Tudo me fazia lembrar de você. Em cada canto, uma recordação de prazer ou de dor. Um gesto gentil, um olhar raivoso. Em nosso quarto, a cama era o centro do mundo. O lugar onde encontrava o homem carinhoso e o animal selvagem. Confusa, havia momentos em que eu não sabia quando você era um ou outro. Eu o amava, mesmo assim… ou pensava que o amava por ser assim. A minha pele arrepiava ao som da sua voz calma. O meu coração saltava à emissão do seu tom mais áspero. Quando você sorria, eu me enlevava. Sentia o meu sangue borbulhar como se aquecesse a cem graus ao seu toque suave. As suas mãos fortes me manipulava como se eu fosse um mamulengo, se servindo de mim como queria. E como eu queria. Mas eu pensava que fosse a única. Que tinha a exclusividade de seus beijos, do seu lado manso e tempestuoso, que apenas aos meus ouvidos você dizia amar. Quando finalmente soube de tudo, estabeleci que a minha missão era esvaziar a casa — de suas coisas, de você! Decidi que cada átrio e cada ventrículo, valvas, entradas e saídas, veias e artérias despejaria fora o sangue que fazia o meu coração bater por você. Decidi que lavaria a minha pele quantas vezes fosse necessário para limpá-la do desejo da sua pele. Que esta mulher alcançaria a liberdade de ser sem precisar de ninguém para me validar. Deixarei que o tempo descasque a pintura da casa, que faça o jardim perder o viço, que as janelas fiquem fechadas… por um tempo. Até que as suas dependências venham a esquecer a sua presença solar. Abandonarei a minha casa à paz da escuridão e do luto. Mas um dia, eu a reformarei…
Coração transplantado procurando resquícios do que já foi humano (Lua Souza)
Escultura de Paulo Da Luz (Paizdalu)
Comecei a ficar cansado por qualquer esforço que fazia. Frequentemente, o ar me faltava. Com os irmãos fora do País, separado da Sônia há alguns meses, meus filhos longe de mim, já casados, não tinha ninguém com quem me queixar – meu passatempo favorito. Devido ao meu típico mal humor, nem meus amigos de copo me aguentavam mais.
Já aposentado, eu me restringia a torcer por meu time em jogos na TV. Antes, uma das minhas poucas diversões era ir ao estádio para xingar Deus e o mundo – do juiz aos jogadores, passando pelo técnico. No meu antigo trabalho, no escritório da transportadora, era conhecido pelo meu rigor no trato dos caminhoneiros, que eu julgava complacentes e indisciplinados. Para faltarem à lida, era sempre algum problema familiar, um filho doente, a mãe que morria, uma esposa que arranjava outro pelas seguidas ausências do marido…
Sônia, nesse aspecto, teve bastante paciência. Aguentou o quando pode a minha animosidade. Quando me aposentei, ela disse que não suportaria conviver cotidianamente comigo em casa. Decidiu voltar para a casa da mãe, que estava doente, para cuidar dela. Aproveitou para pedir separação. Agora esse cansaço, dores nas costas, respiração ofegante. Criei coragem, pedi um transporte e me dirigi ao hospital do bairro.
Fragilizado, mal tinha forças para reclamar do atendimento, mesmo porque fui bem atendido. Os enfermeiros, atentos, ouviram as minhas queixas. Apesar de relutar, fui colocado numa cadeira de rodas e levado para ser atendido por um médico. Solicitado um eletrocardiograma, além da anamnese médica, verificou-se que eu estava prestes a ter um infarto. Mais tarde, com exames mais apurados, me foi revelado que o velho coração não duraria muito mais tempo funcionando. Para sobreviver, teria que fazer um transplante.
Ainda que não quisesse, avisei à Sônia do meu estado. A minha ex-esposa prontamente chamou a sua irmã para substituí-la no cuidado da mãe e voltou para São Paulo. Foi ao hospital e me encontrou alquebrado de tal maneira que quase chorou. Quando chegou, me abraçou, me chamando de “meu turrão”.
Pedi desculpas por tê-la feito deixar a mãe doente. E por demonstrar tanta aspereza no nosso casamento. Que busquei ser um pai sempre presente e um marido que trabalhou duro para trazer conforto à família. Que tinha sorte por tê-la conhecido e dela ter me aceitado como companheiro.
— Para de falar, como se fosse morrer hoje. Antes de entrar, conversei com o Dr. Ângelo. Você ainda vai me perturbar bastante antes de partir desta para melhor… Vai precisar se cuidar para manter o seu coração batendo enquanto espera um coração novo. Vou ficar de olho!
Eu estava com saudade dessa maneira dela falar comigo. Sincera e direta. Quando começamos a namorar, disse que eu não era um homem bonito, mas também não era feio. Que beijava bem. Mas era um sujeito turrão. Eu respondi que tive que assumir a casa bem novo, depois da morte do meu pai. Que havia começado a trabalhar cedo. Sem chance para me sensibilizar.
Como começamos a namorar adolescentes, a Sônia me acompanhou no auxílio à minha mãe. Deixei de estudar, mas estimulei os meus irmãos a se formarem na faculdade. Hoje, são homens de sucesso. Assim como os nossos filhos. Talvez tenha custado uma convivência mais prazerosa com a família. É bem possível que a minha atitude tenha sobrecarregado o meu coração, que acabou por retesar as suas fibras.
Com o coração transplantado, procurarei buscar resquícios do que já foi mais humano em mim… Tentar reencontrar o menino que chegou a ser feliz antes de papai se ir pelas próprias mãos. Quem sabe tenha a chance de uma nova vida? A oportunidade em que eu não seja mais chamado de Homem de Lata.
quando percebi a brisa se aproximar tocando arvoredos balançando folhas beijando flores espalhando perfumes vi que inspirava gentes expirava beleza ainda bem que meus versos não buscam rimar e já há algum tempo decidi não mais remar ao contrário da correnteza deixei a janela aberta entraram vento ventania raios solares derrubaram prateleiras venceram patamares queimou a minha pele com sopros flamejantes tornou significados ocultos em claros significantes acrescentou desejares subverteu pareceres mostrou que eu queria o que não imaginava querer como advogar inocência se perdi por vontade o senso? agora ouço estrelas mergulho em águas profundas sem tanques de oxigênio para respirar um hiato sinto o meu coração bater fora do peito os meus olhos não enxergam o horizonte imediato suspira por um futuro do pretérito imperfeito saudade de algo que de acontecer não tem jeito mas vivo o desejo que me consome e essa falta também é viver talvez a faceta mais intensa do meu ser.
dois ônibus ir dois voltar atravessar cidade universidade mãe orgulhosa pai exultante dizia para amigos meu filho uspiano afastado não ajudava madalena sozinha pagava transporte quatro passes por dia dinheirinho lanchar xerocar saía cedo voltava noite quinze minutos de atraso multiplicado tempo por quatro trabalhos feitos nas coxas papel caneta trepidação asfalto irregular letra estranha hieroglifo pessoal egiptologia primeiro desafio professora boa severa o tema é este se virem biblioteca lugar preferido mudei maneira exposição regrei pensamento conheci colegas artistas ratos de porão ira! piscina plataforma dez metros saltos prova de coragem futebol campo oficial médio volante que batia corridas cem metros diversão um dia fiquei preso trânsito parado dormi meia hora acordei mesmo lugar preferi hora mais ficar entre livros no retorno augusta noturna mulheres lindas altas curvilíneas especiais volumosas homens quis cantar no coral rejeitado maestrinho novo filho de maestrão cargo indicado o vaidoso queria distinção contrário anúncio não precisava saber cantar feliz ano velho figurante de filme pensei ser ator colega cabelos dourados desfilava pelos corredores guardava o sol na cabeça iluminava meu olhar seu sorriso outra noiva que desejava convite bicicleta Ibirapuera timidez atroz medo escapei outro amor do colégio estudava nutrição invadi sala entreguei cartas declaração admiração paixão recolhida encontro noite estranha eu não conseguia falar o que desejava ela disse você não pertence a sua família mãe irmãos dissemelhantes como se fosse adotado aumentou sensação de alienígena quando a busquei de novo comportamento muito ruim passei limites me senti diferente de mim mas era eu mesmo assim dissociação perigosa inescrupulosa um dos meus avessos quis ser frei franciscano quase três anos caminho visita seminário agudos santo antônio frei luiz não quis mais um ano sabia frei não seria de história entrei curso português sonhava ser escritor mudei opinião conheceria mulher tingi cabelo amarelo trabalhar carnaval encontrei namorada que veio de longe rasguei peito abri coração perdi virgindade transei primeira vez mudei curso rumo caminho história 27 anos engravidei casei a vida acontece apesar da vida.
A cabeceira (pequena demais para os meus sonhos); o estrado (forte o suficiente para segurar o peso do colchão e de dois corpos); o suporte lateral (firme e teso); a base (onde os meus pés sequer conseguiam tocar) — uma cama…
Seria bege… amarela… madeira esmaecida… Não me lembro da cor original… Não importa… Tudo foi feito no escuro… Ele vinha silente, penetrante, o horror noturno…
Gostava tanto de ir para o sítio e lá ficar com as minhas bonecas e os meus bichos… O monstro adormecia distante, em São Paulo, com os seus negócios e a sua arma em riste…
Gostei tanto quando ele morreu! Dizem que foi do coração… Disso, duvido… Mamãe também morreu… Acredito que sufocada… engasgada com a palavra que nunca proferiu: Não!