As janelas me veem passar…
Sou aquele ser noturno
no momento soturno
da mudança de turno
dos fantasmas do Centro…
Na única sacada que se destaca,
a saudade me saúda…
Sou fulminado por seu olhar,
tão luminoso quanto mil janelas abertas
a me observar…
Categoria: Poemas
Transformação
A metamorfose se deu, de início,
pelo olhar…
O movimento dela o paralisou.
Como se fotografasse cada gesto,
aprisionou dentro de si a evolução
do casulo à borboleta –
da flor ao céu –
asas da imaginação…
Quis recuar quando suas vozes
ocuparam o mesmo ambiente –
palco de suas atuações…
Percebeu que fluíam sonoras
conversas de palavras
entrecortadas,
caladas…
As lacunas preenchidas de desejos
perfeitos em suas incompletudes.
Quebradas as barreiras –
distâncias de centímetros-quilômetros –
peles sem proteção,
mentes despertas,
liberta de atavismos
e consequências,
o imediato transformado em eterno,
se reconheceram outros,
os mesmos…
Ele,
transmutado
de Jekyll em Hyde,
de homem em lobo,
de mortal em vampiro,
de Clark em Superman –
todos e ninguém,
vivia ausente de si…
Passou a respirar o vácuo
se não aspirasse o hálito da paixão…
Transformação
irremediável,
perigosa,
instável,
liberdade de viajante
encarcerado,
não trocaria o permanente desconforto
do atual caos da criação do mundo
pela antiga estabilidade da morte
em vida…
Confusional*
O que é artificializado
por vezes nos parece tão natural
que a tomamos como integral.
O que é falseado,
por vezes nos parece tão pessoal,
que a temos como real.
O que é amado,
por vezes nos parece tão especial,
que a tornamos tradicional.
O que é estigmatizado,
por vezes nos parece tão normal,
que a estabelecemos como um ritual.
O que é limitado,
por vezes nos parece tão fundamental
que nos contentamos com o parcial.
O que é acidental,
por vezes nos parece tão intencional,
que sentimos como se fosse o ideal.
O que é confusional e danoso
são traços comuns que nos conduz
e, por vezes, adotamos o pantanoso
como se fosse um caminho de luz…
*Poema de 2017… mas que se adequa perfeitamente ao atual e confusional momento.
BEDA / Quando Os Ponteiros Desapontam
Vivemos pelos ponteiros do relógio…
Ainda que sejam digitais,
aparelhos nos apontam o tempo
que com suas digitais
marcam a nossa pele.
Eu não vivo aqui.
Vivo agora.
O marcador do tempo determina o valor?
Se durou pouco, é paixão?
Se perdura, é amor?
Sabemos — quanto mais tempo dura,
maior a chance de frustração.
Amantes em série preferem o momento
violento e fugaz
ao gostar longo e em paz…
Amar deveria permitir
se apaixonar pela mesma pessoa, sempre.
E estar permanentemente apaixonado
pelo ato de amar.
Cinco, quinze, trinta anos…
Creio que possamos amar apaixonadamente
as diversas pessoas que são a mesma pessoa
numa única relação,
que é única por ser preciosa.
Se for outro o caminho,
que ao final de tudo,
não falte, ao menos, carinho…
Lunna Guedes / Claudia Leonardi / Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Alê Helga / Adriana Aneli
BEDA / A Decaída
Flor solta de um ramalhete,
cortada de sua origem,
a trouxe para casa
e a pus em um pequeno vaso
com água…
Ainda que fosse por alguns dias,
a bela decaída passeou
ressurgida
o seu poder sedutor
por meus recintos…
Antes de juntar os seus átomos
decompostos
aos outros que pairam no ar,
a pus para ver o sol decair.
Pode perceber que tudo ao nosso redor
nasce, vive, se transforma
e completa o seu ciclo…
A flor,
sem ressentimentos,
cumpriu o seu destino:
a de inspirar e morrer…
Alê Helga / Roseli Pedroso / Claudia Leonardi / Lunna Guedes
/ Adriana Aneli / Mariana Gouveia




