Breve História De Uma Paixão*

Bento & Penélope

A minha irmã, Marisol — em busca da nossa poodle Sandy que sumira — em suas andanças pelas ruas do bairro, acabou por recolher dois outros cães. Passado um ano da passagem da minha mãe, cuidadora de bichos durante toda a sua vida, ela começou a desenvolver um comportamento similar e nunca deixou de procurar a companheira constante de Dona Madalena. A Sandy esperava o dia inteiro no portão a volta da minha mãe de sua última internação (o que nunca ocorreu) e, um dia, desapareceu ser deixar vestígios. Vizinha separada por um portão, para não misturarmos os cachorros do lado dela (são cinco) com as cadelas do meu lado (quatro), os encontrou no dia de São Bento. Católica fervorosa, a Marisol nomeou a um deles em homenagem do santo. Bento, provavelmente abandonado por causa de uma paralisia dos membros posteriores, só consegue andar por algum tempo com o uso constante de remédios. Boa parte do dia, ele mal consegue se deslocar. Mas isso não o impediu que transpusesse o portão e tentasse encontrar a Penélope — labradora grande e acima do peso — no cio. Este chamado da natureza foi poderoso o suficiente para propiciar o registro dessa paixão.

*Texto de 2011

A Esfinge

Exposta às intempéries – à luz, à câmera, aos desejosos olhares –
passam todos por sua superfície,
essência que se esconde,
ao se mostrar em pele…
Corpo de mulher, cabeça de azul – esse ser-etéreo-cor –
proclama a antiga máxima, apenas por tradição:
“Decifra-me ou lhe devoro!”
Pois que não deixa de devorar, a quem-qualquer se lhe aproxima –
o pensamento e a atenção – tensão
que não se basta.
Antes, se abastece da atração – se desbasta
de adoradores que se entregam, de bom grado,
à sua devoção-devotamento…
A Esfinge ora a que deus, se ora?
A oratória é de quem quer ser,
mais do que a qualquer divindade – adorada.
De hora em hora, são miríades – mulheres, homens e anjos-de-asas-sem-penas –
entidades-sem-sexo a penarem
por seu olhar-de-terra-à-vista do primeiro astronauta:
“por mais distante,
o errante navegante –
quem jamais lhe esqueceria?
Eu-o-observador, creio que seu segredo está em não ser decifrada –
A Esfinge –
mas ser aceita em sua complexidade-de-mulher-que-finge
ser quem não é, por profissão
de fé e paixão.
Que esse fingimento é sua essência-de-jogo-de-espelhos que se alheia
e se mistura às gentes, que as consumem por dentro,
enquanto sua beleza de Alien simbiótica-mística-quântica
a reproduzir sua imagem em cada íris de quantos-olhos-outros,
muitos, embarcados em existires sem nexo.
Por que o faz, se mata de amor aos seus hospedeiros e se deixa morrer?
Sua natureza esfíngica explica…
E nada revela.


A Rainha Louca

A loucura não era pouca.
Ele,
tomado de amor,
vibrava em jatos.
Ela,
gemente de paixão,
terminava em prantos…

Dos lençóis revolvidos,
surgiam unidos
em corpo, suor e sangue.
As almas,
abandonando a ambos,
esvaíam-se pelos poros…

Os fluídos,
em escambos,
formavam um rio de odores
doces
e cruas dores…

Quando se despediam,
era como se fosse o último
encontro.
É como se acabasse
o mundo.
Como se fechassem os portais
do tempo.
Como se cessassem a contagem
das idades.
Como se inaugurasse o Templo
da Saudade…

Até o próximo
quarto de Lua.
Até se abrir a porta
do próximo quarto.
Até a entrega
do próximo beijo.
Até a consumação
do imenso desejo.
Até que ele se entregasse
em exaustão à rinha,
até que ela incorporasse
a Louca Rainha…

BEDA / Scenarium / Eu Amo Você!

Muro 1

                      

Eu prefiro o toque…
Mas eis que o tato
é o mais vetado dos sentidos…
Eu prefiro a boca…
para falar, também…
Quando podemos ser mal
(ou bem) interpretados…
Eu prefiro que bailemos juntos –
uma dança proibida
por doutrinas
que preferem corpos em desunião…
Eu prefiro amar…
E escrever…
E escrever sobre o amor,
ainda que desdenhem da paixão
pela palavra…
Contudo,
depois que o mundo acabar,
e o amor se for conosco,
resistirá escrito no muro,
em algum lugar da cidade:
EU AMO VOCÊ!

                           

B.E.D.A. — Blog Every Day August

Adriana Aneli — Claudia Leonardi — Darlene Regina — Mariana Gouveia —

Lunna Guedes

BEDA / Scenarium / Inteiro Ou Partido*

Inteiro Ou Partido
Divagações à sombra de uma mangueira, da qual espero ver os frutos madurados.

O meu amigo Ivan Rocha passou de “noivo” para “solteiro” no Mural do Facebook. À propósito do fato divulgado de maneira tão direta em seu perfil, comentei: “Ivan está só, está ao sol, está inteiro, está solteiro!”. Ao que ele lembrou que uma vez, de forma similar, brinquei com a palavra “amortecedores”, destacada na propaganda de uma oficina mecânica: “É, o amor tece dores”… À parte o encontro de rimas forçadas ou significados ocultos no que dizemos ou vemos escrito por aí, divaguei à respeito da primeira montagem.

Estar só é estar inteiro? Quando estamos com alguém em realidade nos dividimos. E por que sentimos essa necessidade de sermos apresentados em duas partes? Se somos inteiros em nossa unidade, por que queremos encontrar completude em outro? E se queremos nos completar em outro, que força poderá manter unido um casal, além da ilusão do amor? Em se considerar o amor algo ilusório. Sempre haverá alguém  que considere o desejo ou a paixão como sendo amor, se iludindo que queira unir-se a outro ser pela força dessa ilusão. Quando descobrimos ser só isso e a atração se esvai, o que antes era inteiro, nos deixa partidos, até… juntarmos os cacos, nos fazermos inteiro para depois sermos atraídos para nova partilha.

Bem… como eu disse, são divagações…

*Texto de 2011

B.E.D.A. — Blog Every Day August

Adriana AneliClaudia LeonardiDarlene ReginaMariana Gouveia

Lunna Guedes