BEDA / Uma Carta

Meu Bem Querer, antigamente poderia iniciar com “escrevo estas mal traçadas linhas”, mas além de não estar utilizando caneta e papel, estou em trânsito, fora de casa, à trabalho. Ultimamente, tem me assaltado um certo mal estar mental que parece ser sazonal no meu caso. Durante anos entro em uma fase de me sentir deslocado no tempo e no espaço, ainda que saiba que este tempo e este espaço não seja o meu lar. Dificulta tudo o que acontece em nosso entorno uma certa vilania institucional por parte de alguns poderosos de plantão. Também não ajuda a defesa de pautas retrógradas que parece ser uma característica entranhada em nosso DNA social e é apoiada por muitos do nosso povo. Somos um País fruto da violência desde a invasão de Pindorama. Creio que essa mácula permeia as nossas relações cotidianas e tanto quanto eu, sei que você sofre ao perceber esse quadro de indigência social. Somos “brasileiros” — ou seja, uma profissão que designa exploradores de pau-brasil. Somos com “muito orgulho e muito amor” defensores do “jeitinho” que nos permite sobreviver de pequenos golpes.

Diante de tantas razões para desistir de tudo, resta a mim combater o bom combate na busca de honrar o fato de sermos espíritos encarnados e que através de nossa pele podemos expressar o amor consumado em gozo e prazer. Pode parecer algo que não se estabeleça como algo menor, mas diante de tanto desamor no mundo, o que temos nos isola durante algum tempo da dor e do passageiro. Quando estamos juntos, esses momentos repercutem como se a eternidade se consubstancie em lembrança e, devido à distância, em saudade constante.

Sinto falta de conversar consigo. Todas as vezes que conversamos aprecio o tom de sua voz, o ritmo, o sotaque. Mas me sinto mais incrível quando nos calamos e grunhimos sons de significados profundos de entrega e paixão. Que não demore a acontecer…

Foto por cottonbro studio em Pexels.com

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