Meu Irmão, Humberto…

Eu e meu irmão, Humberto

Ontem, dia 17 de outubro, aniversariou — 62 anos. Sócios na Ortega Luz & Som, estávamos em atividade. Não é incomum deixarmos de lado datas comemorativas pessoais e familiares, enquanto trabalhamos em festas para os outros. É quase uma regra. Ajudava o fato de estarmos junto a colegas com os quais temos boas relações.

Há quatro anos, meu irmão, ao se levantar pela manhã, se sentiu zonzo. Era uma sensação de instabilidade física, fazendo com que parecesse meio bêbado. Era uma sensação causada por um AIT — Ataque Isquêmico Transitório — também conhecido como mini-AVC. Não havia sido o primeiro. Ocorrera alguns antes, mas ele não levou tão a sério e isso fez com que ocorresse um AVC Isquêmico em seguida. Mesmo sem a coordenação motora ideal e tendo a visão periférica prejudicada, insistiu que fôssemos atravessar de Norte a Sul a cidade para realizarmos o nosso compromisso profissional — um evento em Interlagos. Pelo caminho, percebi que se chegássemos sem nenhum acidente ao local seria muita sorte. Houve um pequeno ao entrarmos na Marginal Tietê, mas nada grave — o espelho retrovisor de um carro velho foi atingido, sem maiores prejuízos.

Mas tínhamos outros quase 40Km pela frente e não foram poucas as vezes que pensei em pedir para que ele parasse em algum lugar e avisarmos que não poderíamos realizar a sonorização do evento programado. Mas o Humberto insistia em continuar o caminho. Conseguimos chegar ao local do trabalho e o fato de que o material de sonorização e iluminação já estar guardado no local, ainda que tivéssemos que montá-lo, ajudou que realizássemos o compromisso. Intimamente, já tinha uma certeza: o meu irmão teria que ser internado para verificar o que se passava. Fiquei pensando que tínhamos que voltar para casa e essa seria outra jornada bastante angustiante. Por mais que eu indicasse o trajeto e agisse como se eu fosse um navegador de rally, quase provocamos alguns acidentes. Não apenas por essa situação, mas por várias outras o que só me fez confirmar que alguma força nos preservava em seguidas situações limites.

Caso alguém estranhe de eu não assumir o volante da “Tigresa”, nossa Kombi, saibam que nunca tirei Habilitação para Motorista. Sou uma pessoa que alia a imaginação com a dispersão, ainda que consiga ter foco quando é necessário. No dia seguinte, combinei com a minha sobrinha, Veronica, excelente motorista, para que ela nos levasse ao novo compromisso e que dali, Humberto fosse levado a um hospital. Ele insistiu em ajudar a fazer as conexões para a realização do evento, após o que foi com a filha para um hospital da região. Lá, logo que perceberam que a situação dele não era nada simples, foi submetido a uma tomografia que constatou o AVC Isquêmico.

Ele cria que estivesse bem, queria voltar para trabalhar, ao que o médico teve que agir com firmeza e informar que ele estava em estado grave. O Humberto acabou por ficar uma semana internado. Desde então, o seu estado de saúde tem melhorado aos poucos estando minimamente estável. Mas o efeito mais importante desse episódio foi o de determinarmos que deveríamos diminuir as atividades profissionais, por mais que desejemos atender quem nos procura para realizar um trabalho que desempenhamos com qualidade e profissionalismo.

Trabalhar por conta não deixa de ter essa característica de sermos sempre corretos na execução de uma profissão que exige concentração e esforço para que nunca deixemos ao acaso circunstâncias que podemos e devemos controlar. E uma delas, talvez a principal, é que não vale a pena ultrapassarmos nossos limites físicos e mentais para adoecermos nesse processo. Fico feliz por continuar a ter o meu irmão ao lado para alcançarmos o sucesso de vivermos uma vida plena e consciente, caminhando mesmo que existam as dificuldades inerentes à jornada existencial para podermos nos desenvolvermos e nos tornarmos seres humanos mais completos.

Feliz aniversário, Humberto Nuñes Ortega!

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