BEDA / Viver Em Sampa

Moro na Periferia. Numa avenida perto de casa há uma grande árvore — uma seringueira — que toma conta de vários metros quadrados junto a um gradeado que cerca o Piscinão Guaraú. Ao passar por ela ontem, percebi que alguém utilizou de de alguns materiais como lona, madeira, cordas, panos e outros que não consegui identificar para fazer uma instalação feito uma casa na árvore. Toda criança sonha em construir uma casa na árvore, se isolar dos adultos para estabelecer um território livre. Neste caso, foi a necessidade (mãe da invenções) de dormir em segurança, longe de possíveis agressões que estimulou quem a ergueu.

Na Avenida Cásper Líbero, uma das mais importantes do Centro da cidade, durante muitos anos se destacou de forma negativa a presença de um edifício invadido em péssimo estado de conservação. Essa foto eu tirei em 2009. Atualmente, depois de ser amplamente reformado, o prédio está sendo ocupado por moradores em boas condições de estadia. Passo por ele de vez em quando e abençoo o fato de que aquela área tenha essa condição de ocupação. Afinal, a cidade tem que ver o Centrão revalorizado.

Sobre a imagem acima, o ator e escritor Manogon comentou:

“Das janelas turvas a visão distorcida de um mundo cão, esperanças perdidas nas penumbras de um vão. Pelas paredes sujas, tintas envelhecidas e já sem vestígios de cor, escorriam até o aroma azedo que exalava do boteco do seu Lindo (Arlindo de nome, mas que pelo contraste e antagonismo entre forma e nome, era zombeteiramente chamado apenas de Lindo). No acabamento do prédio, que já se encontrava em quase ruínas, descia junto ao esgoto, entre águas fétidas, gordurosas e boas doses de merda, os sonhos e anseios de moradores sem rostos, sem nomes, sem destino certo, muitos sem hora pra sair pro trabalho, outros sem trabalho pra sair a qualquer hora, alguns sem se dar o trabalho de saber hora pra voltar o que poderia ter um nome de casa. Janelas turvas. Luzes amarelas. Janela quebrada. Luzes vermelhas intermitentes. Um corpo no chão. A tinta vermelha escorrendo pela valeta, misturando-se à água fétida, indo embora com toda aquela merda.”

Manogon

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