Tentamos capturar o tempo nas mãos como se ele existisse…
Em nossa passagem pela Terra, sucessivas civilizações, nos quatro cantos do mundo, desenvolveram maneiras de programar eventos, prever plantios e colheitas ou até tentar adivinhar os seus destinos como pessoas ou nações. Alinhando as datações, estudiosos puderam sincronizar os movimentos naturais do planeta às ações humanas, criando a História.
Agora, após o Carnaval, quando começamos verdadeiramente o ano, como faziam os antigos romanos – uma tradição tão arraigada em nosso comportamento que o reproduzimos intuitivamente – tomamos consciência que a passagem do tempo é permeada por uma sensação aleatória e algo incomensurável de espanto. A sequência de fatos históricos datados nos dá a falsa impressão de marcha avante e, concomitantemente, de que voltamos à barbárie quando seres aparentemente civilizados cometem atrocidades.
Otimista, creio que o que acontece de ruim com as pessoas (produzido por outras pessoas) tem nos causado cada vez mais asco, porque estamos mais sensíveis. Talvez seja mais uma esperança do que uma constatação, mas prefiro acreditar nisso do que aceitar que o homem não tenha aprendido nada em sua permanência de milhões de estações na Terra.
Segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses, estações, anos, décadas, séculos, milênios, eras… podemos enumerá-los, mas o importante mesmo seria constatarmos não como estamos e sim o que somos. No entanto, ao nos aceitarmos como seres mutantes, uma avaliação acaba por se sobrepor a outra e talvez jamais obtenhamos uma resposta plausível.
Marcar a passagem do tempo se equipara a reverenciar ao Tempo como Deus. De certa maneira, é uma de suas representações…
O círculo é um dado constante no Universo. Bilhões de estrelas, como o sol que nos ilumina, tem a forma circular. Ciclo é algo diferente, mas podemos explicá-lo como uma sucessão de fatos circulares, que representam a transformação de um sistema a voltar a seu estado inicial. Culturas antigas tentaram, e muitas conseguiram, determinar um padrão que serviram de base para a sustentação de suas civilizações, como, por exemplo, os Maias – mal sabiam eles que confusão criariam em 2012, centenas de anos depois de montarem um calendário agrícola.
O que é interessante para mim é que apesar de todos vivermos existências circulares (como o sangue que percorre o nosso corpo), procuramos entender a volta ao ponto inicial como algo diferente, colocando um número ou um nome para consubstanciá-lo, estabelecendo, dessa maneira, uma nova idade ou tempo. É como se as forças externas, normalmente constantes, fossem travestidas de novas identidades para torná-las reconhecíveis como novas e, com boa sorte, renovadoras.
Mais constante que o círculo e o circular, no entanto, estamos nós, que os vivenciamos. Mais constante ainda é a transformação que se opera em nós a cada giro da roda. Quando ela volta para o ponto inicial, a nova estação encontra alguém mudado, uma pessoa “nova”, porque mais experiente e, curiosamente, mais antiga, já que cumpriu o eterno ciclo vital de nascer, crescer e fenecer. Ainda que ideias mortas ressuscitem de tempos em tempos, como a transformar a Terra em um planeta plano.
Pois, neste ponto, devemos operar a grande magia – apesar de sermos mais experientes e estarmos mais velhos – buscarmos bravamente nos renovarmos a cada ciclo cumprido. E estarmos aptos para essa renovação. Portanto, desejo a todos nós apenas uma pequena mudança na ordem do dia e das palavras – Feliz novo em você em 2020!
Lindos sorrisos falsos, grandes abraços falsos, armados beijos falsos (sabemos que os bons beijos são inesperados e desarmados)… Enfim, chegamos ao Natal!
A sentença inicial expressei apenas para ser conforme aos revoltados de plantão que, com razão (as suas razões), querem fugir à massificação dos bons votos feitos de forma automática e sem um fundo de bom augúrio.
Eu, de minha parte, desejo realmente que possamos viver tempos melhores. Que o espírito de renovação se faça presente. Que as boas vibrações sejam perceptíveis na pele de pelos arrepiados. Que o sorriso seja acolhido com outro sorriso. Que chorar seja permitido e seja acompanhado de lágrimas companheiras e consoladoras. Que o abraço seja reconfortador. Que o beijo seja carinhoso como brisa fresca ou profundo como se quisesse explorar a alma de quem é beijado.
Sempre é tempo de renovação da esperança, do desejo de melhorar a visão do entorno ou de Raio X que busca o âmago das coisas (meu “defeito” de escritor). Da renovação do amor desgastado pelo tempo e/ou pela rotina, mas que ainda vibra dentro de nós. Da renovação do amor em nossa vida, não apenas pelas pessoas, mas pelos nossos companheiros animais, pelas plantas, pela Terra, pelos ideais e pelas causas que nos movem.
Um dia, neste mesmo planeta que habitamos, uma pessoa ousou proclamar o Amor como o Caminho. Isso foi tão revolucionário à época quanto o é ainda hoje. Todos os dias, temos provas de quanto é desafiador exortar o Amor ao próximo, de desarmar os braços para acolher. Os martirizados pululam em todos os cantos dos Continentes. O que antes ocorria na calada da noite e na distância dos lugares, hoje nos chega no mesmo momento que acontece, impactante. Imagens em vermelho-sangue, vermelho-fogo, em vermelho-choro…
Para encerrar, posto a imagem a seguir. Gosto de amanheceres, auroras são sempre bem-vindas. Mas os crepúsculos são mais desafiadores. Encerram a passagem do dia para a noite. Chega prenhe do dia que foi vencido, com dor e suor, alegria e amor. Esconde e aclara expectativas para o novo amanhecer. Os crepúsculos são luscos-fuscos da vida. Eis este, que colhi na fronteira entre São Paulo e Rio de Janeiro. O caçador de nuvens que sou lhes deseja o melhor para esta noite. E para todos nós, um Feliz Natal! Sejamos um renovo!
Izadora, André, Amanda, Marllonn e Rosa Flor, jovens que desapareceram numa viagem do Espírito Santo à Bahia.
Sempre pensei na vida e, por conseguinte, na morte. Ainda jovenzinho, quando deveria nada fazer a não ser a me preocupar com a próxima brincadeira, a morte de meu tio José aos meus cinco anos, me impressionou o suficiente para começar a refletir sobre aquele fenômeno. O cortejo de pessoas tristes que cercaram o seu caixão, o choro compulsivo da minha mãe que mantinha algumas diferenças com o marido da sua irmã, os abraços respeitosos daqueles que afluíram a casa dele, como era costume à época, emolduraram para sempre o significado do que era morrer para mim. Desde então, me deparei com a perplexidade diante desse fato inconteste de nossa existência – morremos.
A questão da perenidade e a vontade de viver para sempre foram pouco a pouco, no decorrer da minha vida, transmutando-se em desejo de entender a morte pessoal e coletiva. Compreendi que morrerei fisicamente daqui a pouco, mas também descobri que a espécie humana, que é um fenômeno recente na Terra, considerando-se que o nosso planeta tem bilhões de anos e este veículo espacial em que viajamos um dia será abalroado pela explosão da estrela que lhe trouxe à luz, perecerá junto com ele, a não ser que consiga alcançar outros lugares.
O passamento da minha mãe foi um capítulo importante no desenvolvimento da minha compreensão da morte, ou segundo prefiro acreditar, da mudança de estado vital ou dimensional. Sou um livre-pensador e procuro não excluir nenhuma visão filosófica e/ou religiosa em relação à vida-morte. Isto me dá a liberdade de me perfilar lado a lado a miríades de posições em relação ao tema, formando um conjunto de idéias que me levaria ao fogo alguns séculos antes. A minha “intuição” a respeito disso ganhou maior expressividade quando, no momento de maior angústia, sonhei com a Dona Madalena, linda e calma, me dizendo para eu ficar tranquilo, completando com um sorriso ao final – “Estou em paz!”… Se essa foi uma manifestação de ordem psicológica ou de outra natureza, o fato concreto foi o efeito que aquela “conversa” teve sobre mim, me deixando, também, em paz.
No noticiário de hoje vimos a informação da morte trágica de cinco jovens na Br-101*, que liga o Espírito Santo à Bahia, onde iriam comemorar o aniversário da mãe de um deles, que está tendo ampla repercussão pelas circunstâncias que envolveram o episódio – a idade e a beleza dos jovens, o desaparecimento inicial, as hipóteses que surgiram (todas baseadas na maldade humana), as informações desencontradas e, finalmente, o encontro dos corpos, vitimados por um violento, mas prosaico, acidente naquela estrada perigosa. Na mesma área, ontem, ocorreu outro acidente que vitimou outras quatro pessoas cujas mortes passarão relativamente anônimas, a não ser pelas pessoas próximas a elas, em relação aos cinco viajantes vindos de São Mateus.
O resgaste dos corpos foi acompanhado de perto, bem como será a desventura dos parentes no ato de reconhecimento, do velório e do sepultamento. Mortes, discretas ou espetaculares, sucedem-se aos borbotões e o planeta superpopuloso acaba por predispor cada vez mais notícias de desenlaces coletivos, se bem que os individuais estranhamente podem vir a se sobrepor algumas vezes aos maiores, mas anônimos.
Hoje de manhã, o meu ônibus parou em um semáforo pouco antes de eu descer. Pela janela da porta em frente a qual me posicionava, vi uma mariposa quase da cor do asfalto, nele se debater. Já não tinha forças para alçar voo e certamente dali a alguns instantes as suas tênues fibras repousariam amalgamadas junto ao piso pela força da borracha de algum pneu de carro. O coletivo partiu carregando as pessoas aos seus compromissos, locais de trabalhos e eu a minha faculdade, antes que eu pudesse observar mais este cessar de ânimo a provar a precariedade da vida.
Chegou à praia…
a esperança, os sonhos, o futuro…
Chegou à praia, jogado à areia,
as ondas a lamber suavemente
a cabeça da criança –
a Mãe-Terra a acarinhar
o seu pequeno filho…
Chegou à praia, Pinóquio,
que foi buscar Gepeto na barriga da baleia…
Sendo boneco de madeira, não morreu…
Representou apenas um conto de fadas,
enquanto lágrimas
banhavam seu corpo…
Ao assistir a cena, parece vivo
e ainda espero que se levante…
Porém, jamais o fará…
Chegamos à praia…
Todos nós…
Todos os nós de marinheiro
ao mesmo tempo urdidos
e embaraçados…
Quando os desataremos?
Chegou à praia, a ilusão
de que exista um mundo melhor do outro lado…
No entanto, o menino conheceu Deus,
que sem coragem, não é dado vê-lo…