#Blogvember / Nenhum Recado

… pequenas partículas penetram em propriedades particulares (Rozana Gastaldi Cominal)

Roberto, trocando um dos pneus que furou em uma das nossas jornadas. Na imagem, também o meu irmão e sócio na Ortega Luz & Som, Humberto.

Ainda garoto, eu gostava de assistir filmes que normalmente outros da minha idade não assistiam. Não primavam por explosões e perseguições, mostravam diálogos demais e ainda que fossem coloridos, na nossa TV Bandeirantes 14”, tudo se apresentava em PB. Aliás, acho que sonhava também em preto e branco. Os filmes da minha preferência eram europeus, nos quais pude conhecer mulheres pelas quais me apaixonei, como Romy, Ingrid e Liv, que acabaram por nomear as minhas três filhas.

A primeira foi Ingrid Bergman. Há um filme em que me lembro dela narrar a leitura de uma carta, entremeada por sua imagem que me embevecia de tal maneira que sentia o coração quase saltar do peito. Seria o caso de conhecer também a dubladora que emprestava à imagem o poder de sedução.

Romy Schneider entrou em minha vida através de Sissi, mas foi após conhecê-la em atuações nos seus filmes posteriores que entrou por minha retina como uma mulher linda e atormentada, em dimensões desconhecidas para além do belo sorriso e olhos faiscantes.

Liv Ulmann surgiu para mim em 40 Quilates, mas foram os filmes realizados por Ingmar Bergman que a translucidez de seu olhar me invadiu a alma. Sua postura de mulher calada, que exalava poder apenas por direcionar o seu olhar em minha direção me atordoava. Foi um amor mais maduro, de um homem que compreendia o seu silêncio em Persona.

O fluxo de meu pensamento é errante, de certa forma, tento não o controlar. Como se temesse que eu perca algo da magia que muitas vezes vejo acontecer em meu entorno. Neste texto, a minha intenção era versar sobre a linguagem do Cinema e como ela me direcionou no meu entendimento e atuação no mundo. Mas durante a preparação do tema, recebi a notícia do passamento de um amigo que compartilhou comigo e meu irmão uma vivência próxima.

O Roberto foi o motorista de nossa pequena empresa nos primeiros tempos de atividade. Percorremos várias cidades, além de São Paulo, por milhares de quilômetros e muitas horas/dias/semanas/meses/anos.

Eu o apresentei a vários contratantes que passaram a chamá-lo por seu profissionalismo e eficiência. Isso, quando o caminhão ajudava. Muitas vezes, demorávamos mais tempo para chegar ao destino, mas acabávamos por cumprir o compromisso. Essa instabilidade não impediu que crescêssemos em nossas afazeres.

Com a proibição da entrada de caminhões em vários pontos da cidade em horários específicos – justamente nos quais tínhamos que fazer a montagem dos eventos – adquirimos um transporte menor próprio, que nós mesmos conduzíamos. Porém, vez ou outra ainda contamos com a colaboração do Roberto para a realização de nosso trabalho.

Após tanto tempo de esforço, aparentemente seria hora dele diminuir a sua atividade, mas mais do que necessidade financeira, creio que não conseguia parar de trabalhar por gostar disso… pequenas partículas penetram em propriedades particulares, como a poeira do tempo. Assim como outras imensas – a saudade que pousará como cobertura de sua casa construída depois de muito labutar.

Tanto tempo de estrada, tantos momentos difíceis como a ocasião do roubo da carga que transportava, incluindo seu sequestro e de seu ajudante, também nosso amigo, levado a cárcere privado, além de acidentes graves eventuais – tudo superado. No entanto, um incidente doméstico, um corte na perna já prejudicada por outros dois acidentes anteriores, fez com que perdesse muito sangue e uma embolia pulmonar o levou repentinamente, ainda que estivesse falando com o pessoal do atendimento.

Esse episódio me fez lembrar um dos filmes que assisti nos anos 70. No Brasil, foi chamado de “A Morte Não Manda Recado”. Corria os primeiros anos do século passado. Um sujeito não muito afeito ao trabalho, quase um pária, topa com uma fonte d’água no deserto. Monta um ponto de parada que começa lhe trazer lucro e uma fase financeira mais tranquila. Com sua companheira, começa a compartilhar uma boa vida após tanto perrengue. Até que o automóvel que comprou, uma novidade para a época, passa por cima de sua barriga ao descer um pequeno declive. Morreu assim, ainda consciente, conversando. Fim.

Foi um filme que me marcou porque concorria com as histórias que via acontecer no meu cotidiano periférico. Fatos e situações que não tinham consistência dramática, se analisadas friamente. Como se um escritor maluco ou drogado criasse um roteiro com situações fatais sem pé, nem cabeça. Assim como aconteceu com o Roberto… sem nenhuma pista ou recado…

Participam: Mariana Gouveia / Roseli Pedroso / Suzana Martins / Lunna Guedes

4 thoughts on “#Blogvember / Nenhum Recado

  1. O seu fluxo de pensamento geralmente me deixa a deriva… as vezes, paro e pergunto, quem foi que recalculou a rota? Virei a direita/esquerda e não percebi… rá

    1. Eu sei, Lunna! Como eu disse, comecei de uma maneira e tomei um caminho diferente. A falta de sentido é como se fosse o sentido do texto, em termos de direção a ser tomada. Deixei assim…

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