Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse

Cavaleiros

02 de junho de 2020. Tempo de Pandemia de Covid-19. Quarentena em São Paulo. Data marcada e demarcada. Momento grave no Brasil. Transição política entre o estado democrático de Direito e eventual golpe de Estado provocado por um político do baixo clero que um dia serviu de ponta de lança ao projeto fascista gestado nos ambientes limpos e degenerados de condomínios de luxo e, esdruxulamente, à beira de mesinhas de plástico, regados à caipirinhas e churrascos.

Ao vivo, bebem leite. Seu bando plagia discursos de Goebbels, brandem tochas, vociferam contra as instituições, apoiam símbolos da supremacia branca e a liberação de armas de fogo. Além dos soldados-milicianos, conta com o apoio de simples de mentes e de corações carregados de ódio. De todas as classes. Uns, crentes-descerebrados ativos, inocentes úteis, culpados por serem tão facilmente usados. Outros, isentos, incapazes de ações empáticas com o lado fraco do elo social e, de certa maneira, simpatizantes de ideias de erradicação dos doentes sem atacar a causa — a doença que os geram e sustenta o sistema.

São a favor da desigualdade econômica, das distorções que servem aos senhores de engenho e se esforçam para manter a moenda rodando. No centro de tudo, um ser tacanho. O “cérebro pensante” é externo ao corpo que o move, sem inspiração ou aspirações culturais. O abominável se alimenta do Caos. Baseia-se em modelos que aplainam a Terra, abominam o Conhecimento e a Ciência. Abdica da humanidade como medida ou, radicalmente, absorve o pior que o ser humano já produziu — elucubração de teorias de exceção racial e afirmação da eugenia numa nação que carrega o dom de ser múltipla e miscigenada. Morte de velhos, tratados como tomadores de recursos; erradicação de direitos da massa que acreditam terem nascido para servir; instauração de privilégios dos grandes empresários (“com eles, ganharemos dinheiro”); tomada dos espaços naturais como bens de consumo (“fazer passar a boiada”); (des)governo das mentiras repetidas mil vezes até se tornarem verdades; desrespeito a Democracia ̶ escada para chegar ao poder — do qual não pretende apear.

Eis um dos cavaleiros do Apocalipse — a Peste. Aquele que se diz superior, beija os pés do grande irmão do Norte e, por ele se orienta ao sul do hemisfério Sul — cucaracha de estimação, cão amestrado que lhe lambe a mão. Programa de exterminação dos bens culturais, do sentimento de igualdade cidadã e da união na pluralidade de identidades. Desejo de extirpar oposições, afastar aquilo que o inferioriza — quase tudo que o rodeia. Revela-se grande somente aos seus seguidores de seita, sem perceber que joga o País na conflagração. Satisfação máxima de quem não tem nada a perder, a não ser sua prole — iguais a ele, reprodução dos outros três cavaleiros do Apocalipse — Guerra, Fome e Morte.

Que coloquemos um basta: a tolerância não deve servir aos intolerantes.

Imagem: Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse, por Viktor Vasnetsov (1887)

Carapuça

Carapuça

Há um ano, em maio de 2019, e no ano anterior, 2018, quando surgiram os primeiros sintomas da doença que enfim tomou conta do País, antes da pandemia de Covid-19 que foi apenas mais “azar” a se somar ao outro relatei um episódio ocorrido na emblemática Avenida Paulista. Para quem quisesse ou pudesse ver, estava a se demonstrar qual seria o rumo que tomaríamos desde então quanto ao quadro que se apresenta hoje.

“Avenida Paulista, 26 de Maio de 2019, São Paulo. Não consigo ter outra leitura em relação à hostilidade sofrida pela mulher que vestia uma camiseta com o nome de Marielle Franco no peito: seu covarde assassinato parece ter muitos mais apoiadores do que pudéssemos imaginar.

Antes que alguém venha me chamar de ‘esquerdopata’, saibam que sou um crítico contumaz quanto aos rumos tomados pelos governos executivo, legislativo e, eventualmente, judiciário no Brasil dos últimos 20 anos, de todos os matizes ideológicos, o que tem causado algumas discussões em casa com as únicas pessoas para quem tenho mostrado os meus posicionamentos minha família.

No entanto, o que aconteceu há pouco mais de um ano foi um complô horrendo para eliminar uma corajosa voz discordante ao sistema dominado por poderosos claramente ligados ao crime organizado. A possibilidade de haver canais de comunicação do atentado com o atual governo central parece ter melindrado um grupo específico em meio à multidão que prestava apoio a ele, a ponto da senhora ter precisado de proteção policial para não ser ferida, o que me dá a impressão de que esse pessoal tenha vestido a carapuça…

Mais um acontecimento no mínimo impróprio dentre tantos outros de várias gradações de hilários a tristes que preencheram os primeiros cinco meses do ‘novo’ governo brasileiro.”

O Novo Normal

De perto, ninguém é normal ˗˗
já disse Caetano ˗˗
não há engano.

Anunciam que normal, há um novo ˗˗
o mesmo novo de outras vezes ˗˗
em épocas de outros revezes.

Ciclos do mal ˗˗
de maus e bem maus ˗˗
ciclotimia macabra,
penúria que não se acaba.

Sina de brasileiro é esquecer ˗˗
revive a reviver ˗˗
elege e reelege malditos,
proclamados como benditos.

Da antiga norma, surgiu o anormal,
de mau passo ˗˗ o novo natural ˗˗
morram, saiam do claustro:
anunciação do falso astro.

“Salvem o PIB!
Reabram-se as empresas que me presam.
Labutem, carreguem os pesos.
Apesar dos pesares, suportem a lide.
O governo não é do povo, nem é altruísta ˗˗
proteger os desamparados ˗˗ coisa de “comunista”!

Danos colaterais em todas as guerras, há…
E daí?
Se perdermos pobres e velhos?
Seres inúteis, a viverem com dificuldades ˗˗
mulheres e homens marginalizados,
enfim igualizados ˗˗
pais, mães, filhos, avós, tios, tias, amigos…
Olha, que bom! ˗˗ genocídio legalizado ˗˗
sonho dos trinta mil mortos, realizado!”

Nos tornamos prisioneiros do negacionismo ˗˗
contra a ciência, vivemos de achismos,
malversação da ideologia
e horror à Democracia.
Fato tal e qual, eis o novo normal ˗˗
além do novo coronavírus ˗˗
nos infectou o adormecido mal…

A doença não se curará…
Poderemos controlá-la pelo discernimento,
se nos tratarmos pela cultura e pelo conhecimento.
Porém, mesmo depois de passarmos pela pandemia,
doentios políticos assintomáticos,
contaminados pela ignorância efetiva
e pelo fascismo nativo-ativo,
sempre haverá…

 

BEDA / Scenarium / Desempregado

DESEMPREGADO

Estou desempregado. Dono de meu próprio negócio, não fui eu a me demitir. Porém estou impedido, por efeito do estabelecimento da Quarentena, de exercer a minha atividade – locação de equipamentos de som e luz para eventos: festas de casamento, aniversários, eventos empresariais e promocionais, bailes de salão, etc. Filmes e novelas interromperam as gravações. Peças deixaram de ser apresentadas. Músicos, bailarinos, artistas circenses, atores, diretores, técnicos, roadies, “maquinistas”, contrarregras e várias outros profissionais na área do congraçamento, entretenimento e da celebração da cultura, da vida e da arte, principalmente aqueles que atraem um grande público, também se encontram paralisados. Seus locais de atividade – teatros, casas de espetáculos, salões de clubes, hotéis, bares e restaurantes, estão fechados compulsoriamente por decreto. Seus funcionários – garçons, servidores diversos, do setor administrativo ao de serviços gerais, estão recolhidos. Ginásios e clubes, locais onde os diversos esportes, mormente os coletivos, que empregam atletas, massagistas, preparadores físicos, administradores, entre outros, igualmente adiaram sine die suas competições. A principal delas – as Olimpíadas de Tóquio 2020 – foi adiada para Julho de 2021.

Está proibido reunir pessoas em ambientes fechados ou mesmo abertos para comemorações. Foi estabelecido o chamado isolamento ou distanciamento social horizontal. Apesar do meu sofrimento psicológico e prejuízo financeiro, já que as contas não param de chegar, sou a favor da medida. Sua adoção refletirá na diminuição do número de infectados e da mortalidade causada pela doença provocada pela pandemia do Covid-19. Os governos mais sérios, orientados pela maioria dos infectologistas mais importantes, adotaram essa mesma norma. Quem não o fez a tempo, como a Itália e Espanha, contam os seus mortos aos milhares em pouco tempo, gerando caos no sistema de atendimento nos hospitais, com leitos insuficientes de UTI e desequipados dos respiradores necessários à sobrevivência dos casos mais graves.

Apostando contra a letalidade do surto, um governante surtado, apoiado por sua equipe de entendidos apenas em jogo sujo, desenvolve uma campanha espúria para contrapor-se àqueles que adotaram as medidas mais duras e corretas no contexto que se apresenta. Apoiado na propaganda de que tiraria o País da inércia e alardeando que propiciaria um rápido desenvolvimento econômico, as medidas que paralisaram diversos setores e provocou a diminuição da produção em muitos outros foi um duro golpe em seus planos para reeleger-se em 2022. Aliás, mal assumiu o seu posto de presidente da República, JMB iniciou a campanha eleitoral para o próximo mandato. Suas ações dúbias em muitas ocasiões e claramente obtusas em outras, escudadas por declarações cada vez mais desvinculadas do mínimo bom senso, beirando a requintes de psicopatia, incrivelmente ainda encontra defensores “encantados” – na repetição de um comportamento-espelho de uma parcela da população que referendou atitudes temerárias dos governos anteriores a este.

Quando o atual quadro se aclarar e pudermos ter uma visão mais ampla do processo pelo qual estamos passando, espero estar vivo – sendo diabético, faço parte do grupo de risco – para poder contar mais histórias. Desejo que a ficção que eu produza não seja tão sem nexo quanto a realidade que se apresenta – canhestra e inconvincente. Que nos libertaremos de quem seja incapaz de empatia-solidariedade humana e se apraz em agir contra seus semelhantes por pura mesquinharia. Devemos provar que, juntos, agindo coletivamente, podemos superar estes momentos cruciais da nossa História.

Beda Scenarium

BEDA / Scenarium / Varredura

Varredura

Em ciclos que se repetem, nós vivemos nossas precariedades íntimas ou públicas. Muitas vezes, coletivamente como ocorre no caso de doenças endêmicas. O relato a seguir completou, em março, cinco anos de seu início. E, até hoje, me afeta com repercussões maiores e menores no corpo. Assim como repercute as nossas decisões pessoais e coletivas em nosso cotidiano anos a fio.

“Hoje, estou em um quase inusitado dia de folga neste mês de março. É certo que tive uma vacância um pouco maior na semana retrasada, mas quase não conta, já que passei pelo pior período da dengue que me assolou. Vivemos uma situação de epidemia dessa doença em minha região, que fica na Zona Norte de São Paulo. De manhã, fui à UBS do meu bairro levando os exames de sorologia que comprovavam o contato com a dengue. O que fiz é o procedimento necessário para a notificação da mesma e soube, pela enfermeira que me atendeu, que já temos 180 casos relatados oficialmente por aqui.

Nunca pensei que, mesmo morando na periferia, vivesse uma situação tão precária na área da Saúde. Afinal, estamos na maior e mais rica cidade da América Latina, a de maior desenvolvimento econômico do Hemisfério Sul. Não estou aqui a acusar especificamente nenhum governo em particular. Somos todos responsáveis pela situação que ora se apresenta. Mesmo porque somos nós que elegemos os nossos representantes legislativos e executivos. E uma condição como a que passamos não se estabelece de um dia para o outro. É um longo processo que devemos saber resolver, mais cedo ou mais tarde, através da conscientização coletiva.

Neste meu dia de folga, limpei o meu quintal, verifiquei possíveis focos de reprodução de mosquitos e resolvi problemas burocráticos da minha pequena empresa. Em determinado momento, deixei de varrer para atender telefonemas, responder e-mails e comer alguma coisa. E adivinhem? Quando voltei, fiquei surpreso com o fato de que a sujeira que eu estava a varrer… continuava no mesmo lugar.

Sim! Nada acontece magicamente! Se não terminarmos nossas tarefas, elas não se resolverão por si só. Continuei a varrer-conjecturar e não deixei de lembrar que a símbolo da vassoura é muito forte para designar um movimento. Estudioso de História e Filosofia, sei que a vassoura já foi muito utilizada para se chegar ao Poder e de que qualquer boa intenção é normalmente manipulada pelos espertos de plantão.

Percebo que o efeito da simbologia sobre a consciência dos Homens é tão poderoso que os manipuladores (nem sempre os mais sábios, mas sim os mais práticos) conseguem tornar até mesmo as pessoas mais bem-pensantes em títeres na busca pelo Poder. Limpar nossas ideias de falsos pressupostos e deixar de nos envolver por sofistas é um trabalho constante.

Bem, vou continuar a varrer…”.

Beda Scenarium