Tamanhos*

“Paê, para onde está indo o sol?”

“Filho, nem sempre as coisas são o que parecem ser… É a Terra, o planeta onde a gente vive, que está a dar uma volta sobre si mesma, enquanto viaja no espaço em torno do Sol. E ele é apenas uma estrelinha entre milhões de outras neste trecho da Via Láctea, em torno das quais giram outros tantos planetas como o nosso. E a nossa galáxia é apenas mais uma entre milhões de outras, neste canto do Universo… Sendo assim, somos muito pequenininhos…”.

“Pôxa, paê, isso eu sei… Sou o menor da escola…”.

*Texto de 2016

Põe Prá Fora!

Chegou um tanto mais cedo do que o costumeiro ao apartamento. Sorte ocasional de trânsito ameno em dia insuspeito. Abriu a porta, dando duas voltas na chave. A precavida Alberta ainda não devia ter chegado da faculdade. Caminhou pelo corredor já sem os sapatos ordens da amada deixados no móvel da entrada. Ela pedia que não levasse sujeira da rua para dentro de casa. Ouviu ruídos vindos da cozinha e antes que perguntasse alguma coisa, ouviu claramente a voz da companheira: “põe prá fora!”. Dois metros após, através dos elementos vazados que separavam a copa da sala, Herval, pasmo e paralisado, viu sua mulher a iluminar com a boca o pênis de um rapaz que não conhecia.

Sem conseguir sair de onde estava, assistiu à felação que Alberta realizava com dedicação-gemidos, contra pontuados por ohs-e-uaus longos e expressivos do sujeito. Cinco minutos depois, conseguiu mover um dos pés apesar dos duzentos quilos que pesava. E outro, até se arrastar de costas pelo mesmo caminho que percorreu até a boca de cena. Agarrou seus sapatos, fechou a porta com cuidado. Desceu pela escada os seis andares até ser agredido pelo sol outonal que se embrenhava entre as árvores da praça em frente ao edifício. Não chegou sequer a ouvir a interpelação do Seu Silas, o porteiro, antes que quase atropelasse os carros que riscavam o asfalto.

Herval desabou sobre um dos bancos de cimento, o corpo-carne assentado em massa disforme, a crer por um momento que sua visão de míope se misturava ao lusco-fusco que a tudo esmaecia. Quedou ausente de si por uns três minutos e, como se retornasse à consciência após um desmaio, reviveu passo a passo todos os seus movimentos até o ato presenciado no apartamento. Como a justificar o que viu (ou imaginou ver?) intimamente tentou desmerecer o que Alberta fazia mero ato de fricção de mucosa com mucosa, língua com glande, banhada por muita saliva sem nenhuma implicação a não ser o prazer físico, a mesma sensação que se tem ao comer o arroz com feijão da mãe.

Pensou, a comida não carrega somente os bons efeitos sensoriais, mas acresce-se a satisfação psicológica, carreada por lembranças e bons eflúvios já vividos, como revelava o olhar que ela dirigia ao parceiro devocional de joelhos, mãos unidas em oração. Seria um caso antigo? Um amigo do curso de Letras, em seu último semestre? Antes de conjecturar outras questões, Herval viu o tipo saindo do prédio e entrando em um carro. Olhou para o relógio, que registrava o mesmo horário que costumava chegar do escritório. Envergonhado, se encaminhou para a entrada, sob o olhar solidário de Seu Silas, sabedor das idas e vindas das vidas que passavam por sua portaria.

Desta vez, fez barulho ao entrar, caminhou em meias pelo longuíssimo corredor e encontrou Alberta na pia, de costas para os elementos vazados. Seus belos pés, um deles apoiado sobre os dedos de bem-feitas unhas vermelhas acariciava o piso branco a compor um quadro de dilacerante poesia. Voltou-se com seu sorriso-de-luz a saudá-lo como sempre: “Oi, meu amor!” Acreditou que o dito fosse verdadeiro… e era. Não a beijou. Sentou-se na cadeira mais afastada da etérea presença. Alberta ficou de frente para ele e percebendo sua fisionomia pesada, perguntou: “Algum problema?” Herval não conseguiu responder “Me diga! O que aconteceu? Põe prá fora!”…

Herval fitou Alberta, vidrado. Duas grossas lágrimas afloraram por baixo das lentes. Regredindo em rápida viagem ao momento do flagrante, se recordou que o tal sujeito estava calçado…

Maria Madalena

Mãe!… Mãe?…
Oi, filho!…
Oi, mãe! Como vai a senhora?
Eu me sinto plena, meu filho!
Que bom, mãe!
Por que me chamou pessoalmente?… Não sabe que estou sempre com você?
Sim! Eu a sinto o tempo todo comigo… Sabe que é… Estou vendo todo mundo postar coisas bonitas sobre as suas mães… Quis participar…
Não precisa, meu filho! Eu sei do seu amor por mim!… Não seria vaidade de sua parte?… Por se autodenominar escritor?
Pensei nisso… Por isso, pensei em não postar nada… Mas, para ser sincero, senti uma imensa necessidade de fazê-lo… Então, quis colocar algo que fosse seu, uma palavra ou uma frase sua…
Tem certeza que quer mesmo, menino?… Talvez você não goste tanto do que eu venha a dizer…
Sério? Apenas tenho seguido o meu coração, mãe… Quando eu erro, erro por amor, tanto quanto a senhora, quando estava presente fisicamente…
O que eu aprendi vivendo do outro lado da vida é que somos seres errantes e errôneos, na maior parte das vezes… Mas errar por amor é o melhor motivo, melhor do que qualquer outro…
Que lindo, mãe!… me sinto melhor…
Mas, isso não é tudo, querido… Você me pediu uma palavra, talvez um conselho e vou lhe dar…
Sim, Dona Madalena…
Perdoe!… Perdoe e se perdoe, do fundo do seu coração!

BEDA / O Desaparecimento De Cidade Pequena

Eu vim de Cidade Pequena. Todos que lá moravam se orgulhavam de ser pequenenses. Casas baixas, cercas apenas para carregar trepadeiras que floresciam em todas as estações. Famílias cujos pais e filhos desde crianças se conheciam, de geração em geração, vizinhos que se ajudavam. Saí apenas para estudar, mas pretendia voltar um dia. Rosana me esperava. Eu a desejei por toda a vida. População, menos de cinco mil almas, como dizia o Pe. Jacinto, pároco que recusou se mudar para outro lugar. Elegeu para viver Cidade Pequena como sua morada, desde que chegou 30 anos antes, mesmo convocado para outras paróquias. Levava, mas não impunha a Palavra original e boa, a quem a quisesse receber, libertadora.

Ao invés dos olhares íntimos que pudessem oprimir aos cidadãos, todos se sentiam abertos quanto ao comportamento de cada um, se a ninguém machucasse. Não havia julgamentos quanto a diferenças. Quem quisesse ficar, não importava que identidade apresentasse, sendo afável e trabalhador, seria aceito como padeiro ou professor, cantora ou doutora, maquinista ou vereador. Política se discutia nas ruas, nas praças, botecos e lanchonetes, quiosques e pousadas — sem restrições de preferências. Todos desejavam o bem comum, os impostos eram bem aplicados, a escola construída, o hospital equipado, a delegacia modernizada, a Natureza preservada, obras fundamentais realizadas. Paraíso na Terra? Não! Fruto da arquitetura humana bem fundamentada. Desenvolvimento de relações saudáveis. O exercício da cidadania, dos princípios democráticos.

Até que tudo acabou, consequência de uma força externa. Algo estranho? Sim, mas previsível em suas repercussões. Anormal, mas controlável, se houvesse vontade. 4.195 pessoas sucumbiram em 24 horas, sufocadas. Cidade Pequena inteira desapareceu. Seus habitantes dizimados. Ao final do dia, alguém distante desse povo, ainda que devesse ser o responsável por seu bem estar, ainda que soubesse o que ocorreria ou, por isso mesmo, apenas riu… Cidade Pequena é fantasiosa, o monstro que poderia devastá-la, infelizmente, não…

Darlene Regina / Roseli Pedroso / Lunna Guedes
/ Mariana Gouveia / Claudia Leonardi / Adriana Aneli / Alê Helga

BEDA / Prá Sonhar…

Teve uma forte sensação de vertigem, como se um vale inteiro se abrisse diante de si e ficasse à beira de um precipício, apenas seguro pelas pontas dos pés. Quando a viu pela primeira vez a reconheceu como se sempre a esperasse. Não era somente bonita, mas igualmente intensa e radiante a sua presença. Ele a seguiu com os olhos e percebeu que algo deteve os seus passos, porque ela se voltou em direção aos seus olhos. Ficou estática, se bem que parecesse evoluir em volteios pelo ar e começou a sorrir um sorriso de reconhecimento. Sim! Ali estava a pessoa a qual pertenceria a partir daquele instante em diante, como se antes já soubesse que assim seria. Ela se apartou de seu grupo e ele ficou onde estava, já que cairia se fosse em frente. Logo, estavam juntos. Ele, seguro ao segurar a sua mão, caminhou acima do vale que atravessava a alma. Não duvidou de mais nada, como se o mundo finalmente fizesse sentido. Apenas não compreendia como conseguira respirar até então sem a presença de sua amada. Finalmente, compreendeu que a vida e a morte são irrelevantes fronteiras da existência. Tudo era, apenas e tão somente, amor.

Adriana Aneli Alê Helga – Claudia Leonardi Darlene Regina
Mariana Gouveia – Lunna Guedes / Roseli Pedroso