Quimera

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Figura in: https://www.oversodoinverso.com.br/misteriosa-lenda-da-quimera/

Ouviste, certa vez, o chamado atávico e o teu corpo
Transformaste em instrumento de vida, dos pés ao metacarpo
Resultado de encontros de vultos de épocas anteriores
Estavas preparada para aceitares a vocação de sonhadores
Os teus pés, adaptados para saltar, além de caminhar
Deslizavam, além de se mover, comoviam, quando te viam transpirar
Transpôs o óbvio com os teus passos construídos de dor
Quando tinha que comer, viveu apenas de ar e bebeu apenas suor
Segurou o ar, quando tinha que se expressar, calou a palavra
Para emudecer, de emoção, uma multidão, com a arte de tua lavra
Leoa com andar de serpente, és um monstro, uma quimera
Quem pensa que te conquista, em verdade não considera
Que é consumido pelo fogo da qual és filha, mãe e senhora
Concedes a atenção obsequiosa de quem és servil portadora
Da graça suprema de seduzir e encantar, de prometer o Paraíso
Ao alcance do olhar, de sereia que faz o navegador perder o juízo
Vives na terra, apesar de viajar pelo amplo, para além, para o espaço
E fulguras, diminuta figura com as asas de Ísis, a voar para além do chão escasso…

 

 

 

 

 

Mulher De Lua, Mala E Cuia

MULHER DE MALA

De mal a pior,
poderia se dizer ia a vida
da artista.
Apesar de muito chamada,
apesar de bela,
apesar de excelsa,
era uma fera
indomada,
mulher de lua.

Contrariada,
não se dava por vencida…
Não a venceu o amor,
não a venceu a dor,
não a venceu a vida…
Suspeitava que nem a morte
a venceria…
Quando se sentia aprisionada,
ainda que pelo conforto da alegria,
se rebelava e partia.

Em vez de sucesso,
queria acontecer no coração
das pessoas…
Cometer o ato perfeito e inesquecível.
Preferia o tempo virado –
raios e os trovões…
Gostava da porfia,
sua opção era pelo acaso,
a atraía a inconstância da estrada…

Se morresse assim,
se sentiria plena.
Maior que a flor – uma pétala…
Para ela,
viver era comer de cuia,
arrumar a mala e
atravessar a si mesma.

Maratona De Outubro | Abandono

Pai e filho
De filho para pai…

O último livro que me lembro de deixar de ler pelo meio foi “A Elegância do Ouriço”, de Muriel Barbery. O exemplar me foi ofertado por minha editora, Lunna Guedes e logo me apaixonei por sua narrativa. No entanto, assim como paixões que viajam para longe e deixam de participar de nossa vida diária, deixei de avistá-lo em determinado momento e devido a vários outros fatores, nunca mais retomei a sua leitura. Tenho impregnada em minha lembrança todos os traços das personagens, tramas e ambientes descritos que facilmente recomeçaria a conversar com ele, como se fosse aquele velho amigo com o qual retomamos o diálogo no ponto que fora interrompido anos antes, como se tivesse sido um dia antes. Ensaio essa ocasião tantas vezes que se tornou um hábito estranho.

Contudo o livro que abandonei por tempo indeterminado, até ter decidido retomá-lo definitivamente há poucos dias, quando fui questionado sobre meus projetos para 2019, foi o provisoriamente denominado “De Filho Para Pai – A Revolução Que Nunca Houve”. Decerto que ninguém ouviu falar dele. Ainda está em elaboração. Eu sou o autor. Comecei a escrevê-lo há alguns anos, não sei ao certo quantos. Um trecho aqui, outro ali. Eu me colocava diante do computador como se atirasse como uma metralhadora ou preenchia uma folha em branco com garranchos que tinha dificuldade em decifrar devido à raiva que impunha à escrita. Estava absorvido pelo processo. Até que começou a doer demais. Não consegui continuar…

Tema principal que estrutura o romance, em um movimento tão lento quanto interminável, a relação com o meu pai se deteriorou definitivamente. Até que, fisicamente, ele passou. Mas nunca me deixará de me acompanhar. Supostamente não restou nada que pudesse ser reerguido das cinzas. Além disso, Fênix mora longe do fosso que joguei nossa história. Mas pretendo restituí-la com toda a paixão que puder colocar nessa composição. Sofrerei, porque terei que reencarnar todas as minhas contradições e ficar diante do ídolo com os pés de barro – do qual fui gerado, carrego a herança e a carga pesada – em grande parte por mim repudiadas, ainda que reconhecidas como o melhor que ele poderia me ofertar.

O desejo de retomar a escritura d’A Revolução é o capítulo mais importante do meu Livro pessoal, porque é atual, apesar de discorrer sobre a antiguidade dos relacionamentos entre seres com papéis definidos antes de nascermos – pai e filho. Um livro que já escrevi em sangue, lágrimas, ferro e fogo, mas não li devidamente no espaço mental. Colocá-lo no papel – um material eterno – talvez faça com que redefina meu percurso. Espero não o abandonar no meio do caminho…

Participam também desta Maratona:

Ana Claudia | Ale Helga | Cilene Mansini | Fernanda Akemi | Mari de Castro | Mariana Gouveia | Lunna Guedes

Maratona Setembrina | Viciados

Viciados
O amor é uma droga

O nosso amor é tarja preta!
Entorpecidos,
caminhamos por becos,
camas sujas,
entre gretas…

Drogados,
nos consumimos de prazer,
de dor
e pecado…
Morreremos desse mal, um dia…
Por ele,
nos matamos em todas as horas…

Somos dependentes,
amorosos doentes,
dementes…
Possuídos que estamos
pelo mal obsessivo
e avassalador de mentes…

Enfim, destruídos,
injetados de paixão,
definharemos em fogo,
jogados em sarjetas,
contumazes usuários…

Imagem: pngtree

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BEDA | Dança Das Entidades

ENTIDADES
A dança…

O dia frio e úmido destoava da sensação que o corpo de Thiago sentia – ar tão abafado que as mãos estavam molhadas – como se tivesse sob um sol escaldante. No entanto, corria a noite… Sabia que sua febre não era puramente física. Don Diego, que o acompanhava e, eventualmente era convidado a assumir o seu corpo, ardia de saudade… Não que fosse represália por Thiago ter brigado com Diana, que carregava Saphyra, seu amor. Apenas acontecia.

Thiago e Diana também já se amaram. Mas viviam às turras, com diferenças quanto a objetivos e posturas. Thiago era mais tranquilo e retraído, quase tímido. Timidez que se esvaía quando colocava sua roupa de cigano e dançava as vibrações-referências de todos os lugares do mundo por onde o seu povo passou, desde quando os ciganos deixaram o Egito e a Índia, passaram pela Pérsia, Turquia, Armênia, chegando à Grécia, onde permaneceram por vários séculos antes de se espalharem pelo resto da Europa, com influências húngaras, russas e espânicas. Don Diego era mestre na dança flamenca.

Saphyra, de origem grega, também sofria. Com o corpo da esfuziante Diana, fazia uma mescla estonteante de flamenco e árabe. Quando conheceu Don Diego, no corpo de Thiago, imediatamente se apaixonou. O casal-entidade forçou para que Thiago e Diana ficassem juntos. E assim aconteceu, não sem antes causarem as separações dos casais que os abrigavam, também ciganos. Apesar da dor causada pelos rompimentos, os respectivos cônjuges se conformaram diante da explosão passional de beleza e efervescência emanadas quando as entidades dançavam nos corpos de seus companheiros. Sabiam que não havia como impedir o rompimento diante do jorro de energia pura que se precipitava salões afora por onde volteavam.

Thiago, por Don Diego, do qual gostava muito, decidiu chamar Diana para conversar. Ela aceitou, por Saphyra e porque o desconforto que passava a estava impedindo de trabalhar. Marcaram de se encontrarem longe do Recando Santa Sarah, em cujo salão de eventos, dançaram pela primeira vez, causando frisson entre todos que os assistiam, em uma festa com a presença dos Guardiões da Noite do Oriente, com a participação de várias famílias ciganas. Entre volteios e braços erguidos, cruzaram os olhares dentro dos olhares, longos cabelos jogados pelo espaço. A grega e o espanhol formaram a dupla que encheria de força cósmica todos os encontros nos últimos cinco anos.

Fora das festividades, Thiago e Diana tiveram que lidar com o cotidiano massacrante de professor e enfermeira. Nos momentos de encontro amoroso, usufruíam do poder do chakra sacral – Swadhisthana – livre e ativo. A conexão entre Don Diego e Saphyra se consolidava a cada encontro, enquanto Thiago e Diana perdiam suas identidades. No entanto, a massa de energia era tão grande que se espraiava prazerosamente por todos os poros de seus corpos. As peles, depois de cada refrega, permaneciam sensíveis a qualquer toque por quase 24 horas, como se fossem queimaduras. Apesar de todo o prazer que sentiam, os efeitos também concorriam para se sentissem desconfortáveis juntos, quando conscientes.

O ex-casal se encontrou em um Café no Paraíso, subiu as escadas e se posicionaram em um dos cantos do mezanino. Estavam calmos e inicialmente conversaram amenidades sobre saúde e rotina. Sentiam-se estranhos por estarem ali naquele ambiente impessoal. Contudo, talvez fosse o ideal para evitarem certas repercussões que já ocorreram antes. Como fariam? Senhora Avelar teria condições de liberá-los? Orações para Santa Sarah? Intervenção do Mestre Kalé?

Em determinado momento, por mais que evitassem, olharam-se nos olhos. Foi o que bastou para quererem se tocar. De mãos unidas, olhos flamejantes, perceberam que seus corpos perderam peso e praticamente flutuavam milímetros acima dos estofados. Seus corpos começaram a vibrar levemente e seus pelos e cabelos se eriçaram a olhos vistos. Trocaram um beijo longo, acompanhado de um suspiro profundo. Testemunhas disseram que sentiram uma lufada de ar quente a percorrer o salão, enquanto a luzes variaram de intensidade. Em pouco tempo, tudo cessou. A temperatura baixa deste Agosto voltou a prevalecer. Thiago e Diana se olharam como desconhecidos. Don Diego e Saphyra haviam partido..

Participam do BEDA: ClaudiaFernandaHanna LunnaMari