BEDA|Projeto Fotográfico 6 On6 |As Cores da Manhã

1 - As Cres da Manhã
Manhãs escuras…

Não sou de manhãs. Talvez, de manhas… e manias. Gosto das auroras assim como dos crepúsculos. Porém, os últimos, os tenho mais presentes porque minha atividade me obriga. Finda por ser minhas manhãs estradeiras, madrugadoras – antes de aparecer a luz do sol – lunares… Cores difusas, mescladas com as luzes artificiais – sonhos de olhos cansados.

2 - As cores da manhã
Enfeites e buracos…

Por vezes, calha de eu acordar mais cedo. Quando isso acontece, geralmente não ponho a minha cara logo de cara para fora. Mas aconteceu algo diferente outro dia, em julho. Recém terminada a Copa, a Periferia amanhecia com a perda de mais uma ilusão. Tenho por mim que o povo já não se deixa levar mais pelo ufanismo provocado pelo futebol e outros acontecimentos. Mas, de vez em quando, se permitem brincar de realidade alternativa – alegria e despreocupação com o que há de vir. O porvir daquele dia amanheceu menos iludido, com enfeites dispersos aqui e ali, os mesmos que demoraram para serem colocados, por desconfiança. Quando começaram a acreditar, o sonho acabou, Manhã enfeitada de tristeza luminar…

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Seres solares…

O Sol nasceu para todos. Nossos companheiros de jornada apenas percebem que a luz os aquece. Para o Sol, não lhes dão nome. Apenas sentem que aquela energia os acaricia como se fosse uma mão amiga, na passagem da escuridão para a claridade. Os humanos da cidade mal têm tempo de absorver essa força matinal. Apenas a rechaçam com suas proteções, se fecham em seus transportes para irem ao trabalho, ávidos para respirarem ar condicionado.

4 - As cores da manhã
Amarelo invasor…

Algumas vezes, ainda que não queiramos, as manhãs invadem nossas janelas, feito ladrões do sono. Ainda que não queiramos acordar, certas intromissões são bem-vindas. Como nesta cena, em que os raios solares se assemelham a dedos querendo nos tocar. Banham galhos e folhas de luz no percurso em que desbravam vales, montanhas… Mas certos relevos são quase intransponíveis, principalmente quando a nossa visão está encerrada entre quatro paredes.

5 - As Cores da Manhã
Cores refletidas…

Tem sido comum chegar em casa no começo da madrugada e partir poucas horas depois, para trabalhar. Surpresas acontecem e procuro estar atento, com os sentidos alertados. O jogo de espelhos da vida sempre se faz presente, principalmente em uma cidade como São Paulo. Metafórica ou concretamente. Já acompanhei o sol se repartir em prédios e carros. Certa vez, vi o Sol a ser carregado em um caminhão que levava vidros. Atualmente, um muro envidraçado acompanha e separa a reta do asfalto com a Raia Olímpica da USP. Ainda inconcluso, atacado por “vândalos ideológicos”, têm estampado em suas faces figuras de pássaros aprisionados eternamente em pleno voo. A intenção é impedir que pássaros reais colidam contra ele. Enquanto isso, o Sol nasce duas vezes por ali…

6 - As cores da manhã
Cores renascidas…

Mais do que me permitir, eu me esforço por nunca perder o olhar pessoal sobre as coisas ao meu redor. Sinto que nunca é menos do que de espanto a expressão de meu olhar. A aurora é o momento de renascimento das cores, depois da noite pincelar telas escuras. Matizes de luz transpõem para as minhas pupilas bicolores as manhãs que se fazem tempo de reviver. Viajo para o centro do sistema solar e sinto o mundo orbitar em torno de mim. A comunhão não pode demorar muito. O espanto não deve ser permanente. Preciso sobreviver.

Participam do  BEDA: Claudia — Fernanda — Hanna — Lunna — Mari

Participam do 6 On 6: Claudia Leonardi  | Fernanda Akemi Maria Vitoria |MarianaGouveia | Mari de Castro | Lunna Guedes

 

 

 

 

Reversão

Cidade dos Homens
Cidade dos homens…

Sem mais nenhuma ilusão ideológica para chamar de minha, ainda tento manter sentimentos otimistas com relação à sociedade brasileira. Mas ver avançar a agressão de homens às mulheres, em todos níveis sociais, me entristece profundamente. Eu sempre fui feminista. Ou por amar as mulheres e tentar entendê-las, me considero feminista. Defendo suas causas, quero ouvir suas vozes, me solidarizo com o sofrimento que via e vejo de perto na Periferia – mães que trabalham e cuidam da casa sem companheiros, seus filhos sem pais – fui um deles.

Ao longo do tempo, apesar da autoavaliação favorável, percebi que dentro de mim ainda encontro resquícios do Machismo sob o qual foi formada a sociedade brasileira patriarcal. É difícil escapar a paradigmas que impregnam cada trama do tecido com o qual vestimos nossos corpos mentais. Volta e meia, me pego vagando entre conceitos e preconceitos, não apenas com relação às mulheres assim como a outras “minorias” – designação estranha para definir grupos numerosos, porém distantes do poder de expressão.

Tenho tentado reavaliar a concepção do Machismo sob uma nova ótica, que valorize o homem como coparticipante da cidadania, diferente daquela que preconiza sua propalada supremacia sobre a mulher. Porém, para a maioria dos machos, o Feminismo é considerado um ataque frontal à sua posição de governante supremo. Uma tentativa de inverter a dinâmica natural das relações humanas.

De outra parte, o Feminismo é visto com desconfiança por muitas mulheres, sendo comum observá-las tecendo críticas àquelas que protagonizam movimentos-ações que buscam elevá-las no concerto social. De muitas formas, se apropriam de perfis machistas para isso – sugerem que sejam ações não femininas, como se fosse um critério que desvalidasse a luta pela igualdade. Percebo a alegria de muitos homens ao testemunharem mulheres a competirem entre si. Alguns, se não apostam, contribuem ativamente para que isso ocorra. Em suas bocas, caberia perfeitamente a máxima de César: “Dividir para conquistar”. Ainda ouço reverberar em meus ouvidos a voz de meu pai: “O pior inimigo de uma mulher é outra mulher…”.

O que muitos homens e mulheres não entendem é que o Machismo bebe da mesma fonte que gera a dominação de umas pessoas sobre as outras, ao considerarem como inferiores os diferentes – fora do padrão – por religião, ideologia, moda ou construção social. Muitos, se comprazem em compensar a humilhação que sofrem por parte dos “superiores” ao agredirem outros em situação de fraqueza em relação a si. De fato, alguns “peões” se sentem soberanos ao prejudicarem um igual, muitas vezes agindo de forma mais “realista” e cruel que o próprio “Rei”.

A percepção do quanto nos sentimos desgovernados, fica evidente ao vermos uma tempestade se aproximar no horizonte, montada por um Cavaleiro do Apocalipse, recebido com amplo apoio de setores que ele já demonstrou menosprezar, somada a mal-informação-bem-formada. Esse representante do vazio democrático, arroga que governará nosso País à base da bala e da violência. Faz declarações porco-chauvinistas – o termo é antigo, mas as ideias relativas a ele parecem se renovar – olha, com desdém às mulheres, extra gêneros, negros e despossuídos como passíveis de se sentirem acuados por suas condições pessoais especiais.

Parece que o mundo está a dar voltas para trás, como quando o Super-Homem voou à velocidade da luz em sentido contrário à rotação da Terra para fazer voltar o tempo… Licença poética que se justifica apenas na ficção. Caso realmente acontecesse, tal movimento causaria a destruição da vida no planeta. Internamente, alguma força, talvez nascida no âmago dos seres ordinários que somos, está a causar o fenômeno de reversão – uma pobre contrarrevolução – associada a uma translação em torno de um sol sem brilho. Vivemos tempos sombrios…

Projeto Fotográfico 6 On 6 / O Que Me Inspira

Vivo que estou, tudo me inspira. Do amor à violência, tudo o que se manifesta como expressão humana me deita raízes e razões – a escrita como artifício e meio. No entanto, há temas que fico a respirar recorrentemente. Enquanto não consigo lhe revelar alguns dos mistérios – o que nem sempre o torna menos enigmático – volto a ele várias e várias vezes.

Os fenômenos naturais sempre me atraíram muito. Menino da cidade, antes de saber que havia o mar em mim, a partir dos oito anos de idade fui viver na Periferia, nos rincões quase rurais da Zona Norte do início dos anos 70. Esse afastamento do Centro, permitiu me relacionar com as questões climáticas para além do simples incômodo que pudessem provocar o frio ou o calor, a seca ou a estiagem. Na cidade vascularizada por riachos e rios, isso não deveria ser uma preocupação. No entanto, estando esses recursos encobertos por tampões ou cercados por muros e asfalto, sofremos com a escassez de água ou enchentes destruidoras. A chuva e o sol também são nossos aliados. Quando nos mudamos, não tínhamos água encanada. Ainda que possuíssemos um poço artesiano, usávamos a água da chuva para encher as tinas que colocávamos ao sol em cima da laje para esquentar para um banho morno, além de servirem para regar as plantas e lavar o quintal.

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Chuva na Marginal Tietê.

 

Percebíamos a influência das estações nas plantas. Tínhamos várias árvores frutíferas e sabíamos as épocas em que cada uma frutificava. Bananas, brotavam o ano inteiro. Mangas, goiabas e abacates, sazonalmente. Plantávamos milho, feijão e cana. No inverno, a geada no verde dos morros provocava um efeito de riqueza prateada aos primeiros raios de sol inclinado.

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A quem estas mangas querem seduzir?…

 

Sem a interferência de tantas luzes artificiais, no céu noturno, contemplava com reverência a majestosa grandiosidade do corpo alongado da Via Láctea a derramar o seu leite estelar. Durante o dia, as nuvens em céus de todos os tempos me encantavam, com as suas características particularmente volúveis, em formas e combinações. Os jogos de luz e sombra provocados pela dança retilínea do sol e esvoaçante dos corpos fluídicos costumava entreter o meu olhar em manhãs e tardes. Da mesma maneira, hoje deixo-me levar como a uma pipa ao sabor do vento. Crepúsculos e auroras são naturais símbolos de renovação.

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Voo em direção ao ocaso…

 

Desde essa fase, iniciei mais profundamente o meu contato com os bichos, o que estimulou o desenvolvimento da minha empatia com os outros seres, ainda que não humanos. Fui criador de galinhas e patos. Sempre tive muitos cachorros, gatos e até uma porquinha já passeou como um animal de estimação – Priscila. Inteligente e vivaz, não me lembro de seu destino, muito novo que era. Ou procuro não lembrar. Fiquei dez anos sem comer carne…

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Betânia, no andar de cima. Frida, abaixo. Donas do sofá.

 

As pessoas humanas formavam um grupo estranho para mim. Eu me identificava com os seus componentes em alguns aspectos, normalmente quando fugiam do padrão normal. Sempre fui amigo dos mais estranhos. Formávamos um grupo seleto. Estudantes tímidos, gostávamos de futebol, xadrez, dominó e música. Eu, particularmente, de História, Geografia e Literatura. E Cinema. Sonhava filmes. Sonhei Amarcord.

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Somos filhos da Pátria!

 

Das criações humanas – casas, edifícios, templos, máquinas, instrumentos de comunicação, veículos de transporte, móveis, apetrechos, utensílios, roupas e tudo mais – sempre me fascinaram os casulos, grandes e pequenos, que perdurarão ainda algum tempo depois que nós nos formos. São monumentos à nossa arrogância diante da Natureza. Em torno delas, as cidades se reproduzem e se espalham em ruas, avenidas, praças, estádios – tudo o que torna habitável a sua vaidade.

 

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Pátio do Colégio, ponto gerador.

 

Inspirado por minha convivência com São Paulo, seus habitantes e (des)caminhos, participo do grande concerto – vida que segue sem rumo aparente. Não sei como sobrevivi. Quando brincava de Índio e Cowboy, eu sempre preferi ser o Índio…

 

 

6 On 6 / O Que Te Inspira?
Projeto com a participação de Lunna GuedesTatiana KielbermanMariana Gouveia, Obdúlio Nunes Ortega Maria Vitória.

 

Viajar-se

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Viajei, saí de meu ambiente, confrontei-me com um cotidiano diferente do que estava acostumado. Foi um movimento para outro lugar e para dentro de mim mesmo. Não fui para outro País, apenas para outro Estado. Falava a mesma Língua, mas percebi que precisava praticar outra linguagem. Não mudei o meu centro, o foco e o sentido da minha atenção – as pessoas, entre elas, eu mesmo, frequentemente, meu próprio personagem – observador e relator. Foram poucos dias. Dias a mais na viagem mais longa e de indecifrável final, se bem que antecipadamente conhecido.

Ao longo da viagem maior, eu troquei de casca algumas vezes, a cada mudança de ambiente. Do Largo do Arouche à Penha, de lá para a Cachoeirinha. De uma escola para outra, de turma para turma. Quando me desloquei para estudar em Santana, sofri o choque cultural de um menino da Periferia que se insere em outra realidade. Uma preparação para enfrentar a Cidade Universitária e suas incisivas solicitações – atenção, dedicação, imersão nas bibliotecas, mais do que jamais me permiti. Relacionamentos mais intricados, mergulho reincidente na depressão, crise de identidade. Alternância de propósitos e referências. Mudei de rumo. Viajei por outras vezes. Muitas vezes para fugir de mim. Outras, para me encontrar. Sinto que se fizesse uma viagem bem longa nesta vida, teria que me bipartir. Uma parte ficaria e outra iria por mim. Porém a decisão suprema foi de estar entre as pessoas. Sem o que acreditava que nenhuma partida e chegada seria importante.

Desta vez, fui para o interior do Rio, na região de Volta Redonda, onde parte da família de minha mãe, comandada por sua irmã, a primogênita da Família Nuñes Blanco, veio a conhecer o pai de seus filhos, a formar outra. Uma das descendentes era amiga e companheira de trabalho daquela que viria se tornar minha companheira. Ela a convidou para se mudarem para São Paulo para um novo emprego, sob a proteção de minha mãe. Os liames invisíveis que constroem as relações humanas nos uniram. Inaugurou-se o convívio de outras pessoas em novas relações familiares. A visita que fiz foi ao lugar onde residem esses outros membros. Lá, o olhar estrangeiro esmiuçou comportamentos, revelou conexões, estabeleceu critérios diversos, experimentei sensações estranhas. As referências externas tinham o verde como pano de fundo. Zona rural por excelência, a criação de animais em sítios e fazendas é o negócio mais óbvio. Outros, parecem sobreviver em função dele. O esforço em manter atuantes pequenos negócios é prejudicado pela situação de penúria do Estado.

Em cenas esparsas, registrei o casal que na estrada me deseja um bom dia e pergunta se conheço algum lugar para capinar em troca de uma ajudinha; vi o senhor a dormir sobre a máquina de costura à espera de clientes para o conserto de estofados; observei a velha fumante na janela (que lembrou muito a minha mãe) a comentar sobre a briga na vizinhança, na falta de assunto mais grave; constatei as portas fechadas de vários estabelecimentos, enquanto nos abertos, o pequeno movimento na temporada turística se assemelha aos dos poucos fiéis na porta da antiga igreja na hora da missa; acompanhei os velhos sentados na Praça Central a beberem muito e a lamentarem (um pouco) os maus rumos tomados pelos jovens. Esses, entre outras visagens, formam um quadro que, apesar de tranquilo, não impede que eu sinta que um fogo constante queime por baixo daquela cidade. Quando volto, vejo um rapaz que cuida ciosamente de seu passarinho preso na gaiola, em frente à natureza exuberante. O meu desconforto cresceu…

Junto às casas simples, os casarões antigos e as sedes de belos sítios e residências de alto padrão destoam. Muitas, são locais de veraneio para os endinheirados do Rio. Nós alugamos uma delas.  A pequena viagem, terminada ontem, em muitos aspectos foi decisiva para tomar certas resoluções. E conhecer melhor a mim mesmo diante de demandas pessoais e familiares. Cambiar as referências foi um movimento interno proposital e efetivo. Simplesmente amadureci a ideia de mudar os meus parâmetros. A alma, prisioneira do meu corpo, continuará a sofrer, já que não posso impedir que se manifeste como a minha melhor parte. Ainda que os padrões do pensamento humano interfiram de modo substancial no funcionamento da Realidade, são pelas “mãos físicas” que se constroem as relações práticas entre as pessoas. Entre um dado e outro, a vontade atua. Normalmente, aceitamos que ela não aja contra a perturbação de nossa comodidade.  Contudo, com os pés descalços, sem proteção contra o frio e a chuva, quero caminhar rumo ao destino certo consciente de quem não sou.