Novas Novidades

Mapa-Mundo-antigo

Chegamos para a realização do evento, trabalhadores do entretenimento que somos. Na entrada do clube, fomos informados que deveríamos dar a volta, entrarmos pelo outro lado e nos identificarmos devidamente. Nada contra, se assumirmos o fato de que um clube busca, justamente, separar uns de outros no uso de um espaço por pessoas afins, principalmente no sentido econômico-social – os de menor e os de maior valor. Para se justificar, o rapaz da recepção reiterou: “São novas novidades…”.

Aquela sentença me deixou pensativo – antes de achar que o porteiro tenha cometido um simples pleonasmo, percebi as implicações profundas do que foi dito pelo representante do povo com o dever de separar dos elementos do povo dos que fazem parte dos escolhidos. Se há “novas novidades”, podemos inferir que haja “velhas novidades”. E se analisarmos mais profundamente, quantas vezes não nos deparamos com novidades requentadas, a História se repetindo como farsa?

Com o processo de reeducação pela desinformação empreendido por nossos governantes há décadas, deixamos, como Sociedade, de aprender com os velhos erros e os vemos sendo novamente perpetrados como se “novas novidades” fossem, nos levando a sermos condenados a submergir no redemoinho das eternas águas novidadeiras, tão velhas quanto o Mundo.

PRÉ-NATAL NA ESTRADA

Sol na estrada

Uma das minhas três filhas, a Ingrid, achou que conhecer o Museu Inhotim, em Brumadinho, Minas Gerais, seria interessante sob vários pontos de vista – aventureiro, cultural, emocional. A viagem ocorreria pela época do Natal. Eu, em ritmo frenético de trabalho, decidi me deixar levar pela ideia, sem considerar todos os aspectos envolvidos, como normalmente faria. Confiei no tino para viagens de uma moça que já havia se enfiado no meio do mato sendo alérgica a picadas de formigas e que decidira visitar as frias praias de Montevidéu, a ponto de usar agasalho para enfrentar o vendo gelado vindo do mar. O meu objetivo principal era o de estar com a família reunida no mesmo ambiente por dois ou três dias, depois de tanto tempo dispersada. Com a agenda repleta de atividades pessoais de cada um, mal ficávamos por algumas horas juntos, normalmente em comemorações festivas ocasionais. Às vezes, nem assim…

Pré-Natal (1)

Sairíamos de São Paulo logo cedo, às 6h do dia 22. Todos cansados da última semana de trabalho antes do Natal, nos levantamos uma hora e meia depois e apenas às 9h30 botamos o “pé na estrada”, a sol pleno. Pelo aplicativo, já sabíamos que teríamos um atraso de hora e meia devido um acidente na região de Mairiporã da Rodovia Fernão Dias. Vimos depois que dois enormes caminhões obstruíam metade da pista, em acidente aparentemente sem feridos. Esse seria apenas o primeiro dos vários percalços pelos quais passaríamos durante o trajeto. Para ajudar a aumentar o tempo, em diversos trechos enfrentamos pancadas de chuva pesada.

Pré-Natal (5)

Felizmente, a paisagem pelo caminho era bela o suficiente para nos distrair. Mesmo com fome depois de duas ou três de acréscimo pelo congestionamento, decidimos comer apenas quando ultrapassássemos a fronteira com Minas, famosa por sua culinária saborosa. Paramos em Cambuí e fomos recompensados pela boa comida do Restaurante & Alambique Capela – isca de tilápia e costela no bafo, com tutu de feijão e arroz, além de outros itens. Levamos, após degustação de um golinho de ouro e prata, uma garrafa de cachaça de Cambuci, de sabor luxuoso e cor extraordinária de fogo.

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Mais duas ou três centenas de quilômetros à frente, fizemos uma parada em um posto e restaurante da Rede Graal, talvez na altura de São João Del Rey, talvez mais adiante. Normalmente não citaria, mas este guardava uma boa surpresa –  a reprodução dos casarios típicos de cidades como Ouro Preto e outros logradouros-patrimônios da humanidade, com móveis, objetos e itens dos séculos XVII, XVIII e XIX. Se aquelas cópias já dão água na boca, imagino o prazer de caminhar por esses lugares que respiram História. Sim, eu, um estudante de História e aficionado de prédios e objetos antigos, nunca fui a esses cenários de imersão histórica. Os motivos, vão da simples falta de dinheiro, quando novo, como falta de tempo, quando mais velho, passando por fases de retiro pessoal.

Lua-Guia

Novamente a caminho, com a reprodução reiterada de lindas paisagens, asfalto, chuvas ocasionais (sempre intensas), trechos congestionados, pequenos acidentes e paradas para idas ao banheiro e alimentação, já imaginávamos que chegaria o final de ano, mas não Brumadinho. A filosofia de que importa a viagem, não o destino, deixou de ter graça. Noite feita, no horizonte surgia a imensa Lua a nos indicar a direção. Por boa sorte, durante o trecho final já não chovia. Como desligamos os celulares para economizar baterias, sabíamos que “entraríamos pela saída” do Quilômetro 501 da Fernão e só os religamos quando estávamos próximos. No entanto, talvez fosse melhor utilizar uma saída anterior, porque começamos a duvidar que aquele fosse o caminho correto para nosso destino. Estrada ruim, cheia de barro no trecho de terra, irregular no trecho que finalmente se tornou asfalto. Como o GPS não conseguia encontrar o endereço exato da rua onde ficava o lugar de nossa hospedagem – Roztel –, coloquei o Museu Inhotim como referência e a “Moça” nos levou pelo circuito mais óbvio para ela.

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Quando passamos pelo museu, chegamos em uma rua na qual encontramos outra referência – o Ponto Gê –, um restaurante. Paramos em uma perfumaria e farmácia, que felizmente ainda estava aberta, mesmo sendo pra lá de 21h, e nos indicaram como chegar ao local que procurávamos. Com um dos celulares, a Ingrid mantinha contato com Rosângela, a proprietária, informando sobre nosso paradeiro. Atenciosa, pediu para o marido, Luciano, nos encontrar na rua. Finalmente, conseguimos entrar pelo portão da bela casa que nos abrigaria pelos próximos três dias. Passava das 21h30. Doze horas depois de nossa partida. A Lua nos recebeu no novo cenário com todo o seu esplendor. O simpático casal, ao qual nos afeiçoamos, logo nos deixaram à vontade e dormimos o sono dos justos, na expectativa do dia seguinte, em que conheceríamos Inhotim – o maior museu a céu aberto do mundo.

Pré-Natal (3)

Mas essa, já é outra história

Maratona De Outubro | Sobre Gêneros Literários

Gêneros
Todos os gêneros…

Em Etimologia, gênero deriva do latim generu, genere, que significa nascimento, origem. A palavra gênero ganhou ultimamente repercussão extremada. O papel social atribuído ao homem e à mulher e às suas identidades sexuais passaram a ser discutidas até em programas de governo. Aparentemente, há aqueles que creem que possam intervir nas preferências pessoais humanas, a partir do Estado. Esclareço que tratarei sobre minhas preferências… literárias. São gostos que, muitas vezes, não deixam de ser conflituosos. Ao ser perguntado sobre qual gênero literário prefiro, fiquei em dúvida.

Antes de responder a essa questão aparentemente simples, percebi o quanto o temor de não esclarecer totalmente nossas predileções, de maneira geral, avança sobre quase todos os assuntos da vida. Qualquer resposta que dermos estará sob judicie por quem a recebe. Ao dizer que comecei pelas histórias em quadrinhos, talvez fosse desacreditado. Minha iniciação na literatura foi igualmente escudada por ficção científica e fantástica, mitológica, através de Monteiro Lobato, Júlio Verne e outros. Concomitantemente, adorava ler enciclopédias e dicionários.

Eu me lembro que, quando garoto, desejava a aprovação das pessoas quanto ao meu comportamento. Na adolescência, a minha evidente incongruência nos grupos, familiar e amigos, passava despercebida pelas boas notas na escola e no futebol, entre os colegas, apesar da minha miopia. Gostava de poesia. Carlos Drummond de Andrade era o meu preferido, entre todos, mas, antes dele, tive contato com Gonçalves Dias, Augusto dos Anjos e Castro Alves, que me impressionaram bastante, além dos poetas românticos Fin De Siècle brasileiros. Ao mesmo tempo, o romancista Machado de Assis invadira minha vida e meu discurso de escritor, então já iniciado, que também sentiu a força da expressão de Jorge Amado.

Mais tarde, ao buscar uma postura cada vez mais alienada do sistema, fui ficando cada vez mais misantropo, ajudado pelo fato de começar a frequentar a faculdade de História, curso em que ninguém se conhecia. As divisões por classes diferentes a cada semestre, colaborou para impedir que permanecêssemos muito tempo juntos com os mesmos colegas. Passei a ler, além dos livros da matéria, os de Filosofia e místicos-religiosos de várias vertentes. No mesmo balaio metia Michel Focault, Paramahansa Yogananda, Emile Durkheim, Os Vedas, Santo Agostinho, Nietzsche, Boris Fausto, Kardec, Claude Lévi-Strauss, Sérgio Buarque de Holanda, Reich e Gilberto Freyre, bem como a sempre presente Bíblia.

De novo, o futebol me salvou de ser um esquisito calado. Escalado para o time da História, dentro do campo estranhamente meu estilo de atuação mudou. Os jogadores humanistas da História, forçou-me a transformar o médio-volante elegante em um arranca-toco, distribuindo pancadas a torto e a direito. Cheguei a lembrar de Ernest Hemingway. Aflorou o jogador da periferia, que jogava “contras” nos campos mais inóspitos da cidade. Sabia de minha capacidade em me dividir em outras personalidades sob determinadas circunstâncias, temperatura e pressão. Cheguei a recear certa tendência esquizoide, mas em reunião com os outros habitantes em mim, decidimos que não fosse algo preocupante…

Desde que tomei contato com os livros, alguns autores fizeram morada em meus olhos e mãos – Rosa, Wolf, Pessoa, Borges, Lispector, Cortázar, Cecília Meirelles, Garcia Marques, Nelson Rodrigues, Rubem Braga, J.M. Coetzee. Mais recentemente, voltei a minha atenção para os escritores da Scenarium, que perfilam seus trabalhos em um recanto especial em minha biblioteca. Postagens em blogues da Internet – poesia, crônicas, contos, artigos científicos e psicologia – foram acrescidas ao meu dia a dia.

Em resumo, sejam crônicas, poesias, romances, contos, livros de filosofia, religiosos, biografias e históricos, eu prefiro ler sem fronteiras. Já passei por várias fases de preferência. Em momentos específicos, exerceram ampla influência na estruturação de meu pensamento e de minha postura como ser humano. As palavras adentram por nossos olhos e se instalam em nossa alma, fazem morada permanente, ainda que não lembradas. É como se fossem as paredes de nossa casa, ainda que caiadas de branco, são estruturas que nos guardam. Gênero preferido: o vital.

Participam também desta Maratona:

Ana Claudia | Ale Helga | Cilene Mansini | Fernanda Akemi | Mari de Castro | Mariana Gouveia | Lunna Guedes

O Piedoso

O Piedoso
Pintura em ajulejo, realizada em 1913, por José Francisco de Oliveira, diplomado na Escola Comercial e Industrial de Brotero – Coimbra – Portugal (Centro Cultural Português, Santos/SP)

O honrado homem chegou ao lugar em que tudo precisava de sua intervenção piedosa. De início, como era um mundo novo, seu espírito desbravador encontrou o espaço ideal para sua atuação. Fundou vilas e porto, construiu igrejas, forte e hospital. Introduziu a agricultura e desenvolveu a economia. Tornou-se um fidalgo rico, por conta de seu espírito empreendedor e destemido. Respeitado por seu povo, era um dos homens favoritos do Rei, que lhe delegou todas as possíveis honrarias.

O honrado e piedoso homem, para realizar todas as obras que o distinguiu como um dos principais de seu tempo, não hesitou em invadir e ocupar terras que não eram suas de origem, matar seus donos primordiais, derrubar a vegetação natural, esteio do povo antigo, dizimar animais e seu habitat, explorar as riquezas que para os autôctones não tinham nenhuma valia. Para completar seu projeto de poder, pretendeu escravizá-los. Enfrentou uma revolta – a Confederação dos Tamoios. Seu nome: Braz Cubas.

Para os colonizadores portugueses, era mais do que natural que assim fosse. Matar os contrários às suas vontades, por sede de riqueza e imposição de uma fé excêntrica, assumir comando sobre espaços – terra, mar e céu mapeado – era uma ação valorosa, que engrandecia o nome da Pátria a milhares de quilômetros de distância. A suprema vilania, que serve como marca definitiva de posse se dá quando limitou fronteiras e as nomeou com sons e signos alienígenas. Assim como capturar as mulheres nativas e usá-las como reprodutoras de mão de obra filial e fiel aos novos donos das sesmarias, tornando-a cooperadora involuntária da destruição de seus ascendentes genéticos.

Dessa maneira, a antiga faixa de terra ocupada pelos habitantes originais, os Tamoios – Tupinambás, Goitacás, Guaianás e Aimorés – transformou-se, muitas luas depois, em grupamentos humanos com costumes estranhos e pendor para a belicosidade. O termo “Tamoio” vem de “ta’mõi“, que em língua tupi significa “avós”, indicando que eles formavam o grupo tupi que há mais tempo se havia instalado no litoral brasileiro. Nunca supuseram que povos mais antigos ainda viessem de lonjuras inalcançáveis para trazerem a morte por armas que queimavam e doenças que seus pajés não conseguiam curar.

Quem afinal se põe em posição de piedoso está em condições de determinar quem vive e quem morre. O prestigioso Braz Cubas, era apenas mais um exemplar daquele povo que dominou o país que se formou com a chegada de mais e mais gente. Muitos mais de seus iguais reproduziram a mesma jornada de dominação e morte dos nativos, finalmente domados.

Seus pares erigiram monumentos para o grande súdito português. Com o tempo, instituições ganharam seu nome, incluindo algumas de ensino, aqui mesmo na antiga terra tupiniquim, a do povo dizimado. Somos filhos desse sistema de colonização. Não há como escapar de nossa História. Devemos enfrentar nossa origem espúria e suas contradições. Conjurar nossa sanha conquistadora-destruidora. Creio que somente dessa forma poderemos superá-la. Vivemos como se não tivéssemos passado e nem presente. Apenas um futuro enganoso e enganado.

Sempre haverá aqueles que virão com projetos de grandeza sem avaliarem as consequências, por piores que sejam. Como quando se constroem pontes para travessia de uns tantos sobre os cadáveres de tantos mais. O objetivo termina por sair mais caro, tanto do ponto de vista material como moral, no melhor sentido, baseado em valores básicos de convivência, como respeito à diversidade, com tolerância, solidariedade, compreensão e comunhão de objetivos éticos.

Enquanto não nos conscientizarmos de nossa História, tenderemos a reproduzir ad eternum os mesmos erros de percurso. Estamos insatisfeitos com o nosso presente, mas buscamos soluções fundadas na força destruidora que formou nossa sociedade. A fama de povo gentil não passa de uma formulação sem validade, como se não fôssemos agressivos. Somos um dos países com mais mortes por número de habitantes, percentualmente.

Vivemos uma guerra civil. Se não mudarmos sua direção, jamais alcançaremos a maturidade civilizatória, ainda que a ideia em torno de civilização tenha uma “má fama”. No entanto, se não partimos daqui para uma concepção mais aprimorada de convivência, a tendência de perdermos a noção de brasilidade que “conquistamos” a ferro e fogo até aqui, ainda que precária, se imporá definitivamente, para a nosso desgosto e prejuízo permanente para as próximas gerações…

Franciscano

FRANCISCANO
Povo sem luz à vista…

Bem moço, em nosso televisor PB de 14″, em uma dessas sessões noturnas de cinema, assisti a “Irmão Sol, Irmão Lua”, de Zeffirelli, filme de 1972. Recém adquirida a nossa TV 20″, em 76, após a introdução das transmissões em cores no Brasil, o revisitei, com as suas tonalidades fortes do movimento Flower Power, na Sessão da Tarde. Quando passou no cinema, em sessões especiais, voltei a sentir a brisa, o frio, o sol, a angústia, a Natureza, o amor, a busca, o desencontro de propósitos terrenos e espirituais, o encontro de almas de Francisco e Clara.

Em meu romantismo pueril, torcia para que o casal tivesse se unido ordinariamente – homem e mulher – como seria natural entre dois belos jovens, de famílias abastadas, estabilidade de finanças e poder sobre as pessoas. Eu era ateu ou, minimamente, um agnóstico. Repentinamente, algo despertou em mim. Leituras e mensagens foram surgindo em meio a tantas outras solicitações. Adentrei pela senda do imponderável. Essa foi a fase em que me tornei mais francamente religioso, não no sentido de frequentar missas e pregar mandamentos. Na verdade, percebia a Verdade em manifestações vindas de todos os quadrantes, de todas as crenças. Tornei-me um livre pensador cristão-franciscano-budista-hinduísta. A minha igreja era onde estava.

Eu quis radicalizar a minha opção, meio que perdido, desconfiado das instituições, estudante de História e, portanto, ciente de todas as atrocidades cometidas em nome da Fé. Ainda assim, acreditei que a Igreja Católica pudesse me auxiliar no processo de amadurecimento da Busca. Comecei a estudar para me tornar Frei – irmão menor – na tentativa de atuar mais fortemente no caminho de chegar ao cumprimento do máximo mandamento: amar ao outro como a si mesmo. Eis que me deparei com a máxima incongruência: eu não me amava… Eu me conhecia demais. Diante do espelho, encontrava todos os dias, o meu maior antagonista…

Depois de muitas dúvidas e quase nenhuma certeza, fiz a opção pelo caminho contrário, que relatei em história já contada em uma crônica que está em meu livro REALidade, pela Scenarium Plural – Livros Artesanais. Constituí família. Na dificuldade dos relacionamentos interpessoais, creio ter feito a escolha correta para conseguir me amar um tantinho mais. Muito menos do que aos outros, que prefiro não julgar. Por outro lado, não poupo a mim. É a maneira que encontrei de me conduzir à Luz. Ainda estou a tentar me livrar da “culpa” de me sentir bem em um mundo tão desigual.

Um dia, caso tenha oportunidade, irei a Assis. Quero caminhar pelos mesmos campos, mirar os mesmos poentes, acordar com as mesmas auroras que o meu irmão do Seculo XIII. Quero, como Francisco, me despir de mim, abrir os braços para o mundo ao meu redor e me sentir um com o Todo…