BEDA / A FLOR

A FLOR
A flor gérbera ou gerbera
Não importa como reverbera
O som em meus ouvidos
Sinto que me carrega para olvidos
Tempos de minha mãe atuante
Mulher de presença tonitruante
De sentimentos vivos e emoções intensas

Um passado de dificuldades imensas

Ela queria ter a casa arrumada
Flores na sala limpa e ordenada
Cozinha sempre pronta para as visitas
Porta-retratos para as fotos vistas
Revistas e revisitadas boas vibrações
Buscar o exterior de luminosas visões
Um quintal onde os pássaros cantassem
E os cães latissem para os que passassem
Projeto que nunca totalmente se cumpriu

Pouco dinheiro, muito trabalho, marido que sumiu

Ouço a voz suave da fala da bela flor
Num canto, à espera do olhar adorador
De quem cumpre a missão de lembrar
Quanto amor recebeu da mãe-mulher exemplar…

BEDA / Pobres Machos

Pobre Macho
Davi, de Michelângelo

Eu acredito na superioridade das mulheres e em seu domínio cada vez mais abrangente. Se formos descer até a base da existência celular – mitocondrial – não restará dúvidas de que sejam prevalecentes. A nós, homens, quase nos restará apenas ajudar na fertilização. Virá o dia em talvez nem isso será mais necessário. Em uma futura sociedade de Amazonas, teremos que nos conformar com a nossa condição de meros coadjuvantes na história da humanidade.

Quando fiz o curso de História, os documentos a que tive acesso relegava o papel da mulher ao ostracismo. Aquilo me deixava intrigado, visto que ao constituir metade da população, a sua participação surgia proporcionalmente ínfima. Tal qual Einstein, que aferiu que a distorção ao observar o Universo se devia à presença de corpos celestes não detectados, percebi que a projeção feminina estava mal representada. Percebi que ao ser escrita por homens, não haveria como ser diferente. Se pudéssemos recontar todos os acontecimentos do Grande Teatro Humano sob nova ótica, os bastidores viriam à frente do palco e tudo seria mais compreensível.

Quem me conhece, sabe que sou encantado pela mulher. Cedo, intuí que a opressão sofrida por elas em vários rincões do mundo, defendida como sendo a base de crenças e culturas, se deve, mormente, ao medo atávico que os homens têm de sua atuação, o que não existia no início dos grupamentos humanos, em que havia equanimidade no poder.

Sendo assim, ao compreender que a manutenção do Patriarcado é algo prejudicial a todos nós, chamo, a quem interessar possa, que examinem a perigosa posição  do macho humano, patrocinador dessa forma de organização social. Que se instaure a visão do movimento “machista” sob um ângulo positivo. Que ser macho-masculino não seja considerado algo em oposição ao modo fêmea-feminino de ser, conceitos ultrapassados que são, todos eles.

Para que o “Neo-Machismo” tenha fundamento, toda a rancidez advinda da expressão deverá ser reavaliada. Assim como o Feminismo, devido à ação de algumas representantes, não possa ser encarado como um movimento contra o homem, quando pessoalmente considero a favor da humanidade. Ou seja, ser homem não deveria ser adjetivado como “odioso” – uma aversão a mulher.

Há algum tempo, surgiram piadas relativas a melhor escolha entre 15 ou 30 cm do tamanho de sanduíches – mote publicitário de uma rede de alimentação rápida. Cada vez mais ocorrem citações mais ou menos explícitas com componentes sexuais, ao qual já aludi relativamente ao lançamentos de cervejas. Talvez o novo “Movimento Machista” devesse fazer uma moção de boicote a essa empresa. Obviamente é uma insinuação contra o macho menos dotado, em termos penianos. Considero que seja uma questão a ser colocada com cuidado – a da defesa do macho pejorativamente estigmatizado por ser de menor expressão de medida. Assim como a mulher, sem as formas idealizadas por uma visão deturpada, são discriminadas por não corresponderem a um padrão específico.

Aos poucos, a mulher ascenderá ao posto de protagonista. Esse processo é irreversível. Eu espero, sinceramente, que seja ao lado do homem. Que a mulher não haja como ele, mas seja a alternativa viável à nossa representação até hoje. Com a ascensão de mulheres ao poder, não apenas político, a humanidade estará em melhores mãos. Com a experiência que tenho ao observar o quanto consegue realizar uma mãe da Periferia, que trabalha, cuida de casa, dos filhos e ainda assim, se expressa como mulher, sei que seremos pessoas melhores sob o seus cuidados. Até o tempo que ser homem ou mulher ou qualquer outro gênero derivativo do masculino e do feminino não seja essencial para designar o caráter de um ser humano.

Ah, apenas para não pairar dúvidas: estou na média…

BEDA / Scenarium / Missiva À Inventada Alejandra

Alejandra Pizarnik

Quando nasceu, no fechamento de abril, Buenos Aires pertencia ao Primeiro Mundo, apesar de ficar fora da Europa. Ou antes, era a mais europeia das cidades americanas. Vos decidiu fechar-se para a vida ao terminar um setembro primaveril do Hemisfério Sul no início dos anos 70. A Argentina vivia a decadência de um governo típico de caudilhos de república das bananas. Nesse ínterim, onde ficou você no passar da História? Inventou-se Alejandra e foi poeta – que é uma maneira de transcender o lugar e o momento.

Anciã, quando criança, lembra? Foi ontem, faz séculos, a desfilar sua dor por féretros banhados em sangue, a se suicidar diante do espelho – solidão alada – boca cheia de flores, na respiração de um animal que sonha. Pintou telas verbais, Alejandra, em que os sóis são negros, pássaros pousam em seus olhos, depois de viajarem em auroras amordaçadas de cinza. Uma tribo de palavras mutiladas buscou asilo em sua garganta para que os funestos donos do silêncio não as cantassem.

Você se vestiu de cinzas e luz ausente, pintou quadros com palavras. Verbalizou pinturas – trabalho de mãos e mente. Mentiu para o tempo que a queria mulher sem peso, enjaulada. A morte, companheira temática, foi mais que desejada, foi cumprida como ritual de ascendência, ao extrair suas veias para chegar ao outro lado da noite.

Esquadrinhou tão intensamente cada palmo da gaiola na qual se prendeu que apenas ser noite eterna lhe conferiria a liberdade de ser morta para que a morte lhe ensinasse a viver. Esquecer de si, desnudada de sua memória e chegar ao Paraíso – coragem de tornar-se a poesia que escreveu…

In: Missivas de Agosto –https://scenariumplural.wordpress.com/2019/08/07/missiva-a-inventada-alejandra/

BEDA / Nomes Compostos Por Ex-Amores

 
(O nome citado foi mudado, para preservar a sua identidade)

O domingo acabou por findar… No entanto, foi pela manhã de ontem que participei, como expectador, de um diálogo que me chamou a atenção e repercutiu em minha mente pelo resto do dia. Eu e meu irmão, depois de recolhermos o equipamento de nosso terceiro evento, sendo um deles em dois turnos, fomos à padaria em frente ao salão do clube para tomarmos o café que nos garantiria o aumento de nossa atenção depois de 48 horas diretas de trabalho.
 
O efeito do café talvez não tenha sido tão efetivo quanto a história de um nome dado á filha de uma das funcionárias da “padoca”. Logo que cheguei ao local, eu a vi detrás do balcão a conversar animadamente com outros frequentadores. Sua voz era firme e seu vocabulário, simples. Usava o cabelo curto, muito branco, que a fazia uma figura interessante, ainda mais acompanhada por seus olhos claros. Devia ter por volta de 50 anos. Ela e suas companheiras citavam vários nomes dos quais gostavam. Um deles, “Maria”, chegou-se ao acordo de que se tratava de um nome bonito, apesar de comum. O que eu concordei de pronto, silenciosamente, enquanto via, sem ouvir, o Padre Marcelo na missa transmitida pela televisão.
 
A balconista disse que o nome da filha dela era Maria… Maria José. Explicou que, descoberto o sexo do bebê, o seu marido escolheu o nome Maria para dar à sua filha, no que ela assentiu prontamente. No final da gravidez, ele deixou escapar que era uma homenagem a uma namorada da qual gostou muito… Confidenciou às amigas que ficou bastante chateada, mas não o demonstrou para o companheiro. Quando nasceu a menina, no registro feito no hospital, acrescentou “José” para compô-lo… E completou que aquele era o nome de seu “ex-futuro marido”, o qual amou muito na juventude. Parece que o pai de Maria José não sabe desse pormenor até hoje… Estranho que, mesmo sem conhecê-lo, eu e outros tantos acabamos por saber…
 
Antes que suas interlocutoras se despedissem, concluiu: “Enquanto ele achava que estivesse indo com o milho, eu já estava contando o dinheiro da venda do fubá que moí antes. Se ele tem o prazer de chamar o nome da filha que ama pelo nome da mulher que amou, ela carrega, ao mesmo tempo, o nome do homem que amei”…

BEDA / A Outra, Devassa E Proibida

OUTRA - DEVASSA - PROIBIDA

Na época de seu lançamento, no rádio antigo do carro antigo, ouvia uma partida de futebol quando, em uma das chamadas publicitárias, ouvi o anúncio d’”A Outra”, outra cerveja com nome sugestivo, a escancarar a vida “Devassa” e “Proibida” dos brasileiros. Nomeações do gênero feminino voltado para o mercado dos consumidores de cerveja, ainda dominado em sua maior parte por homens.
Em determinado momento de nossa atual conjuntura, os publicitários perceberam que poderiam associar, sem remorsos, nomes adjetivados carregados da malícia digna da “Comédia da Vida Privada”, de Nelson Rodrigues. Não quero me estender quanto às denominações dadas pelos criadores, junto aos propagandistas, da longa lista de estranhas-engraçadas-reveladoras marcas de seus produtos. Vou me ater brevemente às cervejas que nomeei acima, que brincam com o lado oculto, porém óbvio da sociedade brasileira.
Quando podemos estar com uma devassa, sentir o gosto de uma coisa proibida, aparecer em público acompanhado da outra, senão na mesa de um bar? Eu, pessoalmente, não tenho o hábito de beber, sequer gosto de cerveja. Culpa do meu tio que, aos meus 5 ou 6 anos, me ofereceu chope em uma festa familiar. Não estava preparado para aquele amargor que atrai a tantos. Assim como é atraente passear pelo lado B, nem sempre amargo (apesar de velado) das relações humanas.

Estou a esperar o tempo em que daremos um passo à frente e algo parecido aconteça para a fatia de mercado que mais cresce nos últimos tempos – dirigido à mulher – seja igualmente agraciada com nomes insinuantes. Que venham o “Bem Dotado”, “O Amante” e o “Black Lover”…