Exercitando A Paciência*

Paciência

Como todos os dias da semana, coloquei o meu celular para despertar às 5h30 da manhã para ir à faculdade. Quando tocou o alarme, o desliguei e virei de lado na cama. Só despertei 42 minutos depois. Sentei na beira do colchão e, como me sentia de bom humor, exclamei baixinho: “Paciência!… Fazer o que?…”.

Todos sabem que, por um desses fenômenos cotidianos ainda não comprovados cientificamente, o tempo corre mais rápido na parte da manhã. Segundo a minha avaliação pessoal, sentimos passar apenas um segundo a cada segundo e meio do relógio. Mesmo sabendo disso, no momento em que me levantei, decidi não acelerar os meus movimentos. Urinei, fiz a barba e tomei banho de maneira lenta e articulada. Ao vestir o uniforme da faculdade, não me importei com uma mancha na gola da camiseta branca. Desci para o café da manhã e liguei a televisão para ver o noticiário matutino. 6h50. Normalmente, a essa hora, eu já deveria estar seguindo para Santana.

Graças ao noticiário local, fui informado que capturaram o quarto assassino da dentista incinerada em São Bernardo do Campo, previsões sobre o tempo e o volume do trânsito confuso da capital. Soube que um simples carro parado na Marginal Pinheiros, junto à Ponte João Dias, tornara o tráfego costumeiramente lento ainda mais lento. Desejei muita paciência aos motoristas de todas as latitudes da cidade. Ainda antes de sair, tive conhecimento da morte do grande Paulo “Ronda” Vanzolini, biólogo, pesquisador e professor da USP, autor de uma frase que serve para qualquer ocasião – “Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima!” – em uma de várias de suas canções famosas. 7h10.

Logo que cheguei ao ponto, encostou o meu ônibus e trinta e cinco minutos depois, subia as escadas para a plataforma do Metrô Santana. Pelos alto-falantes, ouviu-se: “Excepcionalmente, os trens estão circulando mais lentamente e com tempo maior de parada, devido à presença de usuário na via férrea da Estação Conceição!”… Paciência… Quando cheguei à plataforma de embarque, deparei-me com uma massa enorme de passageiros à espera do próximo trem. Percebi que não embarcaria tão cedo. Mais tarde, busquei me inteirar sobre o assunto e soube que o usuário mencionado caíra e fora resgatado, não havendo maiores detalhes sobre o seu estado de saúde. Desejei sorte ao companheiro de jornada.

Coloquei-me em direção à uma das baias de embarque, feito aquelas que direcionam o gado para o matadouro. Entre o numeroso grupo de pessoas, chamou-me a atenção um casal de idosos que externavam a sua preocupação em serem atropelados pelo povaréu. Antecipavam uma preocupação maior quando chegassem à Estação da Sé. Decidi intimamente protegê-los com o meu corpo. A mulher antecipou-se ao homem, atitude que gerou uma exclamação em tom de reprovação por parte dele: “Cuidado!”. Por sua experiência, ele já devia saber que as mulheres são tão mais destemidas e aquela senhora, que lembrava a minha mãe, além de audaciosa, em sua juventude devia ter sido uma mulher muito bonita. Ainda mantinha claros os belos olhos azuis. Como eu esperava, ela logo acabou puxando o seu companheiro para dentro do próximo trem. Como eu não esperava, não houve atropelamento. Senti que os demais passageiros estavam tão pacientes quanto eu. 8h10.

Embarquei na terceira composição e me senti apertado tanto quanto em outras oportunidades. Preso entre outros corpos, só restava me distrair com a TV Minuto, disponível nos vagões do metrô. Entre as manchetes, lembro-me de “Posse Manchada”, que relatava um tiroteio na posse do Primeiro Ministro italiano, com dois policiais feridos. Houve ainda e o relato da queda de uma casa em Reims (França), informação arrematada pela frase final – “duas pessoas estão mortas”. “Que grande notícia!” – pensei. “Finalmente chegaram a conclusão que a morte é apenas um estado, sendo, portanto, uma condição passageira”… Eu, como passageiro, me senti encantado.

Uma outra pequena reportagem, a seguir, corroborava a nossa situação de seres que estão vivendo em um ambiente em eterno movimento. Versava, com imagens e legendas, sobre a Serra do Cipó, em Minas Gerais, que está situada em um dos sítios mais antigos do Brasil, com cerca de 1,7 bilhão de anos. Nos primórdios, aquele incrível conjunto de vales verdejantes, elevados montanhosos que chegavam a 1.700m de altitude e lindas quedas d’água esteve embaixo da linha do mar.

Ainda antes de sair do vagão, cheguei a ler no horóscopo midiático as dicas para Libra, o meu signo: “Você está vivendo sob intensa pressão quanto á manutenção de seus conceitos. Aprenda a ouvir a opinião dos outros!”… ????… Que “conceitos”? Que “outros” eu deveria ouvir? Em que ocasião?… Bem, paciência! Bem sei que não existe resposta pronta para nada. 8h35.

Cheguei ao Paraíso. Ao caminhar por mais cinco minutos até o prédio da faculdade, mesmo sabendo que aquela aula era preciosa porque seria a última que teríamos com os aparelhos de medição e avaliação física antes da prova prática, procurei não me afobar. Chegando ao andar do laboratório encontrei a turma reunida junto à porta, cercando um funcionário que, ajoelhado, mexia no trinco. Soube, então, que se perdera a chave da sala e a cópia estava com um segurança que chegaria apenas à tarde. Recebi aquela notícia com a mesma paciência que decidi exercitar durante aquela parte da manhã. Resolvido o problema, dez minutos depois, entramos para a aula.

Sabia que o dia poderia ainda trazer muitos outros acontecimentos, mas naquele momento percebi que a minha atitude inaudita desde que levantei da cama encontrara a oportunidade quase imediata de ser recompensada, além de deixar o meu humor bem mais leve. Talvez fosse o início da prática da ciência da paz que tanto buscava, mesmo que em meio à agitação que vivia. Quem sabe?…

*Texto produzido em abril de 2013, quando cursava o bacharelado da Faculdade de Educação Física da Universidade Paulista (UNIP).

BEDA / POR CEM

Por Cem

 

Apesar de saber que a vida é feita de porcentagens – somos 70% água, 10% meia calabresa, meia atum e, por aí, vai – eu, que já vivi situações em que o 0,1% se impôs, me irritei quando alguém citou, sobre determinada situação, a porcentagem de 99,9% como provável.

Por algum motivo obscuro para mim, já que cheguei a proclamar ser um digno  representante do irritante “talvez”, acordei a querer ter certezas extremadas. Quero que tudo se defina 100%. Quero a absoluta convicção dos loucos, sem a intermediação de advogados a citar contestações em latim: data venia

Quero a fé dos quem erram com perfeição, sem as frações cambiantes. Não quero cores intermediárias, nem o cinza. Quero o preto e o branco perfeitos. Quero saber onde estou e para onde vou. Quero saber quem eu sou. Quero receber amor e poder amar. Eu quero ter a mesma indubitabilidade da morte – certa e irremediável.

BEDA / Cabelos Brancos

Cabelos Brancos
Moça dos cabelos brancos,
caminhante por campos
de pecadores e santos…
São Paulos, Caetanos,
Andrés, Bernardos,
Vitos e Franciscos
a lhe desejarem,
enquanto salta entre nuvens macias
e palcos duros…
Dança a dança da vida
e da morte-norte-sorte
de todos nós.
Nunca será esquecida – viverá
pelos olhos-lembranças dos que lhes assistem,
aplaudem,
suspiram
ou invejam…
Moça dos cabelos brancos,
que eu possa lhe admirar os passos
mais uma vez…
Adivinhar os quereres
e lhe ofertar prazeres
simples e mundanos…
Beijar seus pés
subir às estrelas,
alcançar a luz,
fechar meus olhos
e gemer de dor
a perda de seu amor…

BEDA / Scenarium / Missiva À Inventada Alejandra

Alejandra Pizarnik

Quando nasceu, no fechamento de abril, Buenos Aires pertencia ao Primeiro Mundo, apesar de ficar fora da Europa. Ou antes, era a mais europeia das cidades americanas. Vos decidiu fechar-se para a vida ao terminar um setembro primaveril do Hemisfério Sul no início dos anos 70. A Argentina vivia a decadência de um governo típico de caudilhos de república das bananas. Nesse ínterim, onde ficou você no passar da História? Inventou-se Alejandra e foi poeta – que é uma maneira de transcender o lugar e o momento.

Anciã, quando criança, lembra? Foi ontem, faz séculos, a desfilar sua dor por féretros banhados em sangue, a se suicidar diante do espelho – solidão alada – boca cheia de flores, na respiração de um animal que sonha. Pintou telas verbais, Alejandra, em que os sóis são negros, pássaros pousam em seus olhos, depois de viajarem em auroras amordaçadas de cinza. Uma tribo de palavras mutiladas buscou asilo em sua garganta para que os funestos donos do silêncio não as cantassem.

Você se vestiu de cinzas e luz ausente, pintou quadros com palavras. Verbalizou pinturas – trabalho de mãos e mente. Mentiu para o tempo que a queria mulher sem peso, enjaulada. A morte, companheira temática, foi mais que desejada, foi cumprida como ritual de ascendência, ao extrair suas veias para chegar ao outro lado da noite.

Esquadrinhou tão intensamente cada palmo da gaiola na qual se prendeu que apenas ser noite eterna lhe conferiria a liberdade de ser morta para que a morte lhe ensinasse a viver. Esquecer de si, desnudada de sua memória e chegar ao Paraíso – coragem de tornar-se a poesia que escreveu…

In: Missivas de Agosto –https://scenariumplural.wordpress.com/2019/08/07/missiva-a-inventada-alejandra/

Sobre Maria Madalena

Mamãe

A foto acima foi tirada na Praça da República. A estátua que podemos ver atrás de mim e de minha mãe já não existe mais. Bem como o mundo que a rodeava. Dona Maria Madalena, fisicamente, também já passou. No entanto, eu ainda a tenho viva dentro do peito, estranhamente a ocupar cada vez mais espaço em minha mente.

Em um tempo em que nós, homens, somos recriminados por amarmos o lado vaidoso da mulher, como se isso denotasse um sintoma de machismo, me recordo que minha mãe gostava muito de se maquiar, pentear seus belos cabelos, se perfumar, escolher uma boa roupa. Eu a via sentada em sua penteadeira, escolhendo os brincos, as pulseiras ou os colares que iria usar. Aprumada e bonita, gostava de dizer que, moça ainda, quase se tornara garota-propaganda, mas que a família foi contra esse desejo porque a profissão de atriz era muito mal vista naqueles tempos e os seus irmãos, que a criaram na ausência do pai (morto aos seus quatro anos) e da mãe (morta aos seus doze anos), a proibiram firmemente, chegando a quase impedi-la de sair de casa para fazer qualquer coisa.

Durante toda a sua existência, a lembrança de sua mãe, Dona Maria Manuela, se fez presente a tal ponto de verter sempre uma lágrima a cada momento que falava sobre ela, entre a tristeza da descrição da doença que a levou aos poucos e a alegria ao revelar que ela amava cantar, incluindo o Hino Nacional Brasileiro, que aprendeu rapidamente logo que chegou da Espanha, além das canções de Francisco Alves, Vicente Celestino, Carmen Miranda e as irmãs Batista – Linda e Dircinha. Todavia, a recordação de um fato que ocorreu um pouco antes do AVC de Dona Maria Manuela, a deixava arrasada, como se atribuísse a si a culpa pelo que sucedera – uma resposta malcriada de sua parte à uma solicitação da mãe e que teria sido a última coisa que dissera à ela, antes de falecer.

Quando ouvi essa história pela primeira vez, fiquei assustado com a possibilidade que isso viesse a acontecer com ela por causa das minhas próprias malcriações. Não conseguia conceber viver sem a presença de minha mãe e, por algum tempo, essa transferência memorial funcionou para aplacar a minha rebeldia. Porém, na adolescência, com a efervescência hormonal que todos nós sofremos, nem isso evitava que brigasse constantemente com ela. A ausência do meu pai contribuía para que a situação não fosse melhor. Hoje, eu sei que, psicologicamente, queria substituí-lo, incorporando as críticas à minha mãe que ele, injustamente, usava como pretexto para se afastar de casa. De certa forma, parecia que eu a achasse responsável por ele ter ido embora.

Apenas relativamente bem perto de sua passagem é que compreendi o quanto estava obliterado a minha visão do que acontecera, mas não entrarei em maiores detalhes sobre isso, agora. O que eu quero, neste Dia das Mães de 2019, é agradecer publicamente por a senhora ter me amado, minha mãe! Por acreditar mais em mim do que eu mesmo – algo que não compreendia. Fico a imaginar o que enxergava naquele rapaz o que eu nem suspeitava. Ou talvez fosse somente crença de quem ama, como a mãe que visita o filho na cadeia e espera o tempo de remição da pena, o acompanhando, apesar de todos os erros que cometeu. Sei que a senhora está em paz porque assim me falou quando a encontrei “em sonho”. Vou encerrar declarando o que pouco consegui anunciar quando estava nesta dimensão: “Eu a amo!”…