BEDA | Amarelo Piscante

20180728_173421
Amarelos naturais e artificiais

Serei apenas eu que viajo em alguns conjuntos de palavras que são de uso comum, mas são ao mesmo tempo portadoras de estranha magia?

Outro dia, ouvia declarações dadas pelo diretor do Departamento de Trânsito sobre a paralisação de parte dos semáforos de São Paulo, após as chuvas intensas de final de Julho e início de Agosto. Expunham dados técnicos tanto para explicar os que paravam de funcionar totalmente como para os que entravam no modo “amarelo piscante”. Pronto! Bastou ouvir aquela locução para eu começar a variar.

A cor amarela a piscar sincopadamente, como se fosse o sol da aurora ou fim de tarde, a transformar o mundo todo em uma imensa boate. Aliás, que mágica a palavra: “boate”!… Gosto de proibido quando adolescente, tanto quanto as palavras “proibido” e “adolescente” são incríveis. Menino, ansiava por ser adolescente. Todos sabemos o quanto estar nessa fase é quase mortal para quase todos… e mortal para outros poucos. Sobrevivi, mas não sem traumas – que linda palavra: “trauma”.

No mesmo noticiário, as novas-antigas sobre o trânsito diziam respeito aos engarrafamentos do dia. Oh… Que feitiçaria transformou o ato de encher garrafas – palavra sensacional – em episódio de afunilamento (ah… funil!) de tráfego? E os temíveis engavetamentos? Acidentes em que imagino carros a serem dispostos em gavetas gigantes, guardados para sempre…

Da mesma maneira, locuções antigas como “bater um fio” ou o até hoje popular “cair a ficha”, remontam, os dois, aos antigos telefones fixos com fio privados e públicos. Apesar do desuso deste último recurso, “cair a ficha” comunica uma ideia óbvia para a maioria das pessoas. Quando no início indicava apenas que houvera contato com o outro lado da linha… Ah!… “Linha”!

E há a importante “ponta firme”, o estranho “zero bala” e o acintoso “viral”. Aliás, discorrerei especialmente sobre o derivativo “viral” na próxima crônica. Quando nos encantamos com as palavras, torna-se difícil não parar de viajar (ah, que lindo é “viajar”!) a cada vez que as utilizamos para a construção de um texto.

Aliás, “palavra”, “verbo” formam uma sinonímia perfeita para objetivar o surgimento da vida… Ah, “vida”…

 

Participam:  Claudia — Fernanda — Hanna Lunna — Mari

BEDA|Projeto Fotográfico 6 On6 |As Cores da Manhã

1 - As Cres da Manhã
Manhãs escuras…

Não sou de manhãs. Talvez, de manhas… e manias. Gosto das auroras assim como dos crepúsculos. Porém, os últimos, os tenho mais presentes porque minha atividade me obriga. Finda por ser minhas manhãs estradeiras, madrugadoras – antes de aparecer a luz do sol – lunares… Cores difusas, mescladas com as luzes artificiais – sonhos de olhos cansados.

2 - As cores da manhã
Enfeites e buracos…

Por vezes, calha de eu acordar mais cedo. Quando isso acontece, geralmente não ponho a minha cara logo de cara para fora. Mas aconteceu algo diferente outro dia, em julho. Recém terminada a Copa, a Periferia amanhecia com a perda de mais uma ilusão. Tenho por mim que o povo já não se deixa levar mais pelo ufanismo provocado pelo futebol e outros acontecimentos. Mas, de vez em quando, se permitem brincar de realidade alternativa – alegria e despreocupação com o que há de vir. O porvir daquele dia amanheceu menos iludido, com enfeites dispersos aqui e ali, os mesmos que demoraram para serem colocados, por desconfiança. Quando começaram a acreditar, o sonho acabou, Manhã enfeitada de tristeza luminar…

3-as-cores-da-manhc3a3.jpg
Seres solares…

O Sol nasceu para todos. Nossos companheiros de jornada apenas percebem que a luz os aquece. Para o Sol, não lhes dão nome. Apenas sentem que aquela energia os acaricia como se fosse uma mão amiga, na passagem da escuridão para a claridade. Os humanos da cidade mal têm tempo de absorver essa força matinal. Apenas a rechaçam com suas proteções, se fecham em seus transportes para irem ao trabalho, ávidos para respirarem ar condicionado.

4 - As cores da manhã
Amarelo invasor…

Algumas vezes, ainda que não queiramos, as manhãs invadem nossas janelas, feito ladrões do sono. Ainda que não queiramos acordar, certas intromissões são bem-vindas. Como nesta cena, em que os raios solares se assemelham a dedos querendo nos tocar. Banham galhos e folhas de luz no percurso em que desbravam vales, montanhas… Mas certos relevos são quase intransponíveis, principalmente quando a nossa visão está encerrada entre quatro paredes.

5 - As Cores da Manhã
Cores refletidas…

Tem sido comum chegar em casa no começo da madrugada e partir poucas horas depois, para trabalhar. Surpresas acontecem e procuro estar atento, com os sentidos alertados. O jogo de espelhos da vida sempre se faz presente, principalmente em uma cidade como São Paulo. Metafórica ou concretamente. Já acompanhei o sol se repartir em prédios e carros. Certa vez, vi o Sol a ser carregado em um caminhão que levava vidros. Atualmente, um muro envidraçado acompanha e separa a reta do asfalto com a Raia Olímpica da USP. Ainda inconcluso, atacado por “vândalos ideológicos”, têm estampado em suas faces figuras de pássaros aprisionados eternamente em pleno voo. A intenção é impedir que pássaros reais colidam contra ele. Enquanto isso, o Sol nasce duas vezes por ali…

6 - As cores da manhã
Cores renascidas…

Mais do que me permitir, eu me esforço por nunca perder o olhar pessoal sobre as coisas ao meu redor. Sinto que nunca é menos do que de espanto a expressão de meu olhar. A aurora é o momento de renascimento das cores, depois da noite pincelar telas escuras. Matizes de luz transpõem para as minhas pupilas bicolores as manhãs que se fazem tempo de reviver. Viajo para o centro do sistema solar e sinto o mundo orbitar em torno de mim. A comunhão não pode demorar muito. O espanto não deve ser permanente. Preciso sobreviver.

Participam do  BEDA: Claudia — Fernanda — Hanna — Lunna — Mari

Participam do 6 On 6: Claudia Leonardi  | Fernanda Akemi Maria Vitoria |MarianaGouveia | Mari de Castro | Lunna Guedes

 

 

 

 

Projeto Fotográfico 6 On 6 – Outono

Meninas, em 95
Minhas filhas, Romy, Lívia (no berço) e Ingrid, em 1995.

O Outono chega carregado de saudade, reafirmada a cada folha que se desprende das árvores do quintal. As temperaturas mais altas deixam de ser mais frequentes, pouco a pouco. Por algum motivo obscuro (a mesma saudade?), tentamos organizar os álbuns de família, o que quase nunca conseguimos. Talvez aconteça neste Outono, talvez, não… Enquanto isso, viajamos para outros tempos – emoções antigas e renovadas.


Screenshot_20180404-084321

Antes do descobrimento…

A chegada do Outono, me incentiva, mais do que no Verão, que eu vá me encontrar com a praia, o mar e o sol mais inclinado. É uma estação que aproveito para me internar-exteriorizar.  Sou Eu-tono… Encontro a areia deserta, apenas habitada por pássaros. Viajor, recuo eras, a ponto de regressar à época do Descobrimento. Como em “Somewhere In Time”, o encanto se quebra por causa dos dejetos deixados pelos humanos no presente…


Screenshot_20180404-224249
Tortillas paraguayas…

Nesta época do ano, nem sempre temos tempo para organizar almoços ou jantares. As sobras de um dia para outro, como arroz, propiciam que eu faça um dos meus pratos salgados favoritos, digno representante de anos precários da minha infância – tortillas paraguayas – uma das heranças de minha origem de filho da meu lado paraguaio por parte de pai. Receita? Além de arroz, farinha de trigo, ovos, leite, queijo ralado, sal a gosto…


Screenshot_20180405-110944
Flores inesperadas…

O que fazem flores no meu Outono? Pois, é… Flores simples, ignorantes que não devam florir nesta estação outonal, surgem despudoradamente nos recantos mais inesperados. Como à margem de nossas calçadas mal cuidadas. Afinal, por dádiva de um País Tropical, temos cores em tempos acinzentados…


Screenshot_20180405-111102
Sois sol…

Época nebulosa, é comum o sol brincar de esconde-esconde em dias indecisos, de quatro estações em poucas horas. É só esperar para encontrar horizontes-contrapontos que aludem a quadros de pintores iniciantes. Volto à infância, quando vivia a decorar papéis com as mesmas cenas que se repetem de manhãs às tardes, antes e depois das chuvas.


Screenshot_20180404-224106
The Beatles In The Couch…

Por vezes, a passar pelas calçadas de Sampa, encontramos recantos. Foi o que aconteceu nesta semana quando, na região da Paulista, em um anoitecer recém-lavado, encontramos Mar de Livros – Sebo-Brechó-Discoteca – ponto de encontro gostoso forrado com itens de colecionador e livraria. Lá, até os Beatles encontramos no sofá… Após uma reunião, eu e Lunna, um escritor e a editora-escritora da Scenarium, experimentaram momentos de descontração, risos e descobertas. Aconteceu neste Outono, o que por si só, já o torna muito especial.

PROJETO FOTOGRÁFICO 6 ON 6 | OUTONO

EDITORA SCENARIUM PLURAL

COM A PARTICIPAÇÃO DE Mariana GouveiaLunna GuedesMaria Vitoria

Projeto Fotográfico 6 On 6 / O Que Me Inspira

Vivo que estou, tudo me inspira. Do amor à violência, tudo o que se manifesta como expressão humana me deita raízes e razões – a escrita como artifício e meio. No entanto, há temas que fico a respirar recorrentemente. Enquanto não consigo lhe revelar alguns dos mistérios – o que nem sempre o torna menos enigmático – volto a ele várias e várias vezes.

Os fenômenos naturais sempre me atraíram muito. Menino da cidade, antes de saber que havia o mar em mim, a partir dos oito anos de idade fui viver na Periferia, nos rincões quase rurais da Zona Norte do início dos anos 70. Esse afastamento do Centro, permitiu me relacionar com as questões climáticas para além do simples incômodo que pudessem provocar o frio ou o calor, a seca ou a estiagem. Na cidade vascularizada por riachos e rios, isso não deveria ser uma preocupação. No entanto, estando esses recursos encobertos por tampões ou cercados por muros e asfalto, sofremos com a escassez de água ou enchentes destruidoras. A chuva e o sol também são nossos aliados. Quando nos mudamos, não tínhamos água encanada. Ainda que possuíssemos um poço artesiano, usávamos a água da chuva para encher as tinas que colocávamos ao sol em cima da laje para esquentar para um banho morno, além de servirem para regar as plantas e lavar o quintal.

20180206_023821
Chuva na Marginal Tietê.

 

Percebíamos a influência das estações nas plantas. Tínhamos várias árvores frutíferas e sabíamos as épocas em que cada uma frutificava. Bananas, brotavam o ano inteiro. Mangas, goiabas e abacates, sazonalmente. Plantávamos milho, feijão e cana. No inverno, a geada no verde dos morros provocava um efeito de riqueza prateada aos primeiros raios de sol inclinado.

20180126_192347
A quem estas mangas querem seduzir?…

 

Sem a interferência de tantas luzes artificiais, no céu noturno, contemplava com reverência a majestosa grandiosidade do corpo alongado da Via Láctea a derramar o seu leite estelar. Durante o dia, as nuvens em céus de todos os tempos me encantavam, com as suas características particularmente volúveis, em formas e combinações. Os jogos de luz e sombra provocados pela dança retilínea do sol e esvoaçante dos corpos fluídicos costumava entreter o meu olhar em manhãs e tardes. Da mesma maneira, hoje deixo-me levar como a uma pipa ao sabor do vento. Crepúsculos e auroras são naturais símbolos de renovação.

20170328_174404
Voo em direção ao ocaso…

 

Desde essa fase, iniciei mais profundamente o meu contato com os bichos, o que estimulou o desenvolvimento da minha empatia com os outros seres, ainda que não humanos. Fui criador de galinhas e patos. Sempre tive muitos cachorros, gatos e até uma porquinha já passeou como um animal de estimação – Priscila. Inteligente e vivaz, não me lembro de seu destino, muito novo que era. Ou procuro não lembrar. Fiquei dez anos sem comer carne…

20180206_022146
Betânia, no andar de cima. Frida, abaixo. Donas do sofá.

 

As pessoas humanas formavam um grupo estranho para mim. Eu me identificava com os seus componentes em alguns aspectos, normalmente quando fugiam do padrão normal. Sempre fui amigo dos mais estranhos. Formávamos um grupo seleto. Estudantes tímidos, gostávamos de futebol, xadrez, dominó e música. Eu, particularmente, de História, Geografia e Literatura. E Cinema. Sonhava filmes. Sonhei Amarcord.

Screenshot_20180116-231758
Somos filhos da Pátria!

 

Das criações humanas – casas, edifícios, templos, máquinas, instrumentos de comunicação, veículos de transporte, móveis, apetrechos, utensílios, roupas e tudo mais – sempre me fascinaram os casulos, grandes e pequenos, que perdurarão ainda algum tempo depois que nós nos formos. São monumentos à nossa arrogância diante da Natureza. Em torno delas, as cidades se reproduzem e se espalham em ruas, avenidas, praças, estádios – tudo o que torna habitável a sua vaidade.

 

20180206_022948
Pátio do Colégio, ponto gerador.

 

Inspirado por minha convivência com São Paulo, seus habitantes e (des)caminhos, participo do grande concerto – vida que segue sem rumo aparente. Não sei como sobrevivi. Quando brincava de Índio e Cowboy, eu sempre preferi ser o Índio…

 

 

6 On 6 / O Que Te Inspira?
Projeto com a participação de Lunna GuedesTatiana KielbermanMariana Gouveia, Obdúlio Nunes Ortega Maria Vitória.

 

Mar Em Mim

Screenshot_20180130-115508


Morador do planalto, os meus olhos se enchem de Mar toda vez que desço a Serra, rumo ao Litoral… Pareceu que retornei cinquenta anos na existência, quando encontrei o Atlântico pela primeira vez. O meu corpo, como que atraído de volta ao útero, quis se atirar contra as ondas. Adulto, caminho decidido pela areia, solto a mão da Mãe Terra e me uno à Mãe Água – geradoras de todos os seres. Pai Sol me envolve de calor e sinto-me pertencer ao Universo.

A grandiosidade da força natural do Mar me reposiciona na condição de ínfima parte do átomo. Depois de apenas alguns minutos, me sinto recebido em minha casa – líquido amniótico. Num átimo, sou recriado. O movimento de fluxo e refluxo das ondas me banha de espumante respirar. A sintonia como o meio líquido me torna um bailarino de atávica dança ritual. Eu me junto a milhões de seres humanos de todas as eras que se lançaram dos Continentes e Ilhas às correntezas que nos trouxeram ao futuro – hoje – e torno-me atemporal. Sou todos em um – eu.

Mergulhador, mitigo a dor de viver sem aparas, ao boiar ao sabor das ondulações. Dejeto da civilização, perdoo-me dos pecados em batismo sagrado ao nadar sobre a fímbria marinha, a linha do horizonte a me confundir os sentidos. Devo ir mais longe? Extinguir de vez a solidão? Morrer para a Terra, consubstanciar-me em Mar? Unir as moléculas elementares do meu corpo-Água a ele?

Quando retorno à minha consciência terrena, de volta à unidade física que me identifica como apartado do mundo, sinto-me um apátrida. Volto para a firmeza inconstante da areia. Acovardo-me do casamento com a vida real por aquele momento, à espera da revelação do instante que deverei ser, para sempre, Água…