Eu voltava do supermercado quando encontrei na calçada, à minha frente, um casal que caminhava de forma sincronizada. Ela à frente, ele atrás no mesmo compasso, movendo as suas bengalas como se a coreografia fosse antiga, aprendida com anos de prática. Diminuí os meus passos e apreciei a cadência do casal que compartilhavam a mesma incapacidade como a herança de décadas de convivência. Quase um sinal de amor mal percebido com quem convive com eles. Ao decidir passar ao lado deles, percebi que beiravam os oitenta anos. Muitos passos à frente, ao olhar para trás, os vi entrando no condomínio próximo. Apesar das bengalas, havia uma certa leveza no caminhar e a pouca velocidade dos seus passos conferiam algo como um sentido de eternidade à cena.
