Ontem, no domingo, fui a um estabelecimento de produtos horti-fruti-granjeiros. Pelo caminho, vi um cãozinho caminhando aos saltos. As pernas traseiras estavam duras. Ele fez me lembrar do Nego Véio, um cachorro que já chegou em casa com dificuldades locomotoras. Um pouco mais à frente, parou junto a um ponto de ônibus, onde cheirou a ração posta para ele e outros possíveis cães de rua. Tomou um pouco de água e prosseguiu a sua caminhada. O Sol estava mostrando todo seu poder de fogo, beirando os 32ºC.
Quando cheguei à Horti-Fruti, lá estava ele, deitado num pequeno corredor, descansando. Dormia profundamente. A paz dos inocentes. Não fosse a voz de contrariedade da Tânia na minha cabeça: “Mais um?”. Os nossos seis amigos peludos que estão conosco não estão mais tão vigorosos. A Lolla, a Dominic, Alexandre (menos)e o Nego Véio têm problemas de saúde, mas continuam glutões.
Com a minha experiência de décadas no trato com os cães, sei que estão no termo final de suas vidas. Sempre digo que é uma tremenda coragem aceitarmos ter conosco seres que se fazem imprescindíveis enquanto vivem num tempo previsivelmente menor que o nosso. Sofremos por suas partidas e os relembramos vendo as suas fotos e filminhos como se filhos fossem. Porque, são filhos do coração…
Humberto, primeiro, à esquerda, em raro momento de toda a família unida na mesma imagem.
Outro dia, no supermercado, esperava na fila do caixa enquanto, à minha frente, se encontrava uma mulher razoavelmente jovem com uma criança pequena no colo e mais duas grudadas à sua saia. Deviam ter cerca de um ano de idade de diferença entre uma e outra. O meu primeiro pensamento foi o de lamentar pelo futuro incerto dessa família tão típica de nossa Periferia. Era bem possível que o pai das crianças estivesse trabalhando. É muito provável que não participasse das vidas deles. Algo tão comum de nossa Periferia, que é o mundo todo. De agora e de todos os tempos. Quase imediatamente deixei o primeiro pensamento de lado e viajei para antes na minha própria história.
Meus irmãos, eu e a nossa prima, Rita, do meu lado esquerdo, no início dos Anos 70
Olhei para as crianças novamente. Eu seria aquela curiosa, que olha tudo ao redor com os olhos de novidade. Observa a mãe conversando com a caixa, acarinha os pés do irmãozinho no colo dela, sorri um sorriso tímido quando vê passar o único pacote de bolacha além das outras poucas compras. Apesar de pequeno, será ele a carregar com dificuldade, orgulho e coragem de homem da casa as sacolas até a sua casa, com a mãe, a irmãzinha do lado querendo ajudar e o terceiro-filho-segundo-irmão no colo, três anos mais novo.
Festejando com Dona Madalena o momento que ela mais gostava – o Natal.
Com as ausências constantes de meu pai, minha mãe decidiu não ter mais filhos, normalmente fertilizados nos retornos eventuais do marido à casa. O que era a sua família diante da importância da admirável luta pela redenção do povo pela revolução (que nunca houve)? Diriam que seria um motivo muito melhor do que simplesmente sair pela porta e nunca mais voltar como era uma quase regra do abandono parental, além de outros menos incisivos. Volta e meia, choro por meus irmãos que nunca vieram à luz, enquanto me solidarizo com a mulher sem saída melhor do que recorrer ao desparto sequencial.
Nos primeiros anos da Ortega Luz & Som, com o Sr. Edison, nosso transportador e amigo.
O terceiro filho de nossa família, meu irmão Humberto, hoje completa mais um ano de vida. O último dos três filhos vivos de Dona Maria Madalena e Sr. Odulio Ortega. Somos sócios na Ortega Luz & Som há uns 30 anos e entres brigas e concordâncias percorremos unidos a caminhos paralelos. Temos personalidades e gostos diferentes e mútua admiração pelo que nos tornamos — pais imperfeitos, mas presentes; irmãos discordantes, mas solidários; homens comuns, mas que tentam avançar na compreensão do mundo; filhos reverentes à mãe Natureza e que dão valor à vida. Eu sou mais intelectualizado (uma forma de desvio do racionalismo), enquanto ele é mais prático. Enquanto eu dou voltas em torno da Terra, ele vai direto de um ponto ao outro. Enquanto me encanto com versos de Pessoa, ele lê e destrincha um diagrama eletrônico como se fosse uma simples sequência de números naturais. Enquanto eu faço as relações públicas e contatos da Ortega, ele é o que faz as coisas acontecerem. Enquanto ele cultua um drama, eu os roteirizo e transformo em contos dramáticos. Foi o meu primeiro leitor e passei a escrever mais assiduamente para vê-lo encantado pelo que eu criava.
No trabalho, na Festa da Associação de São Vito, há oito anos.
Enfim, estamos juntos quase há quase 60 anos e apesar das provectas idades, somos chamados de “meninos do som” por muitos. Talvez reconheçam a juventude em nossos corações ou porque só conseguem entender que apenas jovens possam carregar, montar e operar a quantidade de equipamentos de som e iluminação levados ao segundo andar de buffets, salões de clubes e outros espaços horas antes. Para depois ficarmos acordados até de manhã para voltarmos à lida algumas horas após. Além da necessidade de trabalhar, gostamos do que fazemos. Porque vivemos enquanto trabalhamos. E sobrevivemos. Passamos pela Pandemia até agora e esperamos retomar o nosso caminho nos cuidando, por nós e por quem amamos.
Em 2021…
Pelo tempo que nos for permitido pela boa sorte, pelos homens e por Deus, estaremos juntos, Humberto! Parabéns por seu dia!
As minhas interlocutoras me pedem: “Pai, fale sem rodeios!”…
Respondi com outra pergunta: “Vocês acham que faço muitos rodeios para falar?”…
Não precisei ouvir a resposta, que, aliás, foram risadas de escárnio carinhoso, como só pessoas que são amadas incondicionalmente dão sem temerem represálias. Eu mesmo respondo: sou um homem que faz muitos rodeios. E isso não é algo novo em minha história.
Para nascer, a fórceps, fiz rodeio… Aliás, havia rodado pela barriga da minha mãe e me encontrava invertido. No começo da adolescência, fiz tantos rodeios para dizer que amava uma coleguinha de escola que depois a vi beijando outro rapaz… No entanto, foi por volta dos meus 14 anos que talvez tenha feito o meu maior rodeio…
Eu e mais dois amigos com os quais jogava futebol, decidimos fazer um teste no São Paulo Futebol Clube, meu clube do coração. Nunca fui um jogador notável. Não nasci com a habilidade natural para o jogo que muitos meninos demonstram desde cedo. Mas era aplicado e tinha visão estratégica do jogo. Na falta de outras capacidades, achava que isso deveria bastar para chamar atenção dos selecionadores.
Ao contrário dos dias atuais, o acesso à informação não era tão fácil e por não sabermos onde poderíamos fazer a “peneira”, decidimos nos dirigir ao Estádio Cícero Pompeu de Toledo, no longínquo bairro do Morumbi, principalmente para quem morava do outro lado da cidade, como nós.
Ao chegarmos à região do Clube, não soubemos com quem falar sobre o que pretendíamos. Na verdade, creio que ficamos intimidados diante do “gigante de concreto armado” e decidimos caminhar junto ao muro que o cercava e o rodeamos inteiramente. A circunavegação por nossos sonhos durou cerca de uma hora, mais ou menos… Talvez pudéssemos ver alguma movimentação em algumas das várias entradas, perceber algum garoto da nossa idade vestindo um uniforme de jogador… sei lá…
O que sei é que voltamos para a casa sem termos coragem de pedir alguma orientação a algum funcionário ou mesmo a algum transeunte. Eu, pessoalmente, já míope desde os 12 anos, escudado no conhecimento de que Pelé era igualmente falho de olhos, já havia ultrapassado a minha cota de ousadia apenas pelo fato de acompanhar os meus dois colegas naquela empreitada…
Poderia continuar a descrever várias ocasiões em que fiz rodeios intermináveis para chegar a algum lugar. Em uma dessas situações, não fosse pela mãe das meninas me imprensar contra a geladeira, eu provavelmente não estaria aqui para contar esta história para as minhas filhas…
Novembro de 2020. A Pandemia em São Paulo ainda não vivia a segunda onda. Provavelmente nem tivesse saído da primeira. Numa das casas remanescentes de uma vila, naquela pequena rua de Santana, bastante movimentada por ligar duas vias principais, Raul não via como conseguiria sobreviver a mais um dia. Nos últimos dias, a sensação que tinha era de que, a qualquer momento, seu coração pararia de bater, após desembestar em seguidos galopes. Sentia-se oprimido, como se um paralelepípedo repousasse em seu peito. Quando a noite chegava, sua alma parecia querer sair do corpo, como se procurasse por outro hospedeiro, ao qual nunca encontrava. Ou talvez apenas quisesse fugir. Sem coragem para caminhar até o quarto, se deitava no sofá ainda cheio de pelos do Miau, seu gato-amigo que partira dias antes, após 14 anos de mútua convivência. De alguma maneira, ele sabia que quando isso acontecesse, perderia o resto de motivação que tivesse para acordar todos os dias.
Em março, quando os esforços para impedir que a Covid-19 fizesse mais vítimas do que o sistema de saúde pudesse suportar e o governo municipal e estadual impuseram o fechamento do comércio, fábricas, serviços não essenciais, escritórios e setores culturais, Raul, que vivia a andar pelo fio da navalha, percebeu que os próximos meses seriam difíceis. Com o otimismo preventivo de um depressivo em negação, achava que em três ou quatro meses tudo voltaria ao normal. Quando agosto chegou e se lembrou do aniversário da namorada que o deixou em plena crise existencial, pensou em se matar para fazê-la se arrepender por ter se mudado para a casa de seu melhor amigo (ou que acreditava ser). Naquele momento Miau o olhou nos olhos e o fez mudar de ideia. Por ele, todos os dias pela manhã passaria pelo corredor de pedras amarelas no chão que saía de sua porta, ultrapassaria pelo pequeno portão e caminharia pela ilha central da Avenida Braz Leme por uma hora e meia, única atividade que lhe sobrara, além de ir ao mercadinho ou a padaria.
Seu trabalho, de professor universitário de Ciências Humanas lhe faltou logo depois. Sua empregadora, um dessas faculdades de baixas mensalidades, próxima de onde morava, o demitiu juntamente com vários outros colegas. Arredio, não utilizava as redes sociais. Foi o que bastou para se fechar cada vez mais. A possibilidade que se precipitava no horizonte era a de voltar para Bragança Paulista. Porém, seu pai estaria lá, vivo, o lançando em lembranças feito redemoinho que o afogava como se estivesse a acontecer naquele mesmo instante e não vinte anos antes ou mais. Agora, quase ao final do ano, imaginava a profunda agonia que o mês de dezembro representava. Decidiu pôr fim a sua agonia de barco preso em mar sem fim de calmaria. A decisão serenou seu coração. Raul se sentiu leve como quase nunca pelo tempo que a sua memória alcançava. A noite cálida o convidava à morte bem-vinda.
A fome assomou inesperadamente e, quase feliz, preparou duas fatias de pão integral com banana e requeijão, seu lanche favorito. Sentia que poderia se satisfazer sem se recriminar por se servir de pequenos prazeres. Sentiu-se pacificado com o rumo que dera a sua existência — extingui-la. Após comer, colocou o CD do Zeca Baleiro para tocar. Morreria ao som da música do maranhense. Munido do frasco de sedativos para depressão, se sentou no sofá preferido de Miau. Na mesinha lateral, junto a um copo d’água, se serviu de uma generosa porção de comprimidos, ao som de “Telegrama”, que parecia brincar divertidamente com a sua tristeza:
“Eu ‘tava triste tristinho Mais sem graça que a top model magrela na passarela Eu ‘tava só sozinho Mais solitário que um paulistano Que um canastrão na hora que cai o pano ‘Tava mais bobo que banda de rock Que um palhaço do circo Vostok”…
Antes que chegasse os sedativos à boca, esperou os versos seguintes, que pareceu se divertir da sua situação:
“Mas ontem eu recebi um telegrama Era você de Aracaju ou do Alabama Dizendo nego, sinta-se feliz Porque no mundo tem alguém que diz Que muito te ama Que tanto te ama Que muito, muito te ama Que tanto te ama”…
Sabia que seu amor não era mais seu e que nunca receberia um telegrama dela dizendo que o amava. Esperou mais um pouco, até chegar a sua parte favorita:
“Por isso hoje eu acordei com uma vontade danada De mandar flores ao delegado De bater na porta do vizinho e desejar bom dia De beijar o português da padaria”…
Talvez por estar com todos os poros à flor da pele receptiva, os últimos versos lhe trouxeram uma ideia. Era dono da sua vida, assim como da sua morte. Sabendo que daria fim aos seus dias de qualquer forma, decidiu esperar. Ele cumpriria o ritual de despedida de uma maneira simbólica. Como há muito tempo não acontecia, um sono profundo o brindou como a uma lufada de vento morno. Guardou os comprimidos. Não precisaria nem mesmo do único do qual se servia todas as noites-madrugadas-insones para levá-lo de si. Adormeceu…
Shazam & Xerife – Paulo José e Flávio Migliaccio (1972)
Outro dia, partiu um dos atores mais emblemáticos de minha garotice ˗˗ Xerife ˗˗ que representou o Flávio Migliaccio. Adorava vê-lo viver aventuras ao lado de Shazam, também conhecido como Paulo José. Os dois andavam de cidade em cidade com o caminhãozinho-trambolho-geringonça conhecida como Camicleta (caminhão com bicicleta). Eu os encontrei na novela O Primeiro Amor, de 1972. Eu era noveleiro. Aliás, na nossa TV PB Bandeirante 14”, gostava de assistir novelas, filmes, séries, desenhos ˗˗ tudo o me fizesse sonhar ˗˗ ou, de certa maneira, me desviasse do cotidiano duro que vivia na periferia da Zona Norte.
Enquanto corria o mundo, a dupla mais incrível que já vi, se metia nas situações mais complicadas e acabava por resolvê-las das maneiras mais inusitadas e atrapalhadas possíveis. Na visão do menino, Shazam e Xerife eram maiores que a própria vida. Quando a série acabou, não me conformei. Mas já compreendia que as coisas mudam. Que mudar é viver.
Eu estava mudando. Por volta dos meus 12 anos, ao mesmo tempo que comecei a usar óculos, troquei de escola. Inaugurei um novo mundo de relacionamentos e vivências. Fui ficando cada vez mais ensimesmado. O ser introspectivo, apreciador de aventuras fantásticas, começou a escrever sobre a transcendência do ser sobre o amor. De certa maneira, queria transcender a algo que não conhecia. Queria me tornar luz sem me jogar na escuridão da dor de amar. Hoje eu sei que não há como alcançar uma coisa sem passar por outra. Na realidade, tinha a ilusão de aprimorá-la, expandi-la e me tornar puro amor.
Na periferia, via passar Shazans & Xerifes a todos os momentos. Muitos, em vez de Camicletas, usavam carroças puxadas a cavalo. Por aqui havia ainda estábulos e ferreiros para ferrar cavalos. Gostava dos cavalos, mas não aceitava a maneira como eram usados. Via crescer a minha indignação com o ser humano ˗˗ ente que deseja se assenhorar de tudo ao seu redor, sem pedir permissão. Em determinada época, preferia não pertencer à espécie humana.
Aos 16 anos, estava pronto para morrer. Se acontecesse, receberia a morte com a curiosidade típica que sempre me acompanhou. A minha expectativa é que estivesse consciente ao conhecê-la. Com 17 anos, mais uma mudança. Tomei contato com a busca pela iluminação real. Não a fátua ˗˗ egoísta e vaidosa ˗˗ que nos afasta da verdade. Porém aquela que nos posiciona para além de nós. Isso me ajudou a sobreviver fisicamente.
Passei a ter respeito pela vida, mas principalmente pela procura das melhores condições para que ela pudesse se expressar em todas as suas potencialidades. Ao mesmo tempo, compreendi que somos proprietários dos nossos veículos e percebi crescer em mim a responsabilidade de deixar o meu corpo-veículo mais apto a me carregar, pelo maior tempo possível, para me levar para onde quisesse ir, até desligá-lo quando não quisesse mais usá-lo. De alguma maneira, sem conseguir identificar o que me dava prazer em viver, boicotei a mim mesmo e quase morri duas vezes.
Consegui superar essa fase de me deixar morrer, graças ao amor. Mas há momentos que cansamos. Atualmente, parece que vejo acontecer as mesmas coisas que vivi há 50 anos. As mesmas personagens, travestidos de novos, sendo representantes do que é velho e ultrapassado. Xerife, cansado de guerra, corajosamente quis cometer um último ato de protesto contra o desrespeito ao artista e à arte. De corpo envelhecido, mas de espírito jovial, sabendo que dificilmente voltaria a atuar, decidiu libertá-lo. Preso à gravidade cada vez mais opressora, respirando o ar cada vez mais venenoso do País, representou o papel do eterno rebelde com causa, defensor dos fracos e oprimidos ˗˗ morreu-se ˗˗ para se perpetuar como o herói simples e imortal que fez todo mundo sorrir.