BEDA / O Beijo

B-BEIJO

Reginaldo era discreto. Desde a inauguração, o homem de sorriso franco prestava serviços de todas as ordens naquele sítio voltado a eventos, a maior parte, casamentos. Além do salão principal, o local contava com várias dependências bem montadas, ao qual se podia perceber o capricho de um bom decorador. Poucos sabiam que eram pelas mãos do zeloso Reginaldo, que levava adiante os projetos que ele mesmo desenvolvia, que se devia aquele toque especial. Sabendo de seu valor, o proprietário lhe pagava um bom salário, o que não se suspeitaria diante de sua singeleza normalmente muda.

Um dos lugares que ele mais gostava de cuidar era o espaço onde as cerimônias se realizavam, a imitar uma igreja sem paredes laterais, com um altar natural bastante bonito. Depois de terminadas as cerimônias, enquanto os noivos e os convidados se dirigiam ao salão de festas, ele começava a operação de limpeza para tornar novamente apresentável aquele templo de união. Não era incomum que os fotógrafos aproveitassem a beleza daquele recanto como fundo de suas produções. Pequenas cascatas, plantas inusitadas, mas eficientes em causar um bom efeito, a ponte de detalhes mínimos por sobre o pequeno lago artificial de carpas coloridas – nada escapava ao seu olhar minucioso.

Esse aguçado senso de observação, o permitiu localizar uma correntinha dourada com um pequeno coração na ponta, jogada entre uma cadeira e a lateral da passarela central rumo ao altar. Reginaldo a apanhou, a guardou no bolso e continuou a sua faina. Depois de encerrado o trabalho, se dirigiu ao gerente e a entregou. Este, fez anunciar o objeto perdido para os presentes, na voz do cantor da banda. Logo, surgiu a dona da correntinha, uma emocionada e nada menos que belíssima moça vestida com um longo azul. O cantor, mestre em cantar e em cantadas, bastante desenvolto e simpático, ganhou um efusivo abraço daquele silfidico ser. Para aproveitar a inesperada proximidade daquela que ele já havia percebido, tentou ganhar maior intimidade, porém ela, que até então desfilava feito uma fada que não tocava o chão, chamando a atenção de todos, correu do palco alegre como uma menina de rua de pés descalços.

Passada a explosiva emoção, Raina (esse era o seu nome), se dirigiu ao gerente e perguntou quem havia encontrado o dourado objeto adorado. Informou que fora Reginaldo. Disse que gostaria de agradecer pessoalmente e perguntou onde poderia encontrá-lo. Apesar do gerente dizer que não haveria necessidade daquele gesto formal, que ele mesmo passaria o seu agradecimento, Raina insistiu e lhe foi indicado o local onde provavelmente localizaria o bem-feitor.

Reginaldo foi encontrado por ela ajoelhado junto ao pequeno lago de carpas e lhe deu a impressão que ele conversava com os peixes. A luz difusa do local conferia certo aspecto mitológico ao encarregado e sua pele morena parecia brilhar, talvez sob o efeito da água clara de fundo azul do pequeno lago. Ao vê-la, sorriu ao perceber a correntinha no pescoço de alabastro da moça muito branca, quase diáfana.
O senhor é o Seu Reginaldo?
Sim! Tudo bem? Algum problema?
Não! Nenhum! Vim lhe agradecer por ter encontrado a minha correntinha!
Que é isso? Por nada! Não precisava…
— Faço questão, Seu Reginaldo! Essa correntinha é muito importante para mim! Eu a ganhei da minha madrinha quando pequena. Eu a chamo de “Meu Coração”!
Dá para perceber que o seu coração é, realmente, dourado, Senhorita…
… Raina! O meu nome é Raina… – Completou, tocada pela forma como lhe foi lançada aquelas palavras, muito naturalmente, por parte daquele senhor… ou rapaz… Estava a pensar que não saberia precisar a idade do homem à sua frente. Aliás , desde que o encontrou, pareceu que ele a conduzia do sítio para outro lugar, sem referências…
Obrigado, Senhorita Raina! Foi muito gentil de sua parte…

Até a maneira que Reginaldo se expressava parecia ser de outra época. Essa sensação de deslocamento, talvez auxiliada pela bebida que havia ingerido, a deixou um pouco tonta. Quase a cair, foi segurada firmemente pelo homem. Naquele momento passou pela cabeça de Raina que o melhor agradecimento que poderia conferir ao empregado do Recanto Encantado seria um beijo. Ao aproximar a sua boca da de Reginaldo, pode olhar nos seus olhos. E viajou… Quando colou os seus lábios aos dele, sentiu penetrar em seu céu a língua quente e úmida de alguém que sabia o que fazia. Para além do sentimento de transmutação, circunavegou pelo céu da boca, a falar outras línguas. O prazer que sentiu a fez quase desmaiar. Sem saber contar quanto tempo se passou, conseguiu abrir os olhos e lutando consigo mesma, se desvencilhou dos braços daquele mago. Saiu correndo em direção ao salão de festas.

Aquele dia foi o do casamento de sua prima e do término do namoro com Ricardo, ainda que fosse ela a agarrar o buquê jogado pela noiva. Ninguém soube exatamente a razão da súbita ruptura. Todos contavam com o enlace futuro daquele casal cinematográfico – a bela sensível, de boa família e o ás dos negócios – que tinha tudo para ser o acontecimento do ano. Dizem que ela tem um amor secreto… Inquirida pelas amigas, mesmo as mais íntimas, apenas sorri e os seus olhos parecem se transportar para outro plano…

BEDA / Namoramantes

Decidiram, os amantes, passar um dia de namorados. Amor impudico, ainda que vedado ao público, arrancavam momentos fugidios e inconstantes, a base do calendário das oportunidades. Por uma dessas, aquele sábado seria o dia – ambas as famílias a viajarem. Abriu-se a janela para namorarem ao ar livre: parque, almoço, passeio por ruas cheias de gente, cinema. Na noite anterior, no hotel, cumpriram o ritual de sexo viciante, com o inusitado sono relaxante, abraçados e cansados como quem tivesse dado a volta ao mundo em uma hora. Acordaram com a manhã, com beijos e amor sobre a mesinha ainda posta com café, pão, manteiga, geleia e frutas.

Ele vivia a trazer o olhar arregalado da primeira vez, após mais de vinte anos de casamento precipitado e comprometido de filhos, muito trabalho e rotina. Inesperadamente, sem procurar, veio a se envolver com uma mulher cheia de histórias intensas e passado exposto em conversas caladas por muitas pessoas. Ele, mais do que medo em enfrentar tanta bagagem, sentia-se encantado por poder dividir o amor com aquela que, entre outros tantos, o divisou para tê-lo como o seu homem.

Ela também mantinha um casamento. Misto de irmandade, além de sociedade comercial. Decidida a sossegar o coração, a paixão se revelou estranhamente engraçada ao fazê-la se interessar por aquele homem sisudo e aparentemente simples. O que a aproximou dele foi a palavra. Ou, por outra, a voz que entoava a palavra. Algo nela a confortava, ao mesmo tempo que a atordoava. Dada a chance de estarem juntos, o romance explodiu em paixão e sofreguidão.

Ao deixarem o hotel, ela lhe levou a um restaurante de comida japonesa, algo inédito para o paladar do sujeito acostumado com o alimento simples do campo. Disposto a experimentar os novos sabores que a vida lhe apresentava, degustou sushis, sashimis, temakis e tempuras. Aprovou o wakame e o mishoshiru com tofu. Apesar de pedir apenas um suco de laranja, sentiu certo torpor como se tivesse bebido uma boa pinga… Isso a divertiu tremendamente. Enxergava no homem de meia idade um menino a aflorar como se estivesse a tocar o peito da primeira namorada.

Ela conhecia aquela região como a palma de sua mão. No Baixo Augusta, vivera várias aventuras, as mais loucas possíveis em um tempo em que o amor ainda não havia sofrido as restrições de doenças oportunistas, filhas da gostosa inconsequência. Mulher de excelente memória, cada recanto era palco de lembranças marcantes, pela irreverência, prazer ou mágoa. Naquela parede, fez sexo com um namorado; naquela porta, funcionou uma badalada boate que frequentou com os seus amigos mais próximos e experimentou beijar outra mulher; naquele beco, fez xixi no chão em uma situação de extrema necessidade; sob aquela árvore, dentro de um carro, se entregou a um atraente desconhecido; na próxima esquina, terminou um romance conturbado.

Após a sessão de filme romântico, saíram tendo ainda resquícios da luz da tarde a invadir quase às oito horas da noite em horário de verão. Estavam alegres e destemidos, a ponto de tomarem um café em um local exposto, entre o amargor doce da bebida e sorrisos de cumplicidade. Estavam mais apaixonados do que nunca, longe das quatro paredes dos quartos alugados por três horas. Sentiam-se entregues um ao outro, os olhos desatentos, ainda que soubessem que um rosto conhecido pudesse cruzar os seus em um local tão frequentado.

Chegou o momento de voltarem para as suas outras vidas, entre declarações de amor e juramentos de bem querer. Enquanto subiam a rua, cruzaram por grupos de jovens que caminhavam para se reunirem ao local das saídas de um bloco carnavalesco, ali perto. Estavam, em sua maior parte, vestidos de cores e pinturas tribais, tendo alguns a carregarem fantasias mais rebuscadas. Intimamente, os amantes sabiam que estavam a viver a maior fantasia de todas – se amavam…

BEDA / O Defeito De Amar

Defeito
Amor em Arrozal…

Há alguns anos, em umas das temporadas de alguns dias no interior do Rio de Janeiro, em visita à família de minha mulher decidi, sempre que possível, fazer caminhadas matutinas enquanto por lá estivesse para não ficar muito mais enferrujado do que já estava quando voltasse para a velha rotina no Ano Novo, que se iniciaria dali a dias. Vivenciei manhãs calmas, cidade vazia e algumas cenas colhidas por meu celular que, volta e meia, imaginei postar com alguns comentários.
Um dos encontros que tive foi com uma égua a pastar calmamente com o seu potro por uma das ruas ermas. O meu sobrinho Guilherme, sempre em dia com as novidades do lugar, quando citei que a havia encontrado, me informou que a referida égua havia perdido todas as gestações anteriores antes daquela e que, além disso, era defeituosa.
Ao analisar mais atentamente a imagem que registrei, realmente pude perceber que a pata dianteira direita era torta, o que seria um motivo razoável para sacrificá-la, sob a ótica mercantil, visto que o seu valor intrínseco se devia à eventual prestação de serviços usuais: puxar carroças e cavalgadas. Por uma sábia e clemente decisão de seu proprietário, isso não ocorreu. O defeito não a impediu de se tornar uma mãe exemplar para o seu filhote perfeito…

BEDA / A Amante Da Luz

MINHAS NOITES (6)

A amante
da Luz recebe em seu corpo
os oblíquos raios solares
desta manhã outonal…
Ela ama o calor que aquece
mas não queima…
Que preenche os seus lábios,
cabelos
e olhar
de amor luminar,
a escorrer por seu colo,

peito

e umbigo…

A amante
da Luz vive, também,
o Outono de sua vida…
Já foi Primavera,
Verão…
Os seus olhos já viram
muito mais do que verão…
A amante da Luz sabe,
e, mais do que isso,
deseja,
não ver chegar do Inverno,
a escuridão…

BEDA / Amor, Amar, Amores

AMOR

Tenho a tendência de esquematizar todas as experiências que vivo. Experiências como ensaios, experiências como experimentos, experiências como tentativas. Que normalmente induzem a erros. E erros cimentam o meu caminho. São erros repletos de boas intenções. Portanto, irei direto para o Inferno. Sendo ensaios, me pergunto para quê ensaio, afinal. Apresentarei, ao final de tudo, um grande espetáculo, sem erros? Para quê, se durante os ensaios, acabo por ferir tanta gente, que finalmente me levarão ao ostracismo? Terei ainda muito tempo para ensaiar? E esse espetáculo, quando estreará? Se estrear…

A questão do Tempo é primordial, mas especulo que a Eternidade seja um conceito fora do tempo. Teorizo, ainda, que seja um sentimento de plenitude absoluta, em que sendo alcançando dentro do Tempo, contudo se separa dele, permanecendo no repositório das coisas infinitas – ad eternum. O Amor, por exemplo, poderia ser depositado na caixinha do Infinito? Pareço abarcar o Infinito e o Eterno no mesmo ramalhete, como flores nascidas no mesmo campo. Mas o que é infinito pode não ser eterno ou o que é eterno pode não ser necessariamente, infinito. Porque quando amamos profundamente, esse é um sentimento que será lançado na torrente da Eternidade. Porém, quando direcionamos o amor a algo ou alguém que deixamos de querer, esse amor deixa de ter a qualidade da infinitude. E, ainda, um amor que vivemos intensamente, apesar de ter esfriado com a vivência, pode conter momentos depositados nesse repositório.

Ouço pessoas dizerem o quanto é extraordinário falar sobre aquele amor como se fosse uma história vivida por outros personagens que não fossem elas. Acho muito interessante presenciar pessoas que continuam juntas apenas pela simples lembrança de quando se amaram profundamente. Quando se tem frutos desse amor – filhos – os pais chegam a amá-los mais do que a si mesmos, ainda que sejam a personificação dos ex-companheiros, os quais muitas vezes não somente deixam de amar, como a odiar – o que vem a ser um sentimento-flor pútrido nascido no mesmo campo do perfumoso Amor, tendo como símbolo um anel de metal que ainda une o casal.

Filhos seriam, naturalmente, amáveis para os pais assim como deveria ser também os pais pelos filhos. Contudo, desde os primórdios dos relatos bíblicos, percebemos que essa é uma relação tempestuosa. Considero que também aprendemos a amar aos nossos filhos, bem como o contrário também ocorre. Conquanto, quando o sentimento amoroso se dá em profundidade, ele é Amor – une-se à Eternidade – quando esse sentimento se condiciona às condições externas de tempo e lugar, ele é apenas amor… E amores vêm e vão…

Podemos nos perder em reproduções baratas de algo grandioso que vivemos um dia ou que se ouviu falar alhures. A saudade que fica de um relacionamento intenso poderá ser vista, na distância, como presença na ausência, na falta de uma definição melhor. Quando conseguimos superar a falta que alguém nos faz, podemos alcançar, com o fluxo do tempo, um sentimento de constante comparência do ser ausente, tornando-o, estranhamente, presente.

É dessa forma que sinto a presença, por exemplo, de minha mãe. Não só a sinto espraiar as suas ramificações genéticas sobre o meu corpo, como “converso” com ela o tempo todo. São diálogos mentais, com uma sensação consciente de existência espiritual. Ajudou-me bastante o fato de sonhar com a Dona Madalena, com os seus belos cabelos brancos e sorriso largo. Ao lhe perguntar como estava, me respondeu: “Estou em paz…”. Bastou-me para acordar a partir desse dia com um sentimento de perene saudade sorridente.