, do modo que a concebemos, eles são refutados. Contudo, ao longo da História humana são utilizados como justificativa para explicar razoavelmente certas apreensões da realidade, principalmente para uma grande parcela das pessoas. Eu, pessoalmente, acredito piamente no sexto sentido feminino. As mulheres costumam sentir-cheirar-ver-tocar-degustar de longe e previamente algumas situações…
Vivo que estou, tudo me inspira. Do amor à violência, tudo o que se manifesta como expressão humana me deita raízes e razões – a escrita como artifício e meio. No entanto, há temas que fico a respirar recorrentemente. Enquanto não consigo lhe revelar alguns dos mistérios – o que nem sempre o torna menos enigmático – volto a ele várias e várias vezes.
Os fenômenos naturais sempre me atraíram muito. Menino da cidade, antes de saber que havia o mar em mim, a partir dos oito anos de idade fui viver na Periferia, nos rincões quase rurais da Zona Norte do início dos anos 70. Esse afastamento do Centro, permitiu me relacionar com as questões climáticas para além do simples incômodo que pudessem provocar o frio ou o calor, a seca ou a estiagem. Na cidade vascularizada por riachos e rios, isso não deveria ser uma preocupação. No entanto, estando esses recursos encobertos por tampões ou cercados por muros e asfalto, sofremos com a escassez de água ou enchentes destruidoras. A chuva e o sol também são nossos aliados. Quando nos mudamos, não tínhamos água encanada. Ainda que possuíssemos um poço artesiano, usávamos a água da chuva para encher as tinas que colocávamos ao sol em cima da laje para esquentar para um banho morno, além de servirem para regar as plantas e lavar o quintal.
Chuva na Marginal Tietê.
Percebíamos a influência das estações nas plantas. Tínhamos várias árvores frutíferas e sabíamos as épocas em que cada uma frutificava. Bananas, brotavam o ano inteiro. Mangas, goiabas e abacates, sazonalmente. Plantávamos milho, feijão e cana. No inverno, a geada no verde dos morros provocava um efeito de riqueza prateada aos primeiros raios de sol inclinado.
A quem estas mangas querem seduzir?…
Sem a interferência de tantas luzes artificiais, no céu noturno, contemplava com reverência a majestosa grandiosidade do corpo alongado da Via Láctea a derramar o seu leite estelar. Durante o dia, as nuvens em céus de todos os tempos me encantavam, com as suas características particularmente volúveis, em formas e combinações. Os jogos de luz e sombra provocados pela dança retilínea do sol e esvoaçante dos corpos fluídicos costumava entreter o meu olhar em manhãs e tardes. Da mesma maneira, hoje deixo-me levar como a uma pipa ao sabor do vento. Crepúsculos e auroras são naturais símbolos de renovação.
Voo em direção ao ocaso…
Desde essa fase, iniciei mais profundamente o meu contato com os bichos, o que estimulou o desenvolvimento da minha empatia com os outros seres, ainda que não humanos. Fui criador de galinhas e patos. Sempre tive muitos cachorros, gatos e até uma porquinha já passeou como um animal de estimação – Priscila. Inteligente e vivaz, não me lembro de seu destino, muito novo que era. Ou procuro não lembrar. Fiquei dez anos sem comer carne…
Betânia, no andar de cima. Frida, abaixo. Donas do sofá.
As pessoas humanas formavam um grupo estranho para mim. Eu me identificava com os seus componentes em alguns aspectos, normalmente quando fugiam do padrão normal. Sempre fui amigo dos mais estranhos. Formávamos um grupo seleto. Estudantes tímidos, gostávamos de futebol, xadrez, dominó e música. Eu, particularmente, de História, Geografia e Literatura. E Cinema. Sonhava filmes. Sonhei Amarcord.
Somos filhos da Pátria!
Das criações humanas – casas, edifícios, templos, máquinas, instrumentos de comunicação, veículos de transporte, móveis, apetrechos, utensílios, roupas e tudo mais – sempre me fascinaram os casulos, grandes e pequenos, que perdurarão ainda algum tempo depois que nós nos formos. São monumentos à nossa arrogância diante da Natureza. Em torno delas, as cidades se reproduzem e se espalham em ruas, avenidas, praças, estádios – tudo o que torna habitável a sua vaidade.
Pátio do Colégio, ponto gerador.
Inspirado por minha convivência com São Paulo, seus habitantes e (des)caminhos, participo do grande concerto – vida que segue sem rumo aparente. Não sei como sobrevivi. Quando brincava de Índio e Cowboy, eu sempre preferi ser o Índio…
Morador do planalto, os meus olhos se enchem de Mar toda vez que desço a Serra, rumo ao Litoral… Pareceu que retornei cinquenta anos na existência, quando encontrei o Atlântico pela primeira vez. O meu corpo, como que atraído de volta ao útero, quis se atirar contra as ondas. Adulto, caminho decidido pela areia, solto a mão da Mãe Terra e me uno à Mãe Água – geradoras de todos os seres. Pai Sol me envolve de calor e sinto-me pertencer ao Universo.
A grandiosidade da força natural do Mar me reposiciona na condição de ínfima parte do átomo. Depois de apenas alguns minutos, me sinto recebido em minha casa – líquido amniótico. Num átimo, sou recriado. O movimento de fluxo e refluxo das ondas me banha de espumante respirar. A sintonia como o meio líquido me torna um bailarino de atávica dança ritual. Eu me junto a milhões de seres humanos de todas as eras que se lançaram dos Continentes e Ilhas às correntezas que nos trouxeram ao futuro – hoje – e torno-me atemporal. Sou todos em um – eu.
Mergulhador, mitigo a dor de viver sem aparas, ao boiar ao sabor das ondulações. Dejeto da civilização, perdoo-me dos pecados em batismo sagrado ao nadar sobre a fímbria marinha, a linha do horizonte a me confundir os sentidos. Devo ir mais longe? Extinguir de vez a solidão? Morrer para a Terra, consubstanciar-me em Mar? Unir as moléculas elementares do meu corpo-Água a ele?
Quando retorno à minha consciência terrena, de volta à unidade física que me identifica como apartado do mundo, sinto-me um apátrida. Volto para a firmeza inconstante da areia. Acovardo-me do casamento com a vida real por aquele momento, à espera da revelação do instante que deverei ser, para sempre, Água…
Habito São Paulo. E São Paulo habita em mim. É um hábito. Maneira de se comportar e vestimenta. É personagem. Amiga controversa. Versão e contravenção. Mil estações (no mesmo dia). Temperaturas diversas. Temperamental. Rebelde. É aço e algodão. Passeio e trabalho. Muito trabalho. Trabalhosa.
Há cidadãos que conversam com ela. Sou um deles. Quase não obtenho resposta às perguntas que faço. Mas insisto em entendê-la. Talvez não seja o caso… Talvez seja um acaso viver aqui. Aqui ter nascido, filho de imigrantes, vindos de pontos diferentes do planeta. Talvez, destino operado pela conjunção astral, movimento das marés ou o caminho do mar – única saída para muitos… Vieram dar aqui. Nasci São Paulo.
Sou a cidade. Somos. Todos que a atravessam, feitos adagas na caixa do mágico, são São Paulo. A compomos. Possuídos, a possuímos. Filme de terror de Sessão da Tarde. À noite, renascemos. Amanhecemos para trabalhar. Somos transportados feito gado. Festejamos o suor e a chuva inesperada com praguejas. O sol é inclemente para quem não permanece nas ilhas de sombra e frio. E reclamam. Preferem o ar condicionado. São Paulo adora o artificial. Cria paredes pintadas de verde, a simular o verde que perdeu.
Seu rio já morreu. Dizem que renascerá. Eu não verei. Como não verei o Centrão revitalizado, os antigos prédios restaurados. As ruas como passeios e não como moradas. Das praças como lugar de lazer saudável, não usufruirei. Contudo, também sou essa São Paulo necrosada. Sou como mosca, a voar em torno de corpos putrefatos, habitações que cercam solidões. E reproduzo. Mosquinhas que amam lamber de seu corpo em (de)composição. Veias-asfaltos expostas a seringas de borracha. Vício em cheiro de gasolina. Som de buzinas, arrancadas e freadas. Hip-Hop e Bolero.
Dia 25 de Janeiro, São Paulo completa mais um aniversário. Como Roma, o seu nascimento foi mítico. Os entes eram outros, porém. Há 464 anos, originais da terra e jesuítas de nacionalidades diversas se reuniram para sagrarem uma celebração mística em nome do mais improvável Apóstolo, dando início a uma jornada que ameaçou ser abortada tantas vezes, mas que se fortaleceu à cada episódio. Homens estranhos e estrangeiros naquele dia sacramentaram o nosso destino séculos antes de existirmos. Seres humanos foram oferecidos em sacrifícios de sangue e café. Esta cidade veio a forjar cidadãos mestiços que invadiram as entranhas do País em busca de sonhos fátuos e, no entanto, grandes o suficiente para gerarem uma Nação.
Comemorarei ser São Paulo. Porque não resta alternativa a não ser não ser. E outra coisa, não quero ser.