Bom Dia! (Ou Como Zeca Baleiro Salvou Duas Vidas) — Parte Dois

Carla entendeu que aquele seria o melhor horário para morrer — 7 horas da manhã. Quando Francisca chegasse, dali a uma hora, a encontraria em “boas” condições físicas, apesar do processo de autólise que se iniciaria assim que o coração parasse de funcionar. Naquela altura, seu corpo daria chance para que a vida explodisse em novas formas, habitado por moradores invisíveis. Ao pensar sobre isso, veio a perceber que o tempo não era o mais importante, mas a afirmação da vida, ainda que ínfima na duração e diminuto, o habitat. Começou a se sentir importante em se tornar o mundo de colônias de bactérias em um complexo ecossistema que se alimentaria dela até estarem exauridas as suas fontes de energia ela mesma, Carla.

Estaria morta a médica de 40 anos, bonita e desejada que, no entanto, não conseguia ultrapassar as barreiras dos relacionamentos com pessoas — homens e mulheres — que escolhia a dedo para feri-la. Ou talvez fosse ela, tão sensível desde a infância, que chorava por qualquer coisa. Pelas irmãs, era chamada de chorona e ranheta. Os namorados e namoradas, se afastavam assim que percebiam que não conseguiriam lidar com tamanha delicadeza em prantos, apesar da beleza física clássica. Vaidosa, para não ser encontrada mole pela podridão em paulatino avanço, não quis se matar à tarde, quando bateu a dor mais profunda por estar viva. Passara mais um dia a cuidar de pessoas que, estranhamente para ela, se agarravam à vida de maneira absurda. A contaminação pela Covid-19 voltara a aumentar. Dessa vez, os pacientes eram mais jovens que, como característica básica, se consideravam imortais. Mas para alguns, a doença se assenhorava do corpo como fosse uma casa abandonada invadida. Os estragos fisiológicos, caso sobrevivessem, seriam inevitáveis.

A falta de empatia ou, de outra forma, certa inveja por não ser contaminada pelo vírus, a deixava com raiva de si mesma. Carla se lembrava do quanto se importava com as pessoas e o desejo desde nova em se tornar médica. O curso, logo de início, foi a deixando cada vez longe do ser humano solidário para torná-la um ser de emoções amorfas. Ter sido estuprada por um grupo de colegas depois de uma aula de Anatomia, praticamente a matou por dentro. Até o presente dia, não se conformava por não ter delatado a corja, hoje, médicos renomados, de lindas famílias de comercial de margarina. Tinha pesadelos recorrentes sobre como a usaram para “estudar” os nomes das partes da sua estrutura físico-biológica viva — detalhes da cabeça, passando pelo tronco e membros — e seus sinônimos funcionais, no léxico popular e no médico. Oito mãos intrusas e quatro órgãos genitais usurpadores passearam sobre sua derme sem obedecerem aos seus recessos ou às recusas veementes, abafadas por estarem em um lugar isolado. Percebeu que o local onde se deu a “aula” de Anatomia fora escolhido a dedo e a ação, planejada.

Para nunca mais os ver, evitou se candidatar para trabalhar nos maiores hospitais de São Paulo, para onde foram. Jamais quis participar de festas de congraçamento pelo Dia do Médico ou de reuniões festivas da Turma de 2002 de Medicina da USP. Ao procurar atender na Periferia, sua atitude foi confundida com benemerência, o que lhe angariava simpatia e admiração. Morar em Santana a deixava perto dos hospitais da Zona Norte nos quais atendia como Dermatologista. Aquela casinha a lembrava de sua morada na vila da Zona Leste onde cresceu, o que lhe dava certo conforto mental pela evocação da lembrança dos pais amorosos. Afora isso, não conhecia os vizinhos das casas de fachadas iguais e muros baixos à direita e à esquerda. Não tinha tempo e, para ser sincera, não queria.

Um pouco antes de ligar o gás, Carla ouviu a campainha tocar. Pensou em não atender, mas decidiu ver pela janelinha quem era. Um sujeito mascarado estava junto ao portão. Usava roupas largas, uma camisa colorida tingida. A máscara não conseguia esconder uma espessa barba. Os cabelos, um tanto desgrenhados, a lembrou de um rapaz que conheceu na Mooca do qual gostara muito, mas sempre à distância. Era uma figura que parecia ter acabado de chegar diretamente dos Anos 70, pelo que já vira em filmes. Curiosa, abriu a porta e postada debaixo do batente, perguntou o que ele queria.

Oi, vizinha! O meu nome é Raul! Moro aqui do lado, na casa do meio. Queria lhe desejar um bom dia!

O tom de voz era sereno e o timbre profundo, de barítono. Antes que ela pudesse responder algo, o tal de Raul se dirigiu a dois portões à esquerda e tocou a campainha. Pouco depois, apareceu um homem preto que perguntou exatamente o que ele perguntara antes, como se fosse uma fala ensaiada. O sujeito repetiu a mesma linha:

Oi, vizinho! O meu nome é Raul! Moro aqui do lado, na casa do meio. Queria lhe desejar um bom dia!

O vizinho da esquerda foi mais ágil do que Carla e retrucou o cumprimento:

— Bom dia, vizinho!

Curiosa, Carla acompanhou os passos decididos de Raul até a esquina com a Dr. César. Intrigada e absorta em saber porque um vizinho que nunca vira antes, a fez descer a terra de maneira suave, como se fosse uma alienígena recém chegada. Assim como ela, o outro vizinho acompanhou o percurso de Raul até virar a esquina, à esquerda do Si, Señor! Quando voltou a cabeça, viu Carla e lhe desejou um bom dia, ao qual ela respondeu em tom surpreendentemente descontraído. Após o que, se apresentaram — “Carla, prazer! Prazer, Fábio!”. Durante vinte minutos conversaram como se fossem velhos amigos. O assunto, naturalmente, foi Raul. Nenhum dos dois sequer sabia que ele morava na casa do centro. Era como se tivesse saído de uma fresta dimensional.

Quando deu por si, Carla viu Francisca chegar mais cedo que o normal. Teria que esperar mais uma semana para realizar o seu plano suicida. Não se mataria antes que ela saísse, para que seu corpo fosse encontrado apenas sete dias depois, quando voltaria para fazer a faxina da sua casa. Nem era tanto serviço assim. Usava pouco a casa, já que trabalhava todos os dias e passava os finais de semana dormindo como se fora uma refugiada. Isso, quando não fazia plantões pontuais. Não recebia ninguém. Não cultivava amigos. As irmãs não sabiam do seu endereço. Os pais, estavam mortos. Francisca e seus doentes eram as pessoas com quem mantinha um contato mais íntimo. Com os colegas de trabalho apenas trocava informações profissionais, sem maiores proximidades. Até que Raul lhe deu bom dia e invadiu seus pensamentos…

Na Voluntários da Pátria, Raul comprou flores. De lá, se dirigiu ao corpo de bombeiros, na Braz Leme. Em frente à corporação, perguntou a um soldado pelo comandante. Informado que estava na sala de comando, pediu para entrar e lhe entregou um belo buquê de flores. Uma variação aceitável da letra original de “Telegrama”. Quando garoto, Raul até pensou em ser bombeiro. O importante é que o comandante, pego de surpresa, sorriu desmascarado de qualquer rejeição. Ele não perguntou em nome de quem entregava as flores, Raul não disse nada ao ofertá-la. Um momento mágico entre dois homens. Acenos de cabeça e saída do entregador como se flutuasse.

Caminhando pela mesma Braz Leme, Raul foi em direção da Casa de Pães. Uma das coisas que lhe dava maior prazer físico, além do sexo, era comer pães. Gostava de quase todos os tipos, mas os italianos eram os seus preferidos. Conhecia o proprietário  e se alguém merecia um beijo, esse era o padeiro. Ser padeiro, não lhe desgostaria tornar-se um. Estava como que caminhando sob o comando de seus desejos adolescentes ao fazer o trajeto de centenas de metros entre um ponto e outro. Uma vida toda em que abraçou o humanismo como profissão de fé, a atividade da espécie no planeta como sentido que buscou compreender e empreender. Em que momento tudo se tornou demais? Em que ocasião ser humano não representava mais nada? O asfalto duro, a calçada esburacada, as árvores na ilha central, as pessoas caminhando para algum lugar… o que significava, realmente? Sentiu reacender a chama pela busca pelos significados, uma curiosidade por si mesmo e pelo mundo. Sua divagação foi cortada por uma frase dita espontaneamente por si em voz alta:

— Que linda mulher, a minha vizinha…

Porém, naquele momento, ele mantinha apenas um propósito: beijar o português da padaria.   

Tudo o que precisa ser dito…

Bom dia! (Ou Como Zeca Baleiro Salvou Duas Vidas) — Parte Um

Novembro de 2020. A Pandemia em São Paulo ainda não vivia a segunda onda. Provavelmente nem tivesse saído da primeira. Numa das casas remanescentes de uma vila, naquela pequena rua de Santana, bastante movimentada por ligar duas vias principais, Raul não via como conseguiria sobreviver a mais um dia. Nos últimos dias, a sensação que tinha era de que, a qualquer momento, seu coração pararia de bater, após desembestar em seguidos galopes. Sentia-se oprimido, como se um paralelepípedo repousasse em seu peito. Quando a noite chegava, sua alma parecia querer sair do corpo, como se procurasse por outro hospedeiro, ao qual nunca encontrava. Ou talvez apenas quisesse fugir. Sem coragem para caminhar até o quarto, se deitava no sofá ainda cheio de pelos do Miau, seu gato-amigo que partira dias antes, após 14 anos de mútua convivência. De alguma maneira, ele sabia que quando isso acontecesse, perderia o resto de motivação que tivesse para acordar todos os dias.

Em março, quando os esforços para impedir que a Covid-19 fizesse mais vítimas do que o sistema de saúde pudesse suportar e o governo municipal e estadual impuseram o fechamento do comércio, fábricas, serviços não essenciais, escritórios e setores culturais, Raul, que vivia a andar pelo fio da navalha, percebeu que os próximos meses seriam difíceis. Com o otimismo preventivo de um depressivo em negação, achava que em três ou quatro meses tudo voltaria ao normal. Quando agosto chegou e se lembrou do aniversário da namorada que o deixou em plena crise existencial, pensou em se matar para fazê-la se arrepender por ter se mudado para a casa de seu melhor amigo (ou que acreditava ser). Naquele momento Miau o olhou nos olhos e o fez mudar de ideia. Por ele, todos os dias pela manhã passaria pelo corredor de pedras amarelas no chão que saía de sua porta, ultrapassaria pelo pequeno portão e caminharia pela ilha central da Avenida Braz Leme por uma hora e meia, única atividade que lhe sobrara, além de ir ao mercadinho ou a padaria.

Seu trabalho, de professor universitário de Ciências Humanas lhe faltou logo depois. Sua empregadora, um dessas faculdades de baixas mensalidades, próxima de onde morava, o demitiu juntamente com vários outros colegas. Arredio, não utilizava as redes sociais. Foi o que bastou para se fechar cada vez mais. A possibilidade que se precipitava no horizonte era a de voltar para Bragança Paulista. Porém, seu pai estaria lá, vivo, o lançando em lembranças feito redemoinho que o afogava como se estivesse a acontecer naquele mesmo instante e não vinte anos antes ou mais. Agora, quase ao final do ano, imaginava a profunda agonia que o mês de dezembro representava. Decidiu pôr fim a sua agonia de barco preso em mar sem fim de calmaria. A decisão serenou seu coração. Raul se sentiu leve como quase nunca pelo tempo que a sua memória alcançava. A noite cálida o convidava à morte bem-vinda.

A fome assomou inesperadamente e, quase feliz, preparou duas fatias de pão integral com banana e requeijão, seu lanche favorito. Sentia que poderia se satisfazer sem se recriminar por se servir de pequenos prazeres. Sentiu-se pacificado com o rumo que dera a sua existência — extingui-la. Após comer, colocou o CD do Zeca Baleiro para tocar. Morreria ao som da música do maranhense. Munido do frasco de sedativos para depressão, se sentou no sofá preferido de Miau. Na mesinha lateral, junto a um copo d’água, se serviu de uma generosa porção de comprimidos, ao som de “Telegrama”, que parecia brincar divertidamente com a sua tristeza:

“Eu ‘tava triste tristinho
Mais sem graça que a top model magrela na passarela
Eu ‘tava só sozinho
Mais solitário que um paulistano
Que um canastrão na hora que cai o pano
‘Tava mais bobo que banda de rock
Que um palhaço do circo Vostok”…

Antes que chegasse os sedativos à boca, esperou os versos seguintes, que pareceu se divertir da sua situação:

“Mas ontem eu recebi um telegrama
Era você de Aracaju ou do Alabama
Dizendo nego, sinta-se feliz
Porque no mundo tem alguém que diz
Que muito te ama
Que tanto te ama
Que muito, muito te ama
Que tanto te ama”…

Sabia que seu amor não era mais seu e que nunca receberia um telegrama dela dizendo que o amava. Esperou mais um pouco, até chegar a sua parte favorita:

“Por isso hoje eu acordei com uma vontade danada
De mandar flores ao delegado
De bater na porta do vizinho e desejar bom dia
De beijar o português da padaria”…

Talvez por estar com todos os poros à flor da pele receptiva, os últimos versos lhe trouxeram uma ideia. Era dono da sua vida, assim como da sua morte. Sabendo que daria fim aos seus dias de qualquer forma, decidiu esperar. Ele cumpriria o ritual de despedida de uma maneira simbólica. Como há muito tempo não acontecia, um sono profundo o brindou como a uma lufada de vento morno. Guardou os comprimidos. Não precisaria nem mesmo do único do qual se servia todas as noites-madrugadas-insones para levá-lo de si. Adormeceu…

Copo Quebrado

Mensagens de amor*

No armário onde guarda a louça, a mulher solitária reserva uma parte para copos rachados ou quebrados. Muitos, marcados por substâncias cristalizadas por conteúdos derramados de seu interior. Ela sabe dizer quando e de que maneira cada um daqueles utensílios foram usados e avariados. Transparentes, em sua concepção original, os objetos apresentavam por dentro linhas descontínuas e desenhos aparentemente desconexos, mas que representavam, para D. Martha, mensagens de seu filho morto.

Seu marido, sem saber como lidar com a criação de um mundo de simbolismos vazios, segundo cria, depois do passamento de Maurinho, acabou por se afastar da casa e apenas uma ou duas vezes por semana, visitava rapidamente para verificar como se encontrava D, Martha. Mauro contratou uma auxiliar doméstica que cuidava da sua alimentação, limpeza e arrumação da casa onde a família viveu por vinte anos, com a recomendação de que nunca se aproximasse do santuário.

Maurinho, a partir dos 15 anos, começou a deixar cair o que pegava. De início, como estava atravessando pela adolescência, os pais acharam que fosse devido ao estirão. Menino grande, estava a ultrapassar a altura do pai, que já era bem alto e já estava a se destacar no basquete. Melhor jogador do time, a acentuada queda no índice das cestas de três pontos, sua especialidade, fez com que começasse a ficar deprimido.

Os pais, preocupados, realizaram exames que revelaram uma severa doença neurológica progressiva, com evolução acelerada. Na casa de Maurinho, enquanto Seu Mauro buscava alternativas e estímulos para deixar a vida do filho mais confortável, Dona Martha preferiu ver acumular os cacos dos copos que insistia em dar ao filho. Com toda a certeza que o amor podia lhe dar, na falta de palavras que pudesse proferir, para ela, aquelas eram revelações de seu filho que passaria o resto da vida tentando decifrar.

*Tenho quebrado copos

Projeto Fotográfico 6 On 6 / Pets

Termos um Pet significa que entregamos nossa dedicação e amor a um ser que, virtualmente, deverá viver menos do que nós. É um exercício de coragem, entrega e fortaleza. O termo “Pet” se popularizou no Brasil, a designar preferencialmente aos animais de estimação — cachorros, gatos, pássaros, roedores, répteis, peixes, ofídios , etc. O significado, em inglês seria o de animal ou, mais extensivamente, de animal favorito. Que “meus” cães e pássaros não me ouçam, mas não há como dizer que todos sejam favoritos. Ouso dizer que, como filhos ou netos, há um mais querido do que outro. Não direi quem seja o meu nem sob tortura.

Bethânia

A Bethânia é minha companheira do entardecer. Com ela, tenho passado os crepúsculos, quando eu observo o Sol se por e, ela, a fiscalizar o movimento da rua, enxerida que só, a latir para cada pessoa que passa. Chata! Seu ciúme já a fez merecer um capítulo em meu livro de crônicas — REALidade.

Dominic & Domitila

A Domitila é mãe da Dominic, mas cresceram separadas. Quando teve a sua única gestação, distribuímos os filhotes da Domitila e conosco ficou a Frida, de saudosa memória. A Dominic ficou com a minha irmã, minha vizinha. Quando a Frida ascendeu, sua irmã veio para o nosso lado. De início seu comportamento arredio foi se modificando e hoje é uma carinhosa companheira de todos os momentos, sempre procurando a presença humana.

Bambino

Bambino é meu neto, filho da Ingrid. Ele foi recolhido de um abrigo no interior que sofria ataques de uma onça. Sobrevivente, veio para a casa da família, a qual visita ocasionalmente. Atualmente, fica com a minha filha no apartamento onde mora, sendo tratado como um “Princeso“, seu apelido, paparicado por todos que vivem ou frequentam a “Prainha“.

Lolla Maria

Conosco há cinco anos, a Lolla, minha outra neta, filha da Lívia, é voraz e preguiçosa. De idade indefinida, já que foi resgatada como todas as outras, tirante a Dominic, a mocinha gosta de banana, mamão, abacaxi, mexerica e laranja, além da ração que lhe damos. Supomos que não seja tão nova. Surgiu uma mancha no olho direito, tinha maminhas intumescidas quando a recolhemos, sinal indireto de que tenha gestado. Tem a linguinha mais rápida da Zona Norte e rouba beijos de quem estiver desatento…

Arya

A guerreira Arya é a cachorra mais cremosa que existe. É tão fofa que todas querem agarrá-la e apertá-la. Apenas temos que tomar cuidado para não machucá-la, já que sente dores em virtude da Cinomose que foi detectada ainda cedo. O tratamento é constante e tem dado suporte a sobrevivência com qualidade, apesar dos sintomas progressivos. Entrou por nosso portão adentro e conquistou a todos quase imediatamente. Espero que fique conosco muito tempo ainda, enquanto tiver forças.

Dulce / Elton John & Kardashians

A Dulce tem cerca de doze anos, já. Com as patinhas um pouco atrofiadas, com o peitinho depenado, a recebemos para substituir outra calopsita da Romy. Ela teve dois companheiros. Um deles voou para “nunca mais” e o outro faleceu. É uma companheirinha ainda cheia de vida. Os ganizés Elton John e as KardashiansKim, Kendall e Kyllie — chegaram recentemente. Era um desejo antigo da Tânia e para receber essa turma, montamos um bom galinheiro no Yellow Brick Road Garden — meu projeto para esta Pandemia de Covid-19. A Kim, uma mistura com galinha normal, bota ovos azuis. Com essa criação estou revivendo meus tempos de granjeiro de duas décadas de vida.

Mariana Gouveia – Lunna Guedes 

Locomotiva

Juntos, em 2014

Na foto acima, eu e meu irmão estávamos em frente a uma locomotiva abandonada, movida à carvão ou lenha, um exemplar de “maria-fumaça”. Ela estava junto à outras, da mesma série, estacionadas em uma linha desativada, no terreno de uma fábrica de cosméticos. Essas locomotivas, provavelmente, fizeram parte da nossa história pessoal, pois foram utilizadas pela Portlant Perus, fábrica de cimento na qual os meus tios maternos, vindos da Espanha, trabalharam nos anos 30 e 40 do século passado. Nada mais oportuno, portanto, que seja mostrado o quanto os destinos se imbricam, no presente, no passado e no futuro. Hoje, meu irmão, sócio e companheiro de viagem completa 56 de anos de vida.

Quando subimos em um trem no meio do caminho, pelo percurso várias pessoas já subiram e desceram. Várias outras subirão e descerão depois que embarcarmos. Depois de nós mesmos desembarcarmos, o processo se perpetuará. Poucas vezes paramos para pensar sobre o porquê daquelas pessoas estarem embarcadas conosco no mesmo espaço e no mesmo tempo, percurso e trem. E porque há pessoas que nascem próximas, enquanto outras se aproximam mais do que outras, até familiares; porque começamos uma amizade; desenvolvemos os mesmos interesses; nos tornamos irmãos em ideais; sócios em empreendimentos; casados com os mesmos objetivos. Alguns poderão colocar o acaso como prerrogativa, outros, como eu, como sorte desejada. Cumpre aprendermos com as chances que essa viagem nos dá para sermos melhores, para quando embarcarmos em outro percurso, em outro trem, possamos estar mais confortáveis com as nossas roupas novas e podermos tornar a viagem de todos mais agradável. Até que o momento em que não precisaremos mais viajar, a não ser por vontade própria, porque já teremos chegado ao nosso âmago. Humberto, comemoramos, neste dia, seu embarque no mesmo trem que eu. Sou feliz por estar consigo nesta viagem, por ser meu irmão, meu amigo, meu sócio. Estamos juntos!

Juntos, em 2020